A lenda da Zorra Berradeira

A Zorra Berradeira, também conhecida como Zorra de Odelouca (em virtude de um local em que se pensava que ela vivia), é uma espécie de criatura mitológica nacional famosa em terras do Algarve. Nem sempre é muito clara qual era a sua forma física, que parece divergir consideravelmente nas versões consultadas, mas considerando somente o seu nome podemos ser levados a acreditar que ela era uma espécie de raposa velha com poderes mágicos misteriosos e/ou capaz de adoptar diversas formas. Porém, o que torna esta lenda particularmente interessante é o facto de existirem várias versões da lenda que nos contam a sua origem!

A lenda da Zorra Berradeira ou de Odelouca

Nesse seguimento, uma primeira versão da origem desta Zorra Berradeira diz apenas que ela é um espírito demoníaco. Uma segunda, que a liga às Mouras Encantadas, diz que originalmente ela era uma jovem moura, mas acabando por ofender tanto Cristãos como Muçulmanos (de uma forma que não é totalmente clara), por punição divina foi transformada nesta criatura. Já uma terceira, e provavelmente a mais famosa de todas elas, diz que se tratou de um ser humano que fez muitos actos maus na sua vida, sem nunca mostrar qualquer espécie de arrependimento, entre eles o de mudar os limites dos terrenos (que em outros tempos eram assinalados com pedras especiais e, como tal, relativamente fáceis de alterar).

 

Mas qualquer que tenha sido a sua origem, a Zorra Berradeira era uma criatura temível, que no mínimo dos mínimos enloquecia quem tivesse ouvido os seus gritos, e em pior caso até lhes causava a própria morte. E, de facto, nem sequer encontrámos qualquer registo de alguém que a tenha defrontado com sucesso ou derrotado. Será que ainda habita por terras do Algarve, na região da Ribeira de Odelouca? Caso algum leitor seja da zona em questão e já a tiver ouvido, por favor deixe ali em baixo o seu testemunho – tentar vale sempre a pena!

 

Um último ponto… acreditando que esta Zorra de Odelouca já era, originalmente, uma espécie de raposa, ela tem diversos elementos em comum com criaturas como a Huli Jing chinesa. Seria intencional? Será que a história desta criatura veio de terras do Oriente para Portugal, algures no tempo dos Descobrimentos? Nunca vimos qualquer estudo sobre o tema, mas para quem tiver mais paciência seria interessante estudar-se a origem desta lenda; é, contudo, provável que se trate de uma história oral, com raízes já há muito perdidas, e portanto até poderá ser muitíssimo difícil concluir algo sobre a sua verdadeira génese, podendo esta espécie de obsessão com as raposas tratar-se apenas de uma coincidência derivada da forma quase mágica como tendem a desaparecer, de uma forma quase mágica, nos muitos locais onde vivem…

Jacaré Bangão, uma lenda angolana

A história ou lenda do Jacaré Bangão não é muito longa, mas parece ter um significado importante para o povo de Angola, que até erigiu uma estátua a este episódio – naturalmente lendário, como a história abaixo muito facilmente provará – na província de Bengo.

A lenda do Jacaré Bangão

Então, quem é o Jacaré Bangão, tão desconhecido em terras de Portugal, mesmo para aqueles que têm ascendência angolana? Conta-se que em outros tempos Angola estava tão repleta de impostos que as pessoas começaram a ficar mais e mais insatisfeitas com toda a situação, ao ponto de um jacaré local ter sentido que também ele os devia pagar. Mas, depois, quando saiu do rio e se dirigiu ao local em que se pagavam os impostos nessa altura, o administrativo que tomava conta dessa tarefa, que até era um cidadão de Portugal, ficou tão intimidado com a presença do animal que fugiu logo do seu posto de trabalho, talvez até para nunca mais voltar.

