A insólita história de Alberto Fargo

É provável que a maior parte dos portugueses nunca tenha ouvido falar de Alberto Fargo, pelo que a origem desta história é digna de ser contada aqui. Como parte deste espaço, e de alguns livros que fomos publicando ao longo do tempo, fomos sendo contactados ao longo dos anos para verificar algumas histórias relacionadas com Portugal. Os casos de Teresa Fidalgo e Vimara Peres são provavelmente os mais significativos, mas há alguns dias contactaram-nos em relação ao sujeito que dá título a este artigo.

Alberto Fargo, uma história insólita

Segundo nos foi dito, Alberto Fargo era, supostamente, um professor de tango que, em 1998, durante uma das suas lições de dança, estava a mostrar aos seus alunos um dado movimento, caiu pela janela de um quinto andar lisboeta e faleceu.

Uma história simples, parece, mas a razão porque nos contactaram passa pelo facto de, ao investigarem esta história, terem sido incapazes de encontrar qualquer fonte primária que atestasse a sua veracidade. Ou seja, esses jornalistas pura e simplesmente não conseguiam encontrar qualquer prova real da existência deste Alberto Fargo, ou de que a situação em questão, relatada em diversos livros anglófonos, tivesse de facto acontecido no nosso país. E há uma excelente razão para isso!

 

Como aconteceu no caso de Danny, o fantasma do Natal da África do Sul, esta história não é verdade.

Primeiro, “Fargo” não é um apelido português, mas algumas fontes consultadas dizem que ele era nativo do nosso país.

Segundo, não conseguimos encontrar qualquer referência a esta ocorrência num jornal nacional (a imagem acima é uma mera brincadeira, criada por IA). A mais antiga referência online que conseguimos encontrar, numa listagem de mortes insólitas, atribui a história a um suposto jornal Sunday Independant de Dublin, datado de 15 de Novembro de 1998, mas não só o título do jornal está parcialmente incorrecto nessa fonte, como a edição em questão não parece conter essa notícia.

E, em terceiro e último lugar, por evidentes razões de segurança os prédios em Portugal são construídos de forma a tornar um evento como este (quase) impossível, não existindo a possibilidade de abrir por completo uma janela de forma a que alguém simplesmente caísse da mesma por uma desatenção como a relatada na história.

 

De onde vem, então esta história de Alberto Fargo? Talvez tenha sido apenas inventada por aquela fonte online – ela ainda pode ser vista aqui – ou criada por alguém para tentar detectar quem plagia conteúdos. E, infelizmente, é um problema muito comum nos dias de hoje – as pessoas copiam informação de um e outro lado sem nunca a verificar, sem se interrogarem pelas verdadeiras fontes de alguma informação menos comum, e depois são enganadas.

 

No fundo, a história de Alberto Fargo é menos sobre um professor de tango e mais sobre a forma como as lendas modernas dançam entre nós: um passo dado por alguém num fórum obscuro, outro repetido num livro mal verificado, e de repente lá está – um mito urbano pronto a circular sem fim, como se fosse verdade. O verdadeiro perigo, claro, não está em acreditar num bailarino inexistente, mas em esquecermo-nos de dançar com o cepticismo. Porque, no mundo das histórias digitais, basta um clique para um rumor ganhar corpo… e cair pela janela da realidade.

A Bruxa da Arruda, uma figura (quase) esquecida

O tema de hoje não estava planeado, mas surgiu de uma referência a uma Bruxa d’Arruda numa conversa do dia-a-dia. Não é propriamente uma figura muito evocada nos nossos dias, excepto se viverem nas imediações de Arruda dos Vinhos, a cerca de 35 Km de Lisboa, mas há cerca de um século era uma figura muito conhecida em território nacional. Há quem diga que ainda é conhecida em terras do Brasil, juntamente com a Bruxa Évora e outras figuras semelhantes. Mas, na verdade, passado mais de uma centena de anos, o que ainda se sabe sobre ela?

A Bruxa da Arruda ou d'Arruda, uma figura (quase) esquecida

Infelizmente, a resposta não é tão prolífica como se poderia crer. Sabemos que esta figura existiu mesmo, porque ela foi mencionada em artigos de jornal e um médico que em dada altura escreveu a José Leite de Vasconcelos lhe menciona alguns dados biográficos. Chamava-se ela, em finais do século XIX e inícios do XX, Ana Loura (ou Loira), e chegou a ter 19 descendentes, cinco das quais parecem ter seguido as mesmas artes, de “curar gente e adivinhar coisas”. Isto se sabe ser mesmo verdade, mas o problema, como muitas vezes em situações desta natureza, é que depois se constroem muitas fantasias com base no que se sabe. Neste caso, por exemplo, diz-se então que esta Ana Loira era uma das mais recentes herdeiras de uma enorme sequência de bruxas, que data de tempos imemoriais… mas será mesmo verdade?

