A lenda de Machim e Ana D’Arfet

A lenda de Machim e Ana D’arfet é uma de aquelas que tenta explicar a origem do nome de um local, neste caso Machico, um dos municípios da Madeira. Em si próprio, este nome poderá parecer-nos estranho, e daí terá nascido uma potencial necessidade de o explicar.

A lenda de Machim e Ana D'arfet

Assim, esta lenda conta-nos que em meados do século XIV viveu em Inglaterra um tal Roberto Machim, que se apaixonou por uma Ana D’Arfet*. Não sabemos até que ponto se terão tratado de personagens históricas, mas a sua história diz que a família da jovem não permitiu qualquer união entre os dois amados, em vez disso escolhendo um outro noivo para Ana. Incapazes de aceitar esse triste destino, decidiram fugir de Inglaterra para França, mas o barco foi apanhado numa enorme tempestade e levado (muito) para fora do rumo que pretendiam seguir.

Na manhã seguinte, depois de muitas horas de medo e de viagem, chegaram ao areal de um local desconhecido. Não encontraram ninguém por lá e Ana adoeceu. Veio a falecer, algum tempo depois, e então Machim escreveu toda esta história numa cruz de madeira, que os Portugueses viriam a encontrar alguns anos mais tarde. Foi em sua virtude que deram à região o nome de Machico, e aí construíram o primeiro edifício de toda a ilha, uma igreja, com o seu altar colocado no mesmíssimo local onde se encontrou o túmulo dos dois amantes.

Outra versão, partilhada pela mais antiga que nos chegou, adiciona um passo extra a esta história – ambos os amantes morreram, mas pelo menos um dos seus companheiros no barco foi posteriormente capturado por Mouros. Após muitas tribulações chegou a Portugal e anunciou ao Infante Dom Henrique a ilha que tinha visto; este enviou embarcações ao local, sendo a Madeira finalmente descoberta por navegadores de Portugal no ano de 1418.

 

Não sabemos onde acaba a ficção e começa a realidade nesta lenda de Machim e Ana D’Arfet, mas há aqui um facto muito claro – o nome de Machico, qualquer que tenha sido a sua origem, é invulgar na cultura portuguesa. Terá, portanto, tido uma origem incomum, e a hipótese de ter nascido por corrupção de algum nome estrangeiro, como o referido na lenda, é por isso válida. Não sabemos se completamente certa, é claro, mas pelo menos é uma hipótese credível e que poderá ser tida em conta por aqueles que buscam a causa desse estranho nome – e, na verdade, toda esta história já aparecia num relato que se atribui a Francisco Alcoforado, um dos navegadores da primeira viagem à Madeira, o que lhe dá uma ainda maior aparência de se ter baseado em alguns factos reais…

 

 

*- Outras versões, incluíndo a mais antiga que conseguimos encontrar (i.e. ainda do século XV), dá-lhes os nomes alternativos de Lionel Machim e Arabella Darcy.

Quem foi Viriato?

Já aqui falámos anteriormente de Viriato através de algumas das fontes primárias que o mencionam, mas quem for à procura da identidade real desta figura encontrará dois grandes polos de resposta, que não podem deixar de levar a uma interrogação ainda maior – afinal de contas, quem foi Viriato?

Quem foi Viriato?

Em Portugal esta figura parece ser essencialmente conhecida como um herói, um defensor da pátria, que se revoltou contra os (malvados?) Romanos, e que da sua vida de pastor se tornou um grande general, acabando depois por ser morto à traição por um dos seus próprios companheiros (Apiano até nos revela os seus nomes – Audax, Ditalco e Minurus, que cortaram a garganta ao herói enquanto este dormia). Mas se as fontes literárias que consultámos até confirmam parcialmente estas ideias, também nos deixam claro um elemento curioso – mais do que um herói, na maior parte das fontes a que temos acesso esta figura parece ter sido um bandido que se dedicava inicialmente ao assalto de gentes incautas. Poderia argumentar-se que essas potenciais “más línguas” se deviam ao facto de os Romanos quererem defender as suas próprias acções, mas em nenhum momento é dito que as acções desta figura ou dos seus companheiros se prendiam com a defesa honrosa e justificada dos locais em que viviam.

 

Então, de onde vem a ideia nacional de que Viriato foi um herói da pátria lusitana? Muito provavelmente do tempo de Salazar, em que surgiu uma necessidade de heroicizar muitas das figuras do passado nacional – por vezes até sem evidências concretas que o justificassem, como neste caso em particular!

Qual a origem dos Duendes?

Seria com todo o prazer deste mundo que hoje aqui divulgaríamos a origem dos duendes, aquelas criaturas mitológicas muito associadas à Península Ibérica, mas pouco se parece saber sobre ela. Se, por um lado, não lhes parece existir qualquer referência directa nos textos da Antiguidade – contrariamente ao que acontece com criaturas como as Fadas – por outro também fomos descobrindo algumas vagas referências à sua existência em textos pós-medievais, ao ponto de no século XVI ter existido legislação que anulava a venda de uma casa se o novo dono não tivesse sido informado que uma destas criaturas habitava no local. Por isso, o que sabemos sobre estas estranhas criaturas e a sua origem?

A origem dos duendes, será este verdadeiro?

