A “Crónica do Imperador Clarimundo” (de João de Barros) e a “Jerusalém Libertada” (de Torquato Tasso)

Cavaleiros e dama

Hoje, trazemos cá dois livros que, nos nossos dias, são muito pouco lidos, apesar de estarem disponíveis online gratuitamente.

 

A Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, é, como vários livros já cá discutidos anteriormente, um romance de cavalaria. E, nesse contexto, é uma produção pouco digna de nota neste espaço, não fosse o facto do titular Clarimundo ser apresentado como um ascendente, quase certamente ficcional, do Conde Dom Henrique, pai do nosso primeiro rei, Afonso Henriques. Continua, por isso, uma tradição que já vem dos tempos de Virgílio e que fazia descender de figuras ficcionais notáveis algumas personagens famosas da história europeia.

 

Quanto a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, já foi considerada um dos quatro grandes poemas épicos europeus, como ainda hoje atesta a “Cascata dos Poetas” em Oeiras. Aí, podem ser vistos Homero, Virgílio, Camões e Tasso.

Cascata dos Poetas, em Oeiras

É um épico de finais do século XVI, baseado na história da conquista de Jerusalém durante a Primeira Cruzada. Claro que nos apresenta mais ficção do que realidade, mas muitas das suas sequências não podem deixar de nos relembrar eventos como os dos poemas de Homero e de Virgílio. Além disso, em alguns momentos funde Cristianismo e Paganismo (aqui, quase sempre sob a forma da religião de Maomé), “bom” e “mau”, aquela eterna ideia de “nós vs eles”, de um modo inesperadamente belo. Fica, por isso, um convite particularmente especial à sua leitura.

 

Sucintamente, ambas estas obras nos apresentam um momento muito particular da reutilização da tradição clássica no século XVI europeu. A forma como o fazem é muito distinta, mas nem por isso menos digna de nota.

Novas descobertas em Pompeia

Inesperadamente, foram feitas novas descobertas em Pompeia nas últimas semanas.

 

Neste artigo pode ser visto um novo fresco representando o mito do cisne e de Leda (na segunda imagem aí presente, o animal pode ser visto no colo da heroína); recorde-se que, no mito, Zeus se transformou num cisne para consumar a sua paixão, e que dessa relação nasceu, através de um ovo, Helena de Tróia.

neste artigo podem ser vistos cavalos que foram recuperados de umas antigas cavalariças da cidade.

A história de Santa Eugénia

A história de Santa Eugénia, que se pensa ter vivido na primeira metade do século III, merece ser contada por cá em virtude de uma pequena ligação que a santa tem com o nosso território português – mas já iremos a essa parte, por agora conte-se o cerne da sua história.

A história de Santa Eugénia

Quando a mulher que ficou conhecida como Santa Eugénia ainda era nova fugiu de casa, disfarçou-se de homem e acabou por se juntar a uma ordem religiosa masculina (relembrando-nos até uma história hoje mais famosa, a da Papisa Joana). Depois, um dado dia, curou miraculosamente uma mulher, e como forma de “agradecimento” esta última tentou seduzi-la, mas sem qualquer sucesso. Zangada, a mulher acusou-a de adultério e a santa foi levada a tribunal, onde o juiz era ainda o seu próprio pai.

Este não a reconheceu – recorde-se que Eugénia continuava disfarçada de homem, e só ela sabia a verdade que escondia – e o caso estava prestes a ser perdido em favor da acusadora, até que a santa levantou a roupa, expôs os seus seios (assim o dizem algumas histórias bizantinas…) e declarou a sua verdadeira identidade. Assim, foi logo exonerada do crime que não tinha cometido, mas acabou por ser, alguns anos mais tarde, morta numa perseguição aos cristãos, acabando por ser decapitada na data de 25 de Dezembro, possivelmente no ano de 258 d.C.

 

Agora, esta poderia ser uma história de santos da Antiguidade como qualquer outra, mas tem, no entanto, um aspecto adicional que a torna particularmente digna de nota na cultura portuguesa. Conta-se uma espécie de lenda que a santa passou, em alguma altura, por terras de Portugal, e alguns séculos mais tarde as suas relíquias até foram trazidas para o nosso país, onde ainda estão presentes – assim reza essa história – numa igreja da zona de Rio Covo, no concelho de Barcelos. Fica a informação, caso alguém deseje visitá-la!

Ruínas Romanas de Milreu

Principiam hoje as “Jornadas Europeias do Património”. Para as celebrar, apresentamos aqui um espaço romano que é menos conhecido em Portugal.