 

 

Duas grandes lendas lhe aparecem associadas – na primeira, diz-se que esta Bruxa da Arruda curou a filha de um médico de Setúbal. O pai não conseguiu fazê-lo, mas esta mulher, tomando para si a jovem durante três dias, fê-la jejuar, e depois… diz-se que lhe saiu uma espécie de cobra da boca, curando-a de uma vez por todas.

 

Uma outra lenda – porque, nestas coisas, os limites da verdade e da ficção nunca são fáceis de discernir – fala de outra jovem doente. Com a ajuda desta Bruxa d’Arruda, os pais dela conseguiram encontrar um sapo com uma boca cosida debaixo da cama, e quando o libertaram, a menina lá se curou, por “magia”.

 

 

O estranho destas duas histórias é que elas correspondem mais ou menos ao ideal de magia de finais do século XIX e inícios do XX, conforme pode ser visto em diversos outros livros. Isso pode dar a entender que estas histórias até têm, de facto, algum fundo de verdade, mas sem que isso o ateste por completo – na verdade, podem tratar-se apenas de criações por parte de pessoas que conheciam bem o imaginário da feitiçaria da época.

 

É neste sentido que encontrámos um livro digno de nota. Aparentemente publicado em inícios do século XX, uma obra de título Manual da Bruxa d’Arruda: Thesouro Precioso de Feiticeria nada revela sobre a figura que lhe deu título, mas é uma mera compilação da magia, como ela era pensada nessa altura. Contém sequências como as seguintes:

 

 

Para qualquer se tornar invisivel
Mata-se um gato todo preto. Coloca-se uma fava em cada olho, uma em cada ouvido e outra na boca e enterra-se o gato em sitio só conhecido da pessoa que faz esta operação.
Rega-se a terra de 15 em 15 dias. O gato, como é natural, apodrece, e as favas hão-de germinar e produzir cinco hastes que se deixam crescer, cultivando-as até que produzam. Colhe-se então uma fava de cada pé e guardam-se fechadas em uma caixa, durante 7 dias e 7 noites. Na última noite, ao dar meia-noite, collocai-vos defronte de um espelho e metei as 5 favas na boca, uma por cada vez. Quando virdes desaparecer a vossa figura do espelho, a fava que tiverdes na boca é a que tem a virtude de vos tornar invisível e que deveis guardar preciosamente. De cada vez que vos queirais tornar invisivel, metei essa fava na boca e pessoa alguma vos verá.

 

(…)

 

Receita para obrigar a mulher que nos pertence a dizer o que sentir
Obtém-se o coração de um pombo preto e a cabeça de um sapo. Colocam-se em uma vasilha de barro refractário e levam-se ao lume. Depois de consumidos pelo fogo, aproveitam-se as cinzas que se reduzem a pó, misturando lhes um pequenino grão de almiscar. Guarda-se tudo em um pequenino saco, que se coloca debaixo do travesseiro da pessoa que se deseja interrogar. Pouco tempo depois de ter adormecido, começará a falar. É então que se deve interrogar. Logo que tenha respondido, tira-se o saquinho e guarde-se.

 

 

 

Será que estas coisas funcionam? Não lhes encontrámos qualquer ligação real com as intenções da Bruxa da Arruda em “curar gente e adivinhar coisas”, até por se tratarem de exemplos de magia negra – note-se a necessidade de causar a morte a animais – sugerindo um reaproveitamento da fama do nome desta figura arrudense. É uma prática que talvez, nessa altura, ainda não fosse ilegal, mas que hoje poderia constituir uma violação de marca registada.

 

 

Outra obra, Guia Prático da Bruxa D’Arruda, é muito mais recente (acedemos-lhe numa reimpressão de 2019), e apresenta uma compilação de provérbios, rezas e ideias populares associadas à magia, que foram sendo compiladas por Catarina Gaspar, Jorge da Cunha e Paulo Câmara. É uma obra interessante, que num dos primeiros capítulos até fala um pouco da tal bruxa, mas nada de substantivo conta sobre ela, assim também reaproveitando o nome… mas aqui talvez de uma forma um pouco mais legítima, já que o livro, em si, foi editado pelo Município de Arruda dos Vinhos, nas proximidades de onde se diz que esta senhora vivia.

