A lenda de Maria Pais Ribeira, “A Ribeirinha”

Maria Pais Ribeira, frequentemente conhecida nos nossos dias como “A Ribeirinha”, foi uma figura histórica do nosso Portugal, mas deverá ter sido um evento menos comum na sua vida – o seu rapto – que a transformou em motivo de toda a breve lenda que aqui contamos hoje.

A lenda de Maria Pais Ribeira

Diz-se então que esta Maria Pais Ribeira, nascida por volta do ano de 1170*, foi amante do nosso rei Dom Sancho I, e que este gostava tanto dela que, entre muitas outras coisas, eles tiveram vários filhos, o rei lhe deu as terras de Vila do Conde, e até lhe poderá ter dedicado uma dada cantiga que pode ser classificada como de amor:

Ay eu coitada
Como vivo em gran cuidado
Por meu amigo que ei alongado!
Muito me tarda
O meu amigo na Guarda!

Ay eu coitada
Como vivo em gram desejo
Por meu amigo que tarda e não vejo!
Muito me tarda
O meu amigo na Guarda.

Quando o nosso monarca faleceu, em 1211, esta dona retirou-se rapidamente. Porém, no seu caminho de volta para as terras que lhe pertenciam por direito, poucas horas depois do funeral do seu amado, foi raptada por um homem cuja paixão não retribuía – a maior parte das fontes que consultámos dizem que ele se chamava Gomes Lourenço de Alvarenga – e levada para Leão, terras que hoje são de Espanha, aparentemente para que os seus familiares não a pudessem salvar sem dificuldades de maior.

Com algum esforço Maria Pais Ribeira conseguiu convencer o raptor a voltar a Portugal – dizem as más línguas que fingiu uma paixão por ele, instando-o depois a que casassem nas terras que lhes iriam pertencer a ambos – e depois pediu a Dom Afonso II, novo rei e filho do seu falecido amante, que vingasse o insulto de que ela tinha sido objecto, algo que ele depressa concedeu, dando ordem para que o raptor fosse executado pelo seu crime.

Mais tarde – para quem até tiver essa curiosidade de saber o desfecho de toda a história – esta senhora casou com um tal João Fernandes de Lima, tiveram mais alguns filhos, e ela acabou por se retirar para um mosteiro, onde viria finalmente a falecer por volta de 1258.

 

*- Todas as datas envolvidas nesta história, com excepção da relativa à morte de Dom Sancho I, parecem estar envoltas em algum mistério, até porque seria estranho que muito depois dos seus 40 anos a heroína continuasse a ter, uma e outra vez, novos descendentes. Portanto, a cronologia dada aqui, tal como em qualquer outro lugar em que se mencione esta lenda, deve ser tida em conta com algum cepticismo bastante natural.

A Passarola de Bartolomeu de Gusmão voava mesmo?

Quem foi o primeiro homem a voar em Portugal? A acreditar-se numa espécie de lenda nacional, terá sido Bartolomeu de Gusmão na sua Passarola, ainda em inícios do século XVIII, ou seja, mais de um século antes de João da Mata Camacho Pina de Gouveia. A uma primeira vista já não deveria ser possível ter-se a certeza de que ela funcionava mesmo – já lá iremos… – mas ainda hoje a sua imagem é famosa na cultura nacional e europeia, ao ponto de ser um elemento importante da trama da uma das obras de José Saramago, o Memorial do Convento. Mesmo assim, para quem ainda não a conhecer, reproduzimos aqui uma imagem da estranha máquina voadora, retirada especificamente do seu manuscrito original:

Bartolomeu de Gusmão e a Passarola

O que tem então de especial, esta representação original da agora-famosa máquina? Ela foi incluída num pedido de apoios que o autor fez ao rei de Portugal e que ainda existe nos nossos dias. Mas, se o conteúdo desse pedido, feito em Latim, provavelmente não terá muito interesse para o leitor comum, já a legenda desta imagem apresenta alguns aspectos curiosos. Ela explica em que consiste cada uma das partes da máquina – as tais letras A, B, C, D, […] presentes ali na sua representação – e entre elas podem ser encontrados dois elementos particularmente importantes, que traduzimos do original latino:

E [na frente e traseira da máquina] – duas esferas que contêm o segredo da atracção (…)

F [na parte superior, acima do homem] – (…) fios com um grande número de bolas de âmbar (…) que pelo calor dos raios do sol irão atrair os tensores.

