O Homem do Chapéu de Ferro e a Velha da Égua Branca – duas lendas (quase) perdidas

Falar sobre as lendas por detrás do Homem do Chapéu de Ferro e da Velha da Égua Branca não é tarefa fácil. Isto porque estas são duas figuras nativas da Mitologia Portuguesa, à semelhança do Secular das Nuvens e do Homem das Sete Dentaduras, que estão hoje já quase perdidas, mas que, ao mesmo tempo, parecem ter alguma espécie de antiga ligação entre elas. Por isso, comece-se por falar das lendas de estas duas figuras individuais, antes de se voltar ao tema de uma possível ligação entre elas.

 

A lenda da Velha da Égua Branca

A lenda da Velha da Égua Branca

Conta-se que, originalmente, esta mulher viveu no tempo de Jesus Cristo, e que nessa altura ela era muito sovina. Um dia, quando foi visitada por essa famosa figura religiosa, recusou-se sequer a dar-lhe um pequeno pedaço de pão. Cristo castigou-a através de um pequeno milagre, fazendo com que o próximo pão que ela cortasse se esvaísse em sangue. Essa estranha ocorrência assustou tanto esta mulher que ela acabou por morrer em apenas três dias… e depois voltou à vida, eternamente condenada a vaguear pelo mundo fora numa égua branca, sempre com a mesma faca sangrenta na sua mão, um provável símbolo do crime que paga eternamente, vivendo agora sob o nome de Velha da Égua Branca.

 

A lenda do Homem do Chapéu de Ferro

A lenda do Homem do Chapéu de Ferro

Também este homem, cujo verdadeiro nome o tempo há muito fez esquecer, viveu na altura de Jesus Cristo. Dizia-se que foi um dos soldados que torturou essa figura religiosa na sequência de acontecimentos que levaram à sua Paixão. Por essa sua acção, também ele foi amaldiçoado por Cristo, mas a pouca informação que nos chegou não preserva completamente o que se passou em seguida. Ele tornou-se o Homem do Chapéu de Ferro, talvez para punir o peso da inconsciência dos seus actos, e é representado como uma das mais estranhas dos mitos e lendas de Portugal. De facto, num caso como este é mesmo melhor referir a informação que nos foi preservada por Teófilo Braga, ligeiramente adaptada para facilitar a leitura:

O Homem do Chapéu de Ferro aparece logo que dá meia-noite e o galo canta, à beira das estradas, por baixo das oliveiras, das figueiras ou junto às fontes. Vagueia até à terça noite, umas vezes acompanhado por um porco preto que grunhe de momento a momento, outras de um grande veado cuja armadura toca o zimbório das torres, ou ainda de um galo negro como a noite de trovões. Todos estes animais que o acompanham, cada um na noite que lhe foi destinada, são o Diabo que toma diversas figuras. Esta entidade mítica tem o poder de causar a tempestade, de fazer parar os raios e de arrasar o mundo, caso o galo, o porco ou o veado o inquietem. Também, para se vingar dos homens que odeia, assalta-os, rouba-os e mata-os. Depois tudo é fumo e labaredas que saem da terra como vulcões. Traz um enorme chapéu de ferro enterrado na cabeça. É uma figura colossal, tem a boca rasgada como a de um monstro, deitando chamas quando se enche de raiva, e a sua cor é a do bronze. Todavia foge quando avista a Velha da Égua Branca.

 

Qual a ligação entre estas duas figuras?!

A última frase da citação de Teófilo Braga deixa claro que se cria, na altura, numa qualquer ligação cósmica entre o Homem do Chapéu de Ferro e a Velha da Égua Branca, mas qual terá sido ela? Se, originalmente, ambas as figuras já se encontravam ligadas a punições de Jesus Cristo, é talvez possível que tenham sido marido e mulher, ou que tivessem alguma outra espécie de conexão pré-morte, que permaneceu após o seu falecimento para a vida humana. Mas, qual terá sido ela, isso é, muito infelizmente, algo que se perdeu com o tempo. Poderíamos aqui apresentar “quinhentas” outras teorias, mas a pura e dura verdade é que as fontes literárias que nos chegaram e que ainda mencionam estas duas figuras não explicam muito mais do que o que já foi apresentado acima. Isto também acontece com muitas outras figuras mitológicas nacionais – e.g. a Peeira de Lobos ou o Tardo – porque, de uma forma agora muito infeliz, em outros tempos não existiu uma verdadeira sistematização na tentativa de preservar as figuras nativas do nosso país, estando elas hoje apenas acessíveis em breves lampejos como os apresentados ali em cima…

A lenda da Caldeira de Pêro Botelho – e a sua verdadeira história!

