A lenda de Geraldo Sem Pavor (ou Geraldo Geraldes)

Geraldo Sem Pavor, também conhecido como Geraldo Geraldes, foi uma figura conhecida do tempo de Dom Afonso Henriques. Não sabemos, como já parece ser costume nestas lendas, quais os limites da pura realidade e da sua história ficcional, mas o facto é que existe uma grande e famosa história associada a ele na zona de Évora, e depois algumas pequenas historietas, aqui e ali, por todo o território nacional.

A lenda de Geraldo Sem Pavor (ou Geraldo Geraldes)

Por exemplo, na imagem acima pode ser visto um azulejo que, supostamente, marca um local em que Geraldo Geraldes acampou com o seu exército aquando da conquista de Sintra. Não há qualquer ideia de como essa informação foi descoberta ou determinada, tratando-se de uma lenda oral e nada mais. Mas ao seu lado está o brasão da cidade de Évora, em que pode ser visto um cavaleiro e duas cabeças decepadas (note-se uma pequena linha de sangue próxima do seu pescoço), uma delas do sexo masculino e outra do feminino – e essa sim, é a lenda do Geraldo Sem Pavor que se encontra entre as mais famosas do nosso país. Na verdade, é até provável que esse seu nome alternativo até provenha dessa lenda – “sem pavor” é o mesmo que dizer “sem medo, sem receio”, uma característica do herói que está bem presente na história eborense.

 

Conta-se então que Évora foi conquistada aos Mouros por volta do ano de 1165*, mas que esta foi uma conquista quase pacífica. Ela aconteceu porque Geraldo Geraldes se infiltrou na cidade, disfarçado como um mendigo ou trovador (o que depende da versão), e tentou localizar os pontos de maior interesse. Apercebendo-se de que o alcaide vivia numa torre, passados alguns dias escalou o local durante a noite, matou a filha dele (que estava de vigia), matou o próprio alcaide enquanto este dormia, roubou a chave da cidade e abriu as portas da mesma, possibilitando a entrada de um grande exército cristão que rapidamente dominou o local. Infere-se, portanto, que se tenha passado a chamar “Geraldo Sem Pavor” pela coragem demonstrada em feitos como estes.

 

Agora, se esta lenda de Geraldo Sem Pavor, ou Geraldo Geraldes, está bem atestada ao longo dos séculos, como já referido existem também algumas pequenas histórias que associam o mesmo herói a locais por todo o país, e que podem ser resumidas sob a forma de “aquela famosa figura fez X neste local” ou “ele combateu na batalha Y”. Raramente estão bem atestadas, parecendo ter nascido apenas da imaginação popular e de uma inferência como “se ele acompanhava Afonso Henriques, é provável que tivesse feito X”. Por aí também se compreendem, por exemplo, lendas como a de Afonso Henriques e a Palmeira, entre muitas outras que existem por todo o país e que são ocasionalmente celebradas em topónimos – terá sido a Praça do Giraldo, em Évora, o local em que este herói fez o seu famoso feito? Mesmo que os factos o confirmem, ou neguem, a imaginação popular dá a entender que sim, e assim se foram criando muitas outras lendas, frequentemente apócrifas, por todo o país…

 

 

*- Relembre-se, dado o contexto, que as conquistas de Sintra e de Lisboa datam de 1147.

A lenda de Dona Branca

Falar de uma lenda de Dona Branca, como se existisse uma só figura nacional com esse nome, não é possível. Isto porque ao terem existido várias personagens que partilharam o nome em Portugal ao longo dos séculos, não é totalmente claro a qual delas uma breve expressão como a que dá título a esta publicação – e que era referida como uma das grandes lendas de Portugal por Teófilo Braga – se poderá referir. Portanto, a título de exemplo, falamos aqui apenas de três delas e de uma forma relativamente breve.

