A Batalha de Guadalete e o destino do Rei Rodrigo

Falar sobre a Batalha de Guadalete é, primeiro que tudo, admitir que a visão da História que todos recebemos em tempos de escola é muito incompleta. Pelo menos para quem viver em Portugal, para os períodos mais antigos ela representa a Península Ibérica como um local de passagem de diversos povos antigos, sem que se saiba muito bem quem fez o quê e quando, salvo excepções como a das lendas de Viriato, tão reaproveitadas mais tarde na cultura portuguesa. Por essa razão, alguns instantes da história ibérica estão envoltos num misto de história e lenda, sendo difícil reconhecer onde verdadeiramente termina um e começa o outro… e a história de hoje é precisamente sobre isso, sobre como um mesmo evento, supostamente histórico, pode fomentar lendas muito diferentes em países distintos.

O Rei Rodrigo e a Batalha de Guadalete

Nessa sequência, em Espanha a Batalha de Guadalete é, de um modo muito geral, a de um último monarca e cristão visigodo, que ficou conhecido apenas por Rei Rodrigo e que foi derrotado pelos Muçulmanos aquando da sua invasão inicial da Península Ibérica, no ano de 711. Diz-se ainda que o rei desapareceu em combate, sendo possível que tenha fugido da batalha sem ter sido morto, para um local incerto…

Porém, na versão portuguesa da lenda da Batalha de Guadalete, são acrescentados alguns elementos muito curiosos. Segundo ela, o tal Rei Rodrigo sobreviveu a essa batalha e depois fugiu por mar para uma localização incerta (alguns autores referem uma ilha que ficou conhecida por “Antilha”), juntamente com os muitos bispos que existiam nos seus domínios. Depois, ao longo dos séculos, foram sendo adicionados muitos novos elementos a toda a história – em particular, que esse monarca, os seus bispos e a respectiva corte ainda estavam vivos numa ilha mágica coberta por nevoeiro.

 

O que tem tudo isto de especial, de digno de nota, para ter inspirado a escrita das linhas de hoje? Existem, na realidade, um conjunto de lendas nacionais que podem ser ligadas à deste desaparecimento do Rei Rodrigo e dos seus Cristãos. Por exemplo, na famosa lenda de Dom Fuas Roupinho e da Nazaré, algumas versões dizem que a imagem de Nossa Senhora posteriormente encontrada por esse herói do tempo de Afonso Henriques foi deixada em Portugal,em inícios do século VIII, por um monge que também fugiu com o famoso monarca aqui em questão.

Mas… provavelmente a mais famosa e notável das lendas nacionais associadas a este Rei Rodrigo diz que a ilha em que ele agora vive é a mesma em que o nosso Dom Sebastião se esconde, aquela tal Ilha Encoberta de que nos falava o Sebastianismo e que hoje já está quase esquecida. Assim, quando o nosso rei voltasse para salvar Portugal, iria fazê-lo acompanhado por esse seu companheiro real e pelos bispos outrora desaparecidos, para instituir um novo reino cristão mundial, de que falam muitas lendas nacionais hoje completamente esquecidas, mas que até podem ser vistas em profecias do século XVI, e seguintes, que ainda nos chegaram em pequenos registos de diversos arquivos nacionais, como a que pode ser lida carregando na imagem abaixo.

Profecia do regresso do rei

Contudo, não sabemos onde acaba a verdade e começa a pura lenda em tudo isto. Será que a Batalha de Guadalete teve mesmo lugar? Será que o Rei Rodrigo existiu? Será que morreu em batalha, ou desapareceu para parte incerta? Será que foi acompanhado por outros Cristãos nessa possível viagem? Não sabemos, de todo, nem nos é possível sabê-lo com base nas provas que ainda temos neste momento. É tudo um misto de lenda e realidade, sem que se saiba, efectivamente, os contornos de cada um desses dois pólos.

