Os amores do Rei Salomão e da Rainha de Sabá, ou um destino da Arca da Aliança

Poucas histórias parecem fascinar tanto a humanidade como a do destino final da Arca da Aliança, a tal onde estavam encerradas as duas tábuas dos Dez Mandamentos. A sua redescoberta poderia provar a veracidade dos textos bíblicos, mas pouco se sabe da sua localização após a perda do Primeiro Templo de Jerusalém, o mesmo que foi eregido pelo Rei Salomão. Existem, aqui e ali, uma e outra hipótese, mas a que apresentamos aqui hoje é intrigante quanto pouco conhecida na cultura ocidental.

Os amores do Rei Salomão e da Rainha de Sabá, ou um destino da Arca da Aliança

Segundo o Kebra Nagast, um épico etíope que poderá datar do século XIV (o texto diz tratar-se de uma suposta tradução do copta para o árabe e depois para a língua local), quando o Rei Salomão e a Rainha de Sabá se encontraram em Jerusalém – como nos diz o Antigo Testamento – aconteceu também algo que o texto bíblico não preserva – a rainha, aqui chamada Makeda, engravidou e teve um filho do monarca, a que viria a dar o nome de Menelik. Será que, então, Salomão casou com a Rainha de Sabá? Não – segundo o texto desta obra, esta gravidez aconteceu apenas porque, entre outras razões, Salomão queria engravidar o maior número possível de mulheres, de forma a propagar a crença em um deus único (e não estamos a brincar, é mesmo isso que o texto afirma).

 

Alguns anos depois, Menelik foi a Jerusalém conhecer o pai. Quando voltou à Etiópia trouxe consigo a Arca da Aliança. Não se tratou de um roubo (!), o texto deixa claro que a Arca apenas foi levada por vontade divina, em parte devido à piedade do jovem e em parte porque Salomão andava a transgredir as regras que Deus lhe tinha imposto.

 

As aventuras mencionadas no Kebra Nagast poderiam tratar-se de histórias lendárias como muitas outras, mas a Igreja de Santa Maria de Sião, na cidade etíope de Axum, supostamente ainda tem no seu interior a Arca da Aliança, a mesma que dizem que Menelik trouxe do reino de Salomão. Porém, antes que se metam num avião para a re-encontrar, convém frisar que o local não está aberto ao público, nem é possível ver o tão famoso ítem. É possível que Edward Ullendorff a tenha visto durante a Segunda Guerra Mundial e afirmado que é uma cópia sem muito valor, como detalha este artigo, mas pouco mais sabemos sobre ela. É, por isso, uma possibilidade, mas também um beco sem saída.

 

Se existem várias outras histórias apócrifas que unem em laços amorosos a Rainha de Sabá e o Rei Salomão, chegando ao ponto de existirem até livros e filmes sobre o tema (como o da imagem ali em cima), esta parece ser uma das mais antigas referências a um potencial filho de ambos. Mas, se esse é o episódio central e fulcral do Kebra Nagast, esta obra também tem menções a vários outros mitos cristãos, desde a criação do Homem no Paraíso até às muitas sequências do Antigo Testamento que previam a vinda de um Messias (e que o texto descrimina de uma forma inesperadamente directa). Tem alguns momentos puramente belos (como as frases de Salomão sobre a natureza do conhecimento humano), mas, talvez mais que tudo, é notável pela forma como re-escreve e adapta alguns mitos bíblicos a um contexto africano.

A lenda da Abóbada da Batalha

Quando se trata de grandes espaços religiosos em Portugal, o Mosteiro da Batalha, cuja construção começou por volta de 1387, é provavelmente um dos mais famosos, e esta lenda da Abóbada da Batalha transporta-nos precisamente para esse local.

Lenda da Abóbada da Batalha

O projecto original do mosteiro foi da autoria de Afonso Domingues, mas à medida que o tempo foi passando ele mostrou-se incapaz de continuar, diz-se que por uma doença que lhe estava a causar cegueira. Assim, o seu trabalho foi continuado por David Huguet, que achava que o plano original para a Abóbada da sala do capítulo jamais iria funcionar… então, desenhando uma nova solução para o local, implementou-a e… a Abóbada caiu! Consideraram-se outras soluções, até que Afonso Domingues foi chamado novamente para fazer esta Abóbada da Batalha… e implementando-se a sua ideia original, ela não caiu quando os apoios foram retirados. Diz-se então que este arquitecto se sentou abaixo do local por três dias, certo de que a sua Abóbada não caíria, dizendo repetidamente “A Abóbada não caiu, a Abóbada não cairá!” – e, de facto, ela nunca caiu.

 

É esta a mais famosa das lendas do chamado Mosteiro de Nossa Senhora da Vitória, na Batalha, ao ponto de ter inspirado filmes e uma versão nas Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano. Por isso, se algum dia forem visitar este mosteiro, procurem a sala em questão, olhem para esta famosa Abóbada da Batalha, e recordem-se de toda a lenda por detrás dela…

Onde e como morreu Camões?

Onde e como morreu Camões?

Falando de onde e como morreu Camões, devemos relembrar que o dia 10 de Junho é feriado em Portugal, sob o nome de “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, devido ao facto do autor dos Lusíadas ter falecido a 10 de Junho de 1580, e tal como o seu poema celebra os feitos dos Portugueses, foi também decidido que o dia da sua morte mereceria celebrar a Portugalidade. Contudo, quem viver em Lisboa poderá nunca se ter apercebido de uma pequena curiosidade:

No número 139 da Calçada de Sant’Ana, por cima de uma taberna, pode ser encontrada uma casa em que se acredita que Camões viveu e faleceu. Uma pequena placa, datada de 1867, assinala o local em que faleceu… se por doença, ou pela desilusão causada pelo falecimento de Dom Sebastião em Ceuta e os eventos que se seguiram, já é mais difícil saber-se.