Ou seja, trocando por míudos, supostamente a Passarola de Bartolomeu de Gusmão mantinha-se no ar devido a alguns elementos físicos (apresentados com as letras restantes na legenda), bem como a duas esferas com uma substância completamente secreta – sobre a qual, muito naturalmente, nada conseguimos aqui dizer – e pela capacidade do sol em atrair a âmbar. E se isso nos pode parecer bastante estranho neste nosso século XXI, é porque a segunda dessas características assenta num conjunto de ideias que vêm de tempos da Antiguidade – relembre-se o mito de Faetonte e depressa se compreenderá essa suposta relação entre a âmbar e o elemento solar – mas que também foram sendo desmentidas ao longo dos séculos. De facto, tanto quanto se saiba hoje, não há qualquer propriedade “mágica” que os atraia!

 

Portanto, será que a Passarola de Bartolomeu de Gusmão voava mesmo? Visto que os dois grandes elementos que referimos acima eram considerados cruciais para o funcionamento da máquina… a não ser que a tal “substância secreta” fosse da mais pura magia (algo que, verdade se diga, não temos qualquer forma real de confirmar ou desmentir…),  é difícil que esta criação conseguisse mesmo elevar-se nos céus e voar “muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia”, como a proposta feita ao rei prometia. Curiosamente, os argumentos do seu criador convenceram tanto o monarca como a sua corte, mostrando-nos que estas bases principais, estranhas para os nossos dias, ainda eram consideradas como da mais completa validade em inícios do século XVIII…

Quem traiu Humberto Delgado?

Humberto Delgado foi assassinado a 13 de Fevereiro de 1965 na cidade de Olivença. Isso é um facto consumado, que até a Wikipedia informará qualquer leitor muito rapidamente, mas o que já menos saberão é o que se esconde por detrás desse acontecimento da política nacional. Por isso, para terminar este mês completamente dedicado a temas relacionados com Portugal, decidimos contar uma história um pouco mais pessoal e quase dos nossos dias.

Um dos nossos colegas mora numa casa próxima da de um antigo capitão de uma força de segurança nacional. Hoje já reformado há mais de uma dezena de anos, ele gostava de partilhar histórias de outros tempos e da sua carreira profissional. Uma delas ficou na memória do nosso colega, por razões que serão muito fáceis de compreender.

Quem traiu Humberto Delgado?

Um dado dia, esse capitão perguntou-lhe se ele sabia quem tinha morto Humberto Delgado. O nosso colega disse que não – história de Portugal certamente que não é o seu forte – e então o senhor continuou o que ia dizer, explicando que este antigo general foi assassinado em Olivença depois de [nome omitido por nós] o ter traído, divulgado por onde ele andava escondido e para onde se dirigia. Naturalmente que esta seria uma suspeita bastante perigosa, e então o nosso colega decidiu perguntar um pouco mais sobre isso. Assim, o idoso em questão continuou a conversa, explicando o porquê de isto ser pouco sabido – aparentemente, depois do 25 de Abril esse mesmo traidor teve acesso aos registos da PIDE, que identificavam a fonte dessa informação, e retirou de lá algumas das páginas que lhe diziam respeito. Mas tudo isto ainda se torna mais interessante – visto que esse acontecimento teve lugar na presença deste capitão, e que lhe foi dito para ele destruir esses documentos, ele… se por esquecimento, por curiosidade, por vontade própria, ou por algo menos fácil de compreender, limitou-se a guardá-los. E guardou-os. E, na verdade, pareciam atestar o que este idoso afirmou em conversa.

 

Quando o nosso colega nos contou isto, ficámos curiosos. Seria mesmo verdade, que uma reputada figura da política nacional tivesse traído Humberto Delgado? Muito do património documental da PIDE já está digitalizado. Fomos então procurar esses documentos e, segundo o nosso colega, eram formalmente parecidos com o que ele viu à sua frente. Depois, procurámos o chamado “Registo Geral de Presos” e descobrimos que cada preso tinha um número de identificação pessoal e do(s) seu(s) processo(s). A título de exemplo, para quem ainda não conhecer estas coisas e tiver essa grande curiosidade, é algo como o mostrado abaixo, com o número de preso e do processo assinalados aqui a verde; as secções a vermelho foram censuradas por nós (sim, porque queiramos ou não, hoje ainda existe censura no Sapo Blogs, e não queremos dar-lhes ainda mais razões para chatices), apenas porque é possível que esta pessoa anónima, aqui escolhida completamente ao calhas para este exemplo, ou até alguns dos seus descendentes, ainda estejam vivos:

