A fuga de Maria, a codorniz e a lavandeira

A tradição popular portuguesa tem muitas lendas que associa à fuga de Maria e José para o Egipto. Já há alguns meses que aqui contámos uma, a da outrora famosa “maldição dos tremoços” (em que o facto de estas leguminosas terem contribuído para amedrontar a Virgem resultou no seu castigo eterno), e uma outra que nos pode explicar o porquê das aranhas darem sorte. Mas esses não são, obviamente, casos completamente únicos, e portanto, até dada a quadra festiva que depressa se aproxima, decidimos aqui contar mais duas lendas associadas a esse episódio bíblico, com desfechos bem diferentes, quase até opostos.

A fuga de Maria e José para o Egipto

A primeira destas duas histórias conta então que, nesse mesmo percurso para o Egipto, José e Maria encontraram diversas codornizes. Quando o casal se aproximava deles, estes pequenos pássaros levantavam voo muito alto, tornando possível que os Romanos vissem, muito à distância, que alguém estava a passar por esses lugares. Temendo pela sua vida, a Virgem Maria condenou então toda essa espécie à incapacidade de voltar a voar muito alto.

Por outro lado, no seu caminho eles encontraram também várias lavandeiras (um pássaro que hoje é também conhecido por alvéloa), uns pássaros com longas caudas que, nessa altura, arrastavam pelo chão. Face a esse seu comportamento, eles permitiram pagar os rastos da passagem da Santa Família, e neste caso a Virgem Maria deu-lhes depois a sua eterna bênção, tornando-as mais fortes e corajosas face a aves mais fisicamente imponentes, que até então muito as perseguiam e amedrontavam.

 

Estas são mais duas lendas pequeninas, mas que não podem deixar de fazer notar o seu charme, por se tratarem de histórias com um carácter marcadamente popular, que tentava – aqui, como em muitos outros casos – ligar o sagrado e o profano de uma forma que em muitos casos até nos pode fazer rir. Relembre-se, a título do mais puro exemplo, aquela ligação da Virgem com a cara feia do Linguado, e torna-se difícil não esboçar um pequeno sorriso sempre que ainda vemos esse peixe em qualqur lugar. Interrogamo-nos, portanto, se existirá alguma espécie de estudo nacional deste tema, catalogando todos aqueles animais que, segundo a tradução popular, Maria e José encontraram seja na sua fuga para o Egipto, seja em outros episódios bíblicos que fascinaram o povo ao longo dos séculos… mas se não existir, aí fica uma boa ideia para alguém que tenha tempo livre nas suas mãos e uma grande paixão pelas lendas tradicionais do nosso país…

Onde ler sobre a Mitologia Lusitana?

Há alguns dias recebemos um pedido pessoal de uma pessoa que, no estrangeiro, queria aprender mais sobre a Mitologia Lusitana. Teríamos todo o gosto do mundo em aceder a esse pedido, em dizer-lhe o que ler, mas dar-lhe essa resposta não é de todo fácil, pelo que optámos por escrever estas linhas públicas, em vez de lhe dar uma réplica meramente privada.

 

Primeiro, e antes de tudo o mais, o que constitui a chamada “Mitologia Lusitana”? É, evidentemente, um conjunto de mitos e lendas que poderíamos associar ao chamado povo lusitano, ou seja, aos habitantes da antiga província romana da Lusitânia. O ainda-famoso Viriato foi provavelmente o mais conhecido de todos eles, e é ainda famosa a história de como ele conheceu o final das suas guerras contra os Romanos, mas o que mais sabemos sobre esse povo? Ele é mencionado, aqui e ali, nas obras de alguns autores do Império Romano, mas são raríssimos os instantes em que as crenças desse povo nos foram expostas. Procurar por elas em obras da Antiguidade Clássica é uma tarefa difícil, porque tudo o que pode ser encontrado nelas são, pura e simplesmente, pequenas migalhas dos seus tempos. E então, se as obras dos autores gregos e romanos não nos contam quase nada sobre a Mitologia Lusitana, onde a poderíamos encontrar?

