Sobre as expressões “A primeira andorinha” e “Uma andorinha não faz a primavera”

As expressões A primeira andorinha e Uma andorinha não faz a primavera falam de um mesmo pássaro mas têm significados quase opostos, sendo aqui associadas por essa mesma razão.

“A primeira andorinha” apresenta-nos este animal como o símbolo da primavera, na medida em que, ainda hoje, quando começamos a ver as primeiras andorinhas nos céus, mais facilmente nos apercebemos da chegada dessa estação do ano. A sua mais antiga referência que temos pode vir dos Cavaleiros de Aristófanes, em que é dito que um dado evento tomou lugar “antes da chegada das andorinhas”, ou seja, como prévio a essa altura do ano.

A segunda expressão, em latim “hirundo non facit ver“, transporta-nos a uma ideia quase inversa, na medida de que a presença de uma só andorinha não pode significar, por si só, a chegada da primavera – é precisamente isso que já Aristóteles nos dizia, na sua Ética a Nicómaco, quando afirmava que essa presença, “como a de um único dia de sol”, não era um símbolo fidedigno da chegada de toda essa nova estação.

 

Se bem que de formas opostas, estas duas expressões levam-nos à importância de não tomar o todo somente por uma das suas partes. São ambas de uma beleza e simplicidade singular, sendo provável que essa se tenha tratado de uma das razões para terem chegado aos nossos dias.

A Árvore Que É Dona de Si Mesma

A Árvore Dona de Si Mesma, de que aqui falamos hoje

O tema de hoje é tão singular que até sentimos alguma dificuldade em tentar introduzi-lo como fazemos habitualmente. Refere-se a uma árvore – a chamada Tree That Owns Itself – que ainda hoje existe na cidade de Athens, no estado americano da Geórgia, e que tem uma característica muitíssimo invulgar – ela possui-se a si mesma, em vez de pertencer a uma qualquer pessoa que é dona dos terrenos em redor, como é muito habitual. Mas como é que uma coisa assim tão estranha aconteceu?

 

Numa data que o tempo já há muito fez perder, este carvalho foi plantado no local em questão. Depois, a propriedade foi passando por diversas pessoas diferentes, até que chegou à posse de um coronel, um tal William H. Jackson, que viveu em finais do século XVIII, inícios do XIX. Por volta da terceira década do século XIX, este homem pensou então em fazer algo nunca visto – tendo em mente que gostava bastante desta árvore e de todo o espaço em redor, decidiu escrever uma espécie de testamento em que deixava o próprio carvalho, bem como uma pequena porção da propriedade em redor, a si mesmo. Parte das palavras desse testamento ainda podem ser encontradas numa pequena placa no local, assinalada na imagem acima, que na sua versão mais recente diz o seguinte:

For and in consideration of the great love I bear this tree and the great desire I have for its protection, for all time I convey entire possession of itself and all land within eight feet [i.e. 2.44 metros] of the tree on all sides.

 

Por esse seu antigo e conhecido proprietário, esta árvore também é hoje distinguida pelo nome de Jackson Oak (i.e. o “Carvalho de [William H.] Jackson”), e ela quase que chegou aos nossos dias, com uma pequena e inesperada diferença… Em Outubro de 1942 ela já parecia ter morrido, e então foi substituída por uma nova árvore (hoje conhecida por Son of The Tree That Owns Itself), supostamente nascida de uma das bolotas da original, transplantada para o mesmo local em finais de 1946. Portanto, se a original já há algumas décadas que desapareceu, esta sua “herdeira” mantém-se no lugar… e se não sabemos até que ponto o suposto testamento ainda tem uma verdadeira validade legal, pelo menos os cidadãos locais parecem ter indo respeitando toda esta incomum ideia, até porque a árvore é um famoso ponto turístico local.

Origem da expressão “Falar às paredes”

Erasmo de Roterdão diz-nos que “falar às paredes” (ou aos muros) é algo que os amantes muito tendiam a fazer, e sabemos que esse acto até é uma parte importante da trama do mito de Píramo e Tisbe, mas o autor não nos dá qualquer fonte explícita para a sua informação, frisando apenas que a expressão já ocorria numa das peças de Plauto. O seu significado é simples – “falar às paredes” é o mesmo que fazer algo de muito absurdo, sem qualquer sentido real.

Quimera – a expressão e o mito grego

Sobre a Quimera, a expressão e um famoso mito grego, no seu Livro dos Adágios Erasmo de Roterdão dizia que este estranho monstro era também um epiteto que se poderia associar a um homem que é inconstante, instável, imprevisível. A mesma expressão também podia ser usada – como hoje – em relação a obras literárias de conteúdo muito incoerente (i.e. aquilo a que poderíamos chamar um “texto quimérico”). Mas esta quimera tem ainda como sinónimo geral e significado português o de uma pura fantasia, até por associação com a estranha criatura das histórias dos Gregos, que não poderia existir excepto nas suas imaginações. Mas quem era, afinal de contas, a figura mitológica grega por detrás de todo este conceito? Podemos recordar, num breve resumo, o mito grego de toda esta estranha criatura:

A Quimera do mito grego

Dizem-nos os diversos autores da Antiguidade que estaa Quimera era um monstro mitológico composto por partes de diversos animais distintos, quase sempre (e como até pode ser visto na imagem acima) um leão, uma cabra e uma serpente. Ela era filha dos monstruosos Tífon e Equidna e foi criada por Araisodaro (não se sabe bem como, ou em que consistia esse mito hoje perdido…), mas o mito mais famoso que temos em relação a este monstro passa pelo seu combate com o herói Belerofonte, que acabou por a destruir com o auxílio de Pégaso, como já cá contámos anteriormente. Os contornos dessa batalha nem sempre estão bem fixos, mas o seu final é sempre muito bem conhecido e repetidamente o mesmo – o monstro foi destruído por esse herói, para nunca mais surgir em qualquer outro mito.

 

E, nesse sentido, para quem ainda estiver curioso, “histórias de quimeras” são não mais que histórias completamente ficcionais e fantasiosas, como o era este monstro de tempos da Antiguidade, de que hoje falámos aqui.

Origem da expressão “Confiar o cordeiro ao lobo”

O cordeiro e o lobo

É famosa a fábula do cordeiro e do lobo, da autoria de La Fontaine, mas a expressão aqui apresentada hoje – confiar o cordeiro ao lobo – nada tem a ver com ela, contrariamente ao que se poderia pensar. Já existiam alusões a esta ideia no canto 22 da Ilíada, e continuam a ocorrer em diversos autores da Antiguidade, mas a sua ideia essencial passa pelo absurdo que é deixar alguém entregue a quem até possa nem ter os seus melhores interesses em mente. Tal como um cordeiro facilmente seria devorado por um lobo, também há que ter cuidado com aqueles a quem confiamos os nossos tesouros pessoais.