Um registo de um preso

Continuando, na ficha desse suposto traidor de Humberto Delgado – que também está na Torre do Tombo e digitalizada – não existia apenas um número de registo (como na parte inferior da imagem acima), mas vários. Não conseguimos verificar a totalidade do seu conteúdo – infelizmente, as digitalizações a que tivemos acesso online dizem “informação não disponível” ou “Informação não tratada arquivisticamente” demasiadas vezes – mas um desses números parecia constar no documento que o nosso colega viu. Ou seja, ou ele era parte de um original bem real, ou foi falsificado por alguém que tinha tido um acesso directo a este tipo de informação antes da sua disponibilização ao público em geral, i.e. provavelmente antes do ano de 1994.

 

Acredite-se, nesse sentido, que era um documento completamente real. Afinal, quem traiu Humberto Delgado? Ou, melhor dizendo, a quem é que este documento atribuía essa traição? Discutimos bastante até que ponto deveríamos divulgar essa informação… e se até o podíamos dizer aqui, seria uma resposta um tanto ou quanto chocante, e que também nada acrescentaria ao panorama político, cultural e histórico de Portugal. A pessoa em questão, que até já faleceu, é uma de aquelas com opiniões muito polarizantes em relação a ele, que fizesse o que fizesse continuaria a ser odiada por uns e muito elogiada por outros. Por isso, de nada se adiantaria revelar essa informação – os primeiros diriam que é verdade, que sempre o souberam; enquanto que os segundos iriam exigir todas as provas do universo (e até algumas que só aos deuses pertencem), e nem elas seriam capazes de os convencer; e tudo ficaria na mesma.

 

Para terminar, o que aconteceu ao documento aqui em questão? Será que o podemos mostrar por cá, para que se compreenda melhor o que aconteceu ao General Humberto Delgado? Infelizmente não conseguimos fazê-lo, até porque não temos qualquer cópia – segundo nos foi dito, há já alguns meses o idoso em questão adoeceu e acabou por ser levado para um lar, por razões de saúde. Alguns dias depois os seus filhos deitaram muita papelada e livros fora, pelo que é possível que esse documento estivesse entre muitas dessas coisas que foram deitadas fora. Se sim ou se não, não sabemos de nada disso. Resta a memória do que foi dito e mostrado ao nosso colega, a acreditar-se que a documentação era mesmo verdadeira.

Em busca da lenda da Quinta do Anjo (Palmela)

Há alguns dias vieram-nos perguntar sobre uma possível lenda da Quinta do Anjo, em Palmela. A pessoa estava particularmente interessada nas grutas artificiais – ou hipogeus, se preferirem – existentes no local. Infelizmente não foi possível visitá-las em tempo útil, até em virtude do Covid-19, para escrevermos sobre as mesmas, mas uma outra questão subsistia – afinal, de onde vem o nome dessa tal Quinta do Anjo palmelense (i.e. existem outras em Portugal)? Normalmente não teríamos dificuldade em responder a uma questão como essa, mas a jovem tinha também um pedido adicional, pois queria que também se contassem as fontes precisas usadas para obter essa informação. Tendemos a evitar isso para prevenir roubos de conteúdos, mas a título de exemplo podemos fazê-lo hoje.

A lenda da Quinta do Anjo

Quem for ao site da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo poderá encontrar por lá, sem muita dificuldade, dois dados preciosos para esta busca – é revelado que a freguesia apenas nasceu a 10 de Fevereiro de 1928, mas também é contada uma espécie de origem do seu nome:

Diz a lenda que a fonte existente nesta quinta foi protegida por “um anjo bom armado de espada, portanto S. Miguel” [sic], da tentativa de envenenamento pelas forças do mal salvando, assim, as populações que dela viviam. A imagem de pedra e cal que lá existia do anjo armado de espada pisando o dragão esboroou-se em 1985, estando a própria fonte quase seca devido ao abaixamento dos níveis freáticos.

