“Wisdom of the Ancients”, de Francis Bacon

Chegou-me ás mãos, há já alguns dias, a obra Wisdom of the Ancients, de Francis Bacon. Nela, o autor reconta, de uma forma extremamente sucinta, 31 mitos, que depois explica, à semelhança do que sucede em algumas das obras que já foram por cá mencionadas anteriormente. Estes relatos passam não só por mitos sobejamente conhecidos, como o de Dédalo, Prometeu ou Orfeu, mas também por outros menos conhecidos, como o mito de Endimião, Erictônio ou mesmo o de Aqueloo.

 

A título de exemplo, vejamos então a secção dedicada ao mito de Métis:

THE ancient poets relate that Jupiter took Metis to wife, whose name plainly denotes counsel, and that he, perceiving she was pregnant by him, would by no means wait the time of her delivery, but directly devoured her; whence himself also became pregnant, and was delivered in a wonderful manner; for he from his head or brain brought forth Pallas armed.


EXPLANATION. – This fable, which in its literal sense appears monstrously absurd, seems to contain a state secret, and shows with what art kings usually carry themselves towards their council, in order to preserve their own authority and majesty not only inviolate, but so as to have it magnified and heightened among the people. For kings commonly link themselves as it were in a nuptial bond to their council, and deliberate and communicate with them after a prudent and laudable custom upon matters of the greatest importance, at the same time justly conceiving this no diminution of their majesty; but when the matter once ripens to a decree or order, which is a kind of birth, the king then suffers the council to go on no further, lest the act should seem to depend upon their pleasure. Now, therefore, the king usually assumes to himself whatever was wrought, elaborated, or formed, as it were, in the womb of the council (unless it be a matter of an invidious nature, which he is sure to put from him), so that the decree and the execution shall seem to flow from himself. And as this decree or execution proceeds with prudence and power, so as to imply necessity, it is elegantly wrapt up under the figure of Pallas armed.

Nor are kings content to have this seem the effect of their own authority, free will, and uncontrollable choice, unless they also take the whole honour to themselves, and make the people imagine that, all good and wholesome decrees proceed entirely from their own head, that is, their own sole prudence and judgment.

(Citação da obra original. Quem quiser ter acesso a ela pode fazê-lo, por exemplo, neste link)

 

 

Como se pode então ver através deste exemplo, na obra o autor pega em diversos mitos e retira deles lições apropriadas para o tempo em que ele próprio vivia. Para tal, recorre não ao racionalismo, como alguns dos seus antecessores faziam, mas parece considerá-los como alegorias, conhecimento secreto escondido pelos autores originais.

Este exemplo permite também constatar um outro facto – os mitos apresentados pelo autor nem sempre estão completos. Neste caso específico, o autor não menciona sequer a razão pela qual Júpiter devorou Métis, e que conhecer o mito saberá certamente a importância real desse “pequeno” detalhe – Júpiter devorou-a para impedir que esta tivesse um filho superior ao pai.

 

Vejamos mais um exemplo:

MEDIOCRITY, or the holding a middle course, has been highly extolled in morality, but little in matters of science, though no less useful and proper here; whilst in politics it is held suspected, and ought to be employed with judgment. The ancients described mediocrity in manners by the course prescribed to Icarus; and in matters of the understanding by the steering betwixt Scylla and Charybdis, on account of the great difficulty and danger in passing those straits.

Icarus, being to fly across the sea, was ordered by his father neither to soar too high nor fly too low, for, as his wings were fastened together with wax, there was danger of its melting by the sun’s heat in too high a flight, and of its becoming less tenacious by the moisture if he kept too near the vapour of the sea. But he, with a juvenile confidence, soared aloft, and fell down headlong.


EXPLANATION. – The fable is vulgar, and easily interpreted; for the path of virtue lies straight between excess on the one side, and defect on the other. And no wonder that excess should prove the bane of Icarus, exulting in juvenile strength and vigour; for excess is the natural vice of youth, as defect is that of old age; and if a man must perish by either, Icarus chose the better of the two; for all defects are justly esteemed more depraved than excesses. There is some magnanimity in excess, that, like a bird, claims kindred with the heavens; but defect is a reptile, that basely crawls upon the earth. It was excellently said by Heraclitus, “A dry light makes the best soul;” for if the soul contracts moisture from the earth, it perfectly degenerates and sinks. On the other hand, moderation must be observed, to prevent this fine light from burning, by its too great subtilty and dryness. But these observations are common.

