O mito do Julgamento de Páris

A Guerra de Tróia, famosa da Mitologia Grega, viria a ser causada por um evento aparentemente simples, normalmente conhecido como o mito do Julgamento de Páris, cujos contornos gerais descrevo em seguida:

Apesar de terem sido muitos os convidados para um banquete em que se celebrava o casamento de Peleu e Tétis , Éris , deusa da discórdia, não foi uma das divindades convidadas. Irritada, a deusa enviou ao evento um maçã de ouro, na qual se podia ler a inscrição “Para a mais bela”. Três deusas – Hera, Atena e Afrodite – responderam a esse desafio.
Zeus, incapaz de escolher uma vencedora, atribuiu tal honra a Páris , um mortal cujos dotes já estavam comprovados. Aparecendo a este herói, cada uma das deusas tentou atribuir um suborno a Páris : Hera dar-lhe-ia o trono da Ásia e Europa, Atena torná-lo-ia mais sábio e Afrodite dar-lhe-ia o amor da mais bela mulher, caso ele escolhesse cada uma delas para vencedora.
Talvez movido pela luxúria, Páris deu a maçã a Afrodite, com os efeitos desta decisão (e o posterior raptado de Helena, a mais bela mulher) a originarem a Guerra de Tróia.

O Julgamento de Páris (censurado)

Apesar de trivial, a decisão de Páris foi bastante importante para o desenvolvimento da Guerra de Tróia. São poucos os mitos que referem os dotes físicos de Atena , uma divindade associada ao dom da sabedoria, mas em termos de beleza física Hera é, normalmente, considerada como superior a Afrodite, uma deusa cujos atributos são mais ligados ao dom da paixão e do complexo amor. Poderão ter sido muitas as razões para a decisão que Páris tomou, mas o interesse no amor de uma bela mulher parece ser o mais óbvio.

É importante constatar que ambas as deusas preteridas apresentaram um papel fundamental na Guerra de Tróia, com Atena a participar directamente no conflito . A escolha do herói apresenta, também, um papel claramente metafórico, em que a este é proposta uma escolha entre dons físicos e atributos mentais, altura em que Páris parece favorecer o amor em detrimento da riqueza ou sabedoria. Também o famoso rei Midas , um mito referido anteriormente, teria opções similares, vindo a sofrer terríveis consequências.

Vítima da promessa de Afrodite, Helena tornar-se-ia amante de Páris , razão pela qual seria levada para Tróia e originaria o mais famoso conflito da Grécia Clássica. O tema de uma mulher causadora de infelicidade, seja directamente ou de forma indirecta, é frequente nesta mitologia, como também pode ser visto no mito de Pandora.

Apenas para dar uma nota final, é importante frisar que esta maçã de ouro pouco tem a ver com outros famosos frutos, as Maçãs das Hespérides, apesar de partilharem algumas características físicas.

Os Deuses Desconhecidos

Apesar de já não existir, hoje em dia, muita informação sobre aquilo a que podemos chamar os Deuses Desconhecidos da Antiguidade, ainda existem algumas coisas que podem ser aqui escritas sobre eles.

Uma espécie de deus desconhecido...

Diz-se que na antiga cidade de Atenas existia um templo dedicado ao Deus Desconhecido, i.e.  Agnostos Theos, no qual as figuras divinas que ainda não tinham um local de culto próprio no local podiam ser veneradas. Este local podia, ainda, ser usado para venerar a existência de deuses que a população desconhecia até então, impedindo-lhes que caíssem nos más graças dessas outras divindades, só porque os habitantes ainda nada sabiam sobre elas. Uma interessante referência a este recinto é feita nos “Actos dos Apóstolos”, capítulo 17, em que Paulo menciona este altar e o parece considerar como um local de culto para o deus que pregava.

 

Também em Roma Antiga existiam lugares de culto semelhantes a este, em que ainda hoje podem ser encontradas inscrições que mencionam a expressão “sei deo sei deivae“, i.e. “seja [a entidade venerada no local] deus ou deusa”, que denotam uma certa incerteza sobre os pormenores de uma determinada divindade.

Ainda assim, considero que o propósito deste local de culto é deveras curioso – ao venerarem um deus cujo nome ou características desconheciam, os Atenienses – e, mais tarde, também os Romanos, podiam preparar-se para a eventual existências de outros deuses, impedindo que sofressem qualquer tipo de penalização religioso tanto em vida como após a morte.

É talvez este o ponto fraco da sociedade de hoje, uma gigantesca intolerância religiosa, em que cada pessoa parece acreditar que a sua religião é a verdadeira, sendo todas as outras falsas e desprovidas de qualquer importância. Tal como os Antigos Gregos, também nós devíamos aprender a venerar os antigos Deuses Desconhecidos, numa tentativa de paz em que a religião não é um factor de discriminação mas sim um ponto de interesse, que deve ser partilhado por todos.

O mito de Caco

O mito de Caco, que o une à grande figura de Héracles, tem um papel interessante na literatura grega e latina, já que pode ser considerado como o de uma figura que vai ganhando mais importância com o tempo.

