O ridículo mito do Bonacho (ou Bonnacon)

Talvez, mais que tudo, o Bonacho – ou Bonnacon, se preferirem – seja um bom exemplo de como o significado das palavras foi sendo alterado ao longo dos séculos. Se alguém, nos dias de hoje, pegar num dicionário como o da Priberam e procurar esta palavra por lá, depressa será informado que este animal se trata somente de um bisonte. E ele era representado assim na Idade Média:

O mito do Bonacho ou Bonnacon

Poderia ser uma imagem medieval como tantas outras, mas ao prestar-se alguma atenção, pode ser visto que o homem está a proteger-se com um escudo, apesar do próprio animal estar virado para a direcção oposta. Além disso, algo de estranho, de difícil de compreender, se parece estar a passar na zona traseira deste animal, mesmo em frente ao escudo protector. Fora do contexto original, tudo isto é bastante difícil de compreender, mas… na verdade, o Bonacho era uma criatura que se acreditava existir em terras menos acessíveis aos comuns mortais, e caracterizada por cornos pequenos e uma sua capacidade de expelir inquietantes projécteis pelo traseiro, que conseguiam percorrer mais de 600 metros de distância, conforme nos informou Plínio o Velho. Daí ele ser representado assim, num pleno ataque que o visualizador poderá nem sempre compreender.

 

 

Igualmente interessante poderá ser o facto de que se dizia que, face aos seus cornos muito pequenos, esta criatura não conseguia utilizá-los para atacar ninguém (e daí precisar da estranha capacidade referida acima). Talvez tenha sido isso que inspirou os primeiros visitantes da América a dar o nome que deram ao animal outrora muito comum no local? É claro que ele não tem a estranha característica do original, mas poderão ter sido os pequenos cornos a influenciarem esse nome…

Hegéloco, o actor arruinado por uma palavra

Existem figuras da Antiguidade Clássica cuja identidade só nos chegou pelo mais completo acidente, e Hegéloco é um bom exemplo disso mesmo. Se uma poetisa como Praxila é hoje relembrada apenas por uma estranha referência ao que Adónis sentia falta no mundo dos mortos, já este actor ficou-nos conhecido apenas e somente por ter pronunciado mal uma palavra na tragédia Orestes de Eurípides. O texto original dizia γαλήν’ ὁρῶ, mas este intérprete trágico recitou-o como γαλῆν ὁρῶ. Pode parecer completamente igual, especialmente para quem não compreender a língua original, mas essa pequenina alteração mudou completamente o sentido da frase, fazendo com que Orestes dissesse não que via a “bonança” após uma tempestade, mas sim uma “doninha”. Conforme nos informa um escólio na passagem da peça euripideana, que aqui apresentamos em tradução para Português:

 

O verso em questão foi ridicularizado na comédia por causa de Hegéloco, o actor. Conta-se que, como não conseguiu pronunciar a divisão da elisão (galēn em vez de galēna), por lhe ter faltado o fôlego, pareceu aos espectadores que dizia galên (i.e. doninha), o animal, e não galēna (i.e. bonança).

Consequentemente, muitos poetas cómicos fizeram piadas sobre o assunto, como Aristófanes e Estrátis em Antroporestes:

“E não me importei com as outras canções,
mas ele destruiu um drama muito engenhoso de Eurípides,
Orestes ao contratar Hegéloco, filho de Cíntaro,
para dizer os versos do primeiro actor.

E noutros versos, diz a brincar:

“A: Vejo galēn.

B: Onde, pelos deuses, onde, onde vês uma galēn?
A: Galēna.
B: E eu a pensar que dizias “vejo uma doninha”.

E Sanirión em Dánae:

Em que me transformarei então para entrar pela fresta?
Tenho de pensar numa resposta. Vejamos, e se me transformasse numa doninha?
Mas Hegéloco logo me denunciaria,
o actor trágico, e gritaria bem alto ao avistar-me:
“Pois após a tempestade, vejo de novo uma doninha.”

