Seguindo o link do costume (ou seja, indo aqui), poderão encontrar uma nova edição do texto das “Quilíadas”, em tradução inglesa. Se alguém estiver curioso em relação às alterações, podemos revelar que se tratam essencialmente de pequenas correcções ao nível do texto. Essa melhorias tornarão a acontecer no futuro, até que se possa acreditar que o texto colaborativo encaixa na perfeição e agrada a todos os leitores.
Origem da expressão “Se não fosses meu pai…”

A origem da expressão “Se não fosses meu pai…” pode ser vista como um tanto ou quanto problemática, na medida em que ainda é usada nos nossos dias mas não podemos ter absolutas certezas de que efectivamente esse seu uso ainda venha dos tempos da Antiguidade. Isto porque é uma frase relativamente comum, cujo uso poderá derivar do que iremos dizer abaixo, mas também poderá andar a ser utilizada com um total desconhecimento de qualquer outra fonte literária anterior.
A ideia parece aparecer primeiro na Antígona de Sófocles, em que a Creonte o próprio filho diz algo como “Se não fosses meu pai, dir-te-ia insensato”. É, nesse sentido, uma espécie de admissão de que existem um conjunto de coisas que não devem ser ditas aos nossos pais, independentemente das acções e decisões que tomem, mas é igualmente uma frase tão comum que não sabemos se, hoje, quando alguém a repete estará a fazê-lo de uma forma totalmente independente, ou na senda de um conjunto de ideias da Antiguidade. Não sabemos, pura e simplesmente.
A misteriosa pergunta de Perceval

Conta-nos uma das histórias medievais do Rei Artur que, numa dada altura, Perceval foi o primeiro dos cavaleiros a ver o Santo Graal. Porém, pela sua juventude, ou quiçá pela sua falta de experiência, acabou por não conseguir atingir esse seu objectivo. Disseram-lhe, posteriormente, que para salvar o rei e obter o Graal ele deveria ter feito “(um)a pergunta”. Mas que pergunta era essa? O texto nunca é muito claro nesse ponto, até porque o autor original, Chrétien de Troyes, parece ter falecido antes de completar a sua história, mas a nossa pesquisa revelou uma potencial resposta – Perceval deveria ter inquirido sobre a natureza e a proveniência do estranho prato/cálice. A curiosidade do cavaleiro face à estranha procissão seria, nesse ponto, a do próprio leitor; sem a sua pergunta, também a nossa ficaria sem resposta – e ficou, recorde-se, no texto de Perceval, ou o Conto do Graal, como já cá discutimos há uns anos.
P.S.- Para quem não estiver familiarizado com estas histórias, mas até quiser saber mais sobre elas, pode ver este pequeno vídeo (em Inglês). Também podemos falar mais sobre esses temas no futuro, caso hajam vários interessados.
Semónides e a derrelicção da mulher
Pouco se sabe sobre Semónides de Amorgos (que não deverá ser confundido com o, mais famoso, Simónides [de Ceos]), excepto que entre os poucos fragmentos que dele nos chegaram se conta um poema Contra as Mulheres. Nele, o autor equipara jocosamente diversos tipos de mulheres a diversos animais. Termina o seu poema, na forma em que o temos hoje e que até poderá não ser o final original, dizendo algo como:
Cada homem irá elogiar activamente a sua própria
E culpar a mulher do próximo; mas não vemos
Que todos partilhamos esta pobre sorte.
Pois Zeus fez desta a maior de todas as dores
E fechou-nos numa corrente forte como ferro,
Para nunca ser quebrada,
Desde aquele dia em que Hades abriu os seus portões
A todos os homens que lutaram a guerra daquela mulher.

É para nós um pouco chocante, essa ideia da mulher como destruidora do homem, mas também era uma ideia bastante repetida nas mais diversas obras da Antiguidade – temos a Eva cristã, que levou à expulsão do Paraíso, mas também figuras como Pandora (representada acima), e Helena, esposa de Menelau, aqui criticada no último verso. Por isso, por muito ofensivo que esse poema (hoje) nos possa parecer, devemos é interpretá-lo como um sinal dos seus tempos, e de quanto a cultura europeia foi mudando ao longo dos séculos.
Origem da expressão “Ave rara”

Esta expressão, rara avis ou ave rara, já ocorria nas obras de Pérsio e Juvenal, em que nos era dito que – por exemplo – cisnes negros e corvos brancos eram as proverbiais “aves raras”. Porém, a maior delas era certamente a fénix, pela sua raridade – recorde-se que, como já cá foi dito, ela somente podia ser vista na cidade de Heliópolis uma única vez a cada 500 anos.
O significado da expressão remete-nos, essencialmente, para a ideia de que algumas coisas são muito invulgares nas nossas vidas. Ainda assim, devemos ter em conta que a expressão original não tinha qualquer conotação negativa, contrariamente ao que acontece com a dos nossos dias.