 

Outras versões da lenda adicionam mais ou menos detalhes a esta trama basilar (uma das versões mais intrigantes que encontrámos refere que este animal era, na verdade, um cidadão angolano transformado pelo poder da magia), mas – e como a estátua acima parece demonstrar – o Jacaré Bangão ficou uma espécie de símbolo da luta angolana contra a gestão dos Portugueses, que se foi prolongando até 1975. Talvez seja até esse facto que melhor explica a representação acima, em que o povo parece levantar e aclamar o animal como um verdadeiro herói da pátria, pelo facto de este ter, de uma forma simbólica e lendária, afastado aquele que era visto como um ocupante colonial que tanto agrilhoava os cidadãos da região com um conjunto de impostos que lhes pareciam cada vez mais infindáveis e intoleráveis. Recordamo-lo hoje para que os seus “feitos” em outros tempos não sejam esquecidos…

A lenda da Peninha (em Sintra)

Se já cá aludimos anteriormente a esta lenda da Peninha, em Sintra, quando falámos de locais como a Ermida de São Saturnino ou a Anta de Adrenunes, entre outros temas, só hoje sentimos a necessidade de a contar por cá. Isto porque, fazendo recentemente um binge-watch dos antigos programas de José Hermano Saraiva, notámos que também ele já tinha falado de muitas das lendas nacionais que aqui abordámos anteriormente. Assim, poderíamos estar correr o erro de “chover no molhado”, de falar de coisas para as quais já existem uma infinidade de relatos. Portanto, se falamos aqui hoje desta lenda, não é apenas para a recordar, mas mais que tudo para lhe adicionar alguns elementos que, aparentemente, já quase ninguém parece saber.

A lenda da Peninha

Nas imagens acima pode ser visto o sintrense Santuário da Peninha em dois momentos da sua história. Do lado esquerdo, o local tal como era no século XIX, e do lado direito o mesmo espaço como pode ser visto hoje, no início da terceira década do século XXI. Quase que apetece jogar às diferenças com as duas imagens, tão repletas de elementos que as aproximam e as afastam, mas no cume deste pequena penha – ou “penhinha”, posteriormente “peninha”, o que deu nome ao local – ainda existe uma belíssima capela que data de inícios do século XVIII. E é também mais ou menos dessa altura – fazendo fé no Santuário Mariano de Frei Agostinho de Santa Maria – que nos chegou preservada a lenda por detrás deste recanto religioso.

 

Conta-nos ela que num data cujo tempo já esqueceu uma pastora andava por estes locais. Parece que era muda, no início, mas uma estranha ocorrência depressa a curou – ela encontrou uma misteriosa senhora neste penedos, que a instou a ir para casa e a pedir pão à sua mãe. A jovem sabia que, fruto da pobreza familiar, não havia qualquer pão em sua casa, mas quando seguiu o pedido da bela dama acabou por encontrar, miraculosamente, o alimento que foi instada a procurar. Posteriormente, ela levou mais gente ao local em que tinha encontrado esta enigmática dama; não a conseguiram reencontrar, mas viram, isso sim, foi uma imagem de Nossa Senhora dentro de um espaço que ora aparece definido como uma lapa, ora como uma caverna. Por três vezes levaram a estatueta para São Saturnino, a escassos metros de distância, por três vezes ela regressou à lapa/caverna, até que decidiram construir o chamado “Santuário da Peninha” no local de todo este milagre.

 

Assim se conta a lenda da Peninha, com mais ou menos detalhes. É provável que já a tenham lido ou ouvido em outros sítios, é uma famosa lenda da zona de Sintra, mas quem quiser prestar mais atenção à história encontrará um problema, que é a referência a uma lapa ou caverna como o local de origem de uma imagem miraculosa que recebeu o nome de Nossa Senhora da Peninha. Onde está esse local? Será que ele até existe, ou é mera ficção da lenda?

A lapa e caverna da Peninha

Fomos então procurá-lo e encontrámos tanto uma lapa como uma caverna na Peninha, o que poderá ter contribuído para a confusão presente nas versões do relato lendário. Em ambos os casos, por razões de segurança não achámos prudente explorar todo o seu interior, mas isto comprova que os locais mencionados na lenda existem mesmo, dando validade a toda a história e à ideia de que o santuário foi construído, de facto, neste local por aí existir pelo menos um espaço como o referido na narrativa, onde se dizia que outrora apareceu uma imagem miraculosa da mãe de Cristo.

