“A Cintriada”, poema sobre a beleza de Sintra

A Cintriada é uma daquelas composições poéticas que está quase esquecida hoje em dia. Pelo seu nome já se percebe que o tema de todo o poema é Sintra (= Cintra), e no prefácio – que, na edição a que lhe tivemos acesso, ocupa aproximadamente um terço da obra – o próprio autor, um tal Padre Manoel Rodrigues de Faria, confessa ser esse o seu tema. Numa altura em que o Palácio da Pena estava a ser (re?)construído, para ter aquela forma que lhe reconhecemos hoje, este autor sentiu então a necessidade de cantar a beleza de Sintra. E claro que o tema é inesperado, muito interessante até dados os encantos da vila, e daria potencialmente aquele proverbial “pano para mangas”, mas o grande problema na leitura da obra é descoberto logo nas suas primeiras páginas.

Capa do poema "A Cintriada"

Primeiro, A Cintriada começa com um prefácio que parece enorme para o tamanho da obra – mais de 30 páginas, num total de cerca de uma centena – em que o autor mais parece querer enrolar o leitor do que lhe dar qualquer espécie de informação muitíssimo pertinente para a leitura da obra. Ficará para a eternidade uma questão estranha – será que a “Typographia de G. M. Martins”, que imprimiu a obra, tinha um limite mínimo de 100 páginas?

 

Depois, quando (finalmente) se chega aos primeiros versos da obra, eles são banais, quase como as rimas que as crianças muitas vezes fazem na escola. A título de exemplo, reproduza-se aqui uma estrofe:

As flores aqui postas pela ordem
Com que classificou Lineu as Plantas,
As flores que dos mesmos matos sordem,
Os Tojos, as Giestas, e outras tantas,
As Urtigas, que a quem as toca mordem,
As Plantas em fim todas aqui quantas
Dão flores, as dão como à porfia,
Como quem quer levar a primazia.

Em terceiro lugar, se em dados momentos o autor até refere espaços e eventos particularmente relevantes da história de Sintra, mesmo a forma como os trata tem muito pouco encanto. A um tema célebre, como a conquista da vila aos Mouros, é dada quase a mesma relevância que a presença de rosas e outras flores e plantas nessa zona, seguindo-se todos esses temas de uma forma profundamente banal.

 

E, em quarto lugar (e último), o poema está pejado de notas mais ou menos longas, para o autor tentar explicar o porquê da sua Cintriada mencionar determinados elementos. E se algumas dessas notas até têm algum interesse para o leitor, outras dizem coisas como “Synthronon, grego, quer dizer o banco ou degrau de um teatro ou de um trono”, “esta rica e pitoresca estrada [para a Pena] começou-se no ano de 1839 com tanto empenho e gosto que no seguinte ano de 1840 estava concluída”, ou repetem os nomes de determinadas flores em tudo quanto é língua, como se tudo isso fosse muitíssimo importante numa construção poética.

 

Em suma, esta não é de todo uma obra fácil de encontrar, mas mesmo que a encontrem ela não tem nada de muito significativo, excepto talvez pela sua existência como mero objecto de colecção. A sua parte mais interessante, no contexto deste espaço, talvez seja a referência a uma pequena lenda que está completamente esquecida nos nossos dias, e que vale a pena reproduzir-se ao terminar as linhas de hoje:

Certo Turco, achando-se cego e sabendo pelos seus livros a virtude das ervas de Portugal, dissera a um seu escravo Português: “Vai a Portugal, leva estes sapatos novos, não os calces senão na Serra de Sintra, passeia os sítios tal e tal da Serra com eles, e depois une-os bem um ao outro, e bem atados torna-nos a trazer, porque há naquela serra uma erva de tanta virtude que basta que tu a pises com estes sapatos, e eu esfregue os meus olhos com eles, para me ser restituída a vista. Dou-te superabundantemente para a despesa, e adverto que se fores fiel em tudo quanto te ordeno, não só te farei rico, mas te restituirei à tua liberdade. Cumprindo o escravo exactamente quanto o seu senhor lhe ordenara, e sendo restituída a vista a seu senhor, cumprira o que lhe prometera, e despedindo-se dele lhe dissera: “Os Portugueses não sabem dar valor à riqueza que possuem só nas virtudes das plantas e ervas desse reino, especialmente na Serra de Sintra”…

Quem foi Gonçalo Mogão?