Originalmente, na Mitologia Grega, este gigante era filho de Hefesto e aterrorizava a região onde hoje se situa a cidade de Roma. Contudo, quando este roubou parte do gado de Gérion (ou Gerião), que Héracles estava a transportar para outro local como parte de um dos seus famosos trabalhos, o herói acabou por encontrá-lo e matá-lo.

Caco a ser vencido por Hércules

Assim, este poderá parecer um mito simples e breve, mas se na versão mais popularizada entre os Romanos toda esta história se mantém, também é acrescentando um papel mais importante a Caco, em que ele até passa a ser considerado como um deus regional do fogo, além de associado de uma forma ainda mais directa à capital do Império Romano e profusamente venerado entre esse povo.

O mito de Adónis

O mito de Adónis, talvez um dos mais famosos de entre os Gregos, narra uma simples ligação desta figura mitológica com uma possível crença na existência de uma vida após a morte. Infelizmente, ao mesmo tempo este também é um daqueles mitos assolados por muitas versões diferentes, que apenas mantêm um traço principal. Por isso, segue-se um pequeno resumo do mito, mas que também tenta evitar os pontos mais conflituosos abrangidos pelas diversas versões.

Adónis e o javali

Após o nascimento, Adónis foi recolhido por Afrodite. Esta deusa do amor, encantada com a enorme beleza do jovem, teve depois de o enviar para o reino de Hades , no qual também Perséfone passou a admirar a beleza deste.
Incapazes de escolher com quem ficaria o jovem, que aqui parecia não ter opinião própria, ambas as figuras divinas decidiram consultar Zeus. O deus dos deuses decidiu então que ele passaria quatro meses com cada uma das deusas, tendo também um terço do ano para si próprio.
Com ciúmes , um outro habitante do Olimpo enviou um javali, que viria a matar Adónis. Do sangue deste jovem nasceria uma nova flor, a Anémona , e um rio.

Apesar de relativamente simples nesta sua forma muito basilar, este mito apresenta-nos uma crença significativa na existência de vida após a morte. O jovem Adónis, ao ter a possibilidade de ir ao submundo e voltar por diversas vezes, demonstra-nos a possibilidade da morte e reencarnação cíclica do ser humano, mas também nos recorda outros mitos muito mais antigos, como aquele em que a deusa Ishtar desceu ao submundo pelo seu amado Dumuzid. É até provável, mas não completamente certo, que o mito grego desta figura seja uma transposição para a cultura dos Gregos dessa famosa história da Mesopotâmia, mas isso já será um tema que, apesar de fascinante, terá de ficar para um outro dia.

O Mito das Cinco Idades

O Mito das Cinco Idades, constante numa das obras de Hesíodo, é dos mais famosos da Mitologia Grega. Simplificadamente, bastante tempo após génese a dos deuses gregos viria a ser criada a humanidade. Numa das versões, esta seria concebida por Prometeu e Epimeteu, que criaram os seres humanos à sua imagem, usando barro. Segue-se então um resumo do mito, que escrevi há já uns bons meses.

O mito das Cinco Idades

A primeira das cinco idades, denominada “Idade de Ouro”, teve lugar durante o reino de Cronos (ou Saturno). Nessa altura, os humanos viviam entre os deuses e morriam durante o sono, de forma pacífica e sem qualquer espécie de temores.
Quando Zeus passou a ser o rei do Olimpo, atingiu-se a “Idade de Prata”, em que os humanos viviam 100 anos sob a forma de crianças, antes de envelhecerem rapidamente e morrerem. Era uma geração mais impiedosa que os seus predecessores e, por vezes, desrespeitavam os deuses, pelo que Zeus decidiu extinguí-los.
Depois, seria este deus a criar uma nova casta, na chamada “Idade de Bronze”. Nesse momento, os humanos limitavam-se a guerrear, utilizando as suas armas feitas de bronze, acabando por se matar uns aos outros.
De acordo com algumas versões, seguiu-se a “Idade dos Heróis”, em que os heróis e os semideuses viveram. Há que ter em conta que esta Idade nem sempre é considerada na contagem, o que reduz o seu número para quatro, segundo alguns autores.
Finalmente, surgiu a “Idade do Ferro”, em que a degradação da humanidade estagnou. Os humanos passaram a temer os deuses e apesar de tal situação nunca ter vindo a acontecer, dizia-se que esta raça também iria ser destruída por Zeus, numa altura em que os bebés nascessem com cabelo cinzento.

Apesar desta versão não nos falar exactamente do momento em que a humanidade nasceu, deixa-nos entender a criação do Homem à imagem de deus, algo que o Cristianismo e muitas outras religiões antigas professavam. Tendo em conta a sequência aqui seguida, seria não só possível justificar as imperfeições a que toda a humanidade estava sujeita, bem como também explicar a ausência de povos lendários, como os Hiperbóricos ou os habitantes dos jardins das Hespérides.
A “Idade dos Heróis”, possivelmente uma adição tardia ao mito, seria importante para explicar a ausência de criaturas míticas e heróis lendários na época em que esses Gregos viviam. Assim, seria compreensível o desaparecimento dos Ciclopes e dos Centauros (entre muitas outras figuras), bem como a ausência de Circe, Atlas e figuras similares.

Um tal Mito das Cinco Idades não deve obviamente ser encarado como verdadeiro, mas é uma história certamente interessante.