 

Mas… uma última curiosidade sobre todo este tema. No Algarve existe um bolo chamado “Dom Rodrigo”, que se apresenta hoje como uma espécie de fios de ovos cobertos por uma folha de prata colorida e disposta numa forma que pode fazer relembrar uma ilha. Se o nome do bolo, originalmente, não se devia a este monarca, mas sim a outro Rodrigo do século XVIII, será esta sua nova forma, que foi sendo adoptada ao longo dos anos mas não era a original, uma alusão velada à lenda da tal Ilha Encoberta, com suas areias douradas, do Sebastianismo e deste outrora-famoso monarca ibérico, que igualmente se pensava que lá vivia? Não conseguimos, neste momento, ainda responder a essa questão, mas não deixa de ser intrigante pensar nessa grande possibilidade…

A lenda da Batalha de Clavijo

A lenda da Batalha de Clavijo merece ser mencionada por cá em virtude de se tratar de um confronto guerreiro puramente lendário na cultura ibérica. Isto porque, se em infindáveis outros casos não nos é possível afirmar se um determinado evento tomou mesmo lugar ou não – por exemplo, no contexto nacional, o que aconteceu a Dom Sebastião depois da batalha de Alcácer Quibir? – já em relação a esta batalha todos os autores e estudiosos dos nossos dias admitem que se trata de uma história completamente ficcional.

Um momento da lenda da Batalha de Clavijo

Lembram-se de quando cá falámos de Guesto Ansures e o chamado “tributo das cem donzelas”? Se nessa altura o herói matou muitos Mouros e salvou seis donzelas, muitas outras continuaram a ser levadas para Córdova, até que o monarca Ramiro I das Astúrias, no século IX, lá decidiu que essa situação tinha de acabar. Juntamente com o seu pequeno exército, ele decidiu combater contra toda esta injustiça, até que se deparou com um enormíssimo número de inimigos na zona de Clavijo. O rei não tinha qualquer forma real de os derrotar a todos, pelo que decidiu tentar descansar uma última noite antes do confronto dessa Batalha de Clavijo. Porém, naquela que ela pensava vir a ser a derradeira escuridão da sua vida, este rei teve um sonho em que lhe apareceu São Tiago* (o tal de Compostela), e o santo prometeu-lhe auxílio na batalha vindoura. Mas, se assim o prometeu, ainda melhor o fez – no dia seguinte o próprio São Tiago, vindo do reino dos céus num cavalo branco e já completamente equipado para a batalha, apareceu no campo de batalha e matou um número enorme de infiéis, ganhando assim até o seu novo título, certamente incrível para um santo, de “Mata-Mouros”.

 

Claro que todo este relato da Batalha de Clavijo é pura ficção, como já dissémos acima, mas há ainda um elemento muito curioso em tudo isto. Se se diz que esta batalha teve lugar no século IX, ela só aparece em fontes escritas por volta do século XIII, e os seus contornos gerais não deixam de lembrar a “nossa” Batalha de Ourique, cuja lenda, muito semelhante à reproduzida acima, só aparece com os seus agora-famosos contornos miraculosos no século XV, e em que São Tiago Mata-Mouros também foi evocado. Em ambos os casos, pelo menos dois séculos passaram entre os supostos eventos reais e a declaração escrita de um intervenção miraculosa nos mesmos.

Nesse seguimento, se sabemos que esta batalha espanhola nunca teve lugar, ou pelo menos não com todos os contornos acima, o que dizer do famoso combate em que interviu o “nosso” Afonso Henriques? Se até sabemos, através das crónicas da época, que teve lugar uma batalha (real) num local com o nome de Ourique, será o famoso milagre nacional uma adaptação de aquele que se cria ter tomado lugar em Clavijo ou, apesar das muitas semelhanças, um acontecimento totalmente independente? Essa resposta, preferimos deixá-la para os leitores…

 

*- Sobre o nome deste santo, deve ser lido o que já aqui foi escrito na nota final sobre a lenda de Santiago de Compostela.