 

 

Mas então, o que se sabe, verdadeiramente, sobre esta Bruxa da Arruda? Muito pouco, quase nada, como demonstrado pelo facto de mesmo obras que ainda portam o seu nome quase nada nos informarem sobre ela. Ela existiu, sem quaisquer dúvidas, mas é provável que nunca ninguém tenha tentado saber muito sobre o seu passado, como ainda hoje acontece no caso de figuras como o Bruxo de Fafe. Quem não acredita nelas nunca se dá ao trabalho de as estudar, quem nelas acredita nunca as questiona, e portanto… Apesar de quase esquecida, a figura da Bruxa d’Arruda faz parte de um património imaterial português, que importa resgatar para não seja completamente perdida.

 

 

P.S.- Posteriormente, encontrámos uma breve mas significativa referência a esta mesma figura em A Villa da Ericeira, de G. Pereira, obra datada de 1905. Diz o seguinte:

 

 

“A bruxa da Arruda, —A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos ouros. Tem uma filha que já entende de moléstias. Em geral leva 300 reis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calor, e no sítio do corpo. Ouvi também chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos. Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ela pelo cheiro conhece a moléstia e logo receita. Costuma pousar numa casa do norte da vila, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venera e teme.Já teve questões com padres e médicos, já foi aos tribunais, me disse alguém, e ficou sempre victoriosa!”

 

O segredo do Bairro Estrela d’Ouro, em Lisboa

No coração da Lisboa antiga, onde o casario sobe pelas colinas e as ruas ainda guardam segredos de pedra, existe um bairro que carrega no nome e na memória um brilho especial: o Bairro Estrela d’Ouro. É um lugar que parece condensar, num pequeno quarteirão, histórias de cinema, de arquitetura operária e até de símbolos escondidos na calçada. Um lugar onde a lenda se mistura com a história documentada, convidando quem passa a olhar para cima… e para baixo.

 

 

Entre as suas memórias mais faladas, está o Royal Cine, alegadamente o cinema lisboeta onde foi exibido o primeiro filme sonoro em Portugal. A estreia desse tipo de projeção, na época, foi um acontecimento — o som no ecrã transformou para sempre a forma como o público vivia o cinema. Hoje, quem se dirigir ao número 106 da Rua da Graça já não encontrará filas para sessões noturnas, mas sim um supermercado Pingo Doce. As cortinas fecharam-se há décadas, mas ficaram histórias e rumores. Há quem diga que, durante muito tempo e até quase aos nossos dias, ainda se podiam aceder no edifício ás casas de banho originais, com quase 90 anos. Verdade ou lenda urbana? Ninguém nos conseguiu confirmar, mas o mistério só acrescenta encanto.

O segredo do Bairro Estrela d'Ouro

Seja como for, há um detalhe que resiste ao tempo: no topo do edifício ainda se ergue uma grande estrela, símbolo pessoal de Agapito da Serra Fernandes. No início do século XX, este industrial visionário construiu aqui um bairro para os seus operários, oferecendo-lhes habitação digna, num tempo em que isso não era prática comum. A Estrela d’Ouro tornou-se, assim, não só um emblema arquitetónico, mas também um testemunho de um certo espírito comunitário que marcava a Lisboa de outros tempos.

 

 

Para quem gosta de explorar, o bairro esconde ainda um percurso curioso. Na Rua Josefa Maria, incrustadas na calçada, podem encontrar-se pequenas estrelas de pedra negra. Algumas já quase se perderam com os anos, mas outras mantêm-se intactas. Segui-las é como seguir um mapa secreto: no fim do caminho, elas conduzem até à antiga residência de Agapito. A casa é imponente e, até certo ponto, contrasta com a simplicidade das belas moradias que ele construiu para os operários — um contraste que também conta uma história. Infelizmente, não é possível entrar; o porteiro, apesar de simpático para connosco, quando fomos ao local, deixou claro que a visita não é autorizada.

 

Mesmo sem entrar, passear pelo Bairro Estrela d’Ouro é como caminhar por uma pequena aldeia escondida no meio da metrópole. As casas, muitas delas preservadas, conservam uma tipologia peculiar: fachadas simples mas elegantes, pátios interiores, e aquela sensação de vizinhança que, noutras zonas, já se perdeu. É um pedaço de Lisboa que sobreviveu ao avanço do turismo em massa, mantendo um caráter genuíno e uma história para contar.