Na imagem acima pode ser vista uma pequena criatura que foi identificada por alguém como um duende. O vídeo de onde foi retirada foi supostamente gravado na Argentina, sendo reproduzido aqui e acolá sem que se perceba muito bem de onde vem. Será outra falcatura como a de Teresa Fidalgo? É provável que sim, mas o mais interessante sobre este exemplo é a contínua popularidade desta criatura em países em que se fala o português e o espanhol. Pode, igualmente a título de exemplo, ser visto aqui também um caso profundamente insólito, vindo de terras do Brasil:

Nessa sequência, para se tentar apurar a origem dos duendes talvez seja melhor começar pelo que sabemos sobre eles nos dias de hoje. Dicionários como os da Priberam definem este nome como o de um “Espírito sobrenatural que se supunha fazer travessuras na casa que frequentava”, dando-lhe como uma espécie de sinónimo “fradinho-da-mão-furada” e “trasgo”, ambos definíveis como “entidades que usam os seus poderes para fazer travessuras”. Muito curiosamente, e apesar de actual, esta definição já parece ter alguns séculos, mostrando que a forma como esta criatura era imaginada se foi mantendo ao longo do tempo. Isto porque, em menções populares e obras literárias de outros tempos, as três criaturas surgem quase como sinónimos e estão quase sempre associadas a um espaço residencial, onde ora incomodam as pessoas com as suas traquinices (que raras vezes vão além de chatear alguém…), ora as recompensam por bondades que tenham realizado.

 

Que importância tem isto? Ao longo dos séculos esta visão horizontal dos duendes foi-se mantendo, e a forma como eles são imaginados hoje é quase igual àquela que já aparecia nas fontes literárias mais antigas que temos… o que nos permite teorizar, mas sem grandes certezas, que o seu apelo foi contínuo em virtude do facto de esta criatura habitar e se movimentar num espaço que pouco ou nada foi alterado ao longo tempo – o de nossa própria casa!

Se, caros leitores (ou leitoras, que o tempo não está para sexismos), vivem num local silencioso, certamente que já vos aconteceu acordarem a meio da noite e ouvirem alguns barulhos que não conseguem explicar. Também já vos terá acontecido, mesmo que vivam sem mais ninguém em vossa casa, terem a certeza que deixaram uma coisa num dado local, mas depois não a conseguirem encontrar… e essas coisas acontecem, segundo uma imaginação popular que se vai prolongando no tempo, em virtude da acção destas pequenas criaturas!

 

Mas… é apenas uma possibilidade. Só isso, porque não parecemos ter qualquer fonte literária da época que nos explique qual a origem dos duendes, sabendo apenas que eles parecem ter surgido nos meandros de uma sociedade pós-medieval muito envolvida num universo mágico de feiticeiras, demónios, aparições de santos e outras coisas que tais, que em alguns casos tiveram a sua génese em romances de cavalaria. Nesse contexto, e para os cidadãos da altura, a resposta a dúvidas existenciais tendia a ser no âmbito dessa mesma magia, e, como tal, é provável que tenham tido a necessidade de inventar, ou reinventar, uma criatura capaz de explicar o que de invulgar acontecia em suas próprias casas. E, depois, a ideia foi-se prolongando no tempo até à época em vivemos, em que os duendes parecem estar reduzidos a meras criaturas de fantasia e de desenhos animados, pelo menos até que alguém se lembre de proclamar, como em outros tempos do passado, que as coisas andam a desaparecer de uma qualquer casa porque algum duende as vai furtando…

A história de Beato Amadeu da Silva

Beato Amadeu da Silva poderia ter sido um religioso como tantos outros nascidos no nosso país, não fosse o facto de num determinado momento da sua vida se ter mudado para terras de Itália. Foi aí que ele se tornou particularmente famoso – foi viver para o mosteiro de San Pietro in Montorio, em Roma, e refugiou-se numa caverna próxima do local; se não conseguimos encontrar uma fotografia da própria caverna, pelo menos na imagem abaixo pode ser vista a igreja que numa dada altura esteve associada ao mosteiro em questão.

Igreja próxima de onde viveu Beato Amadeu da Silva

Ao viver então nessa caverna, Beato Amadeu da Silva decidiu seguir uma vida bastante austera, até que lhe foram surgindo um conjunto de oito revelações místicas. E foi sobre elas que escreveu a obra Apocalypsis Nova – algo como “A Nova Revelação”. Fomos lê-la parcialmente, e compreende-se bem o porquê de ter sido proibida pela Inquisição – se é uma obra bastante enfadonha para 99.999% dos possíveis leitores (o que nada tem de mal, nem seria motivo de censura), o seu grande problema passa pelo facto de conter muitas informações teológicas que não eram compatíveis com as da Igreja da época, a que o autor também adicionou algumas curiosas previsões do futuro, incluindo a vinda próxima de um misterioso e novo “Pastor”. Fora isto, sentimos que não há muito mais a dizer, hoje, sobre este religioso e a sua obra…

Mais uma história de Viriato

Esta história de Viriato [as anteriores estavam incluídas em artigos relativos aos livros em que foram surgindo] provém do breviário de Eutrópio:

 

About the same time Metellus had singular success against the Spaniards in Celtiberia. Quintus Pompeius succeeded him. Not long after Quintus Caepio was also sent to the same war, which a leader named Viriathus was still keeping up against the Romans in Lusitania; through fear of whom Viriathus was killed by his own men. after he had kept Spain in a state of excitement against the Romans for fourteen years. He was at first a shepherd, then captain of a band of robbers, and at last he stirred up so many powerful nations to war, that he was considered as the protector of Spain against the Romans. When his assassins asked a reward of the consul Caepio, they received for answer, that “it was never pleasing to the Romans, that a general should be killed by his own soldiers.”

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