O mito de Leuce, raptada por Plutão

O mito de Leuce, figura raptada por Plutão, levanta um conjunto de questões curiosas, dentro dos mitos gregos e latinos. Sabe-se dos muitos amores de Zeus / Júpiter, e o seu irmão dos mares também teve uma vida amorosa relativamente conturbada, mas o caso do terceiro irmão, Plutão (ou Hades, se preferirem), prima pela estabilidade. Ele famosamente raptou Proserpina (ou Perséfone), e é com essa rainha a seu lado que aparece em muitos outros mitos (como o de Orfeu), mas existem razões para crer que esse evento não foi um caso único. Existe pelo menos um outro, o de uma ninfa chamada Leuce, que é muito pouco conhecido, pelo que decidimos dedicar-lhe as linhas de hoje.

O mito de Leuce, raptada por Plutão

De acordo com esta breve história, Leuce era filha de Oceano, e uma das muitas belas ninfas que na altura populavam o mundo. Um dia, Plutão apaixonou-se por ela e decidiu raptá-la, levando-a para o submundo. É provável que tenham vivido felizes por muitos anos, mas sabendo-se que as ninfas não são imortais, o inevitável acabou por acontecer. Leuce faleceu, e como homenagem a essa amada o deus regente do submundo transformou-a então numa árvore, que continuou a viver para toda a eternidade nos Campos Elísios. Hércules viu-a, quando desceu ao submundo, e até coroou o seu famoso feito com algumas das folhas desta transformada figura.

 

 

Fala-se, então, aqui de um rapto, como o de Proserpina, mas a breve representação que nos chegou desta história nada nos diz sobre os sentimentos da raptada. Será que ela amava o raptor? Será que se deixou “raptar”, por saber o quão bem ia ser tratada? A história, na forma como ainda a temos hoje, nada nos diz sobre essas coisas, sendo apenas de supor que este episódio ocorreu antes do da segunda rainha de Plutão.

 

No entanto, o que este mito tem de significativo é que permite aos leitores saber que o caso de Proserpina, talvez um dos mais famosos mitos entre os Romanos, não foi tão único como se tende a supor. Hades também raptou esta Leuce, aparentemente muitos anos antes, com o próprio nome da ninfa – Λεύκη, “branca” – a sugerir que este era um mito originalmente grego, mas que apenas nos chegou através de um autor latino. Terão existido outros raptos? Será que era este o método usado por este tenebroso deus do Olimpo para encontrar as suas parceiras, como pode parecer agora? Não sabemos, não abundam histórias de ele se ter apaixonado por outras mulheres, mas face a este mito temos é a certeza de que ele raptou pelo menos duas figuras do sexo feminino…

Como Atena e Poseidon disputaram Atenas – e o mito do Areópago!

O mito grego em que Atena e Poseidon disputam a cidade que ficaria conhecida pelo nome de Atenas é, sem qualquer dúvida, um dos mais famosos da Mitologia Grega. Ele até aqui já aqui tinha sido contado, há mais de uma década, de uma forma muito simples, com as seguintes palavras:

 

 

Um famoso mito grego fala-nos do dia em que Atena e Poseidon disputaram Atenas. Nesse seu confronto, o primeiro ofereceu à cidade uma fonte, e o segundo ofereceu a oliveira. Obviamente que, como hoje já se sabe, a cidade escolheu a deusa da coruja e das oliveiras, mas Plutarco, algures em uma das suas obras, revela um aspecto curioso deste mito. Em dois textos diferentes da Moralia, ele diz-nos que esta disputa dos dois deuses inimigos foi no segundo dia do mês Boedromion, que provavelmente equivaleria ao nosso segundo dia de Setembro, e que esse dia teria sido retirado do calendário (não faço ideia como isso funcionará, em termos práticos) devido a essa disputa divina.