Ruínas Romanas de Milreu

Conforme a informação histórica que nos foi gentialmente cedida pela Direcção Regional de Cultura do Algarve:

 

As Ruínas Romanas de Milreu constituem um exemplo de villa rústica, cuja origem esteve ligada ao crescimento económico do Império Romano no século I e que, no século III, se tornou numa luxuosa residência de campo.
A villa de Milreu era composta por extensa área agrícola e zonas de produção de azeite e vinho, onde trabalharia a população local. A zona possui bons aquíferos, situa-se nas proximidades da cidade de Ossonoba, actual Faro e do seu porto, onde a produção agrícola seria comercializada.
A área residencial dos proprietários viria a adquirir uma expressiva dimensão a partir do século III e no século IV, com a criação de uma zona social ampla, com acabamentos de qualidade, como a aplicação de mármores, pavimentos de mosaicos e paredes com pinturas.
O templo dedicado às divindades aquáticas, padroeiras de abundância e saúde, foi erguido no século IV. No século VI o edifício foi cristianizado. No pátio foi descoberto um tanque baptismal rectangular e o recinto foi utilizado como cemitério. No século X, uma inscrição em árabe gravada numa coluna revelou a continuidade de utilização do edifício como espaço religioso pela comunidade muçulmana local.

 

As Ruínas Romanas de Milreu estão classificadas como Monumento Nacional desde 1910. Compõem-se de uma grande casa senhorial ou Pars urbana, complexo de termas ou Balneum, lagares de vinho e azeite, instalações agrícolas e um templo consagrado a divindades aquáticas.

Os vestígios arqueológicos ocupam uma área aproximada de 15.800 m2, composta por muros, pavimentos, tanques, desníveis, sistemas de canalização e arranques de abóbada com diversos revestimentos como rebocos, pinturas parietais ou mosaicos. Estes elementos representam a evolução construtiva da “Villa” romana de Milreu entre os séculos II e IV d. C. e vestígios de ocupação humana até ao século VI um dos monumentos de maior valor artístico, arqueológico e patrimonial do Algarve.

 

Fica então o nosso convite a que também sejam visitadas estas ruínas romanas. Mais informação sobre elas pode ser encontrada aqui.

A lenda de Machim e Ana D’Arfet

A lenda de Machim e Ana D’arfet é uma de aquelas que tenta explicar a origem do nome de um local, neste caso Machico, um dos municípios da Madeira. Em si próprio, este nome poderá parecer-nos estranho, e daí terá nascido uma potencial necessidade de o explicar.

A lenda de Machim e Ana D'arfet

Assim, esta lenda conta-nos que em meados do século XIV viveu em Inglaterra um tal Roberto Machim, que se apaixonou por uma Ana D’Arfet*. Não sabemos até que ponto se terão tratado de personagens históricas, mas a sua história diz que a família da jovem não permitiu qualquer união entre os dois amados, em vez disso escolhendo um outro noivo para Ana. Incapazes de aceitar esse triste destino, decidiram fugir de Inglaterra para França, mas o barco foi apanhado numa enorme tempestade e levado (muito) para fora do rumo que pretendiam seguir.

Na manhã seguinte, depois de muitas horas de medo e de viagem, chegaram ao areal de um local desconhecido. Não encontraram ninguém por lá e Ana adoeceu. Veio a falecer, algum tempo depois, e então Machim escreveu toda esta história numa cruz de madeira, que os Portugueses viriam a encontrar alguns anos mais tarde. Foi em sua virtude que deram à região o nome de Machico, e aí construíram o primeiro edifício de toda a ilha, uma igreja, com o seu altar colocado no mesmíssimo local onde se encontrou o túmulo dos dois amantes.

Outra versão, partilhada pela mais antiga que nos chegou, adiciona um passo extra a esta história – ambos os amantes morreram, mas pelo menos um dos seus companheiros no barco foi posteriormente capturado por Mouros. Após muitas tribulações chegou a Portugal e anunciou ao Infante Dom Henrique a ilha que tinha visto; este enviou embarcações ao local, sendo a Madeira finalmente descoberta por navegadores de Portugal no ano de 1418.

 

Não sabemos onde acaba a ficção e começa a realidade nesta lenda de Machim e Ana D’Arfet, mas há aqui um facto muito claro – o nome de Machico, qualquer que tenha sido a sua origem, é invulgar na cultura portuguesa. Terá, portanto, tido uma origem incomum, e a hipótese de ter nascido por corrupção de algum nome estrangeiro, como o referido na lenda, é por isso válida. Não sabemos se completamente certa, é claro, mas pelo menos é uma hipótese credível e que poderá ser tida em conta por aqueles que buscam a causa desse estranho nome – e, na verdade, toda esta história já aparecia num relato que se atribui a Francisco Alcoforado, um dos navegadores da primeira viagem à Madeira, o que lhe dá uma ainda maior aparência de se ter baseado em alguns factos reais…

 

 

*- Outras versões, incluíndo a mais antiga que conseguimos encontrar (i.e. ainda do século XV), dá-lhes os nomes alternativos de Lionel Machim e Arabella Darcy.