Falando-se do poema A Manteigui, de Bocage… um dos aspectos positivos do encerramento do alojamento no Sapo é o facto de AGORA podermos falar de alguns temas mais arriscados, que ao longo dos anos fomos sendo forçados a abandonar. Este é claramente um deles, é bastante impróprio para os mais novos, por se tratar de uma construção poética muito diferente daquelas que é hábito ler-se nas carteiras da escola. Em vez de deuses e paisagens, a personagem principal desta composição é uma tal “Manteigui”, aparentemente Ana de Montaiguy, esposa do alferes francês Jacques Phillipe de Montaiguy, sendo o tema do poema definido como pode ser visto nesta imagem:

Este claramente não é o tipo de vocabulário que se tenha por hábito encontrar em poetas nacionais, como Camões, mas é uma característica e alguns dos poemas de Bocage que os professores tendem a ocultar significativamente aos seus alunos. E percebe-se porquê, se se tiver em conta que o próprio poema inclui sequências como esta:
Levanta a tromba o ríspido elefante,
A tromba, acostumada a tais batalhas,
E apontando ao buraco palpitante,
Bate ali qual aríete nas muralhas:
Ela enganchando as pernas delirante,
“Meu negrinho (lhe diz) quão bem trabalhas!
Não há porra melhor em todo o mundo!
Mete mais, mete mais que não tem fundo(…)
Mete mais, mete mais… Ah Dom Fulano!
Se o tivesses assim, de graça o tinhas!
Não viveras em um perpetuo engano,
Pois vir-me-ia também quando te vinhas:
Mette mais, meu negrinho, anda magano;
Chupa-me a língua, mexe nas maminhas…
Morro de amor, desfaço-me em langonha…
Anda, não tenhas susto, nem vergonha.”
Mas de que fala a composição, na sua forma mais geral? Conforme já referido na imagem, conta como esta Manteigui, forma aportuguesada do nome original da senhora, traiu “o cornaz marido (…) o bode racional, veado humano”, com um escravo negro, numa “foda começada ao meio dia [e que] teve limite pelas seis da tarde”, nas palavras do poeta. Para tema, é possível que Bocage se tenha baseado em algum episódio famoso na cultura popular da época, mas sabe-se que estas figuras existiram mesmo – não conseguimos foi descobrir o que foi feito desta senhora depois da publicação do poema, ou se o tal escravo negro, cujo nome o poema não apresenta, existiu mesmo e cometeu os actos em questão. No entanto, não deixa de ser um poema interessante, por preservar um estilo de composição poética de que raramente nos informam na escola.
Com curiosidade? Se tiverem mais de dezoito anos, o poema em questão pode ser lido online, de forma completamente gratuita, neste link.