 

Mas a história ainda não fica por aqui. Depois, o seu corpo foi transportado e sepultado na Igreja de Sant’Ana. Com o terramoto de 1755 perdeu-se o seu local preciso, sendo muito possível que no túmulo de Camões, hoje no lado direito quando se entra na igreja do Mosteiro dos Jerónimos, estejam restos mortais que nem são os dele. É um pouco triste…

A lenda de Linda-A-Velha (e Linda-A-Pastora)

Perto da cidade de Lisboa existe uma pequena povoação de nome Linda-A-Velha. Uma tão-invulgar designação tende a suscitar a curiosidade daqueles que por lá passam – por isso, pergunte-se, qual a origem deste estranho nome?

Pequena torre perto de Algés

Conta-nos uma versão da lenda que nessa povoação, entretanto ainda sem nome, vivia uma jovem lindíssima. Habitava uma torre semelhante à da imagem, e por muitos homens que buscassem o seu amor, ela rejeitava-os a todos. Um dia, conheceu um formosíssimo cavaleiro e apaixonou-se por ele. Viveram alguns tempos do mais intenso amor, até que um dia ele teve de voltar para uma qualquer guerra. Aguardando sempre pelo retorno do seu amado, a jovem colocou-se à janela e fitou o Tejo.

O tempo foi passando e a jovem tornou-se mulher, continuando a aguardar que o seu amado voltasse.

E o tempo passou, e passou, e passou. A mulher tornou-se velha, mas continuou sempre a vigiar o Tejo, com uma infinita esperança de que aquele homem que amava um dia voltasse para os seus braços. Enquanto isso, abaixo da sua janela passavam jovens todos os dias, que, fitando o rosto sempre miraculosamente imaculado da velha, jamais se cansavam de dizer ” Que linda a velha!” – e assim foi sendo dado o nome ao local em que a formosa e famosa amante um dia viveu, a terra de Linda-A-Velha…

 

Mas esta não é a única lenda associada ao local. Uma outra diz que o seu nome original era [A]Ninha-a-Velha, pelo facto de um qualquer rei, de identidade agora desconhecida, supostamente ter passado no local e, ao ver uma velha que passava muito frio, ter ordenado a alguém que “aninhasse” – ou seja, desse um agasalho – a pobre idosa. É uma de muitas lendas nacionais que, como a de Benfica, tenta explicar um topónimo através de alguma frase enigmática que se pensava que um monarca tinha dito no local…

 

E… Linda-A-Pastora?

Próxima da localidade anterior pode também ser encontrada uma com o curioso nome de “Linda-A-Pastora”. Não fomos capazes de encontrar uma lenda completa que explique esse nome, mas uma breve alusão que lhe é feita por Leite de Vasconcelos poderá indicar que a designação era anteriormente explicada relatando-se o caso de um homem que abandonou a esposa e foi viver para o Brasil, voltando muitos anos mais tarde, e encontrando no local em que tinha vivido uma belíssima pastora… sem a reconhecer, disse então “Que linda, a pastora!”, contribuindo para dar esse apelativo ao local onde reencontrou a antiga esposa.

 

A semelhança desta lenda com a anterior é inegável, sendo por isso provável que existissem em redor deste local várias lendas muito semelhantes, em que uma mesma explicação era aplicada ou a uma pastora jovem, ou a uma velha de beleza intemporal. É muito difícil saber qual veio primeiro, mas estas parecem ser as duas principais lendas que se associam a estes locais geograficamente muito próximos!

O Mosteiro dos Jerónimos destruído

Quem estiver habituado a incursões pela internet provavelmente já terá visto uma fotografia do Mosteiro dos Jerónimos destruído. Repetimo-la abaixo, para quem nunca a tiver visto antes, mas recordamos também este tema dada a gravidade do que aconteceu em Paris recentemente.

No já-distante século XIX o agora-famoso Mosteiro dos Jerónimos tinha estado abandonado durante vários anos, após a expulsão das ordens religiosas de Portugal. Depois, numa dada altura decidiu começar-se a utilizá-lo para outros fins, e então tentou-se renovar e melhorar toda a estrutura do edifício. Mas depois, na manhã de 18 de Dezembro de 1878, aconteceu o seguinte:

Mosteiro dos Jerónimos Danificado

Como podem ver nesta imagem, o mosteiro estava a ser parcialmente reconstruído quando choveu bastante durante a noite, o que levou a um grande acidente, na sequência do qual acabaram por falecer oito trabalhadores. Nos dias seguintes acabou por se votar contra a reconstrução do edifício como este estava planeado, mas a realidade é que o Mosteiro dos Jerónimos, com ligeiras alterações, ainda chegou aos nossos dias e é famoso entre todos nós – na imagem seguinte até pode ser vista a mesma entrada deste mosteiro, tal como ela é nos nossos dias, o que permite ver algumas das alterações que estavam a ser implementadas e que, no entanto, acabaram por não ter lugar – por exemplo, acima da janela do piso superior ia ser colocada uma estátua de um santo, e esta parte do edifício também ia ter um pináculo na sua parte superior…

Entrada do Museu Nacional de Arqueologia

Como este nosso Mosteiro dos Jerónimos nacional, é possível que também a bela Catedral de Notre-Dame (de que até já cá falámos de um segredo) volte a ter vida um dia. Claro que já não será como antes, mas… há que ter esperança no futuro!