A “Torre de Pedro Sem” e a respectiva lenda

A breve viagem de hoje leva-nos ao Porto, mais precisamente à Rua da Boa Nova, número 52, em que existe uma tal Torre de Pedro Sem – uma pequena torre acastelada, semelhante a uma torre de menagem (), que nos nossos dias continua a ser associada ao nome desta figura lendária, mas que também é conhecida pelo nome de Torre da Marca:

A Torre de Pedro Sem

A existência deste local, e da própria personagem a que se ficou a dever o nome de Torre de Pedro Sem, poderiam levar-nos a um caminho em que lenda e realidade se entrecruzam repetidamente, mas o que nos interessa hoje e aqui é somente a breve história portuense que se associa a ela. Vamos a isso.

 

Pedro Sem – ou Petersen (?) – era uma personagem portuense, possivelmente do século XVII, que ganhava muito dinheiro a não fazer quase nada – tinha bastantes propriedades alugadas, emprestava dinheiro a juros elevados e possuía navios que lhe traziam muitas riquezas de terras do ultramar. Um dia, estando no topo da sua torre com a esposa e alguns amigos, viu ao de longe os seus navios prestes a chegarem à cidade. Risonho e sem qualquer pudor, por três vezes repetiu que agora nem mesmo Deus o poderia tornar pobre.

Porém, certamente que Deus não deixaria passar um tal ultraje sem punição. Momentos depois, o dono da Torre de Pedro Sem viu os seus navios afundarem-se no Douro; passados alguns dias as suas muitas propriedades arderam sem explicação; e, finalmente, as riquezas que guardava nesta sua – agora famosa – torre foram roubadas durante a noite. As estas grandes punições se seguiram outras, mais pequenas mas igualmente causadoras de sofrimento, até que o herói caiu na mais completa ruína. E então, nesse seu tempo podia ser visto pelas ruas do Porto, pedindo esmola a quem passava e repetindo, como um louco, sempre e somente a mesma frase – “Dai uma esmola a Pedro Sem, que tudo tinha e agora nada tem…”

A casa assombrada mais famosa de Portugal, e o Castelo do Estoril

Há alguns dias, quando falámos de um mito urbano português, na brincadeira uma leitora levantou a possibilidade de se tratar de um esquema maluco de alguma agência imobiliária. Até é possível que sim, mas aproveitamos essa deixa e contamos o mito por detrás daquela que será provavelmente a casa assombrada mais famosa de Portugal.

 

Quem viver na zona de Lisboa e cruzar a Avenida Marginal no sentido Cascais -> Oeiras poderá encontrar, entre as zonas de São João e São Pedro do Estoril, uma pequena casa amarela, vulgarmente conhecida como o Castelinho de São João do Estoril. Diz o mito que é assombrado – por perto existia uma escola de cegos (o edifício entretanto já foi reconvertido), e é então dito que numa dada altura uma estudante desse local caiu ao mar e agora assombra o belo castelinho que se encontra por perto. Será verdade? Há uns anos considerámos comprar o local, e aquando de uma visita inquirimos sobre essa história; a funcionária da imobiliária riu-se, disse que era uma questão de crença, mas nunca confirmou – ou desmentiu – os episódios fantasmagóricos. Por isso, quem tiver curiosidade poderá ler toda a história do local aqui, antes de tentar formar a sua própria opinião.

 

Entretanto, já que estamos com a proverbial mão na massa, achámos que podíamos contar a história de outro “castelo” na mesma zona.

O "castelo" do Estoril

Quando se pretende promover a região da Costa do Estoril é usada frequentemente uma imagem do local acima, uma espécie de castelo que pode ser encontrado próximo da praia. Conhecido como Palacete Barros, foi construído sobre as ruínas de um antigo forte por um pai que queria que a sua jovem filha, doente, frequentasse umas termas que na altura existiam por perto. Porém, o preço desta construção acabaria por se revelar tão elevado que o seu dono foi levado à falência… e o que aconteceu à sua filha? Será que também ela hoje assombra o local…? Seria preferível que o fizesse, face à utilização actual do espaço…

O outro castelo de Sintra

Hoje, quando pensamos num castelo de Sintra, a nossa mente é imeditamente levada àquele que é chamado o “Castelo dos Mouros”. Mas, ainda assim, talvez sejam já poucos aqueles que sabem que em outros tempos existia um segundo castelo, ou uma espécie de fortaleza, associada à mesma vila. Infelizmente, são já poucos os vestígios palpáveis desse segundo recinto, mas o Livro das Fortalezas, de Duarte de Armas, datado de inícios do século XVI e que pode ser consultado aqui, preserva-nos duas imagens muito interessantes.

O Castelo de Sintra

Aqui, o Castelo dos Mouros pode ser visto no topo da montanha, circundado a vermelho, enquanto que algumas muralhas, num estado de destruição já muito notório, estão assinaladas a verde. É certamente possível que estas segundas se tenham tratado, em tempos agora já demasiado esquecidos, de uma primeira cerca de protecção em redor da vila.

O Castelo de Sintra

Nesta segunda imagem, desenhada do lado oposto, estão o famoso castelo a azul (no topo da montanha) e a Igreja Paroquial de São Martinho de Sintra, a vermelho, que ainda existe e cuja entraa continua a ser muito semelhante à mostrada aqui. Mas, a verde, pode ser vista uma espécie de muralha, que ainda existe (mas talvez não totalmente igual?), e que trai a função defensiva original de todo o complexo a que hoje se chama o Palácio Nacional de Sintra.