 

 

Talvez seja isso que torna este bairro tão especial: a forma como junta factos e mitos, memórias e pedras, brilho e simplicidade. No fim, fica a pergunta: será que a estrela ainda brilha para quem sabe procurá-la? Só há uma maneira de descobrir — seguir o seu rasto pelas ruas de Lisboa.

Luís de La Penha: A Morte pela Reincidência, Não pela Bruxaria

Já aqui anteriormente falámos sobre Luís de La Penha, em particular quando sugerimos uma possível associação à chamada “Bruxa Évora“. Porém, ele também pode ser brevemente (re-)apresentado nestas linhas como o mais famoso de todas as figuras relacionadas com a bruxaria e feitiçaria que já viveu em terras de Portugal (o chamado “Bruxo de Fafe” teria de ficar, pelo menos, em terceiro ou quarto lugar). E, de facto, foi até ele – aparentemente – o único praticante destas artes que alguma vez foi condenado à morte no nosso país nos tempos da Inquisição. Infelizmente, o seu processo legal é demasiado longo para ser apresentado aqui de uma forma breve – tem mais de 1100 páginas – mas podemos apresentar aqui a sua sentença numa forma quase completa:

Luís de La Penha face à Inquisição

Acordam os Inquisidores, porque se mostra, que sendo não benzido, obrigado a se benzer, e que tal ensina a Santa Igreja de Roma, ele o fez pelo contrário. Se prova que de doze anos a essa parte, [?] por arte do demónio, e benzia os enfermos, dizendo acções e palavras em voz baixa, de modo que se não podiam ouvir, e tinha um livro de quiromancia, por qual vendo a mão a muitas pessoas, dizia que adivinhava coisas que estavam por vi, e não podiam ser sabidas senão pela mesma arte do demónio, como foram as mortes de algumas pessoas, e perigos que a coisas haviam de acontecer, e outras coisas, que sucederam tão longe dessa cidade, que naturalmente não podia sabê-las no tempo que as dizia. E tinha muitos papéis [?] de sua letra, nos quais se continham invocações do demónio, sortes para adivinhar, caracteres incógnitos, e muitas orações supersticiosas, e coisas tocantes à danada arte de magia, ou feitiçaria. E tinha muitas cartas de tocar, as quais dizia, que se havia de meter debaixo da pedra de ara, e sobre elas mandar dizer missas, e no tempo que se diziam, saindo-se do corpo, haviam de invocar a Satanás e Barrabás, dizendo mais que lhe haviam de dar sem sangue, jurando-lhe as vozes, e juntamente com os nomes do demónio invocar os nomes de Deus [?], e da Virgem N[ossa] S[enhora], das quais o réu usou, e as deu a muitas pessoas, e fez muitas vezes as sortes das favas, da tesoura, da farinha, e do pão, com invocações, e palavras supersticiosas, para saber e adivinhar o que queriam e lhe perguntavam. E sendo ensinado por certa pessoa, fez por muitas vezes uma devoção para invocar o demónio, e em uma noite estava fazendo, lhe apareceu uma visão negra, em figura de mulher, que o assombrou, e o réu caiu em cima sem lhe falar coisa alguma, e na noite seguinte, estando deitado em sua cama, ouviu uma vez, sem ver cuja era, que lhe disse o seguinte – “eu sou o espírito que te apareceu, e te digo que se quiseres adivinhar tudo quanto de perguntarem, hás-de deitar três pedras em meu nome em um poço, e quando elas saírem dele, e as tornares a ver na tua mão, então não adivinharás.”

 

[página 2]

 