In matters of the understanding, it requires great skill and a particular felicity to steer clear of Scylla and Charybdis. If the ship strikes upon Scylla; it is dashed in pieces against the rocks; if upon Charybdis, it is swallowed outright. This allegory is pregnant with matter; but we shall only observe the force of it lies here, that a mean be observed in every doctrine and science, and in the rules and axioms thereof, between the rocks of distinctions and the whirlpools of universalities; for these two are the bane and shipwreck of fine geniuses and arts.

 

Como se pode ver, mais uma vez o autor apresenta versões extremamente sucintas dos mitos (neste caso, os de Ícaro, Cila e Caríbdis), seguido por uma explicação dos mesmos. Não refere, por exemplo, a forma como os dois monstros aquáticos apareceram, ou o totalidade do mito de Ícaro, entre outros elementos importantes. Nesse sentido, a obra é relativamente pobre; quem não conhecer os mitos também pouco mais irá ficar a saber através dos resumos do autor. Assim, esta é uma obra cujo principal interesse é a possibilidade de nos permitir verificar como, após a Idade Média, os mitos gregos (ou, se quisermos ser mais precisos, gregos e latinos) eram vistos e interpretados.

A “Batalha dos Sapos e dos Ratos”, de Homero(?)

Esta Batalha dos Sapos e dos Ratos, também conhecida mais simplesmente como Batracomiomaquia, é vulgarmente atribuída a Homero. E a sua trama até é muito simples:

 

Um sapo tenta ajudar um rato a cruzar um lago. Contudo, a meio da viagem deparam-se com uma serpente marinha e o sapo tem de mergulhar, fazendo involuntariamente com que o rato morra afogado. Um outro rato vê estes eventos e menciona ao seu povo que um sapo matou um dos ratos. Isto leva a que os ratos declarem guerra aos sapos. Segue-se uma descrição da batalha, até que os ratos começam a ganhar vantagem face aos seus opositores. No final, e para impedir o extermínio dos sapos, Zeus envia uma força de caranguejos, cuja armadura os ratos não conseguem penetrar, tendo então de retirar-se.

 

O mais interessante nesta obra parece-me ser a capacidade do seu autor em pegar num estilo mais direccionado para o épico e usá-lo numa simples paródia, numa forma que depois será reaproveitada na literatura bizantina. Quem for ler a obra em questão e já tiver lido a Ilíada poderá até notar as semelhanças entre as duas obras, como a aparição de deuses (Zeus e Atena) ou as descrições dos combates, entre outras. Ainda assim, e contrariamente ao que sucede em vários épicos, esta obra é de fácil leitura, assemelhando-se até, pela sua simplicidade, a uma fábula de Esopo.

 

Contudo, e em relação a esta obra, existe uma outra questão a ter em mente – será que o seu autor foi realmente Homero? Não me parece, não só pelo facto de Plutarco dar outra autoria a esta obra, mas porque pode ter sofrido de um mal muito frequente na literatura da época – a atribuição de múltiplas obras a autores famosos, sem que existam provas reais para tal. É, quem sabe, o equivalente antigo de algo frequente nos dias de hoje, a “descoberta” (notem-se bem as aspas) de novos textos após a morte de um dado autor, que descendem não da mão do falecido mas da de alguém que procura uma fama rápida. Nesse sentido, se Homero é o melhor exemplo do épico da altura, o uso do seu nome nesta obra (ou em obras similares), torna-se bastante lógico…

A relação entre “Lúcio, ou o Burro” e “O Burro de Ouro”

Que as obras Lúcio, ou o Burro (atribuída, falsamente, a Luciano) e O Burro de Ouro (ou A Metamorfose de Apuleio, também conhecida ainda como Asno de Ouro) são similares é relativamente fácil de ver, até porque não abundam obras em que a personagem principal é transformada em burro, mas numa leitura comparativa das duas podem ser notadas muitas outras semelhanças. São múltiplos os episódios extremamente parecidos, mas existe também um elemento que me pareceu significativamente diferente – o final.

