Uma Teogonia de Antífanes

Numa das obras a que tive acesso é mencionada uma Teogonia de Antífanes. Tanto a obra como o autor são relativamente desconhecidos nos dias de hoje, mas a sua versão da criação do mundo é deveras curiosa. Vejamos:

 

O Caos foi produzido através da Noite e do Silêncio. Depois, o Amor nasceu do Caos e da Noite, seguido pela Luz. Seguiu-se todo o resto da primeira geração dos deuses, uma segunda geração e a criação do próprio mundo. O Homem seria, então, criado pela segunda geração de deuses.

 

Infelizmente, pouco mais se sabe sobre esta versão da criação do mundo, mas Ireneu refere que se parecia bastante com o mito da criação do  Valentianismo (que, segundo esse autor, “mudou somente os nomes das coisas”).

 

Esta é uma versão do mito da criação que, como muitas outras, parece fazer total sentido, mas há um outro detalhe que se deve ter em conta: contrariamente ao que sucede nos dias de hoje, em que a maior parte das religiões tem um cânone definido – irrefutável, indiscutível e totalmente fixo – o mesmo não sucedeu até aos primeiros séculos da nossa era. Assim, são múltiplos os autores gregos e latinos que, uma e outra vez, nos mostram diferentes versões da criação do mundo. Não existem versões certas e erradas, mas essencialmente versões concorrentes, algumas mais populares que outras. Se Teogonia, de Hesíodo, é provavelmente uma das mais populares e famosas, importa realmente lembrar que também existem muitas outras.

“Sobre o deus de Sócrates”, de Apuleio

Quanto confrontado com o nome de Apuleio, qualquer bom estudante (ou amante) das Clássicas se lembrará da obra mais famosa deste autor – A Metamorfose, também conhecida como O Burro de Ouro por influência de Santo Agostinho. Contudo, sobreviveram até aos dias de hoje mais algumas obras deste autor; neste caso específico falarei a propósito de Sobre o deus de Sócrates, uma pequena obra na qual nos é falado sobre os daemones, figuras relativamente obscuras (e bastante ausentes) da mitologia grega e romana.

 

Nesta obra, o autor começa por recordar algumas das ideias de Sócrates, chegando eventualmente ao ponto de referir os daemones como sendo as figuras que faziam a ligação entre os seres humanos e os deuses. Em seguida, distingue vários tipos de daemones:

– Eudaemones – espíritos que acompanhavam as pessoas na sua vida;

– Lemures – espíritos dos mortos;

– Lares – espíritos que protegem uma família (e/ou habitação);

– Larvae – espíritos que foram condenados a vaguearem pela terra, por causa das más acções cometidas em vida;

– Manes – espíritos cuja condição é desconhecida.

(Note-se que existem muitas mais designações, mas aqui só falei das mencionadas nesta obra)

 

Se bem tratados, estes espíritos poderiam influenciar a vida de uma pessoa, aparecendo-lhe em sonhos, dando-lhe conselhos e, no geral, cuidando dela. Nesse sentido, é dado não só o exemplo do próprio Sócrates como o de Ulisses, a quem a Sabedoria aparecia sob a forma poética de Minerva. Até certo ponto, creio que seria correcto ver estes daemones como uns antigos “anjos da guarda”, mas de onde poderá ter vindo a sua evolução para uma palavra de sentido tão negativo como “demónio”?

 

Usando-se um dicionário, poderão ver-se duas definições de “demónio” com significados quase opostos. Por um lado tem-se a referência a “cada um dos anjos maus que estão às ordens de Satanás”, mas por outro uma mais antiga alusão a “divindade, génio (bom ou mau)”. Somos assim levados a uma oposição essencialmente cultural; se, anteriormente, os daemones poderiam ser vistos como bons ou maus, no Cristianismo tornam-se imperativamente maus (para um outro exemplo de um fenómeno similar veja-se este post), apesar de alguns dos seus aspectos e funções terem sido adaptados para servirem a nova religião.

 

Será então correcto equiparar um santo padroeiro a uma forma específica de daemon? Parece-me que sim, já que ambos têm funções muito similares – não só estabelecem a ligação entre o reino físico e o dos deuses como também fornecem protecção aos devotos – apesar de surgirem hoje como símbolos de ideais quase opostos.