 

 

 

É esta a história do confronto dos dois deuses, tal como a maior parte das fontes da antiguidade a relataram, e salvo uma ou outra pequena divergência – e.g. alguns autores diziam que a prenda dos deus dos mares não tinha sido apenas uma fonte, mas o primeiro cavalo – este continua a ser, sem dúvida, um dos mais famosos mitos da Grécia Antiga. Mas, o que menos autores nos contam, e o que também menos pessoas parecem saber, é que esta história não está tão completa como costuma ser contada. Ela tem, na verdade, uma espécie de sequela, capaz de a ligar a outro famoso instante da vida da cidade de Atenas.

 

 

Que mito se esconde por detrás do Areópago?

O dia em que Atena e Poseidon disputaram Atenas - e o Areópago

Quem conhecer o lugar, certamente que já ouviu falar do Areópago, ou “colina de Ares”, em referência ao deus grego da guerra… mas que não aparece na história anterior! Isso acontece porque, contrariamente ao que pode ser pensado pela versão acima, a trama não terminou quando esta cidade premiou o dom de Atena e tomou o seu nome! Ela continua com o seguinte:

A cidade foi, de facto, disputada por Poseidon e Atena, e a segunda deusa, pela sua oferta da oliveira, ganhou o lugar de figura tutelar. Anos depois, um tal Halirrotio, filho do deus dos mares, foi ao local do famoso confronto e quis cortar a então-famosa oliveira da deusa. Não é muito claro como isto acontece, presume-se a existência de uma qualquer espécie de milagre, mas a espada (ou machado?), com que ele pretendia executar essa acção, de alguma forma escapou-lhe das mãos e acabou por matá-lo. Isso fez com que Poseidon, posteriormente, acusasse Ares deste crime, e o local em que em que o julgamento do caso tomou lugar ficou, depois, conhecido pelo nome de Areópago. Pelo menos uma fonte sugere que Ares foi isentado de quaisquer culpas.

 

 

Agora, esta breve sequela da famosa história parece levantar mais questões do que aquelas a que nos responde. Como tal, ela pode ser complementada com outra versão do mito de Halirrotio, que diz que ele violou uma filha de Ares, e que foi por essa razão que o deus da guerra o acabou por matar. É por isso provável que tenha existido, numa dada altura, uma versão muito mais completa de toda esta história – como a temos hoje, ela assenta essencialmente em escólios, em breves pedaços de informação provindos daqui e dali, o que torna difícil saber toda a sequência narrativa da história do julgamento de Ares, sendo provável que ela até tenha sido representada em tragédias da sua época.

 

 

Em suma, se o mito do confronto de Poseidon e Atena pela então-futura cidade de Atenas é muito conhecido, parece que ele também teve, em tempos da Grécia Antiga, pelo menos uma espécie de sequela, mais ou menos semelhante à contada acima, que terá envolvido um filho do perdedor da disputa, e Ares, o deus da guerra entre os Gregos. É difícil saber como tudo isso se desenvolveu, mas é difícil de negar que a história teria terminado com um julgamento de Ares na mais famosa colina da cidade.

 

Assim, à história amplamente conhecida da disputa entre Atena e Poseidon, pode mesmo juntar-se este episódio menos conhecido que envolve Halirrotio e Ares. Juntas, essas narrativas mostram como os mitos gregos se entrelaçam e se prolongam, muitas vezes com desfechos bastante inesperados – como um julgamento divino no coração da cidade que escolhera uma importante deusa como a sua protetora…

Porque é Poseidon o deus dos cavalos?

O tema de hoje, relativo a Poseidon como deus dos cavalos, tem de ser introduzido com uma pequena história mais pessoal. Há cerca de 15 anos dois colegas decidiram fazer um pequeno evento no Jardim Botânico de Coimbra, que passou por juntar diversas pessoas com interesse na Mitologia Grega e passarem dois dias a discutir temas mais complicados, como “porque se dizia que Hera tinha olhos de vaca?” (o que até tem uma explicação interessante, mas que ficará para outro dia.) Alguns desses temas até puderam ser levados à sua conclusão, outros continuam sem uma resolução real até aos dias de hoje, mas entre um dos mais notáveis contava-se a identificação de Poseidon como deus dos cavalos. Sim, ele é deus dos mares e tem um tridente com o qual causa terramotos, ambos esses elementos aparecem repetidamente em diversos mitos dos tempos da Antiguidade, mas de onde vem a sua associação às criaturas equídeas?