 

Os mais puristas poderão dizer que estas imagens, do século XVI, não mostram verdadeiramente um segundo castelo de Sintra. E isso é verdade, não conseguimos encontrar imagens reais em que essa fortificação ainda se encontrasse completa – o que provavelmente ainda acontecia no século XII, quando o local foi conquistado pelos Cristãos – mas dão-nos é a entender que existiu um período em que existia uma muralha defensiva em redor de toda a vila, um espécie de outro castelo de Sintra, com os seus contornos hoje perdidos em função do peso dos séculos. Já pouco sabemos sobre ele, mas pelo menos estes desenhos de Duarte de Armas permitem-nos ter consciência, de uma forma muito vaga, dos contornos que Sintra tinha em outros tempos…

A origem do nome de Benfica, e o seu animal – o pavão?!

Quando pensamos no nome de Benfica, a termos de lhe associar um animal seria quase certamente a águia, por causa do clube de futebol. Porém, face à recente e irónica fuga de um pavão nessa zona lisboeta, lembrámo-nos de algumas breves histórias que podemos deixar por aqui.

Origem do nome de Benfica

Quem olhar para o brasão de Benfica (a freguesia lisboeta) encontrará lá uma coroa mariana e duas árvores de Monsanto. Porém, na mesma cidade, uma outra freguesia contígua – a de São Domingos de Benfica – tem um brasão significativamente mais interessante, que pode ser visto acima, em que estão representados dois pavões, uma laranjeira e uma flor-de-lis estilizada. Os dois primeiros elementos remetem-nos, naturalmente, para o Jardim Zoológico (movido para a Quinta das Laranjeiras em 1905, a freguesia data de 1959), talvez até num duplo sentido heráldico do orgulho por essas árvores, hoje já raras no local. Assim, a termos de associar um animal a esta freguesia, seria o pavão.

 

Já o nome de Benfica, o clube de futebol, vem da própria freguesia em que está localizado o seu estádio – São Domingos de Benfica. Por sua vez, o nome da freguesia vem do facto de ter sido fundado um Convento de São Domingos no local (já lá voltaremos), que naturalmente teria no seu nome “de Benfica” pela sua localização, para o distinguir de outros que possam ter existido associados ao mesmo santo. E, nesse contexto, de onde vem então o nome de Benfica?

 

No passado lemos várias lendas destinadas a explicar este nome. Por exemplo, quando um monarca fez uma visita ao local, teve lugar algum evento que o fez dizer duas palavras, “Bem fica”, que pela passagem dos séculos acabaram depois comprimidas numa só, “Benfica”. Mas que evento foi esse, poderiam perguntar?

Numa versão, o rei D. João I diz que num dado local “bem fica[ria]” a construção de um convento proposto por João das Regras (e em que este até viria a ser sepultado).

Numa outra, D. Pedro I encontrou uma tal Maria Rousada, assim chamada* por ter sido violada por um homem que até acabou por casar com ela – o que não deixava de ser crime, e assim o rei mandou enforcá-lo, dizendo ainda que ela “bem fica” sem ele. Para quem quiser uma terceira, bastará inventar algum evento em que um rei seja posto a dizer essas palavras. Já outros dizem apenas que o nome actual vem de um (possível) nome árabe, o que nos parece improvável, já que nada de significativo parecia existir no local aquando da construção do convento (e assim sendo, porquê dar-lhe sequer um nome?). Qual destas versões é a verdadeira história por detrás do nome já é algo que nos escapa por completo.

 

Como é que uma águia foi parar ao emblema do Benfica, em vez de um pavão, é uma história que ficará para um outro dia…

 

 

*- Neste contexto, “rousada” ou “roussada” significa o mesmo que “violada”.

A misteriosa Casa do Medo, um exemplo de mito urbano português

A Casa do Medo

No contexto da publicação anterior achámos que poderíamos, naturalmente, dar um pequeno exemplo de aquilo a que até se poderia vir a considerar parte dos mitos urbanos portugueses.

 

Quem passar pelo distrito de Lisboa – a falta de uma identificação mais precisa é completamente intencional – poderá já ter visto a casa acima. Captada em duas fotografias num espaço de quatro anos, a casa mantém-se significativamente igual. Isto pouco teria de notável, não fosse o facto de, segundo os habitantes locais, esta ser conhecida como a Casa do Medo.

Porquê esse estranho nome, de Casa do Medo? O melhor que nos conseguiram explicar foi que, supostamente, essa casa está igual há mais de 70 anos, sem que alguma vez se tenha visto alguém a entrar ou a sair dela, alguma luz a acender, ou algum estore a abrir. Por isso, criou-se a ideia de que só tinha um único habitante, o Medo, e os locais parecem ter um verdadeiro receio do local. Curiosamente, se até existem criaturas mitológicas portuguesas sob o nome de “Medos”, não conseguimos encontrar qualquer associação deles a este lugar, sendo por isso e provavelmente uma mera coincidência de nomes.

 

Será verdade, essa ideia de que a casa está – aparentemente – desocupada há mais de meio século? Por um lado, existem nela ténues evidentes vestígios de ocupação, quanto mais não seja pelo facto das sebes terem sido aparadas e uma árvore ter sido cortada; por outro, os vizinhos confirmam e reafirmam a ideia de que nunca viram ninguém lá e que nem sabem a quem pertence a casa. E assim se geram mitos…