Dizendo-lhe mais, que se lhe não deitasse as pedras no polo, o havia de atormentar, pois espera a dita devoção. E que dissesse sempre que adivinhava por ordem de Deus, e não desse diabo que isto lhe dizia, e que o não confessasse aos confessores, porque o não absolviam. E ele deitou as pedras no poço em sinal do pacto, e concerto que com o demónio fez, no qual o mesmo demónio lhe prometeu que lhe faria tudo o que o mesmo demónio lhe pedisse, assim de adivinhar as coisas futuras, como as que tinham acontecido longe, e que se não pudesse ainda saber, e faria vir pessoas de longe em breve espaço de tempo, e que o faria grande profeta, e andaria todo o mundo após ele, e que creriam que o que dissesse, e fizesse, era por virtude divina, e que esse demónio se chamava Asmodeus, e o réu lhe prometeu que o veneraria dali por diante. O demónio lhe disse mais, que quando quisesse saber alguma coisa, nas noites de terças e quartas feiras, se deitasse na cama de bruços com as mãos, e pés em cruz, e estando assim, chamasse ao demónio que lhe tinha aparecido na figura negra de mulher, e que ele apareceria, e se revelaria tudo o que quisesse saber, e que quando ele queria saber algumas coisas, que se não podiam alcançar por meios humanos, se punha na tal forma de bruços, e os braços em cruz, e invocava o demónio, dizendo “eu te conjuro da parte de Barrabás, Santanás, Caifás e Lucífer, que tu me apareceste em figura de mulher negra, me apareças aqui, e digas o que te quero perguntar”, e feita essa invocação, se tinha candeia, lhe apareceria algumas vezes uma figura de mulher formosa, e outras de anjo, e se estava às escuras, não via figura, e lhe dizia à orelha o que lhe perguntava, e queria fazer, como eram as doenças que algumas pessoas tinham, se eram causadas de feitiços, ou não, e onde estavam os feitiços, e como os curaria. E por essa [?] do demónio, adivinhava o que queria, dizendo sempre que sabia as tais coisas por ordem de Deus. E que por outra vez, lhe apareceu o mesmo demónio, e lhe dissera que se queria por amor dele fizesse o que lhe tinha prometido, ele se havia de sair meia légoa fora da dita cidade, e se havia de sentir em uma parte de seu corpo, o derramar algum sangue, lançando-o em uma cova na terra, e oferecer-lho a esse demónio,e seria em final de pacto de familiaridade, que ficaria entre ambos, pelo qual o demónio seria obrigado a fazer o que ele lhe quisesse, e que renegasse da fé de Jesus Cristo o Salvador,

 

[página 3]

 

E se apartasse dela, e renunciasse o baptismo, e não cresse nos mistérios da missa, e que cresse nesse demónio, e o venerasse como a Deus, pondo-se de joelhos diante dele. O que, persuadido ele, réu, do que o demónio lhe disse, o prometeu, se saiu para outro lugar, fora dessa cidade, onde o demónio lhe apareceu em figura de anjo resplandecente, em sua presença, com uma faca, se feriu no dedo mínimo da mão esquerda, e tirou sangue, e o enterrou em uma cova em final do pacto, e se pôs de joelhos diante do demónio, e disse que renegava de N. S. [?] e renunciava a água do baptismo, que tinha recebido, e os mistérios da missa, e que cria nesse demónio, e o tinha e venerava como a Deus, e em seu coração se apartou de N.S.J.C. E fiou logo vendo no demónio, adorando-o, e venerando-o como a Deus, e renunciou a água do baptismo, e mistérios da missa, e vendo que o demónio lhe poderia fazer tudo o que quisesse, e por sua honra e veneração, queimou alecrim, incenso, e outros perfumes, e em virtude destes pactos, que com o demónio fez, o invicou muitas vezes, e ele lhe apareceu, e dizia as coisas que pretendia saber, e adivinhar, e teve com ele familiaridade, e pacto expresso, por muito tempo, e deixava de ir às igreas, por comprazer ao demónio, e cumprir o que lhe tinha prometido, e também por estar apartado da fé de Jesus Cristo Nosso Senhor. E não confessava esses erros a seus confessores, por o demónio lhe dizer [que] os não confessasse, a qual crença e erros lhe duraram até fazer sua confissão na mesa deste ofício. E tudo visto com o mais que dos autos consta, declarava que o [?] foi herege, apóstata de N. S.J. Cristo, e como tal incorreu em sentença de excomunhão maior, e em confiscação de todos seus bens aplicados o fisco, e e câmara real [?], como usando a [?] confessou suas culpas e recebeu o [?] a prémio de união ou que lhe mandava o anjo da fé, na forma costumada de abjuração, em forma cárcere de hábito perpétuo, absolvido da exomunhão.

 

 

[Assinatura]

 

 

Depois tornou esse réu a desprezo na mesma Inquisição, por semelhantes culpas, das quais confessou algumas, e neste segundo lapso se tomou o assento seguinte:

 

[Página 4]

 

Assento do segundo lapso de Luís de La Penha

 

 