Para se falar sobre esta lenda da Caldeira de Pêro Botelho talvez valha a pena começar com uma pequena história mais pessoal. Há alguns anos atrás – que isto do Covid tocou a todos – tínhamos uma espécie de jogo que passava por tentar relembrar diversos títulos associados a figuras e espaços religiosos. Por exemplo, se uma primeira pessoa dissesse “Jesus”, a segunda continuaria com “Emanuel”, outra diria “o Cordeiro de Deus”, “o filho de Maria”, “o Messias”, assim por diante, e a primeira pessoa a não conseguir acrescentar um novo título perdia o jogo. Claro que isto implicava algum estudo (e podia assustar um pouco quem não nos conheça…), e ao longo dessas tentativas de jogo acabou por se ir encontrando alguns títulos um tanto ou quanto desconhecidos.

Que a “Caldeira de Pêro Botelho” era uma espécie de metáfora para o Inferno é relativamente fácil de compreender, dada em particular a forma como esse espaço religioso é representado na cultura ocidental, mas porquê dar esse nome ao Diabo? Seria o de uma daquelas infindáveis transformações que lhe são atribuídas na cultura portuguesa? Na altura nada conseguimos concluir, e então o tema foi ficando de lado, até que há algumas semanas nos foi perguntado algo sobre a misteriosa estátua da Ilha do Corvo, também no arquipélago dos Açores, o que nos levou a este outro local.

A lenda da Caldeira de Pêro Botelho

Segundo a tradição local, em outros tempos viveu numa ilha dos Açores um homem muito malvado de nome Pêro Botelho. Essa sua história não parece ter preservado relatos das suas malvadezas, mas informa que em dada altura ele estava a recolher lama numa das caldeiras da ilha e caiu acidentalmente para o seu interior, onde os seus gritos puderam continuar a ser ouvidos durante muito tempo… e diz até a mesma lenda que ainda hoje ele pode ser ouvido no local, soltando agora roncos demoníacos que ora lhe podem ser atribuídos a ele, ou a um dos muitos demónios seus companheiros nesse outro mundo.

 

Agora, esta é uma lenda relativamente simples, mas algo nos cheirava a esturro nela – porquê mencionar, em todas as versões que fomos lendo, a maldade deste homem, quando depois ela não tinha qualquer qualquer papel real na própria trama? Em plena curiosidade, decidimos procurar um pouco mais sobre este Pêro ou Pedro Botelho. Fomos saltando de livro em livro até chegarmos à Fastigínia de Tomé Pinheiro de Veiga, datada de 1605, que parece ser a mais antiga referência a este episódio, e em que é revelado que existiu, de facto, um homem chamado Pedro Botelho e que foi ele que deu origem ao provérbio “caldeira de Pêro Botelho”. E como aconteceu isso? Segundo esta fonte literária, em dada altura ele quis entregar esta ilha portuguesa aos Franceses, e como castigo por essa traição foi depois cozido vivo numa caldeira… o que aconteceu na Ilha da Madeira, provavelmente no ano de 1566, e não na Ilha Graciosa dos Açores, como hoje nos fazem crer!

 

Isto é muitíssimo interessante porque mostra aquela grande razão pela qual escrever estes artigos nunca cessa de nos fascinar. Se é comum dizer-se que todas as lendas têm um fundo de verdade, o episódio referente a esta caldeira de Pêro Botelho teve, aparentemente, lugar num determinado local, foi posteriormente associado a outro, mas para que tal fosse conseguido surgiu a necessidade de “censurar” parte da história, fazendo do vilão uma pessoa muito má, mas omitindo as verdadeiras razões dessa sua maldade. Se elas tivessem sido reveladas, como fizemos acima, acabariam por trair que esta até pode ser hoje uma lenda açoreana mas teve, na verdade, a sua verdadeira génese no que parece ser um episódio histórico – e bem real – que aconteceu entre madeirenses!