 

Estas peças estão maioritariamente perdidas, mas pelo contexto desta última citação de uma peça sobre o mito de Dánae é fácil constatar que Sanirión apresentava Zeus a contemplar a transformação que deveria adoptar para consumar o seu desejo pela jovem. O deus nunca tomou a forma de uma doninha, pelo menos nas fontes que nos chegaram, evidenciando que as suas palavras eram meramente satíricas, e que este Hegéloco ficou, de facto, conhecido exclusivamente por ter pronunciado uma palavra mal. Isto não pode deixar de nos lembrar a estranheza da fama na Antiguidade, com o outrora-importante Margites a nos estar quase inacessível, enquanto figuras que se pensariam pouco importantes a serem relembradas só por um pequeno deslize das suas línguas.

O mito da Atlântida – a da Antiguidade e a Futurista

Após muito ouvir falar sobre o mito da Atlântida, decidi aprofundar um pouco mais esse mito, já que tem a sua origem na literatura grega da Antiguidade.

Será esta a Atlântida?

O mito da Atlântida de Platão e da Antiguidade

A primeira menção (e certamente a que mais importa explorar) à existência desta civilização é feita em dois diálogos de Platão – Timeu e Crítias. No primeiro, a referência inicial é feita na sequência de um relato sobre o passado da civilização de Atenas, e é dada uma data para todo episódio – aproximidamente 9600 a.C. . É ainda dito que esta civilização se localizava no Oceano Atlântico, “em frente (…) aos Pilares de Héracles” e que apresentava uma extensão maior que “a Líbia e a Ásia juntas”. Após ter conquistado vários outros locais, tentou atacar Atenas mas foi derrotada (gostaria certamente de aprofundar mais esta parte, mas o autor não dá mais informações). Depois, e na sequência de “violentos terramotos e cheias”, a ilha “desapareceu nas profundezas do mar”, razão pela qual essa parte do mar era “impenetrável”, “devido à lama no caminho, causada pelo afundamento da ilha”.

Importa mencionar que todo esse relato nos é feito através da voz, não de Platão ou de Sócrates, mas de uma outra personagem (um sacerdote egípcio), e mesmo esse não é um relato na primeira pessoa, mas uma história que Solon (um interlocutores originais) contou a Crítias, que por sua vez a contou a outro Crítias, seu neto. Este último admite recordar-se de “quase tudo” após passar uma noite a relembrar os vários detalhes, os quais tinha ouvido na sua juventude, e Sócrates considera todo o relato como “facto, e não ficção”.

 

Partes desta mesma história são depois recontadas por Crítias no diálogo com o mesmo nome, mas também lhe são adicionados alguns novos elementos, nomeadamente em relação ao nascimento e desenvolvimento da ilha. É-nos contado como Poseidon dividiu a ilha principal em dez partes, deixando cada uma delas para cada um dos filhos que teve com a mortal Cleito, sendo o mais velho (a quem foi dado o nome de Atlas, provindo daí o nome do Oceano Atlântico) o rei dessa civilização e os outros (Eumelus/Gadeirus, Ampheres, Evaemon, Mneseus, Autochthon, Elasippus, Mestor, Azaes e Diaprepes) príncipes de cada uma das pequenas ilhas. É-nos falado de toda a riqueza das ilhas, da forma como era extraído o Oricalco (“mais precioso que tudo excepto ouro”, e de que eram feitos muitos dos elementos arquitectónicos desta civilização), da abundância de madeira, fruta e de animais (em especial elefantes). É-nos ainda relatada a forma como a ilha se desenvolveu e toda a sumptuosidade que a populava, com extensas descrições das diversas áreas e dos modos de vida.

Tudo isto até que, um dia, a herança divina no coração dos homens se começou a perder; os habitantes, apesar de parecerem “gloriosos e abençoados”, começaram a ficar “cheios de avareza e poder injusto”. Em busca de uma solução, Zeus reuniu-se com os outros deuses e… nada. Pode até parecer estranho, para quem não estiver habituado à leitura de textos antigos, mas no exacto momento em que Zeus se ia pronunciar sobre tudo isto a trama termina de uma forma demasiado inesperada. De facto, o texto a que hoje temos acesso termina no exacto ponto em que nos é referido que “[Zeus] disse o seguinte …”.