 

Dona Branca, a Banqueira do Povo

Uma lenda de Dona Branca

Talvez a mais famosa Dona Branca, para os nossos dias de hoje, seja a chamada “Banqueira do Povo”, que viveu no século XX e que é conhecida por todo um esquema em pirâmide que usava para emprestar dinheiro, e/ou pagar juros, a quem a contactava. Contar muito mais sobre a sua vida e as suas acções escapa ao objectivo de hoje, bastando aqui dizer que ás tantas ela lá foi presa e condenada pelos seus vários crimes. Faleceu e foi sepultada no Cemitério do Alto de São João, na Penha de França (a tal do famoso lagarto), no ano de 1992.

 

A Dona Branca de Silves

Uma segunda Dona Branca está associada a uma lenda da tomada de Silves aos Mouros. Parece ser bastante conhecida, pelo que não vale a pena recordá-la aqui – quem não a conhecer ainda poderá lê-la neste site externo – mas o que ela tem de especial é o facto de nos permitir compreender que se trata de uma história relativamente recente, até pela referência conturbada a figuras como anjos, fadas e vampiros. Relembra-nos, de certa forma, a lenda da Boca do Inferno; em ambos os casos, as partes que as constituem permitem-nos compreender que são histórias recentes escondidas sob a face de lendas antigas. Talvez até exista um fundo mais antigo por detrás de ambas, mas não é fácil distinguir essas várias camadas da trama – curiosamente, Almeida Garrett dedicou um texto poético a esta segunda lenda, a que deu o subtítulo A Conquista do Algarve, em que também faz uso de muitos outros elementos mitológicos puramente nacionais…

 

A Torre de Dona Branca

Será esta a Torre de Dona Branca?

Já a terceira remete-nos para uma “Torre de Dona Branca” que em outros tempos existiu em Currelos – hoje o local faz parte da freguesia de Carregal do Sal, mas o pequeno castelo, originalmente da freguesia em questão, aparentemente ainda pode ser visto no novo brasão (juntamente com os símbolos de Sobral e Papízios). Esta é provavelmente a lenda a que se referia Teófilo Braga, pelo que vamos recordá-la aqui.

Reza então a história de que neste local, agora desaparecido, viveu uma nobre chamada Branca de Vilhena. Dado dia, durante um período de ausência do seu marido, ela deu à luz um par de gémeos. Agora, nas crenças da época, isto poderia querer dizer que ela tinha tido relações sexuais com dois homens diferentes – bastará recordar-se o mito grego de Hércules e Íficles – o que muito incomodou a senhora. Face à possível acusação (infundada), ela decidiu então pedir a um criado que levasse uma das crianças para a floresta*, a matasse, e lhe trouxesse a sua língua. E assim teria sido feito, não fosse o criado ter encontrado o seu patrão pelo caminho, e por compaixão lhe ter contado o que se passou; este pediu-lhe então que entregasse à sua esposa a língua de um cão, enquanto a criança seria criada por um aldeão.

Os anos foram passando, até que um dia esta Branca de Vilhena e o respectivo marido foram assistir a uma romaria e encontraram entre o povo um jovem muito semelhante ao seu filho. Tocada por remorsos, a esposa decidiu então levar essa criança para junto da que tinha criado todos aqueles anos. Mas depois, sem conseguir ter a coragem de admitir ao marido o que tinha feito todos aqueles anos atrás, atirou-se da torre a que viria a dar o nome e faleceu.

 

Três lendas de figuras que tomam o nome de Dona Branca, se é correcto chamar-lhes isso assim, de uma forma horizontal. Uma que até é uma história bem real, uma que até poderá ter tido um fundo histórico, e uma que contribuiu para explicar o nome dado a uma torre hoje desaparecida. Sobre as três, talvez possamos até dizer que atestam bem a popularidade do nome em outros tempos, potencialmente pela associação nacional e ocidental entre a cor, a pureza e a beleza. Mais comentários que esses, temos hoje de os deixar aos possíveis leitores, porque estas linhas já vão longas…

 

 

*- Nas versões da lenda a que tivemos acesso nunca é explicado como esta estranha escolha foi feita, para quem até estiver com essa estranha curiosidade.

A lenda do Beato João de Montemor

São muitas as lendas de Portugal que podem ser associadas a cidades e locais específicos, e esta lenda do Beato João de Montemor, também conhecida sob o nome de “Abade João”, pode, naturalmente, ser associada a Montemor-o-Velho*, localidade próxima da cidade de Coimbra, e ao Lorvão.