Foram lidos na mesma desta Inquisição aos tantos e tal mês e ano, esses autos do segundo lapso, e as culpas, e confissões, de Luís de La Penha, que fez o mourisco desta cidade, neles concluído, esse viram outros os anos do segundo lapso, e as confissões que nele fez, [?] e abjuração que fez em forma por virtude da Santa Igreja domingo tantos de tal mês. E pareceu a todos os nossos, que assim da prova da Inquisição, como da confissão do réu, consta invocar ele o demónio depois de sua abjuração, pois assim o depõem as três [?] que parece que concordam nas invocações que pôs no eirado das casas do [?] que concorda com a mesma [?] nas invocações, que fez em casa de [?], que concorda com os [?], e todos dizem que viam sombras, e [?] que devia ser o efeito da invocação, [?] que o não tivesse dar-lhe [?] e haver o que levavam. E assim mais destas [?] e de outras consta curar o [?] de feitiços, fazer sortes para adivinhar, e outras coisas das ordenadas para a invocação do diabo, e ofereceu-lhe virgindades, e o demónio vestido de negro, disse-lhe tudo e do mais dos outros parece, ser ele [?] suspeito de o adornar, e ter ainda por Deus, como confessou antes da sua abjuração. E estando apartado da Santa Igreja, e cometer as muitas culpas, agravando os primeiros erros, pois foram os mesmos deste segundo processo. E que o não desculpa dizer em sua confissão, que [?] as tais invocações, e mais coisas, estando bêbado, e com medo das ditas pessoas lhe fizessem, porque não prova essa qualidade das confissões, antes se mostra o contrário do muito tempo que por se ver ou a fazer, e [?] os outros tantas vezes, indo a casa destas por sua livre vontade, e o medo que diz que teve em casa de H., e se lhe fez, foi depois de na [?] o casar-lhe a filha. E o mesmo foi da ferida que H lhe fez na cabeça, queixando-se que os havia enganados, além do que o réu confessa coagidos os [?], de [?] depõem, e assim mais da cabra, que pareceu no que mostra, que elas lhe não impõem as culpas falsamente, e se mostra destas invocações, e mais coisas. A suspeito [?], como assim se diz, e como tal incorre na culpa e relapsia destes erros, conforme a mais [?], e provável opinião dos doutores, e como tal deve por

 

[Página 5]

 

havido, o que como herege consistente, relapso, [?] fosse entregue à Justiça Secular, servatis servandis, o que incorreu com sua excomunhão maior, e em pena de confiscação de seus bens para o fisco, ou câmara real, e nas mais penas com direito contra as [?] estabelecidas, visto ou [?], como se não mostra coisa, que desculpe da sua pena, por haver sido preso legitimamente, por prova que para isso tenha, e ele é homem de bom entendimento, e fez a confissão sabendo muito bem que havia sido reconciliado, nas [?] de fé [?] por esse assento, seja levado com os processos ao [?], na forma do regimento [?]

 

 

Sentença de relapsia

 

 

Acordam os Inquisidores em referência às culpas do processo, contidas nas [?] que fica atrás, pelas quais culpas foi o réu declarado por herege, e apóstata de nossa santa fé católica, e como tal, incorre em [?] de excomunhão maior, e em pena de confiscação de todos os seus bens, para o fisco e câmara real, e nas mais em direito contra o semelhantes estabelecidas. E porque o réu pediu perdão das santas culpas com mostras e sinais de arrependimento, [?] dizer daí em diante verdadeiro cristão, parecendo que estava verdadeiramente convertido à nossa santa fé católica, usando com ele da misericórdia, que a igreja costuma dar aos que a ela se convertem, foi recebido a uma reconciliação da mesma igreja com cárcere e hábito perpétuo no Auto de Fé que se celebrou na praça dessa cidade domingo, tantos e tal mês do ano, onde publicamente fez abjuração em forma, e prometeu com juramento de nunca em algum tempo reincidir nas ditas culpas, nem em outra alguma de heresia, e apostaria, sujeitando-se em tudo ao rigor dos sagrados cânones, e foi instruídos nas coisas da fé, necessárias para salvação de sua alma, e absolvido da excomunhão em que havia incorrido, e lhe foram impostas penitências espirituais; E porque depois de passar o sobredito, foi o autor denunciado na mesma deste ofício, por [?], que esquecido de sua obrigação e do que tinha prometido com juramento, tornava a cair nas mesmas culpas de se tornar e sujeitar ao demónio seu familiar

 

[Página 6]

 

que dizia chamar-se Asmodeus, invocando e esconjurando com palavras que lhe dizia, usando de caracteres, círculos, em que se deitava de braços estendido em cruz, fizendo que lhe daria parte de seu sangue, oferecendo-lhe pessoas para fazerem pacto com ele, e virgindades de moças donzelas para [?]; E o dito familiar aparecia a ele réu, em vultos extraordinário de homens, mulheres, cabra, e outras figuras, aosque também viram algumas [?] pessoas, que o acompanhavam, e assim mais usava de fontes e servedores para adivinhar coisas ocultas, que naturalmente se não podiam saber, e fazer vir pessoas de lugares remotos, para se efectuarem casamentos, que se pretendiam, e para outros efeitos, pelas quais culpas foi preso segunda vez nos cárceres do Santo Ofício, e pedindo na mesa dele audiência, confessou que invocava por muitas vezes o dito Asmodeus, e outros demónios, para o efeito de curar enfermidades, e outros feitiços [?], que dizia estavam enfeitiçadas, e se achar [?], dizendo que o fazia por virtudade divina e ciência infusa que tinha. E guardados os termos de direito, e estilo deste ofício, se processou com sua causa até final conclusão.