Endovélico e a Mitologia Lusitana

Sabemos que os Lusitanos do seu tempo veneravam um conjunto significativo de divindades e criaturas – Endovélico, Atégina, ou o Larouco, entra muitas outras. E, é crucial deixar a informação seguinte muito clara, sabemo-lo apenas porque os seus crentes nos deixaram alguns ex-votos em que mencionam os nomes desses deuses e alguns elementos a eles relativos. Não contam, nunca contam, quaisquer histórias reais a eles relativas pela mesma razão que ainda hoje não o fazemos – basta pensar-se, por exemplo, que quando vemos uma imagem de Nossa Senhora na beira de uma estrada (e.g. o caso da misteriosa Nossa Senhora do Guincho), reconhecemos facilmente a sua forma, até aí podemos ler algum texto a ela associada (e.g. “Maria Florinda mandou colocar esta imagem à Virgem porque ela curou o seu filho”), mas isto quase nada nos diz sobre a natureza, os mitos ou possíveis lendas das figuras representadas. E porquê? Porque quem erege monumentos como esses está a escrever num tempo e espaço em que supõe que todos os leitores jamais irão esquecer os fundamentos por detrás dessas imagens, sendo o seu Larouco tão famoso como hoje é para nós, por exemplo, o Anjo da Guarda cristão.

O Larouco e a Mitologia Lusitana

Mas, continuando… sabemos portanto o nome de muitas dessas divindades, mas quase nada sobre os seus possíveis mitos e lendas, ao ponto de uma determinada pedra desses tempos lusitanos, outrora encontrada na Península Ibérica, já desconhecer se uma dada figura divina tinha por nome o masculino Fontanus ou o feminino Fontana… e se já nesses tempos, há aproximadamente 2000 anos, a informação em questão era desconhecida, como é possível esperar que ela seja conhecida hoje? Naturalmente que não faz muito sentido, neste contexto, que se possa conseguir encontrar uma obra literária sobre a verdadeira Mitologia Lusitana! Caso encerrado…? Não, ainda não, porque quem quiser conhecer o que ainda se sabe sobre esses potenciais mitos e lendas dos Lusitanos ainda hoje tem três alternativas:

Uma obra sobre a Mitologia Lusitana

Em primeiro lugar, a obra Religiões da Lusitânia, de J. Leite de Vasconcelos, publicada em três volumes no início do século XX, conta fielmente o que ainda se sabe sobre os deuses associáveis à antiga província romana em que os Portugueses de hoje vivem. Não contém, como é natural, as histórias completas dessas divindades, ou quaisquer grandes ciclos mitológicos a elas associadas, mas permite ao leitor conhecer o que verdadeiramente se sabe sobre elas de um ponto de vista histórico e científico.

 

Em segundo lugar, a obra Monarchia Lusytana, de Frei Bernardo de Brito, cujo primeiro volume data de finais do século XVI, conta a “nossa” história nacional desde o início dos tempos até ao nascimento de Jesus Cristo. E isso pode levantar uma questão enorme – como é que o seu autor sabia o que aconteceu? Que fontes usou ele para essa sua obra? É aí que, como diz a sabedoria popular, “a porca torce o rabo” – a sua obra, em especial neste primeiro volume, é parte ficção e outra parte apoiada nas obras de Ânio de Viterbo, ou seja, 48% ficção e outros 48% ficção, com os 4% restantes a se referirem apenas a factos muito ocasionais e difíceis de distinguir dos seus falsos companheiros.

 

E, em terceiro lugar, podem ser lidas obras de vão de escada, como aquela que um dia aqui aludimos em relação à judaica Lilith, em que os autores – ou, se preferirmos, os impuros inventores – pegam no pouco que ainda se sabe da Mitologia Lusitana e constroem verdadeiros romances em torno dos nomes das suas figuras. Relembre-se, a título de exemplo, aquela grande fantasia de Atégina que outrora aqui citámos:

No Equinócio de Outono, celebra-se o ritual que representa a descida de Ataegina ao Submundo. Segundo o que nos conta a tradição, Ataegina desce ao Submundo, em busca de Seu Amado Endovélico, que havia sido morto por um grande javali (que simboliza as Forças da Destruição, que desfazem a forma para que a essência possa renascer). Ataegina desce e encontra-se com seu amado, agora Senhor do Mundo dos Mortos: Enobólico, o Muito Negro. Ela, que é a força que a tudo vivifica, ao mergulhar nas trevas da Morte, abandona o Mundo dos Vivos à escuridão.
A imagem da Deusa fica sobre o altar nos meses claros do ano, mas no Equinócio de Outono, ritualiza-se a descida de Ataegina, guardando com segurança a imagem da Deusa, junto com a imagem de Endovélico, que é também guardada na véspera, quando se ritualiza a morte e descida do Deus ao Submundo, pela força do Javali Negro. Os ícones dos Deuses ficam guardados no sacrário durante os meses escuros e só são retirados seis meses depois, no Equinócio de Primavera, a Festa do Desabrochar da Vida.
Sempre que Ataegina desce, confio à Deusa e Senhora Nossa as sementes de meus sonhos. Pois Ataegina é, então, a própria Semente: que em busca de florescer novamente em Amor e Beleza, junto a Seu Amado, se enterra no Ventre Sepulcral da Terra Mãe. A semente, debaixo da terra, será roçada pelas Forças de Destruição do Submundo, que farão a casca da semente se putrefazer. Nesse processo, ela passará por dor e medo, numa verdadeira alquimia, no Caldeirão da terra, vermes e humidade do Ventre da Velha Dana. E deste caos germinal, surgirá o broto verde que se elevará, em busca do Sol: Endovélico (o que floresce), que aí sim, terá voltado a brilhar sobre a superfície. O broto crescerá, recebendo os beijos cálidos de Endovélico. O botão logo se mostrará por entre as folhagens, e eis que, no tempo certo, florescerá, e a Deusa, assim, retornará aos seus filhos, a Renascida, a Flor plena de Vida, Alegria, Beleza e Amor, Ataegina!
E junto com a Deusa, florescerão os sonhos que este filho devoto lhe confiou, e que junto com Ela, festejará a realização de cada um deles, assim como também aprenderá com Ela sobre a não realização daqueles que não vingarem, pois Ataegina é Senhora da Terra, da Lua e do Submundo, Deusa Tripla que reina sobre todos os Mundos, e que conhece o que vai nas profundezas subterrâneas de nosso inconsciente, no íntimo de nossa alma, e Sabedora disso, concederá sempre os frutos apropriados para a nossa colheita.

Isto não é, de todo, a Mitologia Lusitana, mas sim puras fantasias inventadas por alguém que pegou no pouco que se sabe de duas divindades lusitanas, inventou algumas coisas novas, o misturou com alguns famosos mitos da Antiguidade – os de Inana / Ishtar e Dumuzid / Tamuz, de Adónis, etc. – e o pretendeu fazer passar por histórias verdadeiras… que, provavelmente e como uma dada autora portuguesa, recebeu por inspiração divina de uma deusa que só podemos reconhecer como a Mentira, a estranha divindade dos Romanos e a de alguns romances medievais. O que estas obras apresentam são puras mentiras, e não merecem qualquer crédito!

 

Afinal… onde ler sobre a Mitologia Lusitana?

Face a tudo isto, sugerimos que quem quiser conhecer a Mitologia Lusitana leia, antes de tudo o mais, os três volumes da obra Religiões da Lusitânia. Em seguida, se quiser algo mais ficcional, poderá então ler o primeiro volume da Monarchia Lusytana. E, só depois, poderá até tentar ler obras dos nossos dias que clamam (falsamente) dar a conhecer a Mitologia Lusitana, mas que se esquecem frequentemente de informar os seus leitores que o que fazem é a construção de puras ficções, mais do que apresentar qualquer espécie de realidade do passado lusitano…

Sobre as obras como as desse terceiro grupo, preferimos sempre não as publicitar por aqui, já que a sua qualidade deixa constantemente muito a desejar – a título de exemplo, ainda há dias encontrámos, numa biblioteca portuguesa, uma obra em que uma seita secreta nacional, sobre a qual absolutamente nada mais se sabe, pelo módico preço de 15€ revela os seus grandes segredos, o que não pôde deixar de nos fazer rir a todos, tão grande a mentira por detrás dos seus autores, e tão cara a absurda fantasia que pretendia vender-nos…

A história da Mulher-Homem

Falar-se da Mulher-Homem é, mesmo que por um breve instante, falar-se de Maria Coroada. Já aqui contámos a sua história, há mais de um mês, e nessa altura referimos, quase apenas de passagem, que ela tinha sido a mãe da figura a que dedicamos as linhas de hoje. Na altura, não era próprio nem particularmente oportuno contar esta outra história, pelo que a sua apresentação foi sendo adiada até ao dia de hoje.