 

Face ao perigo, ao difícil acesso e ao facto dos locais estarem hoje com algum de lixo, desaconselhamos veemente todos aqueles que queiram tentar entrar nesta lapa e na caverna, mas o próprio Santuário da Peninha, já esse, tem um panoramo belo e, se o encontrarem aberto – o que é raro – a capela local é verdadeiramente digna de ser visitada. Podem vê-la no vídeo abaixo:

Mas toda esta lenda da Peninha ainda não fica por aqui. Se esta Nossa Senhora da Peninha curou miraculosamente a pastora da sua mudez, e lhe deu pão, há aqui também um terceiro milagre que é muito menos conhecido. Conta-se, nesse seguimento, que quando o santuário original estava a ser construído ele era de muito difícil acesso aos trabalhadores. Então, a santa fez brotar uma fonte num sítio relativamente próximo deste – agora até chamada “Fonte da Peninha” – para que os construtores e os futuros fiéis tivessem ao menos alguma água para beber. Ela ainda existe hoje, foi renovada recentemente, tinha água quando a fomos reencontrar, mas é difícil de ver do topo da montanha; em alternativa, quem caminhar para este local vindo da Malveira da Serra poderá, sem muita dificuldade, encontrá-la pelo caminho pedregoso.

 

Falar da história e da arquitectura do próprio santuário já escapa aos nossos objectivos de hoje, mas neste relato da lenda da Peninha de Sintra deixamos ainda uma curiosidade final. Lembram-se das duas imagens que mostrámos acima? Se antes, no século XVIII, até pareciam viver pessoas nas casas próximas do santuário (como a gravura parece mostrar), elas estão hoje, como o próprio santuário, renovadas mas quase abandonadas. Quase nada têm no seu interior, porque estão, como o grande recinto quadrangular no cume, inacabadas desde a reconstrução que aqui teve lugar em inícios do século XX. Até quando…?

 

 

P.S.- Voltamos hoje às nossas publicações, com uma semana repleta de cinco temas de diferentes áreas!

A lenda do Negrinho do Pastoreio

A lenda do Negrinho do Pastoreio é uma que parece ser muito famosa em terras do Brasil mas que em Portugal poucos conhecem. Como tal, achámos que poderíamos cá contar esta história de uma forma muito resumida.

A lenda do Negrinho do Pastoreio

Diz-se então que em outros tempos viveu no Brasil um homem que tinha muitos escravos e os tratava a todos muito mal. Batia-lhes com um chicote quase diariamente, à mais pequena provocação, sem qualquer dó nem piedade. Depois, um dia, mandou um dos seus escravos – que ainda tinha pouca idade, e que nos ficou conhecido apenas como “Negrinho do Pastoreio” – cuidar de alguns cavalos, entre eles um pelo qual o dono até tinha enorme estima. O menino tentou fazer essa tarefa o melhor que pôde, mas seja por fruto da sua tenra idade, ou porque adormeceu, acabou por perder um dos equídeos que guardava, e que alguns até dizem ter sido o favorito do patrão… e então, zangadíssimo, o seu “dono” – uma expressão que, hoje, nos parecerá abominável, mas que na altura era bem real – deu tantas, mas tantas, chicotadas ao menino que o deixou às portas da morte, antes de se afastar.

Esta lenda do Negrinho do Pastoreio não teria muito interesse se ficasse por aqui, não é?! No dia seguinte, quando este patrão se aproximou do local em que viu este menino pela última vez, encontrou-o sem uma única ferida, tão jovem como sempre, e até com um sorriso nos lábios. E, ainda menos expectável, viu junto a ele a Virgem Maria e o cavalo preferido, aquele que se tinha perdido. Milagre, milagre (!), um grande milagre que até levou a que este homem se arrependesse dos muitos males que tinha feito no passado!