A lenda do Beato João de Montemor, e o castelo da cidade

Conta-se então que João de Montemor, um beato ou abade, viveu nesta zona em meados do século IX. Tinha a sua função religiosa, e tudo estava bem, até que um dia encontrou um menino abandonado. Criou-o como seu, deu-lhe o nome de Garcia Eanes, e foram felizes muitos anos… até que um dia, por razões agora menos fáceis de compreender, o jovem decidiu abandonar a cidade a juntar-se ao contingente dos invasores mouros. Depressa se tornou um capitão prominente, que participou em muitas conquistas, e recebeu até o nome islâmico de Zulema.

Os anos foram passando, até que este Zulema reencontrou a povoação em que tinha vivido com João de Montemor. O seu comandante, a que alguns chamaram Almançor, encarregou-o de conquistar a cidade, e até associou ao pequeno exército os seus próprios combatentes, gerando um contigente guerreiro verdadeiramente impressionante.

No interior do castelo, João de Montemor depressa se apercebeu que não podia vencer a batalha, até porque a localidade já quase não tinha comida e bebida. Então, para poupar o grande sofrimento que se antevia para mulheres e crianças, os defensores da cidade decidiram cortar-lhes o pescoço, esperando com esse pequeno sofrimento atenuar um que viria a ser muito maior no futuro. Depois, ainda tristes do que tiveram de fazer, depositaram os corpos na antiga Capela de Nossa Senhora de Ceiça e lançaram-se ao combate aos invasores.

A batalha entre os dois exércitos foi enorme, até que o abade/beato reencontrou em combate Zulema, o Garcia de quem tinha cuidado em tempos de meninice. Depressa o venceu, cortando-lhe a cabeça. Os invasores retiraram-se – algumas versões acrescentam que eles foram seguidos e completamente derrotados – e quando os defensores voltaram à cidade de onde vinham, ainda tristes em virtude dos seus actos, depararam-se com um enorme milagre – as mulheres e crianças, anteriormente decepadas, tinham voltado à vida! Milagre!

 

A figura central de toda esta lenda é, como não poderia deixar de ser, João de Montemor. Ela junta duas grandes oposições, o abade – Zulema e também a Cristandade – Islão, com os primeiros a serem mostrados de forma positiva. E, na verdade, o poder das suas acções é confirmado pelo milagre divino de Deus. A mensagem parece até muito clara – quem defende a verdadeira religião é recompensado, quem luta pela considerada “falsa” é levado à mais completa destruição.

 

Se este abade parece ter tido uma existência histórica, esta sua lenda tem, necessariamente, de levantar a questão dos limites entre a ficção e a realidade. Terá Garcia/Zulema também existido, ou sido apenas uma adição a toda a história, para dar uma face visível ao inimigo, uma que pudesse ser contrastada com a bondade e fé nacional?  Tal parece improvável, porque outras versões da lenda – a que contámos aqui é a mais conhecida – dão um desfecho diferente à história, dizendo apenas que esse inimigo foi ferido mas conseguiu fugir… e elas também acrescentam, ou removem, alguns momentos de toda esta história, deixando ambíguo quais os limites dos factos por detrás de toda a história. Assim, não sabemos qual a realidade por detrás desta personagem montemorense, excepto que ele se poderá ter tratado de um abade do Mosteiro do Lorvão no século IX da nossa era, e que combateu contra os Mouros.

 

 

*- Para quem tiver alguma dificuldade em distinguir Montemor-o-Velho de Montemor-o-Novo basta pensar um pouco em ambos os nomes. No tempo da Reconquista Cristã existia um famoso “Monte Mayor”, mas à medida que Portugal foi reconquistado pelos Cristãos foi recuperado outro lugar que também tinha o mesmo nome. Em comum, tinham o facto de ambas se localizarem em montes elevados. Assim, para as distinguir, “O Velho” já estava há mais tempo na posse cristã, enquanto que “o Novo”, na margem sul do Tejo, só foi conquistado mais tarde.