 

 

O [?], e bem examinado, bem como assim esta prova, e [?] notificadas, como pela própria confissão do mesmo autor judicialmente recebida, se mostra que ele réu, depois da sua abjuração, tornou a reinicidr nos mesmos erros, que tinha abjurado, com o mais, que dos autos consta, sendo somente [?] diante dos olhos, a inegável vontade da fé, e a [?] dos hereges, per nomine invocato, julgam o [?] ao réu Luís de La Penha, por [?] relapso, convito e confesso no crime de heresia, e apostasia, e por tal o declaram, e que incorreu em [?] maior, e confiscação de todos seus bens aplicados para o fisco, e câmara real, e nas mais penas em [?] contra os semelhantes estabelecidas; O [?] mais que fazer, por usar mal da misericórdia, que no primeiro lapso lhe foi concedida, e se fazer indigno dessa, [?] o zelaram à Justiça Secular, a que pedem com muita circunstância se haja com ele benigna e piedosamente.

 

 

 

Agora, o que esta história tem de particular interesse é que nos permite compreender o porquê de ele ter sido condenado à morte – isso aconteceu não pela sua associação à bruxaria ou feitiçaria, mas porque num primeiro momento ele se pareceu arrepender do que andava a fazer, acabou por ser perdoado pelos seus actos, e depois voltou a insistir nos mesmos. Isto pode ser contrastado com outras figuras que também passaram pela Inquisição no nosso país – elas foram acusadas, admoestadas, e não tornaram a repetir os seus actos. Se Luís de La Penha foi morto, foi-o pela repetição dos seus actos, e não por andar em bruxarias e feitiços…

 

 

Outro elemento interessante deste processo de Luís de La Penha é que ele nos preservou, em folhas infelizmente (hoje) já bastante danificadas, alguns dos feitiços que ele utilizava no seu trabalho. Nunca os vimos publicados de forma completa em lado nenhum (mas já aqui mostrámos alguns), pelo que podemos aqui apresentar mais um, a título de pura curiosidade:

 

 

fazer uma figura de mulher onde homem

 

em um joelho novo furtado com tinta no-

 

va posta em tinteiro novo e com pena nova.

 

Então fazer a figura e em cada leva

 

estes nomes escritos: “Zuba chaim”. E na testa leva

 

este nome escrito “Biball” e na barriga “Asmo-

 

deus” e aos pés o nome da tal pessoa e de sua mãe,

 

sendo mulher, e sendo homem o da tal pessoa cada

 

seu pai então formar tudo com esta [?] em

 

nome das tais pessoas que quiserem fazer o que qui-

 

serem e então fazei [?] com [?]

 

[?] pessoas só de meter

 

o [?] para o fogo da [?] em digo que há-de [?]

 

a imagem com o rosto para o fogo e dirão três vezes

 

o seguinte “conjuro os espíritos infernais que

 

escritos estais nesta imagem por deus que dize

 

e foi feito pelo temeroso dia de juízo que uma

 

fulana, filha de fulana ou fulano, filho de fu-

 

lano, [?] e por meu amor amor o peido

 

e o [?] lhe aquietais que não possam des-

 

cansar nem nem o outra coisa fazer até que venham

 

A fazer tudo o que eu quiser, dizendo tudo

 

o que querem que lhe façam e há-de ser feito

 

Isto aqui na quinta[?] ou sexta se for [?]

 

[?] feito na hora de Júpiter e se acerta na hora

 

de Vénus e há-de ser em a lua crescente.

 

Farão isto duas outras vezes com mais segredo.

 

 

Assinatura de Luís de La Penha

 

Este parece ser uma espécie de feitiço de amor, com contornos semelhantes ao que alguns séculos mais tarde se pôde encontrar no Livro de São Cipriano, mostrando que a tradição mágica nacional se parece ter mantido relativamente estável ao longo dos séculos, tanto nas figuras demoníacas e divinas que vai evocando, como na sua associação aos astros celestes.