Para a maior parte dos leitores é provável que esta informação fosse mais que suficiente para resolver a curiosidade – caso encerrado…?! Não tanto, porque algo nos parecia estranho em toda esta história – ela não era mais do que uma repetição de representações e lendas famosas, como a de São Jorge, possivelmente apenas com um herói diferente! Por isso, de onde vem essa lenda, tal como apresentada naquela página?

 

Começámos por procurar na obra Portugal Antigo e Moderno, primeiro volume datado de 1873, que refere a existência de uma “Quinta do Anjo” a 3 quilómetros de Palmela. Não lhe associa qualquer espécie de mito ou lenda, dizendo apenas que o local tinha pertencido a D. Luíza de Mello, casada com João de Mello Feo em fins do século XVII, e que o casal – ou assim parece… – erigiu no local uma ermida à Nossa Senhora da Redenção. Quase 2000 páginas depois é adicionado outro facto – por volta de 21 de Outubro de 1877 um tal “Carlos Ribeiro” estava a analisar instrumentos de pedra encontrados numas “furnas” presentes no local. Ou seja, a considerar-se que havia algo de importante na zona, era apenas uma ermida e umas “furnas”, sem referência a um qualquer anjo, poço ou fonte.

Porém, tratando-se esta de uma ermida mariana, decidimos consultar o Santuário Mariano, datado de 1707, cujo livro II, capítulo LVI, refere a imagem de Santa Maria presente no interior do recinto. E a informação que nos dá é tão preciosa que achámos que a deveríamos reproduzir parcialmente por aqui. O texto foi apenas adaptado para uma leitura mais fácil nos dias de hoje:

Nesta quinta, a que chamam a Quinta do Anjo, mandou edificar Francisco Coelho de Melo [pai de Luíza]  uma ermida – que é anexa à Paróquia de S. Pedro de Palmela, e são seus padroeiros os senhores do morgado Vila do Anjo, e é ao presente a referida D. Luíza (…) – para colocar nela uma devotíssima imagem de Nossa Senhora que tinha em seu oratório.

O texto continua explicando a origem da imagem que Francisco Coelho de Melo tinha em sua posse, mas nada mais nos diz sobre a própria quinta, alguma fonte de água ou algum anjo. O que é curioso, porque depois o autor acrescenta mais informação, dizendo que haviam três altares no recinto mandado construir por Francisco Coelho de Melo – o altar-mor tinha a representação mencionada acima, enquanto que os outros tinham “um Menino Jesus de grande perfeição” e o “Santo Esposo José”. Ou seja, quando foi construída esta ermida, ela não só não tinha qualquer anjo no seu interior (o que faria sentido se algum anjo tivesse anteriormente aparecido no local, e fosse foco de culto entre os seus habitantes), como quem a mandou construir parecia desconhecer por completo qualquer lenda que associasse a própria quinta a um anjo.

 

Portanto, como obteve ela o seu nome? Segundo nos é revelado no texto acima, certamente porque tinham sido padroeiros do local “os senhores do morgado Vila do Anjo”, o que contribuiu para explicar o nome da quinta – se lá tivesse mesmo aparecido São Miguel, porquê dar-lhe este nome genérico, em vez de um mais prestigiante “Quinta do Arcanjo” ou “Quinta de São Miguel”? Não faria muito sentido… Mas depois, à medida que as devoções a esta Nossa Senhora da Redenção foram aumentando, é provável que alguém se tenha interrogado sobre o nome do local e, o seu passado então progressivamente esquecido, lá foi adicionada uma imagem de São Miguel Arcanjo ao local. Quando é que isso aconteceu, já lá iremos.

A Quinta do Anjo e a lenda de São Miguel

E, porque São Miguel é frequentemente representado a combater um dragão (que toma as mais diversas formas, desde serpentes até figuras quase humanas), gerou-se entre o povo a ideia de que o evento até tinha acontecido naquele preciso local. Isto torna-se até particularmente mais interessante se tivermos em conta que a representação em questão era, originalmente, a de uma divindade pagã, como cá apresentámos de uma forma muito breve.

 

Agora, certamente que também se poderia perguntar como é que o “Morgado Vila do Anjo” tomou esse nome , mas é uma questão desnecessária, na medida em que quando foi construída a antiga ermida não existia no local qualquer devoção especial a um anjo. Por isso, se a igreja actual é de 1909, faz todo o sentido que a imagem de São Miguel, referida na página da junta de freguesia, tenha sido adicionado ao local nessa altura, até porque por volta de 1873 ainda não parecia existir qualquer lenda que explicasse o nome do local… ou, a existir numa forma puramente oral, só pode ter sido posterior à fundação da antiga Ermida de Nossa Senhora da Redenção, i.e. após inícios do século XVIII, como atestado pelas linhas do Santuário Mariano.