A lenda do Castigo do Bispo

Encontrar a lenda do Castigo do Bispo, de que aqui falamos hoje, não foi tarefa nada fácil, pela simples razão de que o seu nome é muito pouco informativo. Desde a lenda do Bispo Negro até muitas outras, são diversas as histórias nacionais em que um prelado castiga alguém, ou é castigado, por uma qualquer razão. Portanto, passámos meses em busca de uma potencial resposta, em que um castigo de um bispo fosse o elemento central da história. Depois, apercebemo-nos de uma curiosa coincidência – na listagem de lendas nacionais compilada por Teófilo Braga esta surge depois de duas outras lendas associadas ao rei Dom Pedro I, levantando uma leve possibilidade de que esse tal bispo, e respectivo castigo, até pudesse estar associado com esse monarca. E, na verdade, a Crónica de El-Rei Dom Pedro I, de Fernão Lopes, conta uma história curiosa que se poderá ter tornado lendária ao longo dos séculos.

A lenda do Castigo do Bispo

Numa dada altura da sua vida, quando D. Pedro I foi ao Porto, ouviu falar de um bispo que se andava a envolver sexualmente com uma mulher casada. As pessoas da região sabiam do caso, mas tratando-se o criminoso de um religioso com certo nível social, tinham medo de intervir na situação. Então, quando o rei soube da ocorrência, pediu que o bispo se encontrasse com ele e urdiu um plano.

Que plano era, perguntam? Algo de simples – ele queria encontrar-se com o bispo totalmente sozinho, pelo que pediu aos seus funcionários que criassem as condições para que ambos pudessem estar sós um com o outro, nomeadamente não deixando entrar o séquito do religioso e fechando todas as portas e janelas tão depressa quanto possível. Assim foi planeado e assim foi feito. E então, quando se encontraram frente a frente, sós, o rei retirou do seu corpo as vestes reais, pediu ao bispo que tirasse as suas vestes religiosas, e atacou-o repetidamente com um chicote.

Não é claro o que aconteceu nos momentos seguintes, a potencial violência de todo este castigo do bispo não é descrita, mas o que o cronista Fernão Lopes nos revela é que pouco depois as portas foram abertas e um tal Gonçalo Vasques de Goes, escrivão do monarca, o relembrou de que esta não era a melhor forma de administrar justiça. E toda a história parece ter ficado por aí…

 

Mas… pergunte-se, terá sido tudo isto verdade? Fernão Lopes, ao contar-nos este episódio do castigo do bispo, nunca menciona o nome do religioso, mas fomos capazes de descobrir algo de intrigante – quem for consultar uma listagem oficial dos bispos do Porto e depois a comparar com as datas do reinado de D. Pedro I, i.e. 1357 a 1367, poderá notar que entre os anos de 1357 e 1359 não é mencionada qualquer figura a ocupar esse lugar. Isto poderá indicar muito – terão sido os anos em que este misterioso bispo ocupou a Sé do Porto antes de ser deposto? – mas também poderá tratar-se de uma mera coincidência, já que esta situação não é caso único na mesma fonte de informação. Fora essa informação, não encontrámos nada que afiance ou rejeite a ocorrência real deste episódio – poderá ter sido uma invenção do cronista, para demonstrar que a justiça do rei chegava até ao clero, ou um episódio bem real.

 

Resta uma pergunta, por hoje. Terá sido mesmo este o “castigo do Bispo” a que Teófilo Braga se referia? Não há, face à obra original e respectivo contexto da referência, qualquer hipótese de termos uma certeza mesmo absoluta, mas esta parece-nos ser uma curiosa lenda nacional que, pelo seu carácter muito único (quantas lendas de Portugal conhecem em que religiosos sejam punidos fisicamente?), seria certamente digna de nota para esse autor.

João Soares de Paiva, primeiro autor português?

Quando se fala de um potencial primeiro autor português, o nome que tende a surgir frequentemente é o de João Soares de Paiva, que terá vivido em meados do século XII. Porém, Teófilo Braga também incluiu este mesmo nome entre o das maiores lendas de Portugal, dando a entender que ele não terá sido apenas um simples autor, mas também terá associado pelo menos algo semelhante a uma espécie de lenda. Assim, o que se esconde por detrás deste nome?