 

 

A história de Luís de La Penha convida-nos então a repensar os limites entre fé, superstição e justiça num Portugal do século XVII, onde os pactos com demónios podiam condenar, não apenas pela crença, mas pela reincidência. Foi essa reincidência, esse seu desinteresse em emendar o que fazia, e não propriamente a bruxaria ou feitiçaria em si mesmas, que o conduziu à fogueira — e hoje, apesar disso, o seu nome é em Portugal quase apenas murmurado na cidade de Évora, estando ele esquecido no resto do nosso país.

A lenda do Cunhal das Bolas (e a da Casa dos Bicos)

Na cidade de Lisboa podem, ainda hoje, ser encontrados grandes mistérios, e o chamado Cunhal das Bolas continua a ser um deles. Se calhar até já lá passaram antes, sem ligar muito ao local, mas na intersecção da Travessa da Água da Flor com a Rua da Rosa, no Bairro Alto, pode ser encontrado um canto de um antigo palácio que tem uma forma muitíssimo singular:

Lenda do Cunhal das Bolas

Sobre este local, sabe-se apenas que esse suposto palácio terá sido construído no século XVI, mas não nos parece ter chegado qualquer espécie de fonte que explique o porquê da singular forma deste chamado “Cunhal das Bolas”, por se tratar de um ângulo formado pelas duas paredes exteriores do edifício, e por ter a notável decoração composta por umas pequenas bolas. Agora, felizmente este é um espaço sobre mitos e lendas, e não sobre história ou arquitectura, ou não haveria aqui muito mais de conclusivo a dizer, por muito que o quisessemos. Portanto, o que nos importa aqui é mesmo a lenda do local, e esta, na sua forma muito breve, diz-nos algo tão inesperado quanto curioso… que só pode ser totalmente compreendido tendo em conta uma outra lenda lisboeta!

 

 

A lenda da Casa dos Bicos

 

O espaço que em Lisboa é hoje conhecido com o nome de “Casa dos Bicos” já foi muitas coisas diferentes ao longo da sua história, sendo actualmente a sede da Fundação José Saramago. Conta-se então que este local, construído na primeira metade do século XVI, foi-o com base nos grandes palácios do Renascimento Italiano, que o seu possuidor encontrou nas suas viagens…

 

Diz então a mais famosa lenda do local que o seu primeiro possuidor era uma pessoa tão, mas tão rica, que além de ter mandado construir esta casa com o invulgar aspecto que ainda tem, e que lhe vale o nome de Casa dos Bicos, mandou originalmente colocar em cada um desses locais pontiaguados um verdadeiro diamante. O que lhes aconteceu depois é algo com que a lenda não se preocupa, mas pelo menos poderia supor-se que todas essas antigas riquezas se perderam aquando do Terramoto de 1755. A acreditar-se na verdade por detrás desta lenda, ninguém parece até hoje ter encontrado um dos supostos “diamantes”, apesar do local também ser conhecido, com menos frequência, pelo nome de Casa dos Diamantes…

 

 

A lenda do Cunhal das Bolas

 

Contada então a breve lenda anterior, esta do Cunhal das Bolas acrescenta-lhe algo. Conta-nos que quando no século XVI essa casa anterior foi construída, um Judeu que habitava na cidade de Lisboa (presume-se que depois do Massacre de 1506) quis fazer algo ainda mais impressionante para si e para os seus. Então, não só mandou construir este palácio no Bairro Alto, como também mandou forrar o seu exterior com as “bolas” que ainda podem ser vistas neste canto. O que até pode parecer pouco impressionante, não fosse o facto de se alegar que cada uma destas bolas estava, nessa altura, coberta do mais puro ouro. Também aqui se pode supor que isso tenha desaparecido em 1755, mas… pelo menos de um ponto de vista lendário, o que aquele Judeu sem nome quis fazer acabou por se cumprir, e o local em que esta parede ainda hoje se insere continua a ser conhecido pelo nome de Cunhal das Bolas.

 

 

Serão ambas estas histórias puras lendas? Será que a Casa dos Bicos e o antigo Palácio do Cunhal das Bolas foram um dia assim tão ricos como se dizia em outros tempos? A falta de provas reais dessa grande riqueza original sugerem o contrário, que isto é apenas e somente uma história sem um fundo de verdade, mas o mistério por detrás deste antigo canto de um palácio mantém-se até aos dias de hoje, sem que se saiba verdadeiramente o porquê da sua origem real…