 

Pois bem, a meu ver é esta ausência de um final em Crítias que – e apesar de se saber do destino final da ilha através da sinopse patente em Timeu – gerou todo o mistério que nos chegou até aos dias de hoje. Tal como sucede em Perceval, le Conte du Graal, de Chrétien de Troyes (uma das primeiras histórias sobre o Santo Graal, também ela inacabada), neste caso não é dado um seguimento real a um importante mistério, o que deu lugar às mais diversas interpretações e conjecturas, como é tão frequente quando o género humano se confronta com um desconhecido.

 

Seria, por exemplo, toda a história da Atlântida nada mais que uma metáfora para ilustrar um ponto, como sucede noutros diálogos do mesmo autor? Não sabemos. Seria esta civilização composta por um aglomerado de ilhas? Em Crítias somos levados a pensar que sim, mas então porque procuram as pessoas um continente único? E de onde vem toda a sugestão de que esta civilização era surpreendentemente evoluída? Nada nos dois textos nos dá a entender isso. Os momentos finais de Crítias levam-nos até a pensar numa civilização imperfeita, repleta de defeitos humanos e reais, mais do que com um carácter (quase divino, parece-me) que hoje lhe é dado.

 

Em suma, seria esta uma história verdadeira? Em Timeu, Sócrates dá-nos a entender que sim, mas até que ponto podemos acreditar nele, quando a nossa tarefa é a de julgar correctamente uma questão deste âmbito? Creio que sem termos acesso ao final de Crítias (e mesmo com as informações de Timeu, já que estas não são totalmente conclusivas) nada podemos concluir. Conjecturar sobre a existência da Atlântida de Platão é quase o mesmo que ler os fragmentos de Satyricon e tentar recriar toda a trama… Assim, vejo-me obrigado a concluir que tal como sucede com o Santo Graal de Chrétien de Troyes, também este local poderá ser uma invenção (ou, quem sabe, uma reinvenção) de Platão. Isto porque não temos, para além deste autor, acesso a qualquer outra fonte que nos confirme a veracidade dos eventos. Ainda assim, devo dizer que a creditação da história da Atlântida a “um sacerdote egípcio” me recorda de um artifício mais frequente após a idade média – para atestar a veracidade de um texto, eram então dadas fontes de um passado distante, que já não sobrevivem mas a que o novo autor/tradutor teve, de algum modo, acesso. Curiosamente, esse artifício era vulgarmente utilizado para dar um maior crédito a textos falsos…

 

 

P.S.- Sobre todo este tema existe, no mundo anglófono, uma expressão atribuída a Aristóteles que diz algo como “Plato alone made Atlantis rise out of the sea, and then he submerged it again”. Apesar de se tratar de uma sugestão muito interessante, não foi possível encontrar essa expressão específica em nenhum trabalho do filósofo grego, sendo, por isso, muito provavelmente uma citação falsa!

 

E… a Atlântida futurista?

O artigo acima foi escrito há mais de 15 anos, e ele não falava de um aspecto curioso do mito da Atlântida que é muito popular nos nossos dias – o de uma civilização futurista, com tecnologia muito superior à nossa, incluindo carros voadores e outras coisas que tais. Platão, e os outros autores da Antiguidade, nunca nos dizem nada disso, portanto… de onde vem toda essa ideia?