Porque é Poseidon o deus dos cavalos?

De acordo com um mito quase perdido, apenas preservado num breve escólio (e com alguns elementos menos apropriados para o público mais jovem), em dada altura da história da humanidade os cavalos pura e simplesmente ainda não existiam. Depois, quando o deus Poseidon se masturbou nos seus domínios aquáticos, parte da substância que foi libertada do seu corpo caiu numa pedra e dela brotou o primeiro de todos os cavalos, de nome Cífio. Quase ao mesmo tempo, quando uma onda passou por esse mesmo local, arrastou parte da mesma substância para as profundezas dos mares e dela nasceram também os chamados “cavalos marinhos”, com a parte superior da criatura original e a inferior semelhante a um peixe, que o mesmo deus depois passou a utilizar como os transportadores do seu domínio.

 

 

É uma história relativamente breve e muito interessante… mas até que ponto é ela real? Terá sido, como é demasiado fácil supor-se sem grandes provas, uma história de tão grande antiguidade que foi progressivamente esquecida, ou deixou de ser contada, ao longo do tempo? É bastante provável que sim, por três grande razões:

 

Primeiro, a referência à espuma das ondas do oceano como geradoras de vida terrena aparece em diversas obras da Antiguidade, e portanto faz um certo sentido associá-las à semente vital do deus dos mares, até pelo nascimento de Afrodite de uma forma semelhante.

 

Em segundo, até nos chegaram outros mitos em que coisas muito semelhantes a estas têm lugar, e.g. o antigo mito de Erictónio, demonstrando um padrão que nos poderá parecer estranho, mas que tem um fundamento concreto nos mais antigos mitos dos Gregos.

 

E em terceiro, existem casos em que os autores romanos admitem explicitamente que algumas sequências de dados mitos mais antigos já lhes causavam um certo desconforto (e.g. o que anteriormente escrevemos sobre o mito de Órion), explicando-se uma possível razão pela qual todos pareciam conhecer esta divindade como associada aos cavalos, mas sem que a história original fosse recordada – Sérvio, por exemplo, faz do cavalo a invenção do deus quando este pretendia dar o seu nome à cidade de Atenas (em vez uma fonte, como é mais comum), no que poderá ter sido uma adaptação do mito original.

 

Como tal, é de facto muito possível que este breve mito tenha captado, pelo menos, a parte substancial de uma antiga história dos Gregos que foi sendo perdida ao longo dos séculos, mas que em tempos mais antigos explicava a razão pela qual o deus Poseidon também era a divindade associada aos cavalos. Existem outras, mas foi esta a que se contou há todos aqueles anos atrás, entre muitas outras histórias sobre outras questões menos simples nos mitos dos Gregos…

O breve mito de Asteródia

Falar de Asteródia e dos seus dois filhos é… por um lado é curioso, sem qualquer dúvida, mas por outro também nos levanta diversos problemas. Quer dizer, os mitos gregos e romanos da Antiguidade eram mais que muitos, e por cada famoso Hércules ou Aquiles podiam ser encontradas várias figuras menos conhecidas, como Troilo ou Charun. Depois, seguindo-se essa sequência, existem um conjunto de personagens e histórias mitológicas (ainda) menos conhecidas, que em muitos casos se resumem a meros nomes. Se o mito de hoje não está assim tão perdido – caso contrário, como conseguiríamos falar dele aqui? – é um de muitos que apenas nos chegaram em breves menções presentes em escólios de outros textos.