A lenda da Cruz de Caravaca

Quando se fala de cruzes lendárias, é provável que a antiga Cruz de Caravaca, localidade no sudeste de Espanha e próximo de Múrcia, seja uma das mais conhecidas, pelo menos na Península Ibérica. Quanto mais não seja, e mesmo para quem ainda não conheça a sua história, pelo facto de se tratar de uma cruz dupla, como pode ser vista nesta pequena imagem ilustrativa do relato que se segue.

A lenda da Cruz de Caravaca

Conta-se então que no tempo da Reconquista Cristã de Espanha, quando a povoação de Caravaca ainda se encontrava na posse dos Muçulmanos, um determinado emir sentiu uma enorme curiosidade em ver os rituais cristãos, em particular o da comunhão. Como tal, entre os prisioneiros que tinha capturado numa batalha recente tentou localizar alguém que soubesse realizar esse ritual, e até acabou por encontrar um sacerdote da região. Este aceitou realizar o ritual da comunhão e foi procurar tudo aquilo de que necessitava para o realizar, mas quando chegou o momento fulcral notou que se tinha esquecido de uma “pequena” coisa, uma cruz. Mas pouco depois, enquanto sentia um enorme desespero no seu coração, o emir, que estava a seu lado, disse-lhe para olhar para uma janela próxima, onde puderam ser vistos dois anjos a carregar uma cruz dupla. Face a um tamanho milagre, o emir depressa se converteu ao Cristianismo, e a chamada Cruz de Caravaca pôde ser vista na igreja local durante muitos anos….

 

Seria, como parecerá óbvio, importante vê-la para que se pudesse atestar a verdade de toda a história, como no caso do milagre mexicano da Virgem de Guadalupe, mas infelizmente essa cruz medieval foi roubada durante a noite no Carnaval de 1934, para não tornar a ser vista – hoje existe apenas uma reprodução da original no local. Presume-se que ainda se dêem alvíssaras a quem revelar o paradeiro da anterior, aquela cuja lenda diz que foi trazida dos céus por dois anjos, pelo que se souberem onde ela se encontra hoje poderão reportá-lo às autoridades competentes e ainda ter uma boa recompensa. Os cidadãos de Caravaca de la Cruz certamente que o agradeceriam.

 

Assim, resta apenas uma questão essencial – porque é que a Cruz de Caravaca tem quatro braços, em vez dos dois tão habituais? Ouvimos muitas teorias mas nenhumas certezas, com as respostas mais interessantes, e que nos pareceram as mais fidedignas, a dizerem que esse aspecto invulgar se deve ao facto de se ter tratado de um tipo de cruz ortodoxa, vinda de alguma parte incerta; ou por esta cruz celebrar especificamente aquela em que Jesus Cristo foi crucificado – até por, segundo se diz, ter tido um pequena parte da Cruz Verdadeira no seu interior – tendo por isso no seu topo um crucifixo, em vez de uma mera figura do Redentor (como é mais habitual e até pode ser visto em incontáveis outras igrejas), i.e. é uma cruz grande com um crucifixo pequeno na sua parte superior. Verdade ou não, são boas teorias para tentar explicar o seu aspecto curioso, tão raro nas igrejas do nosso país mesmo nos nossos dias de hoje… e se tudo isto é verdade ou não, não deixa de ser uma bela história do cristianismo medieval!

Onde está a Excalibur?

O seu nome é indubitavelmente famoso dos romances medievais, mas quem nunca se interrogou onde está a Excalibur, a famosa espada do Rei Artur, nos nossos dias de hoje? Poderia pensar-se que se trata de uma mera ficção, que esta arma – e, potencialmente, até o seu conhecido portador – nunca existiram verdadeiramente, mas o mais curioso é que existem outros exemplos de espadas medievais famosas que ainda podem ser vistas nos nossos dias.

A Durandal de Rolando - mas onde está a Excalibur?!

Por exemplo, a espada que se diz ser a de Rolando, a Durandal (ou Duridana) do herói do poema épico medieval La Chanson de Roland, pode ser vista na comuna francesa de Rocamadour, e até há uns anos estava presa numa fenda de uma rocha (a corrente que a prenda seria, obviamente, posterior). Diz a lenda que foi o próprio herói que a atirou para lá, com as suas últimas forças, poucos instantes antes de falecer – ainda a vimos há uns anos, mas segundo lemos agora já foi levada para um museu, o que faz perder um pouco do seu charme e encanto original.