A Mulher-Homem, filha de Maria Coroada

Lembram-se da imagem acima? Poderia ter-se pensado, pelo contexto do artigo anterior, que ela era a mãe, mas na verdade a figura fotografada era uma das suas filhas. Nascida Maria Trindade ou Antónia das Neves, na sua juventude começou a usar roupas masculinas e continuou a usá-las por alguns anos. Não há qualquer prova real que tenha sido a mãe dela a ordenar este então-estranho procedimento, ou que o tenha feito por complexas reflexões filosóficas sobre a natureza da mulher no seu século. Sabemos é que algumas pessoas sabiam a verdade, sabiam que esta era uma mulher e não um homem, inclusive Rosinha, com quem tinha uma relação amorosa, que apenas pretendiam consumar depois de um possível casamento. E então, esta senhora escrevia poemas à sua Rosinha com versos como os que ainda nos chegaram nestes dois poemas:

Diz, minha Rosa,
Sem impostura;
Se amas a outrem
Com mais ternura.

Oh! Não me percas
O teu amor;
Espera por mim,
Minha alva flor.

Espero de em breve
Aí voltar,
Então mil vezes
Te hei-de abraçar.

Sabes tu que este meu peito
Só para ti está aberto,
Ninguém mais o ocupará
No povoado ou no deserto.

Vivo por ti, só por ti;
Deves conhecê-lo há muito;
Não te esqueças pois de mim
Como estando de ti junto.

E então, o que aconteceu a António das Neves, nome pelo qual esta mulher era conhecida no disfarce masculino? Em Março de 1871 a identidade deste caixeiro-viajante foi reconhecida numa esquadra do Porto, ela foi presa, e presente a juíz foi-lhe dito para ela passar a usar as roupas próprias ao seu sexo. Não é totalmente claro se fazer o contrário era contra as leis da época, mas pelo menos parecia ofender a ideologia do seu tempo, e ela passou a fazê-lo, apesar da fama que as vestimentas masculinas lhe tinham trazido.

Posteriormente, esta Antónia das Neves lá casou, aos 28 anos, com um homem significativamente mais novo (desconhecemos o que aconteceu com a Rosinha), mas não há registo de que tenham tido filhos. O que sabemos, no entanto, é que ela veio a falecer num incêndio do portuense Teatro Baquet a 20 de Março de 1888, e foi esse derradeiro evento, esse seu falecimento entre mais de uma centena de pessoas, que lhe trouxe uma espécie de fama que ainda tem nos dias de hoje.

 

Morta a Mulher-Homem, como ela era conhecida nesses tempos, poderia dar-se por terminado o tema de hoje, mas ainda há um pouco mais a dizer. Feliz ou infelizmente, toda esta história parece ser reaproveitada por diversas pessoas para apresentar um conjunto de ideias que, originalmente, não pareciam ter. Por exemplo, voltando ao tema de Maria Coroada, muito se escreve sobre essa profetiza ser feminista, ao que depois se acrescenta que ela mandava as filhas usar roupas masculinas para lhes dar melhores oportunidades na vida… mas não só essa figura não era feminista – recordem-se parte das suas palavras, “os homens terão duas mulheres, e as mulheres um só homem. Porque o homem não pode dispensar a mulher, e a mulher pode bem estar uma temporada sem homem” – como não existem provas reais que tenha sido a mãe a ordenar a esta Mulher-Homem que usasse roupas masculinas. Até pelo contrário, de entre as suas filhas, sabemos que apenas duas delas o faziam, e que a outra até deixou de o fazer antes da adolescência, aparentemente por ter sido motivo de chacota.