O Burro de Ouro, ou Asno de Ouro

Enquanto que na obra de Apuleio o burro é transformado de volta à sua forma original com algum auxílio divino, o burro de Pseudo-Luciano (e uso este nome por não se ter a certeza da autoria da obra) parece contar apenas consigo próprio. Depois, enquanto que o primeiro se torna sacerdote de Ísis, o segundo volta para os braços da mulher com quem, sob a forma de um burro, tinha tido relações sexuais, a qual acaba até por rejeitá-lo.

 

Sem querer revelar demasiado da trama de ambas as obras, as múltiplas semelhanças de episódios levam-me a pensar que poderá ter existido uma tradição comum em que ambas as obras se basearam, ou que uma delas se baseie na outra. Já que a história de Apuleio é bastante mais detalhada e desenvolvida, é possível que provenha da outra e a tente adaptar, melhorar, para um novo público. Contudo, se se tiver em conta que ambos os autores (ou, para ser correcto, os possíveis autores) são da mesma época, é muito mais provável que ambas se baseiem numa história popular.

 

Para terminar, caso um leitor queira conhecer a história em questão, importa dizer que pode optar por uma obra ou pela outra. Se a obra de Apuleio é muito mais famosa, isso prende-se com a riqueza e detalhe da mesma; por outro lado, “Lúcio, ou o Burro” apresenta uma trama mais sucinta, mais rápida, mais fácil de ler, que provavelmente agradará a quem procura uma obra mais simples.

 

[Adicionado posteriormente:]

As obras Lúcio, ou o Burro e O Burro de Ouro, têm bastante em comum uma com a outra. Então, decidi estudá-las em sequência, de forma a notar, de uma forma mais precisa, as semelhanças e diferenças entre elas.

 

De uma forma geral, a trama das duas obras é a mesma, e os elementos essenciais da trama parecem manter-se. Estranhamente, até alguns elementos secundários ocorrem nas duas obras. Porém, a obra de Apuleio adiciona diversas histórias secundárias, que em nada têm impacto para a trama principal, e clarifica alguns elementos. Por exemplo, se no primeiro texto o facto de Lúcio estar a visitar uma casa quando é transformado em burro é rapidamente esquecido, já no segundo é, eventualmente, explicado que o desaparecimento foi interpretado como uma evidência de que ele estaria envolvido no assalto. Também é divulgado, na obra de Apuleio, o destino final de algumas das personagens, mas esses elementos, como também já referi, são todos eles secundários.

 

Porém, a trama tem um momento chave que merece ser analisado. Para quem não tenha lido a(s) obra(s), posso dizer que fala de um homem, Lúcio, que por artes mágicas é acidentalmente transformado em burro, forma da qual só poderia voltar quando comesse algumas rosas. Eventualmente, e perto do final da trama, o burro é levado para um espectáculo, onde deveria ter uma relação sexual com uma mulher. Agora, se na obra de Pseudo-Luciano é aí que ele encontra as rosas, já na obra de Apuleio o burro escapa quando todos estão distraídos, e mais tarde adormece, e é aqui que a trama se torna significativamente muito diferente.

 

A obra de Pseudo-Luciano acaba pouco depois deste momento (Lúcio, em forma humana, volta para uma mulher com quem tinha tido sexo na sua forma de burro, e é agora rejeitado), mas na obra de Apuleio o derradeiro livro XI é quase exclusivamente sobre Ísis, que ajuda o herói a voltar à forma humana e faz com que ele se torne sacerdote do seu culto, por dever essa nova vida humana exclusivamente à deusa. É curioso, esse contraste entre o final das duas obras mas, pessoalmente, não posso deixar de sentir que o final da obra de Apuleio está ali um pouco a mais, como se tivesse sido lá colado quase por engano. Soa pouco natural porque, em todo o resto da obra, são raros os momentos em que se aponta para alguma explicação mais divina da transformação, ou dos eventos que vão tomando lugar, e então a aparição de Ísis, e quase tudo o que ocorre nesse último livro, assemelha-se a um terrível deus ex machina ali colocado, única e exclusivamente, para dar um final mais real a toda a história.