No mesmo país, a Joyeuse, a espada lendária do Imperador Carlos Magno, também pode hoje ser vista no Museu do Louvre.

 

Em Espanha, dizem as lendas que El Cid, herói de um famoso épico com o seu nome, possuiu duas espadas famosas, a Tizona (ou Tizón) e a Colada. Desconhecemos a localização da segunda, se ainda existir, mas a primeira pode, hoje, ser vista num museu na cidade espanhola de Burgos.

Já em Portugal, a espada de Afonso Henriques, cuja lenda não nos parece preservar nenhum nome mais específico, diz-se estar no Museu Militar do Porto, mas não tivemos a oportunidade de o confirmar pessoalmente.

 

Apesar de serem, todas elas, espadas lendárias, a história não reza que tenham qualquer espécie de poderes especiais, como é comum naquelas que recebem este tipo de designação em jogos de computador. O seu factor lendário vem não de uma qualquer característica especial que possam ter, mas da identidade do mais famoso dos seus possuidores – de forma semelhante, mesmo que a Excalibur fosse encontrada, é provável que se tratasse de uma espada como qualquer outra, com a excepção do filho de Uther Pendragon a ter possuído anteriormente.

 

Mas então, onde está a Excalibur? Onde pode, agora, ser ela encontrada? Quem tiver lido os romances medievais com alguma atenção já saberá que a espada do Rei Artur foi forjada em Avalon, mas após o final das aventuras do herói acabou por ser depositada no mesmo lago em que, por magia, lhe tinha sido confiada anteriormente pela misteriosa Dama do Lago. Talvez ainda esteja por lá… ou já pode ter sido recuperada, se tivermos em conta que uma menina de sete anos encontrou uma espada no local em 2017 (a notícia pode ser lida aqui); se era mesmo a famosa arma de Artur, ou não, não temos forma de o saber, mas em caso negativo é provável que esse lago no sul de Inglaterra ainda seja um bom ponto de partida para a conseguir reencontrar…

O mistério do Cantchal das Letras

Há cerca de 100 anos o etnógrafo Jaime Lopes Dias visitou um local a que chamou o Cantchal das Letras ou a Pedra do Gato. Localizou-o quase em frente da localidade (portuguesa) de Segura, mas do lado espanhol do Rio Erges. Ou seja, tendo por referência estas indicações (que são relativamente vagas), talvez algures no local mostrado nesta fotografia:

O mistério do Cantchal das Letras

Segundo ele, este tal Cantchal das Letras era uma espécie de “grande penedo” em que se encontravam inscritas muitas letras. Algumas eram antigas, outras eram mero fruto de brincadeiras do século XX, mas o mais curioso é que, admitidamente, alguns habitantes locais admitiram que tinham feito novas inscrições no local, mas que ao fazê-lo degradaram as verdadeiras inscrições que já lá existiam antes, que continham caracteres que, aparentemente, ninguém sabia decifrar… o que parece ter levado, em alguma altura, a uma lenda local, segundo a qual quem conseguisse ler essa mensagem poderia encontrar enormes tesouros nas redondezas!

 

Será verdade? Que antigas inscrições eram essas? Será que verdadeiramente escondiam o local de algum tesouro? Gostaríamos bastante de o vir a saber, mas parece que já ninguém sabe onde ficava esse tal Cantchal das Letras. Terá sido destruído? Será que a sua degradação progressiva, ao longo do último século, levou a que o penedo perdesse todo o seu interesse? São perguntas que terão de ficar mesmo sem resposta, porque já não conseguimos encontrar o local em questão, nem Jaime Lopes Dias preservou as antigas letras a que se referia a lenda… por isso, se algum dia alguém vir estas linhas e tiver mais alguma informação para oferecer sobre o tema, por favor deixe-a nos comentários ou envie-a para nós ali por e-mail!