 

Por isso, é necessário alertar que as histórias de outros tempos, como esta de hoje, nem sempre devem ser reinterpretadas à luz dos nossos dias, sob pena de se ver em histórias como a desta Mulher-Homem contornos e sugestões que na verdade não tinham…

O verdadeiro significado de “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”

É hoje sobejamente conhecido o verso que nos diz “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Está num dos poemas da Mensagem de Fernando Pessoa, e obteve até uma espécie de carácter de provérbio entre nós, mas parecem ser poucos aqueles que pensam no seu verdadeiro significado, no que estas belas palavras nos querem mesmo dizer. E não é o que pensamos… e por isso, hoje, revelaremos aqui o verdadeiro significado por detrás dessas palavras do poeta, com uma lenda que está hoje quase completamente esquecida.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce

O verso em questão provém da Mensagem de Fernando Pessoa, como já foi referido antes, num poema que tem por título “O Infante” e que é o primeiro de uma sequência a que normalmente se chama “Mar Português”. É nele que estão os seguintes versos:

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Pelo contexto no próprio poema, depressa se deveria compreender que o sonhador é “O Infante” do título, o principal originador do período dos descobrimentos portugueses, aquele a que chamamos quase sempre Infante Dom Henrique. E até aqui tudo bem, presumimos que isto não traga qualquer grande novidade, mas o que apresentamos a seguir é muito menos conhecido e nunca parece ser dito nos bancos da escola. Faça-se até a pergunta – afinal, o que levou este nosso infante à sua expansão marítima? Num contexto físico, quase que apeteceria perguntar “Alguém sabe, alguém sabe?”, mas nestas coisas online é mais difícil fazê-lo, razão pela qual passamos já à própria resposta.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce

Segundo uma espécie de lenda que precede o século XVI – e recorde-se que o Infante Dom Henrique nasceu em 1394 e faleceu em 1460 – ele foi levado a toda esta ideia da expansão marítima por um sonho que teve durante a noite. Não é muito claro ou seguro o que lhe apareceu nesse sonho, mas diz-se que nele Deus o convidou à descoberta das “Etiópias”, e que nessas novas regiões seriam encontrados muitos novos homens que precisavam de ouvir a mensagem cristã. E, se tal pedido divino ainda não fosse inspiração suficiente, Deus também revelou ao nosso Infante que nessas novas terras seria encontrado muito ouro, riquezas sem fim, que poderiam depois vir a ser utilizadas para combater os inimigos da fé cristã e cristianizar novos povos.

 

Terá sido isto verdade? Terá isto acontecido realmente ao nosso Infante Dom Henrique? Não há qualquer forma real de o sabermos, mas o que é difícil de disputar é que esta ideia, como já indicado acima, já existia antes dos inícios do século XVI e chegou-nos, no mínimo, por via de um autor que não fazia parte do clero, tendo por isso poucas razões para mentir sobre esta matéria. Depois, sabendo-se o interesse de Fernando Pessoa em mitos e lendas, no Misticismo, e em mensagens divinas como estas – recorde-se até o título da obra em questão, Mensagem ! – é quase certo que também ele conhecesse o que referimos acima.

Face ao contexto, os versos que dão o título às linhas de hoje – “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” – ganham um significado muito mais concreto. Ele pode ser interpretado assim – Deus decidiu que o mar deveria pertencer a Portugal. Face a essa decisão, levou a que o Infante sonhasse com um mar português. E, nascido desse sonho, fomos então levados a essa grande e inovadora ideia de tentar criar um mar pertencente ao país dos Portugueses. E a esta mesma ideia se volta no final do poema – “Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez”, porque as intenções propostas pelo ente divino foram apenas parcialmente atingidas, mas “falta cumprir-se Portugal” porque a derradeira sequência do sonho, de um império riquíssimo que conseguiria eliminar os inimigos da Cristandade, não chegou a acontecer.

 

Como tal, a ideia de “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” refere-se especificamente ao nosso Infante Dom Henrique, e pretende denotar que a obra construída pelo Homem, na sua face mais geral, só é possível com uma inspiradora intervenção divina, que neste caso em concreto nasceu de um sonho nocturno. E, para o seu século, a ideia não era nova nem louca – recordem-se, por exemplo, os antigos casos de Artemídoro ou de Senádio – mas foi aqui muito inspiradora dos Descobrimentos Portugueses, numa ideia que mais tarde virá a ser elaborada com o desaparecimento de Dom Sebastião e obras proféticas como as de Bandarra e do Padre António Vieira, em que continuou a haver uma tentativa de “fazer cumprir Portugal”. E, se não podemos ter 100% de certezas da intenção do poeta, podemos pelo menos acreditar que este poema de Fernando Pessoa foi escrito com conhecimento da lenda – ou realidade? – deste sonho nocturno do Infante Dom Henrique!