 

Assim sendo, qual é mesmo a lenda da Quinta do Anjo, em Palmela? Parece existir uma lenda associada a ela no século XX, aquela que recordámos ali em cima, mas há que ter em conta que ela é apenas uma história muito recente, com o nome da quinta a vir, na verdade, de uns padroeiros que tinham a sua posse numa data agora incerta, mas anterior a 1707. Nessa data de inícios do século XVIII não existia no local qualquer devoção associada a um anjo ou a um qualquer evento que aí possa ter tomado lugar. É talvez até por isso que o brasão da freguesia, que data de 1994 e que já reproduzimos acima, tem representado apenas dois elementos – a ideia muito vaga de um anjo (que não é identificado ou identificável como São Miguel), e um dos vasos campaniformes encontrados nas grutas do local, em vez de representar um qualquer episódio lendário bem atestado, como no caso da Vila de Moura. Nunca apareceu um anjo no local, muito menos aquele que é provavelmente um dos arcanjos mais famosos.

A lenda da Moura Salúquia

A lenda da Moura Salúquia é certamente bem conhecida em terras de Moura, no distrito português de Beja, mas para quem ainda não a conhecer achámos que a poderíamos recordar aqui hoje.

A lenda da Moura Salúquia

O brasão da vila de Moura – que hoje já é cidade – apresenta-nos essencialmente uma torre e uma figura feminina como que deitada em frente dessa fortificação. Reza então a história que esta mulher, uma moura de nome Salúquia (e filha do governador da cidade), viveu nesta terra em tempos da Reconquista Cristã, tendo-se apaixonado por um homem chamado Bráfama (ou Farbame?), da povoação de Aroche (a cerca de 50 Km de distância, para quem tiver essa curiosidade). Um dia os Cristãos mataram-no, tomaram as roupas deste amado e da sua comitiva, e dirigiram-se para a povoação que hoje é Moura. Salúquia, vendo-os à distância, pensou tratar-se de Bráfama e ordenou que se abrissem as portas da cidade. Face a essa inatenção, os combatentes cristãos entraram facilmente na povoação e conseguiram conquistá-la sem qualquer dificuldade. Então, notando o que tinha causado, em plena infelicidade esta moura subiu à torre do castelo e suicidou-se; a memória da bela moura, suicidária por amor, perdurou na cultura local, e então a povoação mudou o seu nome islâmico, que parece ter sido Al-Manijah, para o actual.

 

Mas então… porque recebeu a povoação o nome de “Moura”, e não Salúquia? Visto que, face ao contexto de toda esta lenda, se pode depreender que o nome foi alterado por Cristãos, é provável que o nome original se tenha perdido progressivamente ao longo do tempo, ou que o nomeador desconhecesse o nome da falecida, mas pretendesse homenageá-la pelo precioso “auxílio” que deu à conquista do local. Esta segunda hipótese é certamente possível, a acreditar-se nos eventos que comportam esta lenda da Moura Salúquia, que continua a viver nos nossos dias na memória dos habitantes da cidade!

Ao mesmo tempo, é curiosa a apresentação desta personagem principal como uma islâmica que também amou um praticante da mesma religião. Em muitas outras lendas de Mouros e Cristãos, é muito mais comum que se apaixonem por cavaleiros da outra religião, acabando até por trair a sua cidade por amor. Aqui, a povoação é traída, sim, mas de forma quase acidental por Salúquia, e ela depressa se prontifica a pagar o preço da sua acção (algumas versões até acrescentam que tudo isto teve lugar no dia em que ela pensava ir casar-se, o que ainda enfatiza mais o seu sofrimento). Recordando Fernando Pessa, quase que apetece brincar-se um pouco e dizer “E esta, hein?!”

 

[Adicionado posteriormente:] Muito curiosamente, nas suas “Antiguidades da Lusitânia” André de Resende dá uma versão muito diferente desta história, em que uma Moura era disputada por um homem que a queria roubar ao marido, mas nessa versão a trama parece estar um pouco incompleta.