Um trovador como João Soares de Paiva, o primeiro autor português

Para que possamos considerar João Soares de Paiva como um primeiro autor português é necessário, obviamente, que ele tenha composto algo nesta língua. E, de facto, chegou-nos mesmo uma cantiga de maldizer que lhe é atribuída:

Ora faz host’o senhor de Navarra,
pois en Proenç’ést’el-Rei d’Aragón;
non lh’han medo de pico nen de marra
Tarraçona, pero vezinhos son;
nen han medo de lhis poer boçón
e riir-s’han muit’Endurra e Darra;
mais, se Deus traj’o senhor de Monçón,
ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.

Se lh’o bon Rei varré-la escudela
que de Pamplona oístes nomear,
mal ficará aquest’outr’en Todela,
que al non ha a que olhos alçar:
ca verrá i o bon Rei sejornar
e destruír ata burgo d’Estela:
e veredes Navarros lazerar
e o senhor que os todos caudela.

Quand’el-Rei sal de Todela, estrẽa
ele sa host’e todo seu poder;
ben sofren i de trabalh’e de pẽa,
ca van a furt’e tornan-s’en correr;
guarda-s’el-Rei, come de bon saber,
que o non filhe luz en terra alhẽa,
e onde sal, i s’ar torn’a jazer
ao jantar ou senón aa cẽa.

Ela não é muito fácil de ler, até por estar em Galaico-Português, mas uma espécie de prefácio, presente em algumas edições, dá uma informação muito importante e bastante simples de compreender, que permite descortinar aquilo que aqui procuramos hoje:

Esta cantiga é de maldizer e feze-a Joam Soárez de Pávia a ‘l-rei Dom Sancho de Navarra porque lhi troub’host’em sa terra e nom lhi deu el-rei ende dereito.

Toda esta informação permite-nos saber que numa dada altura Dom Sancho [VII] de Navarra invadiu terras alheias, incluindo algumas de um rei de Aragão, possivelmente em finais do século XII, e que isso afectou de alguma forma este poeta, motivando-o a escrever o poema acima, em que o afectado critica o rei pelas suas acções cobardes. Portanto, a termos de associar uma espécie de lenda a este João Soares de Paiva, ela passaria precisamente por estes precisos eventos, i.e. provavelmente algumas terras que lhe pertenciam foram invadidas e o poeta escreveu um poema em que criticava o invasor. Ao mesmo tempo, a realidade histórica destes eventos permitem datar a sua composição, tornando possível constituir o seu autor como um pseudo-“primeiro autor português”, não porque o que tenha sido com todas as certezas do mundo, mas porque parece ser o mais antigo que nos seja possível datar.

 

Os mais chatinhos poderão querer argumentar que o que está ali em cima é um poema de João Soares de Paiva em Galaico-Português, até de difícil leitura nos nossos dias, não uma composição na língua portuguesa tal como a conhecemos hoje. Contudo, as línguas são entidades mutáveis, que evoluem ao longo dos séculos, e pela mesmo ordem de ideias seria, de alguma forma, até possível dizer-se que um autor como Luís de Camões não escreveu em Português, já que nas edições originais dos Lusíadas, bem como dos seus outros poemas, nem sempre é fácil compreender o que ele nos escreveu. Gil Vicente ainda é pior, a esse nível, mas ninguém duvida que eles tenham escrito na nossa língua! Portanto, o que o poema ali exposto apresenta é como que uma forma embrionária da nossa língua, que já não é Latim mas que ainda não é igual à nossa.

 

Assim, faz todo o sentido afirmar-se que João Soares de Paiva foi o primeiro autor português cuja data ainda conseguimos atestar. Não foi certamente o primeiro a escrever na língua que vimos acima, mas é o primeiro que o fez de uma forma que conseguimos datar. Em outras cantigas medievais – relembre-se, a título de exemplo, a do nosso Sancho I a Maria Pais Ribeira – nem sempre é possível datar os eventos em questão, pelo que até poderão existir autores anteriores ao aqui em questão, mas já não temos qualquer forma real de o vir a saber…