Sobre o Tributo das Cem Donzelas

Falando-se hoje sobre o chamado Tributo das Cem Donzelas, é desde já difícil saber como o descrever. Tratou-se de uma mera lenda, ou foi baseado em factos históricos ocorridos entre os séculos VIII e IX da nossa era? Se a resposta correcta for a primeira, como se explica a sua constância em diversas outras lendas – recorde-se, por exemplo, a curiosa lenda portuguesa de Guesto Ansures? Se for a segunda, como é possível compreender-se a existência de tão poucas provas físicas de uma tão estranha e repetida ocorrência? Talvez seja melhor começar-se pelo início e recapitular, de forma muito breve, o tema em questão.

O Tributo das Cem Donzelas - lenda ou realidade?

Conta-se que por volta de finais do século VIII o rei Mauregato I das Astúrias subiu ao trono de forma ilegítima com o auxílio de alguns combatentes islâmicos. Em troca desse favor, e apesar de ser cristão, ele concedeu – ou apenas aceitou, não é claro quem iniciou toda a ideia – ao seu auxiliador um tributo anual de cem donzelas (ou seja, cem jovens virgens). Como essa selecção era feita não é claro, as fontes existentes nada referem sobre a beleza das jovens (abrindo a possibilidade de que pudesse ser um bom truque para afastar de casa as jovens feias), mas algumas delas dizem é que 50 delas deveriam pertencer à nobreza e outras 50 ao povo, num estranho exemplo de igualdade medieval. As mesmas fontes também adicionam, mais raramente, uma referência curiosa – caso não existissem jovens suficientes, a falta de cada uma delas poderia ser substituída por um valor monetário que tinha sido estipulado de antemão. E então, segundo se diz, esse tributo anual de 100 donzelas prolongou-se por vários anos, até à (provavelmente lendária) Batalha de Clavijo.

 

Mas a grande questão, como já referido acima, terá mesmo de ser… foi este Tributo das Cem Donzelas uma realidade, ou mera história? Não sabemos, nem é fácil sabê-lo. Sabemos, isso sim, é que toda a situação gerou um conjunto de referências reais e lendárias ao longo dos séculos, desde pequenas piadas (e.g. “Porque queriam os Mouros as mulheres do local X? Elas lá são tão feias!”), até histórias que preservam oposições locais a esta ocorrência (e.g. a lenda dos Figueroas, em Espanha, muito semelhante à nossa lenda da “Canção do Figueiral”). Entre elas conta-se uma referência muito inesperada à finalidade dos Mouros para as tais donzelas: eles levavam-nas para os seus haréns, só assim se podendo explicar – segundo esta história – como cada um deles até conseguia ter tantas mulheres diferentes para si mesmo… uma ideia muito digna de nota, porque pode permitir compreender-se, finalmente, a verdade por detrás de todo o episódio.

 

É provável, seguindo-se esse caminho, que a ideia do Tributo das Cem Donzelas tenha nascido de uma compreensão incorrecta e retroactiva de alguns dos costumes dos Mouros. Se se acreditava, nessa altura, que cada um deles tinha, por razões culturais, um verdadeiro direito a possuir várias mulheres, faz sentido que alguns Cristãos se tenham interrogado sobre a sua proveniência, levando à possibilidade de imaginar um tempo antigo em que elas tinham sido obtidas por oferenda cristã. Isso poderá, ou não, ter sido verdade, mas no mínimo dos mínimos deverá ter inspirado todo um conjunto de lendas a que ainda temos acesso hoje, nas quais diversos heróis – recorde-se, novamente, o nosso próprio Guesto Ansures – impediram algumas jovens locais de serem levadas pelos Mouros. E esta possibilidade não só pode explicar a existência das tais lendas, com as costumeiras interrogações por elas deixadas (i.e. se o objectivo fosse somente o de obter tantas jovens virgens quanto possível, é provável que muitos islâmicos tivessem obtido para si mulheres bastante feias, lamentando depois quem lhes tinha “saído na rifa”!), como também a ausência de provas físicas de todo o tributo – ele provavelmente existiu apenas na imaginação popular, não deixando por isso provas desta natureza!