 

Mas ainda não é tudo por hoje… em virtude de toda esta lenda, e em particular do facto de ter encontrado o cavalo perdido por milagre, o Negrinho do Pastoreio parece ter-se tornado, para alguns, uma espécie de santo popular, ligado à função de encontrar objectos perdidos, como na nossa oração portuguesa de Santo António. Existem até várias orações ligadas a ele e a essa função – que não reproduzimos aqui por se encontrarem em infindáveis versões diferentes, sendo difícil compreender qual é a original e quais são meras invenções dos nossos dias – mas um dos aspectos mais curiosos é mesmo o facto de, segundo algumas fontes que consultámos, esta figura só ajudar quem tem pele escura – será este um estranhíssimo racismo místico, ou será que o menino nunca aprendeu a perdoar, julgando todos os Brancos pelas acções do cruel patrão que um dia teve…?

Duas lendas da Sertã

A Sertã é uma vila no norte de Portugal, mais precisamente no distrito de Castelo Branco. É face ao seu incomum brasão que hoje queríamos falar dela aqui, mas depois encontrámos, por mero acaso, uma outra lenda da mesma região que é digna de nota, e então decidimos concentrá-las às duas numa só publicação.

O Brasão da Sertã

Se não é tão complexo como o de Coimbra ou tão estranho como os de Beringel e de Monção, este brasão contém no topo uma sertã, que é uma espécie de frigideira de outros tempos, e também uma pequena frase em Latim, Sartago sternit sartagine hostes, que quer dizer algo como “A Sertã controla os [seus] inimigos com uma sertã”. Tudo isto se deve a uma lenda, de origem um tanto ou quanto incerta, que nos diz que quando, ainda no tempo dos Romanos, alguns inimigos tentaram conquistar esta povoação, uma mulher local – alguns dizem que o seu nome era Celinda – pegou na sua sertã e com ela derramou azeite quente sobre os opositores, atrasando a sua tentativa de conquista do local, até ao momento em que os homens a puderam defender como fariam habitualmente.

É, portanto, uma lenda simples, mas que também levanta uma questão – como é que a Sertã se chamava antes de todo este episódio de contornos lendários? Se até já era Sertã, Sartago na língua dos Romanos, o que dizer de toda esta estranha coincidência? Não sabemos, nem há forma conclusiva de o saber. Passemos, por isso, a uma segunda lenda da mesma povoação.

A Lenda do Santuário da Nossa Senhora dos Remédios da Sertã

Presente no Santuário de Nossa Senhora dos Remédios da Sertã, este painel de azulejos descreve, de uma forma bastante sucinta, uma lenda local, que podemos resumir nas próprias palavras aí presentes, até porque não são muito fáceis de ler na imagem:

Nesta capela existe, desde tempos imemoráveis, a queixada de uma serpente, que surpreendendo um fidalgo, grande senhor destas terras, se salvou por milagre da Santa Virgem, que lhe deu coragem para se defender de tão horrível monstro.

Assim, essencialmente este fidalgo foi atacado por uma serpente assustadora, pediu a ajuda de Santa Maria (lembrando-nos lendas como as da Nossa Senhora da Nazaré), e a santa inspirou-o a derrotar o monstro; se versões recentes da lenda até dizem que ele o fez com uma espingarda, talvez os tais “tempos imemoráveis” não o sejam tanto como parecem… mas, fora essa discrepância, diz-se então que parte do corpo do monstro foi colocada na igreja local (mas não conseguimos obter confirmação se ainda existe nos dias de hoje).

 

Um local, duas lendas, como tantas outras que podem ser encontradas em povoações do nosso país – uma, que descreve como todo o local parece ter recebido o seu nome; e uma outra, de conteúdo religioso, que explica a razão de ser do santuário local. Ambas breves, mas plenas de significado para aqueles que residem nesses locais, e que demasiadas vezes são desconhecidas dos demais, razão pela qual decidimos recontá-las por cá…