Essencialmente, e para quem tiver essa curiosidade, a ideia advém de dois autores distintos já nos séculos XIX e XX da nossa era. O primeiro deles, Ignatius L. Donnelly, publicou em 1882 um livro de título Atlantis: The Antediluvian World, em que apresenta uma Atlântida que tenta tornar histórica, e que o autor construiu, essencialmente, como uma base para explicar diversas coincidências entre as antigas sociedades americanas e europeias. Ele usa argumentos como “a letra A entre os Fenícios e os Maias é muito parecida, e isso indica uma fonte comum, um continente perdido entre ambos”, o que não é completamente verdade, já que se poderá tratar – tanto aqui, como em muitos outros casos apresentados no livro – de mera coincidência. Esta primeira obra popularizou, na imaginação popular, a ideia de que teria existido ali um continente com as capacidades culturais e científicas necessárias para popular outras regiões com sucesso.

 

Algumas décadas mais tarde, o médium Edgar Cayce falou do mesmo continente e da sua civilização em muitas das suas previsões. Encontrá-las a todas seria difícil, não fosse o facto de Edgar Evans Cayce – o filho do anterior – as ter compilado num livro de título Edgar Cayce on Atlantis. É aí que esse continente parece aparecer, pela primeira vez, como uma Atlântida futurista, destruída não por algum poder divino da Antiguidade, ou pelas águas do mar, mas pelo grande perigo gerado pela sua própria tecnologia.

Terá sido verdade? Será que uma Atlântida futurista existiu mesmo? A resposta parece ser dada pelo próprio Edgar Evans Cayce na obra em questão – se ele compilou as leituras do pai em torno deste tema, ele mostra, ocasionalmente, um certo cepticismo relativo à ideia, parecendo esperar que a Ciência, no futuro, confirmasse ou desprovasse esta antiga existência, nomeadamente através de uma biblioteca secreta, profetizada pelo pai, que supostamente existe nas redondezas da Esfinge do Egipto. Portanto, basta dizer que até à presente data, nunca foi encontrada qualquer prova real e incontestada de um continente perdido e com uma tecnologia perdida superior à nossa.

A Metamorfose de Cária em Nogueira: Um Raro Mito Grego

O mito grego que nos fala da origem da Nogueira não é muito conhecido, e parece apenas nos ter chegado em breves linhas num comentário latino. Agora, se o tema das metamorfoses parece ser essencial aos mitos dos Romanos, talvez por influência de Ovídio e de alguns autores que o antecederam, este é claramente um mito grego, como é fácil comprovar – na versão que nos chegou, uma das suas personagens principais é chamada “Καρυά“, Cária, por semelhança com “Kαρυδιά“, Karydiá, ou “nogueira”, na nossa língua portuguesa (e Nux em Latim).

O mito grego da origem da Nogueira

Este é um mito a dois tempos. No primeiro deles, quando os deuses andavam pelo mundo fora a testar a compaixão dos mortais (algo que ainda nos é famoso do mito de Baucis e Filémon), em dada altura o deus Apolo encontrou-se na corte do rei Díon da Lacónia. Tendo sido muito bem tratado no local, antes de abandonar o local deu o dom da adivinhação às três filhas do monarca, juntamente com o conselho de que jamais deveriam querer trair os segredos dos deuses. E tudo teria terminado bem, se a história de hoje parasse aqui, mas isso não aconteceu!

 

No entanto, os anos foram-se passando e esta corte foi depois visitada pelo deus Dioniso, que se apaixonou por Cária, a mais bela das três irmãs. Durante a noite, a jovem e o deus uniram-se nos seus amores. Depois, ele teve de se ir embora, para continuar as suas muitas aventuras, mas pouco depois começou a sentir saudades desta mulher que tinha amado. Voltando ao local, quis voltar a amá-la no corpo, mas as duas irmãs faziam-lhe a chamada “marcação cerrada”, com vista a impossibilitar esta união. E então, este deus da vinha e do vinho conduziu-as à loucura, transformou-as em rochas numa montanha próxima, e em gesto de amor – que estas transformações divinas muito se confundem na distinção entre amor e ódio – transformou Cária na primeira nogueira, também ela trazida ao mundo nas montanhas próximas do local.

