A Sibila de Cumas e Tarquínio (e os Oráculos Sibilinos)

Dizem-nos diversas histórias da Antiguidade que num dado dia a sempre viajante Sibila de Cumas se encontrou na corte de Tarquínio Soberbo, o último rei de Roma. Os nove livros que ela tinha em sua posse, que foi compilando ao longo dos anos com recurso à sua sabedoria pessoal, foram oferecidos ao monarca por uma soma avultada (curiosamente, a história raramente nos preserva quão elevada seria…), mas este rejeitou comprá-los. Então, esta sibila – que é como quem diz, profetisa – atirou três deles para um fogo próximo e propôs que Tarquínio comprasse os seis restantes ao mesmíssimo preço de antes. Pela segunda vez o monarca rejeitou essa proposta, rindo-se até um pouco, e pela segunda vez a viajante destruiu no mesmo fogo três dos volumes que tinha em sua posse. Finalmente, a desconhecida ofereceu ao rei os três últimos livros pelo mesmo preço original, que sempre manteve. Inesperadamente, e até incrédulo com toda a ocorrência, Tarquínio acabaria então por comprá-los – eram os Livros Sibilinos, muito famosos da cultura e religião dos Romanos da Antiguidade, mas hoje quase completamente perdidos – enquanto que a Sibila de Cumas desapareceu misteriosamente, para nunca mais ser vista pelos Homens.

A Sibila de Cumas

Muito se poderia escrever relativamente a este pequeno mito da Sibila de Cumas e de Tarquínio, mas os seus mistérios são muito maiores do que a informação que ele nos revela. Está envolto na neblina dos tempos, surgindo numa espécie de vácuo histórico e mitológico cujos contornos estão aqui representados. Seja quem tiver sido essa Sibila de Cumas, os livros que supostamente vendeu a Tarquínio acabaram por se tornar de extrema importância na religião romana, mas também foram perdidos nos primeiros séculos da nossa era, fruto de dois incêndios; depois, e nessa sequência, foram recompilados, e dessa tentativa é que nasceram os chamados Oráculos Sibilinos, que ainda nos chegaram, mas que são apenas uma espécie de falsificação cristã dos originais, aos quais foram acrescentados muitas (novas) profecias de âmbito puramente cristão, mas que se crê serem muito diferentes dos originais, até por estarem repletos de conteúdos relativos à nova religião, enquanto que os relativos à religião pagã são muito breves, quase inexistentes…

 

Os Livros Sibilinos e os Oráculos Sibilinos 

Assim, deixe-se então claro que se os Livros Sibilinos eram atribuídos à famosa Sibila de Cumas, já os Oráculos Sibilinos eram atribuídos a outras sibilas, hoje bem menos famosas que esta grande figura da história de Roma. Os primeiros quase não nos chegaram, com a excepção de vagos versos, enquanto que os segundos são compostos por cerca de 12-14 livros, mas estão repletos de falsificações cristãs, não sendo já fácil reconhecer o seu conteúdo pré-cristão, se é que ele alguma vez existiu…

Origem da expressão “Lágrimas de crocodilo”

Já todos ouvimos falar das proverbiais lágrimas de crocodilo, mas a que se deve essa expressão?

As proverbiais lágrimas de crocodilo

Segundo diversos autores da Antiguidade, o crocodilo – o animal do Egipto, relativamente comum no rio Nilo, entenda-se – chorava aquilo a que se chamavam crocodili lachrymae por uma determinada razão. Alguns diziam que o fazia para atrair uma presa pela compaixão, que depois atacava e devorava brutalmente. Outros, mais particularmente os autores cristãos, diziam que o mesmo animal o fazia pelo arrependimento dos seus maus actos – mas tenha-se também em atenção que, como um falso arrependido, nunca mudava o seu comportamento. Qualquer que tenha sido a razão por detrás de esse suposto choro, os mais variados autores eram horizontais na ideia de que não era um choro sincero. E é precisamente daí que vem a expressão – as lágrimas de crocodilo eram dissimuladas, sendo por isso ainda nos dias de hoje um símbolo de falso arrependimento.

Origem da expressão “À maneira dos Ciclopes”

Muitas são as referências aos Ciclopes, enquanto figuras mitológicas, na literatura da Antiguidade, mas a mais famosa de todas elas é indubitavelmente aquela que ocorre na Odisseia de Homero. O episódio de como o herói Ulisses o cegou (momento que até pode ser visto na imagem acima) é sobejamente conhecido, bem como a forma brutal como Polifemo e os seus companheiros ciclopes conduziam a sua vida.

De onde vem então a expressão “à maneira dos Ciclopes”? Se esta expressão já não é utlizada nos nossos dias, remetia-nos para a ideia de uma vida desregrada, “bárbara” no sentido grego da palavra, contrária às regras da civilização, como aquela do ciclope de Homero, que comia seres humanos e bebia muitas vezes em excesso.

“Lana Caprina”, origem e significado

Que a expressão lana caprina significa algo de pouca importância já muitos certamente saberão (o quê, ainda não sabiam? Então podem ver, por exemplo, este artigo), mas qual é mesmo a origem de toda essa curiosa expressão?

Lana caprina, origem e significado

Segundo Erasmo de Roterdão, a expressão lana caprina nasceu de uma disputa entre duas pessoas que, acerrimamente, discutiam se uma determinada cabra estava coberta de lã ou de pêlo – um tema de muito pouca importância, como facilmente nos podemos aperceber – e a situação poderá ter parecido tão absurda a todos os demais que acabou por gerar esta expressão e o seu uso, que ainda é comum nos nossos dias de hoje.

O autor, infelizmente, não nos diz que fontes literárias utilizou para obter essa sua informação, mas a expressão já era motivo de alusão numa das epístolas de Horácio, sendo provável que fosse bem mais conhecida entre os estratos mais baixos da população da altura, e depois o seu uso diário se tenha ido prolongando ao longo dos muitos séculos, até porque a expressão latina por detrás da nossa ainda se diz precisamente como no tempo dos Romanos – de lana caprina!

O mito e a expressão do “Corno da Abundância”

O Corno da Abundância, também conhecido como cornucópia ou copiae cornu, está frequentemente associado ao deus-rio Aqueloo, que Hércules defrontou em combate. Como pode ser visto na parte inferior da imagem acima, o herói até partiu um dos cornos do deus quando este assumiu a forma de um bovino. Mas depois o mito torna-se um pouco invulgar – para obter o seu corno de volta, o deus trocou-o pelo Corno de Amalteia, símbolo da cabra/deusa que tinha amamentado um jovem Zeus. Em seguida, o herói entregou esse segundo corno ás Náiades, que o transformaram na chamada “cornucópia” (note-se que, etimologicamente, esta era uma “cópia do corno” da deusa). Desconhece-se o porquê da necessidade dessas trocas e cópias, mas é possível que se tenham devido a uma sintetização de diversos mitos antigos. Posteriormente, essa cornucópia acabou por ir parar ao mundo dos mortos, em que o deus Pluto a passou a carregar como o seu símbolo de abundância.

Mas porque usamos, então, a expressão “cornucópia”? Em Portugal ela parece ser utilizada para designar locais em que existe uma abundância de alguma coisa. Por exemplo, o bolo que partilha este nome costuma ter um interior repleto de alguma espécie de creme, não porque seja um corno da abundância, mas porque se encontra cheio de um sabor doce.