O nome de Gonçalo Mogão parece contar-se entre o de muitas outras figuras (menores) da história de Portugal que o tempo foi fazendo esquecer. Hoje, o seu nome é preservado apenas na zona da Sertã, aquela tal da lenda de uma frase latina, “Sartago sternit sartagine hostes“. em que um pequeno desvio numa estrada secundária, a menos de um quilómetro da civilização local, já nem sequer remete para o próprio nome do espaço, mas apenas e somente para uma quase esquecida “fonte”, a mesma que toma este nome.

Quem foi Gonçalo Mogão?

Está também a fonte já tão esquecida que não lhe conseguimos encontrar qualquer imagem real, razão pela qual foi necessário gerar a evidentemente falsa representação acima. E, ao mesmo tempo, também o próprio nome está já tão esquecido que uma agora-habitual pesquisa na internet pouco ou nada revela sobre o local, contrariamente ao que se poderia esperar. Então, em busca de respostas contactámos o Posto de Turismo da Sertã, que gentilmente nos cedeu informação sobre a identidade do homem que deu o nome a este local, com as linhas preservadas abaixo:

Gonçalo Mogão foi um cavaleiro (século XIII) que recebeu da Ordem de Malta diversos terrenos, alguns deles situados junto precisamente a essa fonte, motivo pelo qual tomou posteriormente a sua designação.

 

Esta é uma informação tão breve quanto preciosa, porque demonstra que o nome ainda é de alguma forma conhecido no local, mesmo que possa também estar quase esquecido pelos não-locais. Pelo menos uma fotografia, com agora cerca de um século, atesta que em outros tempos lá existiam piqueniques, mas não fora o curioso nome do próprio Gonçalo Mogão e talvez o antigo cavaleiro, como muitos outros do seu tempo, já tivesse sido esquecido. De certa forma, o seu nome não pode senão recordar-nos casos com o de Adrenunes, em Sintra, em que a possível associação de um antigo nome a um local contribuiu, de certa forma, para manter a sua fama ao longo dos séculos.

As lendas de João Tição e Gil Fernandes

Hoje, optámos aqui por falar de duas lendas, as de João Tição e Gil Fernandes, devido a uma grande, mas bastante estranha, semelhança que apresentam. Qual delas terá aparecido primeiro? Será que um deles, conhecendo a história do outro, nela se inspirou para as suas acções? É provável que nunca o venhamos a saber, que jamais possamos vir a ter essa completa certeza, e face ao problema decidimos aqui contar ambas e deixar que os leitores formulem as suas próprias conclusões. Vamos a isso!

A lenda de João Tição e Gil Fernandes

Começamos então pela lenda de Gil Fernandes, apenas e somente pelo facto de ela ainda ser bastante conhecida nos nossos dias de hoje. Ela pode ser vista representada na imagem acima, referente ao município de Elvas, na forma de um cavaleiro com uma bandeira na mão. Diz então a lenda por detrás desta representação que numa dada altura da história de Portugal os Castelhanos invadiram o nosso país e roubaram uma das nossas bandeiras, o que na altura representava um enormíssimo insulto. Este herói elvense, movido pela honra, decidiu então ir a terras de Castela, recuperar a bandeira, e trazê-la de volta sem qualquer apoio de mais ninguém. Tal pensou, e da mesma forma o fez… e com bastantes dificuldades conseguiu obter a bandeira, sim, mas no seu caminho de retorno de Badajoz viu que muitos inimigos o estavam a seguir.

Correu, correu, correu sem cessar no seu cavalo, mas quando lá voltou a Elvas notou que os seus companheiros não podiam abrir as portas da cidade sem se colocarem a si mesmos em perigo. Face a isso, atirou a bandeira para o interior da fortificação e combateu com os Castelhanos, com os muitos inimigos, que o seguiam até à sua morte. Morreu, claro está, mas em prol da pátria e protegendo os ideais em que acreditava, e por essa razão a sua figura e as suas acções foram imortalizadas na história desta cidade de Elvas, como já pôde ser visto na imagem ali de cima.

 

Antes de qualquer comentário, conte-se então também a história de João Tição. Diz ela que numa dada altura da história de Portugal os Mouros roubaram uma das nossas bandeiras, o que na altura representava um enormíssimo insulto. Este herói de Trancoso, movido pela honra, decidiu então ir a terras dos seus adversários, recuperar a bandeira, e trazê-la de volta sem qualquer apoio de mais ninguém. Tal pensou, e da mesma forma o fez… e com bastantes dificuldades conseguiu obter a bandeira, sim, mas no seu caminho de retorno viu que muitos inimigos o estavam a seguir.