 

 

Muito se poderia aqui escrever sobre se a transformação de Cária em Nogueira foi uma grande bênção ou uma punição disfarçada, mas pelo menos o seu contexto no mito parece indicar a primeira resposta. É, no entanto, ainda curioso notar que as nozes tinham alguma relevância no ritual de casamento dos Romanos. Talvez tenha existido, numa versão mais antiga deste mito, um momento em que Cária casou com Dioniso, tal como este já tinha feito com figuras como Ariadne? Faz algum sentido pensar que sim, e que todas as esposas desta figura divina tenham sido, de alguma forma, divinizadas no fim das respectivas histórias, mas os poucos mitos que nos chegaram e que envolvem Dioniso, ou Baco, já não permitem ter uma certeza maior.

O derradeiro segredo do deus Pã

É provável que o deus Pã seja um dos mais famosos da Mitologia Grega, até pela sua forma física bastante invulgar. Ele já cá foi mencionado diversas vezes, desde a sua ligação à expressão Omnia Vincit Amor, ao mito de Pítis (em que ele tem um papel principal), passando pela distinção entre faunos e sátiros, e até pela nossa Zargueida nacional, ele foi uma figura relativamente comum até que na era cristã surgiram notícias de que ele tinha morrido. Verdade ou mentira – que nestas coisas da mitologia nunca se sabe muito bem… – algo de muito curioso se esconde por detrás desta figura, e que aqui podemos apresentar precisamente com as palavras de Sérvio Honorato, gramático do século IV da nossa era, que traduzimos do original latino:

O derradeiro segredo do deus Pã

(…) Pã é um deus rústico, formado à imagem da natureza, sendo por isso também chamado [em Grego] Πάν, ou seja, [em tradução] “tudo”: tem cornos à semelhança dos raios do sol e dos cornos da lua; o seu rosto é avermelhado, imitando o éter; no peito traz uma pele de corça estrelada, representando os astros; a sua parte inferior é peluda, por causa das árvores, arbustos e animais selvagens; tem pés de cabra, para simbolizar a solidez da terra; carrega uma flauta de sete tubos, em alusão à harmonia do céu, no qual existem sete sons (…); possui a kalauropa, isto é, “dos pés”, em referência ao ano, que gira sobre si mesmo. Sendo este deus a totalidade da natureza, os poetas fingem que lutou contra o Amor e foi vencido por ele (…)

 

Verdade ou não, que tudo isto pode ter sido apenas e simplesmente inventado por Sérvio para uma das suas obras, o que aqui interessa é a intrigante possibilidade de Pã ter sido criado pelos poetas como uma metáfora híbrida, em que cada um dos elementos do corpo do deus poderá ter tido, na sua forma original, uma simbologia muito própria, ligando-o aos mais diversos elementos daquele mesmo elemento natural em que vivia.

Se pensarmos bem, esta descrição de Pã como representação da totalidade da Natureza não é incompatível com o modo como os antigos gregos entendiam o divino: não como algo separado do mundo, mas sim profundamente entrelaçado com ele. A ideia de que o próprio corpo do deus encarna o céu, a terra, os ciclos e os elementos, revela uma concepção do mundo em que tudo está em relação e em harmonia — ou, por vezes, em tensão criativa.

É igualmente fascinante que este ser, que simbolizaria “o todo”, tenha sido vencido por Eros, ou o Amor, segundo os poetas. O que nos poderá dizer essa imagem? Que mesmo a Natureza total, selvagem e essencial, não resiste à força transformadora do desejo e da emoção? Ou será uma forma de dizer que o amor, na sua essência, é também parte inseparável da natureza? As respostas, como aqui é habitual, poderão ficar para os leitores.

 

Agora, se não conseguimos encontrar provas concretas da génese desta ideia nos tempos mais recuados da literatura e cultura da Grécia Antiga, as linhas do autor latino que citámos acima podem, no mínimo, sugerir que algo mais se escondia por detrás desta figura — algo que o tempo, os novos cultos e o esquecimento fizeram esmorecer. Mas graças a autores como Sérvio, resta-nos pelo menos uma pista: a de que, talvez, o derradeiro segredo do deus Pã não esteja no que ele é, mas no que ele simboliza.