 

Diz-se então que esta Asteródia, também conhecida pelo nome de Astéria, foi casada com um homem chamado Foco, e dessa união nasceram dois filhos, de nomes Panopeu e Criso. Sobre eles, apenas nos é dito que se odiavam tanto que antes de nascerem já andavam à pancada dentro do próprio ventre de sua mãe. Os breves contornos da ideia sugerem um possível mito como o dos filhos de Édipo, com uma destruição mútua dos irmãos, mas infelizmente nada mais nos chegou sobre toda esta história – a continuação do escólio apenas acrescenta que algo de semelhante também tomou lugar com outros dois pares de irmãos, mas também eles se remetem a meros nomes, cujas respectivas tramas já há muito se perderam.

 

O que dizer de mitos como estes, de que apenas o nome de Asteródia, do respectivo marido e dos filhos de ambos nos chegaram? Quase nada mais, porque estes nomes apenas parecem ter sido preservados na sequência do estranho episódio mitológico que os unia. Sim, os filhos lutaram entre si dentro do ventre da mãe, algo que não parece acontecer em nenhum outro mito que nos tenha chegado numa forma mais completa, mas tudo o resto acaba por ficar apenas à nossa própria imaginação, já que as fontes nada mais nos dizem. Imaginar maiores detalhes, sem qualquer ponto de apoio real para os mesmos, é aqui imprudente, e quase que impossível.

O mito de Agnodice de Atenas

Quando se trata de falar de Agnodice de Atenas, o grande problema é distinguir os limites da sua lenda, mito e (potencial) realidade. Nada na sua história, tal como ela foi sendo preservada ao longo dos séculos, nos remete para um puro mito de deuses ou de magia, com contornos impossíveis. Por isso, poderá ter-se tratado de uma história real, que teve lugar com uma mulher como as outras, mas até que ponto o relato que nos chegou é completamente real… já lá iremos!

 

Agnodice de Atenas nasceu e viveu no século IV antes de Cristo. Aparentemente tinha muito jeito para a Medicina, e então, visto que era proibido às mulheres da sua altura exercer essa arte, disfarçou-se de homem e começou a assistir às respectivas aulas, formando-se particularmente nas áreas de Obstetrícia e Ginecologia. E, dizem-nos, tornou-se muito eminente através da qualidade do seu trabalho.

Depois, dizem-nos que ou começou a ser invejada pelos outros praticantes das artes médicas, que lançaram rumores hediondos contra ela; ou uma mulher que ela rejeitou, desconhecendo a verdade dos factos, decidiu acusá-la de violação. E então, Agnodice foi julgada no Aerópago, sendo isentada de qualquer crime quando revelou o seu verdadeiro sexo… mas depois, visto que também era crime uma mulher exercer as artes médicas, sugeriu-se que ela deveria ser condenada à morte pelo que tinha feito, algo que só acabou por não acontecer devido às muitas pressões das mulheres que ela tinha auxiliado ao longo dos anos.

 

Esta história, tal como a contámos aqui, é mais ou menos o que nos chegou até hoje relativamente a Agnodice de Atenas. Assemelha-se a uma espécie de romance fictício, relembrando outras histórias, como a da tardia Papisa Joana, em que uma mulher se disfarça de homem para ter acesso uma profissão exclusiva do sexo masculino. Desconhecemos até que ponto esse tipo de relatos tem alguma historicidade – até há um filme que goza um pouco com o tema, apresentando subtilmente a ideia de um mosteiro em que todos os monges eram mulheres disfarçadas… – mas, a ter sido verdade, esta história apresenta-nos provavelmente uma das mais antigas médicas da sociedade ocidental. Foi-o?

O grande problema em responder positivamente a essa questão passa pelo facto da fonte mais antiga que nos chegou sobre ela ser do primeiro século da nossa era. Portanto, durante pelo menos 300 anos ninguém preservou estes factos? Como seria possível? Pode acontecer, e aconteceu até em diversos casos mitológicos (e.g. o mito de Troilo), mas se se tratou de uma figura tão importante como a sua história faz crer… parece estranho que tenha sido esquecida por tanto tempo. E, como tal, parece-nos mais seguro falar de Agnodice de Atenas como uma figura mítica ou lendária, em vez de uma com uma existência real bem atestada e indisputável.