 

Para terminar este tema, importa-me esclarecer algo… as duas obras não são a mesma! Ambas falam de um Lúcio que, por artes mágicas, se transforma em burro, e o essencial das aventuras de ambas as personagens é igual, mas a obra de Pseudo-Luciano também tem uma trama mais directa e mais rápida, enquanto que O Burro de Ouro (ou A Metamorfose) de Apuleio perde muito tempo com elementos adicionais e histórias secundárias (por exemplo, o relato dos amores de Cupido e Psique ocupa quase 2 dos 11 livros da obra). Portanto, ler uma delas não é o mesmo que ler a outra, se bem que se alguém tiver de optar somente por uma delas, certamente se tornará mais rico com a obra de Apuleio do que com a de Pseudo-Luciano…

“Refutação de todas as heresias”, de Hipólito de Roma

Na leitura desta Refutação de todas as heresias, de Hipólito de Roma, deparei-me com alguns elementos que seriam interessantes mencionar por cá.

 

No livro I o autor refere vários autores gregos importantes, juntamente com algumas das suas ideias relativas ao divino e à criação do mundo. Assumo que esta temática poderia até continuar nos livros seguintes, mas infelizmente os livros II e III estão, à data de escrita destas linhas, perdidos; ainda assim, esta secção permite-nos saber, de forma extremamente sucinta e simples, as ideias de cada um desses autores sobre o tema em questão.

 

Depois, no livro IV o autor fala essencialmente sobre astrologia e magia. Essa parte da obra tem alguns momentos interessantes para quem queira compreender os fundamentos e evolução dessas duas áreas, bem como algumas das muitas críticas que lhes podem ser feitas.

 

Mais à frente, em VI.3, é contada a história de Apseto o Líbio, cujo resumo aqui incluo como simples curiosidade:

Apseto queria ser um deus. Incapaz de atingir esse propósito, decidiu então dar a aparência de que se tinha tornado um deus. Capturou vários papagaios e ensinou-os a dizerem “Apseto é um deus”, antes de os libertar novamente. Estes espalharam-se por toda a Líbia, juntamente com a notícia, fazendo com que os nativos o vissem realmente como um deus, e o tratassem como tal.

Eventualmente, todo o esquema foi percebido por um grego, que ensinou aos mesmos pássaros uma nova expressão, fazendo-os revelar todo o esquema. Como punição pelo seu acto, Apseto foi queimado vivo.

 

Em VI.14, é-nos recontada a história que relaciona Simão Mago com a figura de Helena de Tróia. É curioso constatar que muitas ideias do Gnosticismo parecem vir da literatura grega, como claramente evidenciado não só pelas ideias desta figura mas também pelas de muitos outros autores mencionados nesta mesma obra.

 

Finalmente, no livro X é feito um resumo do conteúdo dos livros anteriores. Quem não desejar ler toda a obra, por apenas ter um interesse geral nesta ou naquela seita gnóstica (e importa referir que esta expressão é aqui usada sem qualquer intenção pejorativa), pode somente ler esse capítulo, acessível neste link.

Uma Teogonia de Antífanes

Numa das obras a que tive acesso é mencionada uma Teogonia de Antífanes. Tanto a obra como o autor são relativamente desconhecidos nos dias de hoje, mas a sua versão da criação do mundo é deveras curiosa. Vejamos:

 

O Caos foi produzido através da Noite e do Silêncio. Depois, o Amor nasceu do Caos e da Noite, seguido pela Luz. Seguiu-se todo o resto da primeira geração dos deuses, uma segunda geração e a criação do próprio mundo. O Homem seria, então, criado pela segunda geração de deuses.

 

Infelizmente, pouco mais se sabe sobre esta versão da criação do mundo, mas Ireneu refere que se parecia bastante com o mito da criação do  Valentianismo (que, segundo esse autor, “mudou somente os nomes das coisas”).

 

Esta é uma versão do mito da criação que, como muitas outras, parece fazer total sentido, mas há um outro detalhe que se deve ter em conta: contrariamente ao que sucede nos dias de hoje, em que a maior parte das religiões tem um cânone definido – irrefutável, indiscutível e totalmente fixo – o mesmo não sucedeu até aos primeiros séculos da nossa era. Assim, são múltiplos os autores gregos e latinos que, uma e outra vez, nos mostram diferentes versões da criação do mundo. Não existem versões certas e erradas, mas essencialmente versões concorrentes, algumas mais populares que outras. Se Teogonia, de Hesíodo, é provavelmente uma das mais populares e famosas, importa realmente lembrar que também existem muitas outras.