O Mosteiro dos Jerónimos destruído

Quem estiver habituado a incursões pela internet provavelmente já terá visto uma fotografia do Mosteiro dos Jerónimos destruído. Repetimo-la abaixo, para quem nunca a tiver visto antes, mas recordamos também este tema dada a gravidade do que aconteceu em Paris recentemente.

No já-distante século XIX o agora-famoso Mosteiro dos Jerónimos tinha estado abandonado durante vários anos, após a expulsão das ordens religiosas de Portugal. Depois, numa dada altura decidiu começar-se a utilizá-lo para outros fins, e então tentou-se renovar e melhorar toda a estrutura do edifício. Mas depois, na manhã de 18 de Dezembro de 1878, aconteceu o seguinte:

Mosteiro dos Jerónimos Danificado

Como podem ver nesta imagem, o mosteiro estava a ser parcialmente reconstruído quando choveu bastante durante a noite, o que levou a um grande acidente, na sequência do qual acabaram por falecer oito trabalhadores. Nos dias seguintes acabou por se votar contra a reconstrução do edifício como este estava planeado, mas a realidade é que o Mosteiro dos Jerónimos, com ligeiras alterações, ainda chegou aos nossos dias e é famoso entre todos nós – na imagem seguinte até pode ser vista a mesma entrada deste mosteiro, tal como ela é nos nossos dias, o que permite ver algumas das alterações que estavam a ser implementadas e que, no entanto, acabaram por não ter lugar – por exemplo, acima da janela do piso superior ia ser colocada uma estátua de um santo, e esta parte do edifício também ia ter um pináculo na sua parte superior…

Entrada do Museu Nacional de Arqueologia

Como este nosso Mosteiro dos Jerónimos nacional, é possível que também a bela Catedral de Notre-Dame (de que até já cá falámos de um segredo) volte a ter vida um dia. Claro que já não será como antes, mas… há que ter esperança no futuro!

Um feitiço de amor, provindo de papiros mágicos gregos

Um exemplo de papiro mágico egípcio

Na nossa cultura ocidental, eminentemente cristã, existe um certo tabu em relação ao acesso a um conjunto de conhecimentos supostamente místicos. Mas, ao mesmo tempo, certamente que vários leitores também têm curiosidade sobre o conteúdo de rituais como esses. Nesse sentido, o que hoje trazemos aqui é uma tradução de um ritual provindo de papiros mágicos gregos, que presumimos que ainda não exista em língua portuguesa e acessível ao público em geral. Aqui está descrita a fórmula basilar do ritual, mas onde está escrito “NOME” deveriam, naturalmente, ser adicionados os nomes das pessoas em questão.

 

Feitiço de atracção enquanto a mirra está a ser queimada. Enquanto a mirra está a ser queimada no carvão, recite a seguinte fórmula:

Tu és a Mirra, amarga, difícil. Reconcilias aqueles que lutam um contra o outro; és queimada e forças aqueles que não aceitam Eros a se apaixonarem. Todos te chamam Esmirna, mas eu chamo-te comedora de carne e queimadora do coração. Não te estou a enviar para a distante Arábia; não te estou a enviar para a Babilónia; mas estou a enviar-te para NOME, cuja mãe é NOME,  para me ajudares com ela, para a trazeres até mim. Se ela estiver sentada, não a deixes sentar-se; se estiver a falar com alguém, não a deixes falar; se estiver a olhar para alguém, não a deixes olhar; se estiver a ir ter com alguém, não a deixes ir; se estiver a passear, não a deixes passear; se estiver a beber, não a deixes beber; se estiver a comer, não a deixes comer; se estiver a beijar alguém, não a deixes beijar; se estiver a fazer algo que lhe dê prazer, não a deixes tê-lo; se estiver a dormir, não a deixes dormir. Deixa-a pensar somente em mim, NOME; deixa-a desejar-me somente a mim; deixa-a amar-me somente a mim, e deixa-a fazer todos os meus desejos. Não entres pelos seus olhos, nem pelos seus lados, nem pelas suas unhas, nem pelo seu umbigo, nem pelos seus membros, mas pela sua alma, e estabelece-te no seu coração e queima as suas entranhas, o seu peito, o seu fígado, a sua respiração, os seus ossos, a sua essência, até que ela venha até mim, NOME, amando-me e fazendo todos os meus desejos. Porque eu te conjuro, Esmirna, pelos teus nomes “anocho abrasax tro” e pelos ainda mais convincentes e potentes “kormeioth iao sabaoth adonaipara” para seguires as minhas ordens, Esmirna. Enquanto te queimo e enquanto fores poderosa, deves queimar o cérebro da mulher que eu amo, NOME. Incendeia as suas entranhas e arranca-as, derrama o seu sangue, gota por gota, até que ela venha até mim, NOME, cuja mãe é NOME.

 

Páginas e páginas poderiam ser escritas em relação a este ritual, mas cingimo-nos aos elementos mais básicos – trata-se de um ritual de amor, em que o seu autor procurava causar a paixão amorosa de uma determinada mulher. Para tal, é invocada uma divindade, cuja influência sobrenatural é procurada por quem realiza todo o processo. Perto do final, estão até aqui presentes as chamadas “vozes mágicas”, um conjunto de nomes e expressões sem tradução real e que, supostamente, eram segredos muito bem guardados, até porque sem eles a invocação nunca poderia funcionar.