A lenda da Mina da Moura

A lenda da Mina da Moura é uma história da região de Óbidos que parece estar cada vez mais esquecida. E o porquê é fácil de compreender – ela está completamente associada a um espaço físico em concreto, localizado algures entre a Lagoa de Óbidos e aquela nossa vila hoje famosa pelo seu grande castelo, mas já ninguém parece saber precisamente onde era o local. E assim, sem um local concreto onde se procurar a sua heroína, tudo o que vamos contar abaixo foi sendo esquecido…

A lenda da Mina da Moura

Conta-nos então esta lenda que algures num caminho da região havia um misterioso buraco numa rocha. Ele era demasiado pequeno para alguém lá poder entrar, mas eram muitos aqueles que reportavam existirem as maiores riquezas, e até mesmo um fantástico palácio com contornos mágicos, no seu interior. Nunca ninguém lá conseguiu ir, ou procurou obter esses ouros de outros tempos, pela simples razão de que, em dadas alturas do ano, aí podia ser vista uma jovem misteriosa, belíssima como a Lua, que penteava constantemente os seus cabelos com um pente feito de puro ouro, o qual tinha incrustadas as mais belas pedras preciosas. E então, quando alguém se aproximava do local, esta bela jovem perguntava-lhe sempre “Quem é mais belo, eu ou este pente?”… e os homens respondiam-lhe, como nunca poderia deixar de ser, que ela era a mais bela. Isso fazia-a sorrir, mas com um sorriso fingido e muito triste, porque ao dar essa resposta – ou ao aceitar em si que apesar da sua beleza, depois todos os homens preferiam ficar com o pente do que com ela – ela acabava por ficar condenada durante mais algum tempo. E reza então toda esta história de que ela nunca foi salva do feitiço ao qual foi condenada em outros tempos…

 

A jovem misteriosa desta lenda da Mina da Moura era, naturalmente, uma Moura Encantada, como tantas outras que se acreditava terem existido pelo país fora. Ainda não conseguimos encontrar quem nos tenha afirmado ter visto uma na primeira pessoa, mas histórias com contornos como estes existem um pouco por todo o país, e este exemplo em particular merece destaque por não estar associado ao norte ou ao sul de Portugal, como é mais habitual neste tipo de relatos, mas à região centro, onde histórias como estas parecem ser bastante mais raras. Só falta mesmo é redescobrir onde ficava essa outrora-famosa caverna, para se poder confirmar hoje se sempre existia um misterioso palácio no seu interior, ou se tudo isto vinha, pura e simplesmente, das más línguas das populações locais…

A origem do Sebastianismo

Se já cá falámos anteriormente sobre o Sebastianismo, hoje decidimos ir um pouco mais longe e falar sobre a sua origem em concreto. Claro que já quase ninguém acredita que El-Rei D. Sebastião irá voltar um dia, naquela utopicamente famosa manhã de noveiro, mas a ideia ainda nos é conhecida da Mensagem de Fernando Pessoa, entre outras fontes. Mas, de facto, de onde vem ela? Já lá iremos, principie-se com uma das faces mais visíveis de toda esta história lendária portuguesa.

O túmulo de Dom Sebastião no Mosteiro dos Jerónimos

Hoje em dia, quem for ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, poderá lá encontrar um túmulo onde se diz que está alojado o corpo do falecido Dom Sebastião. É um espaço como tantos outros no mesmo templo, mas quando se presta alguma atenção prolongada pode ver-se nele uma área, que até assinalámos a verde na imagem acima, com o seguinte texto em Latim:

Conditur hoc tumulo si vera est fama Sebastus
Quem tulit in Libicis mors properata plagis
Nec dicas falli regem qui vivere credit
Pro lege extincto mors quasi vita fuit.

As palavras mais importantes aqui são Si vera est fama, algo como “se é verdade o que se diz” o corpo de D. Sebastião está neste túmulo. Mas como poderia não estar? Será que ninguém se certificou da verdadeira identidade do falecido? Como é isso sequer possível, tratando-se ele do mais importante dos cidadãos da pátria portuguesa nessa altura? A mera sugestão pode levantar centenas de estranhas perguntas, mas visto que é ela a mais significativa semente do Sebastianismo, decidimos que tínhamos de descobrir uma resposta. Para tal, partimos em busca das fontes literárias da época, fomo-las seguindo, e chegámos a um panorama geral da origem de uma crença que quase chegou aos nossos dias. Portanto, indo agora ao que importa:

 