Correu, correu, correu sem cessar no seu cavalo, mas quando lá voltou a Trancoso notou que os seus companheiros não podiam abrir as portas da cidade sem se colocarem a si mesmos em perigo. Face a isso, João Tição atirou a bandeira para o interior da fortificação e combateu com os Mouros, com os muitos inimigos, que o seguiam até à sua morte. Morreu, claro está, mas em prol da pátria e protegendo os ideais em que acreditava.

 

Agora, quem prestar atenção a estas duas lendas, supostamente as de João Tição e Gil Fernandes, verá que têm bastantes semelhanças. Elas são tantas, de facto, que fazendo um bocado de batotice optámos até por contar a segunda com quase as mesmas linhas de texto que a primeira. Não sabemos qual das duas nasceu primeiro – a primeira, por mencionar os Mouros, ou a segunda, por se mostrar (hoje) mais famosa, apesar de já mencionar Castela – mas os seus contornos parecem semelhantes demais para esta se tratar de uma mera coincidência.

Qual das duas veio primeiro? Deixamos ao critério do leitor, já que ambas nos representam um herói disposto a tudo pelo orgulho e honra da sua pátria, e que chega ao ponto de perder a própria vida para defender o que lhe parece correcto. Seja o seu nome Gil Fernandes, João Tição, ou algum outro, esta é uma lenda que, em outros tempos, provavelmente terá inspirado os nossos cavaleiros a feitos grandiosos…

O Massacre de Lisboa de 1506

Falar do Massacre de Lisboa de 1506 é, hoje e talvez mais que tudo, falar de um episódio da história de Portugal que está agora quase esquecido. Isso até faz um certo sentido – tendemos a definir-nos como um “povo de brandos costumes”, entre o qual os massacres são raros… – mas não deixa de ser um episódio bastante chocante da história nacional, que também ficou conhecido como o Pogrom de Lisboa (para quem o desconhecer, um pogrom é um “movimento popular violento organizado contra uma comunidade judaica”, como informa o dicionário da Priberam) ou a Matança da Páscoa de 1506 (em virtude da altura do ano em que teve lugar). Agora, poderíamos, como é habitual, recordar aqui todo o episódio pelas nossas próprias palavras, mas decidimos fazer algo um pouco diferente – vamos contá-lo aqui com as mesmas palavras que outrora encontrámos e transcrevemos de um antigo documento legal presente na Torre do Tombo:

O Massacre de Lisboa de 1506

Em Domingo de Pascoela, 19 de Abril de 1506, pela manhã, estando El-Rei D. Manuel em Avis por causa da peste, começou em Lisboa o horrível motim e matança dos Cristãos Novos, a que deu origem certo reflexo de Sol que se derivava no Santo Cristo da Igreja de S. Domingos, que uns diziam ser milagre, e outros negavam que o fosse.
Fr. João Moucho, natural de Évora, e Fr. Bernardo Aragonez, frades do mesmo convento, foram o principal incentivo daquela emoção, porque com diabólico furor sairam a pregrar pelas ruas contra os Judeus a incautos.
Muitos amotinados ouve, em que entravam bastantes estrangeiros, que carregados de roubos navegaram para suas terras. O número de vítimas, lançadas ao fogo, vivas umas, e mortas outras, passou de duas mil, de todos os sexos e idades. A desordem demorou três dias. El-Rei acudiu severo a punir tamanhas atrocidades, e muitos culpados sofreram a última pena, não escapando os dois frades, que morreram queimados vivos. Todos os outros foram postos na minha do castelo, e as chaves do Convento entregues ao Prior de Santa Justa. A cidade perdeu os seus foros, que recuperou depois.
Esta foi a primeira perseguição directa que sofreram os Judeus em Portugal, e que aumentou o ódio contra eles. O que pinta a eles se haverem tornado ricos pelas suas traficâncias, e por consequência soberbos e orgulhosos; defenderem com audácia os mistérios da sua fé; e talvez olharem com desprezo os Cristãos. Tudo isto chamou contra si a Inquisição, que tão barbaramente os tiranizou.