O mito de Sirlene

Há uns dias, foi cá pedido um artigo sobre o mito de Sirlene, figura então referida como se tratando de uma suposta irmã de Atlas, um titã da Mitologia Grega. Pois bem, nada sei sobre um tal figura, e todas as fontes em que pesquisei também nada apresentam em relação à mesma. Atlas, filho de Japeto, tinha três irmãos – os famosos Prometeu e Epimeteu, e o mais obscuro Menoécio – e, aparentemente, nenhuma irmã sobre a qual nos tenha chegado alguma informação verdadeiramente fiel e digna de crédito. Ou seja, ou algum potencial mito desta figura de Sirlene é extremamente obscuro, ou não existia nos tempos da Antiguidade, podendo ser uma invenção de algum autor dos nossos dias.

 

Infelizmente, não sei qual o contexto em que este pedido surgiu, mas assumindo que essa figura de Sirlene aparece numa obra de ficção, é muito provável que seja uma completa invenção do seu autor. Maiores deduções não são possíveis, pelo menos não sem saber mais em relação a todo o contexto do pedido.

O mito de Momo

Momo era, na Mitologia Grega, uma personificação do sarcasmo e da ironia. É provável que existam vários outros mitos relativos a esta mesma figura, mas aquele que aqui irei mencionar sempre me pareceu ser o mais popular e significativo.

 

Antes de abordar o mito propriamente dito, devo referir que tenho algumas dificuldades em classificá-lo justamente como tal. Por um lado, o episódio que vou contar aparece brevemente em autores como Luciano de Samósata (veja-se a alusão ao mesmo na obra Hermotimus), e em tudo se assemelha a um qualquer outro mito, mas também é uma fábula de Esopo – hoje referida como Babrius 59 ou Perry 100 – e é com essa designação que Aristóteles a menciona no terceiro livro de De Partibus Animalium. Tendo essa consideração em mente, passe-se então a uma versão simplista da trama:

 

Zeus, Poseídon e Atena estavam a fazer um concurso para ver qual deles conseguia fazer algo realmente bom, e Momo foi escolhido para juiz. Zeus criou um homem, Atena uma casa, e Poseídon um touro.

Em seguida, Momo criticou o homem por não ter uma janela para o coração (que permitiria ver o que este queria fazer), a casa por não ter rodas (o que impediria os proprietários de a moverem de um lado para o outro) e o touro por não ter olhos abaixo dos cornos (o que lhe permitiria atacar com uma melhor precisão).

 

A moral por detrás desta fábula é bastante simples: quem quer encontrar falhas acaba sempre por conseguir fazê-lo, mas isso também não diminui a importância da própria criação.

O mito das Simplégades

Anteriormente, uma leitora pediu um artigo sobre uma ilha que aparece na  Odisseia, “temida pelos marinheiros que, por ‘saberem’ tratar-se de uma ilha suspensa sobre as àguas, acreditavam que podia mudar de sítio”. Possivelmente, trata-se de uma referência a um conjunto de duas rochas que, ao aproximarem-se uma da outra, esmagavam os navios que por lá passavam. Estas rochas, que tinham o nome de Simplégades, surgem em duas grandes obras gregas. Na Odisseia, a personagem principal opta por um outro caminho, que o leva aos monstros Cila e Caribdis, em deterimento de confrontar os perigos que estas rochas apresentavam, os quais levariam a uma morte quase certa.

Contudo, no mito de Jasão e os Argonautas, os heróis acabam realmente por passar por estas rochas. De acordo com uma profecia que lhes fora apresentada, largaram uma pomba nas direcção das rochas, e só se esta passasse é que eles poderiam tomar tal caminho; tal como a pomba ficou sem algumas penas, algo similar sucedeu ao famoso navio, apesar de todos os heróis terem sobrevivido a esta experiência. É, também, curioso o evento que se seguiu – depois da passagem de Jasão e dos Argonautas, estas rochas fecharam-se pela última vez, e jamais voltaram a afastar-se.

 

Em termos práticos, qual o significado deste mito das Simplégades? Bem, a hipótese mais directa tem a ver com a existência de um estreito que, aquando da passagem de alguns marinheiros, dava a sensação de que se estava a fechar. Era, claro, pura ilusão, mas poderá ter sido essa a principal ideia geradora deste mito. Quanto ao episódio protagonizado por Jasão e seus companheiros, poderá ser visto como uma simples razão pela qual as famosas rochas já não podiam ser encontradas, pelo menos não com todas as características que as caracterizavam originalmente.