No ano de 1578 o rei português Dom Sebastião partiu para terras de África, onde queria lutar pela Cristandade. Foram muitíssimos aqueles que o tentaram dissuadir, inclusive quem mais teria a ganhar com a sua morte, mas não conseguiram fazê-lo. As crónicas da época representam-no como um monarca profundamente imprudente, que até tentou liderar pessoalmente os combates no campo de batalha. Falando-se da Batalha de Alcácer Quibir, foram vários os nobres que o viram em combate, mas ás tantas todos eles deixaram de o ver. Isto levanta três grandes possibilidades – ou ele morreu, ou escapou da batalha, ou foi capturado. A terceira opção parece improvável, porque diversos nobres o ouviram a dizer que preferia morrer a sofrer o triste destino da captura, pelo que sobram as duas restantes… e como pelo menos uma pessoa afirmou ter visto o corpo do rei morto, já despojado do seu equipamento guerreiro e com algumas feridas, faz sentido que o monarca tenha morrido! Mas, infelizmente, demorou algum tempo até que outros o pudessem tentar identificar, e nessa altura o corpo já estava tão degradado que era difícil ter a certeza absoluta de quem ele era. Mas, mais uma vez, visto que pelo menos uma pessoa já o tinha identificado, acreditou-se que o corpo recuperado, aquele que ainda hoje está no túmulo do Mosteiro dos Jerónimos, era o do monarca desaparecido.

O Dom Sebastião e o seu Sebastianismo

Mas… depois, começaram a surgir rumores de que o rei tinha escapado da batalha e estava vivo. Maluquices, pensaríamos, até terem aparecido três homens que afirmavam ser o rei retornado de terras de África. Mais uma vez, pareceria completamente incrível, mas nos últimos anos desse século XVI foi encontrado no Mosteiro de Alcobaça um documento inquietante. Já cá falámos dele antes, o chamado Juramento de Ourique, mas entre as suas linhas foi encontrada uma informação que era desconhecida até então. Segundo ela, na Batalha de Ourique foi feita uma profecia a Dom Afonso Henriques com as seguintes palavras:

(…) És amado do Senhor, porque sobre ti e sobre os teus descendentes depois de ti, Ele tem posto os olhos de sua misericórdia até à décima sexta geração, na qual se diminuirá a descendência, mas na mesma assim diminuída, o mesmo Senhor tornará a pôr os olhos e verá. (…)

É provável que se tenha tratado de uma mera falsificação documental, mas a acreditar-se na estranha ideia, D. Sebastião fazia parte dessa tal décima sexta geração – e se o rei tivesse pura e simplesmente falecido, a regeneração da monarquia portuguesa não poderia cumprir-se. O que, muito naturalmente, só podia indicar que ele ainda estava vivo… e assim parece ter nascido a principal ideia por detrás da origem do Sebastianismo!

 

Mas a história ainda não fica por aqui… alguns anos mais tarde, um tal Dom João de Castro, neto do nobre homónimo que ficou famoso pelas suas barbas, veio a conhecer um homem encontrado em Veneza que podia ser o monarca retornado. Parecia sê-lo e até tinha uma história para o comprovar, em que supostamente viajou “encoberto” pelo mundo fora durante 20 anos (e daí o seu futuro título de “Rei Encoberto“), lamentando o seu destino em Alcácer Quibir e procurando redenção pelas suas acções imprudentes. Assim, para trazer à luz do dia esta suposta verdade, esse tal João de Castro escreveu um primeiro livro sobre o tema – o Discurso da vida do sempre bem vindo, e apparecido Rey Dom Sebastião nosso senhor o Encuberto desde o seu nascimento até o presente: feito, e dirigido por D. João de Castro aos tres Estados do Reyno de Portugal: comvem a saber ao da Nobreza, ao da Clerezia, e ao do povo a que já cá aludimos anteriormente – a que se seguiram diversas espécies de sequelas em que defendeu sempre a ideia de que Dom Sebastião ainda continuava vivo e iria voltar um dia!

Marco Tulio Catizone, uma das personagens da origem do Sebastianismo

Mas… pelo menos essa história veneziana era falsa. Não era o monarca português retornado de longas viagens, mas um tal Marco Tulio Catizone, cidadão italiano, que em virtude das suas intrujices acabou por ser executado em 1603. Não é fácil saber se a imagem acima é fiel – provém de um livro publicado em 1728 – mas podemos frisar que quem o viu pessoalmente o considerou muitíssimo semelhante ao nosso rei, o que poderá ter ajudado em toda esta ideia… ainda assim, falecido este possível Sebastião, o Sebastianismo não morreu por completo, mas reaproveitando a ideia da profecia, de que o rei não podia estar morto, a crença foi sofrendo várias metamorfoses místicas, como a da presença do monarca na chamada Ilha Encoberta, mas essas já são histórias que têm de ficar para outro dia…

 

Em suma, qual é essa verdadeira origem do Sebastianismo? De forma breve, esta crença parece ter nascido da associação de três grandes elementos. Primeiro, o facto de Dom Sebastião ter desaparecido em combate, sem que ninguém o tenha visto morrer e sem que existissem múltiplas confirmações da identidade do seu cadáver. Segundo, a posterior “descoberta” de um documento “histórico” alcobacense contendo uma profecia segundo a qual algo de negativo ia acontecer ao nosso décimo sexto monarca. E, em terceiro lugar, o reaparecimento de supostos “Sebastiões”, que sempre se provaram falsos mas que foram mantendo na cabeça do povo a ideia de que o rei desaparecido iria voltar um dia.