Em suma, num tempo em que grandes pestes afectavam o nosso país, um pequeno “milagre” parece ter ocorrido no interior da belíssima Igreja de São Domingos, em Lisboa. Os Cristãos presentes pensaram logo tratar-se de um verdadeiro milagre, um Cristão Novo – ou seja, um ex-Judeu, que ainda era visto com desconfiança – atreveu-se a afirmar o contrário, e esta demonstração da sua pouca fé parece ter acendido um rastilho de ódio que levou à morte de milhares de Judeus nos dias em que se seguiram, neste chamado Massacre de Lisboa de 1506. Os culpados não escaparam à Justiça, mas – e como o texto indica – foi este episódio histórico um principal impulsionador da (então futura) presença da Inquisição em Portugal, onde viriam a ser condenados e a falecer muitos outros Judeus.

 

Agora, se este Massacre de Lisboa de 1506 está hoje quase completamente esquecido, quem for à cidade ainda poderá encontrar, muito próximo da Igreja de São Domingos e do local em que estes episódios outrora tomaram lugar, uma pequena homenagem aos que faleceram durante o episódio. Num semicírculo adornado com uma Estrela de David constam as seguintes palavras, que aqui recordamos ao terminar o tema de hoje:

1506-2006
Em memória dos milhares de Judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de Abril de 1506 neste largo.
5266-5766 [*]

 

*- Estas são as mesmas datas já apresentadas acima, mas convertidas para o calendário judaico.

Sobre Simão Gomes, o Sapateiro Santo

Simão Gomes, mais conhecido como o Sapateiro Santo, é uma daquelas figuras da história de Portugal que o tempo fez (quase) esquecer. Não fosse o facto de ter vivido quase na mesm altura de um outro famoso sapateiro (o Bandarra, autor das Trovas ou Profecias), tendo nascido em 1510 e falecido em 1576, e talvez já ninguém se lembrasse dele. Mas, juntos, parecem formar aquele selecto grupo de figuras que ora trabalhavam nos sapatos das gentes da sua época, ora profetizavam os futuros, incluindo-se a queda e a futura ascensão de um Império Português. Mas, se pouco sabemos agora sobre a vida do seu outro companheiro, já a deste Simão Gomes parece – sendo “parecer” aqui uma palavra fulcral – ser um pouco mais famosa, já que um tal Padre Manuel da Veiga escreveu e publicou um livro sobre o tema.

Livro sobre Simão Gomes, o Sapateiro Santo

Na primeira parte da obra Vida, Virtudes e Doutrina Admirável de Simão Gomes, vulgarmente chamado o Sapateiro Santo, é contada, de uma forma relativamente breve, o que se supõe ser toda a vida e morte desta figura, num conjunto de sequências que nada ficam a dever às biografias dos muitos santos de outros tempos. Isto porque a sua personagem principal é representada tal como se fosse um vero santo, com episódios de santidade desde a sua mais tenra idade, mas com a estranha adição de alguns episódios que até são demasiado invulgares para serem mentira – em dado momento, por exemplo, ao leitor é dito que o herói casou apenas porque Deus o mandou tomar uma esposa, de forma a que tivesse – e são palavras da obra, não nossas – uma cruz constante a suportar em toda a sua vida… esposa essa que, num ou outro episódio, até demonstra alguns requintes de malvadez, talvez inventados pelo autor para fazer reluzir a cruz do seu herói.

Depois, a segunda parte da mesma obra foca-se quase exclusivamente nos pensamentos filosóficos e religiosos do próprio Simão Gomes. O que tem o seu interesse, para quem quiser conhecer melhor o suposto pensamento desta figura, mas suscita igualmente uma dificuldade muito curiosa – onde estão as tais profecias que a história nos diz que este ilustre sapateiro, nascido em Tomar mas que viveu muitos anos em Évora e em Lisboa, deixou sair da sua boca? Parecem existir apenas duas na totalidade da obra, uma em que foi vista uma espécie de espada de fogo por cima do Mosteiro dos Jerónimos, interpretada como uma alusão à (então futura) destruição de Dom Sebastião, e outra que apenas é dado a entender ao leitor que se cumpriu, mesmo no final do primeiro volume, mas sem que o seu conteúdo seja revelado.

 

Temos, portanto, neste Simão Gomes uma espécie de profeta sem profecias conhecidas, como se teve em Bandarra um igualmente estranho profeta de profecias mas sem uma história. Naquele a que dedicamos as linhas de hoje, pelo menos podemos saber parte da sua vida, fruto das linhas deixadas pelo Padre Manuel da Veiga, mas ela encontra-se, nessa obra, como que escondida entre facto e ficção, devendo ser levada com bastante cepticismo. Onde teria essa sua ficção, e se vai escondendo a realidade, é algo aqui difícil de discernir…