 

Rituais como estes assentam sempre numa fórmula de duas partes, composta por algo que tem de ser feito (aqui, a queima da mirra) e por algo deve ser dito (a fórmula acima), pelo que os elementos aqui constantes ocorrem em muitos outros rituais, independentemente das mais diversas funções que pretendiam ter. Portanto, este é um digno representante dos feitiços criados na Antiguidade, e que esperamos que resolva essa curiosidade de muitos leitores em relação aos processos mágicos de outros tempos.

A “Tábua de Cebes”

Tábua de Cebes

Conta-nos a breve trama desta Tábua de Cebes que, um dia, alguns homens foram a um templo de Cronos e aí encontraram um ex-voto com uma imagem semelhante à mostrada acima (se carregarem na imagem acima poderão vê-la maior e com mais detalhe). Ficaram tão intrigados como o leitor provavelmente ficará, mas, felizmente, apareceu-lhes um idoso que foi capaz de lhes explicar toda a simbologia presente neste estranho documento. Para quem tiver essa curiosidade, a Tábua de Cebes é essencialmente uma metáfora para a vida, cujos contornos mais precisos seriam demasiado longos para explicar nestas breves linhas.

 

Esta Tábua de Cebes é, de facto, um texto interessante, apesar de parcialmente incompleto, e que parece captar perfeitamente aquele grande mistério que é a nossa vida, tanto em tempos da Antiguidade como nos próprios dias de hoje. Fica, por isso, o nosso convite a que o texto original seja lido, até porque fazê-lo também não toma muito tempo e dá um bom fundamento para uma discussão filosófica muito significativa. A obra pode ser encontrada, em tradução inglesa de inícios do século XX, neste endereço.

“As lendas do sobrenatural da região do Algarve”

Uma Moura Encantada

As lendas do sobrenatural da região do Algarve é uma tese de doutoramento, da autoria de Maria Manuela Neves Casinha Nova e defendida em 2013, que tem um duplo interesse para os amantes dos mitos e lendas nacionais. Apesar de se referir somente a produções lendárias algarvias, algumas das quais inéditas até então, estuda os seus vectores essenciais num primeiro volume e apresenta os seus relatos mais directamente num segundo.

 

Os dois volumes desta tese podem ser encontrados aqui, e são uma leitura inesperada para todos aqueles que têm interesse nas lendas de Portugal.

Como morreram os deuses gregos?

Como morreram os deuses gregos, como foi o seu fim? Provavelmente na sequência de jogos como God of War, já muitos foram os leitores que procuraram neste espaço mitos relativos a esse evento. A famosa morte de Zeus já aqui foi falada há muitos anos, mas achámos que já era hora de responder a essa pergunta – afinal de contas, como morreram os deuses gregos?Estatuetas dos deuses gregosPara responder a essa questão importa, antes de tudo o resto, saber dividir o panteão grego em três grupos diferentes, cada qual com as suas características e destinos bem diferentes.

 

Em primeiro lugar surgem aquelas divindades que são completamente eternas, até pelo facto de a sua presença nos mitos ser muito limitada ou quase inexistente. Figuras como o Caos e Gaia (da Teogonia de Hesíodo), o Motor Imóvel de Aristóteles ou, de um modo mais geral, todas aquelas figuras anónimas por detrás da criação dos vários universos gregos e romanos, nunca morrem, até porque a sua existência é quase puramente etérea.

 

Num segundo lugar poderíamos colocar os mais famosos deuses, figuras como Zeus, Atena, Ares, Afrodite ou Apolo. Quase todos os mitos que temos se referem a eles como imortais, eternos, as únicas entidades que nasceram mas que nunca irão morrer. Porém, o nosso “quase” tem uma forte razão de ser – de acordo com ideias como as de Evémero, nada de divino existia nessas figuras, tratando-se apenas de seres humanos que após a morte, por uma ou outra razão, foram divinizados por aqueles que os conheceram. E, como tal, se quisermos acreditar nessas teorias (de que o exemplo particular de Dioniso é digno de nota – Dinarco até afirma que ele tinha morrido em Argos e sido sepultado em Delfos), os deuses gregos só se tornaram divindades quando o seu corpo físico faleceu, sendo eternos somente na cabeça daqueles que os veneravam como tal.

 

Em terceiro, e último, lugar, poderão então ser colocados alguns dos heróis gregos. Acreditando-se que existiram na carne, só depois da morte física – e somente em alguns casos, frise-se essa excepção – é que foram tornados divindades, às quais alguns crentes prestavam culto. São muito famosos os casos de Herácles e de Aquiles, mas algo de semelhante se passou com Castor e Pólux, Anfiarau, etc. E, nestes casos, a morte (física) naturalmente que precede a própria conversão à forma de deuses, altura em que estas figuras desaparecem quase completamente dos mitos.

 

Então, sumariamente, como morreram os deuses gregos? Não é uma questão simples, mas uma que só pode ser resolvida tendo em conta os elementos muito específicos de cada figura divina. O destino final de Phobos e Deimos, de Hermes e Poseidon, ou até de Mémnon e Ceneu, não podem ser vistos de uma forma brevemente horizontal. Por exemplo, que deus nos poderia parecer mais imortal do que Hades, figura tutelar dos mortos e do submundo? E, ainda assim, Pseudo-Clemente, na sua quinta epístola, refere um túmulo deste deus próximo do Lago Aquerúsia, em Itália…