 

Mas… para terminar, será que este nosso famoso rei morreu na Batalha de Alcácer Quibir ou ainda sobreviveu por alguns anos após o fatídico dia? A verdade puramente factual é que ninguém o sabe, e daí toda esta origem do Sebastianismo. Si vera est fama os seus restos mortais estão no Mosteiro dos Jerónimos, mas em caso contrário, se o que se diz é a mais pura ficção e nada mais, ninguém parece ter conhecimento do que aconteceu verdadeiramente ao décimo sexto dos monarcas de Portugal…

Santa Teresa de Ourém e algumas estranhas lendas

Hoje falamos sobre Santa Teresa de Ourém, não tanto para recordar toda a sua história, como é comum neste espaço e como faremos mais abaixo, mas para relatar uma lenda que lhe está associada e que tem um elemento que é muitíssimo curioso.

Santa Teresa de Ourém e uma sua lenda

Conta-se que a mulher que ficaria conhecida como Santa Teresa de Ourém era, originalmente, ama de um prior muito ávaro. Então, um dia, ao ver um pobre com muito frio, deu-lhe um dos fatos velhos do prior. Este último, quando soube o que ela tinha feito, zangou-se bastante e pediu o fato que lhe pertencia de volta. Triste, Santa Teresa pediu a Deus que ajudasse em toda esta situação, e então o traje multiplicou-se em dois, sendo um devolvido ao prior, enquanto que o outro ficou para o pobre homem que muito necessitava dele.

 

Esta breve lenda poderá, a uma primeira vista, não ter nada de especial, não fosse o facto de surgir um breve comentário à história numa das fontes que consultámos. Nela é então dito que o traje oferecido ao pobre era completamente igual ao do prior, ou seja, que o pobre homem recebeu, por milagre de Deus, um traje tão velho como aquele que o seu possuidor original já tinha usado durante muitos anos. Porquê?! Quer dizer, se o traje ia ser miraculosamente multiplicado, não faria mais sentido que o pobre pudesse receber um traje novo, em vez de um com os defeitos de anos de utilização? Enfim, mistérios divinos…

Santa Teresa de Ourém e uma sua lenda

Deixando então de lado esta estranha lenda, volte-se ao tema da própria Santa Teresa de Ourém. Como pode ser visto na imagem, ela é vulgarmente representada com uma Bíblia na mão, por razões quase óbvias (visto que pregou o evangelho), mas também com um estranho instrumento. Primeiro pensámos que seria uma pá do pão, visto que algumas histórias dizem que ela também foi padeira (e um dia, tendo-se esquecido de pôr a massa no forno, os anjos fizeram-no por ela), mas na verdade é uma gazua antiga ou uma espécie de fechadura. Existem pelo menos três explicações para esse estranho elemento.

 

Uma primeira explicação diz que se trata de uma gazua, com a qual Santa Teresa de Ourém se tornava capaz de visitar a prisão local durante a noite, em que ajudava os pobres, dava os seus pães a quem tinha fome, curava quem estava doente, etc. Uma segunda, completamente anexa a esta, diz que a santa entrava de facto na prisão, sim, mas fazia-o por milagre, sendo essa sua gazua puramente metafórica.

Quanto à possível fechadura, ela é explicada dizendo-se que numa dada altura alguns ladrões tentaram assaltar a casa em que esta mulher vivia. Por milagre, ficaram com as suas mãos presas na fechadura, incapazes de se moverem ou de escaparem, até que a santa lá os perdoou e pediu a Deus que os libertasse.

 

Parecem ser muitas outras as lendas associadas a esta Santa Teresa de Ourém, das quais apenas recontámos aqui algumas, mas aquele pormenor delicioso de um pobre ter recebido miraculosamente uma veste velha pareceu-nos muito digno de nota, já que normalmente os relatos hagiográficos não tendem a apresentar elementos como esses, no sentido de poderem indicar, queiramos ou não, algum carácter menos perfeito do Deus Cristão… ou, em alternativa, esses elementos foram é removidos ao longo dos séculos, por terem sido motivo de alguma chacota popular, como histórias como a de Santa Iria nos mostram!