“Sobre o deus de Sócrates”, de Apuleio

Quanto confrontado com o nome de Apuleio, qualquer bom estudante (ou amante) das Clássicas se lembrará da obra mais famosa deste autor – A Metamorfose, também conhecida como O Burro de Ouro por influência de Santo Agostinho. Contudo, sobreviveram até aos dias de hoje mais algumas obras deste autor; neste caso específico falarei a propósito de Sobre o deus de Sócrates, uma pequena obra na qual nos é falado sobre os daemones, figuras relativamente obscuras (e bastante ausentes) da mitologia grega e romana.

 

Nesta obra, o autor começa por recordar algumas das ideias de Sócrates, chegando eventualmente ao ponto de referir os daemones como sendo as figuras que faziam a ligação entre os seres humanos e os deuses. Em seguida, distingue vários tipos de daemones:

– Eudaemones – espíritos que acompanhavam as pessoas na sua vida;

– Lemures – espíritos dos mortos;

– Lares – espíritos que protegem uma família (e/ou habitação);

– Larvae – espíritos que foram condenados a vaguearem pela terra, por causa das más acções cometidas em vida;

– Manes – espíritos cuja condição é desconhecida.

(Note-se que existem muitas mais designações, mas aqui só falei das mencionadas nesta obra)

 

Se bem tratados, estes espíritos poderiam influenciar a vida de uma pessoa, aparecendo-lhe em sonhos, dando-lhe conselhos e, no geral, cuidando dela. Nesse sentido, é dado não só o exemplo do próprio Sócrates como o de Ulisses, a quem a Sabedoria aparecia sob a forma poética de Minerva. Até certo ponto, creio que seria correcto ver estes daemones como uns antigos “anjos da guarda”, mas de onde poderá ter vindo a sua evolução para uma palavra de sentido tão negativo como “demónio”?

 

Usando-se um dicionário, poderão ver-se duas definições de “demónio” com significados quase opostos. Por um lado tem-se a referência a “cada um dos anjos maus que estão às ordens de Satanás”, mas por outro uma mais antiga alusão a “divindade, génio (bom ou mau)”. Somos assim levados a uma oposição essencialmente cultural; se, anteriormente, os daemones poderiam ser vistos como bons ou maus, no Cristianismo tornam-se imperativamente maus (para um outro exemplo de um fenómeno similar veja-se este post), apesar de alguns dos seus aspectos e funções terem sido adaptados para servirem a nova religião.

 

Será então correcto equiparar um santo padroeiro a uma forma específica de daemon? Parece-me que sim, já que ambos têm funções muito similares – não só estabelecem a ligação entre o reino físico e o dos deuses como também fornecem protecção aos devotos – apesar de surgirem hoje como símbolos de ideais quase opostos.

A Medeia de Ovídio

De entre as obras perdidas de Ovídio, a sua Medeia é provavelmente a mais famosa. Muito pouco se sabe sobre a mesma, excepto através de duas citações (uma de Quintiliano e outra de Séneca o Velho) e uma referência (também esta numa obra de Quintiliano). Aqui ficam esses três elementos, com uma pequena tradução em inglês que foi possível disponibilizar:

 

Servare potui: perdere ac possim rogas?

“I have had power to save, and do you ask whether I can destroy?”

Quintiliano, Institutio Oratoria 8.5.6

 

Lascivus quidem in herois quoque Ovidius et nimium amator ingenii sui, laudandus tamen partibus.

“Ovid’s Medea appears to me to show how much that great man could have done if he had been willing to control rather than indulge his genius.”

Quintiliano, Institutio Oratoria 10.1.98

 

feror huc illuc, vae, plena deo.

“I’m carried here, there, alas, full of the god.”

Séneca o Velho, Suasoriae 3.7

 

Quem conhecer bem o mito de Medeia poderá atrever-se a teorizar em que parte da trama se poderão incluir estas citações, mas essa é uma tarefa que é muito preferível deixar para os leitores, porque se trata demasiado de uma questão de mera opinião.

A lenda da Boca da Verdade (em Roma)

A lenda da Boca da Verdade, em Roma, remete-nos para um local muito específico da Cidade Eterna. Muitos são, sem qualquer dúvida, os monumentos de Roma que poderiam ser mencionados por cá, mas creio que a Bocca della Verità, conhecida em Português como a Boca da Verdade, tem um interesse muito especial.

A Boca da Verdade

Esta Boca da Verdade, que provavelmente se tratava de uma representação do deus Oceano nos tempos romanos, obteve este seu nome através de um mito medieval segundo o qual a mão de um mentiroso seria cortada ao ser colocada na boca da figura. Infelizmente, apesar de existirem múltiplas teorias sobre a proveniência deste disco, a sua utilidade original, ou mesmo qual a figura que representa, não existe ainda qualquer conclusão real. Ainda assim, sempre achei muito curiosa a forma como este disco se popularizou, de há uns anos para cá – sob a forma de máquinas de leitura de sina, ainda hoje chamadas Boca da Verdade, numa quase perfeita fusão entre a Antiguidade e o nosso século, como o vídeo abaixo nos demonstra:

Museu do Teatro Romano – vale a pena visitar?

Há uns dias atrás tive finalmente a oportunidade de ir visitar o Museu do Teatro Romano, em Lisboa (já anteriormente mostrado por cá em vídeo), mas creio que posso classificar essa visita como uma completa desilusão. Por isso, lança-se uma questão fundamental – será que vale a pena visitá-lo, ou nem por isso?

 

Eu já conhecia o Teatro Romano em si mesmo, e este até pode ser visitado gratuitamente a qualquer hora do dia ou da noite na lisboeta Rua de São Mamede, mas quanto ao museu a que serve de pano de fundo, este tem muito pouco para se ver. Como se isso não fosse suficiente, o pouco que ainda tem para ver (maioritariamente elementos arquitectónicos retirados do próprio Teatro Romano, algumas moedas, etc.) parece-me estar apresentado de uma forma bastante rudimentar, muito desinteressante excepto para um público muito específico, como o de estudantes universitários da área. Para os restantes, toda a visita a este pequeno espaço é muito pouco interessante.

O Museu do Teatro Romano de Lisboa, como está hoje

Também, os vários elementos multimédia do Museu do Teatro Romano não estavam disponíveis na altura (será que alguma vez o estão? A experiência em espaços semelhantes diz-nos que não…), e as funcionárias do museu eram tudo menos simpáticas, como se o visitante estivesse a fazer-lhes um favor com a sua presença. Normalmente esse aspecto não seria importante, mas quando nos é indicado que devemos pedir um dado suporte a uma funcionária e depois esta parece mais interessada em nos despachar rispidamente do que em nos ajudar, creio que passa a ser bem mais relevante.

Em termos de aspectos positivos, creio que o mais importante é mesmo o facto de este Museu do Teatro Romano ser gratuito para todos os públicos, ou pelo menos era-o ainda na altura da minha visita. O site deste museu pode ser encontrado aqui, mas acaba por ser um pouco irónico que este tenha mais para explorar que o próprio museu, em si.

“Livro de Baruch”, de Justino

A identidade deste Livro de Baruch (também conhecido por Baruque ou Baruc) é difícil de explicar, já que existem múltiplos textos com este mesmo nome, e também pouco se sabe sobre o seu autor real. Assim, o texto a que me refiro aqui aparece mencionado na obra de Hipólito, Refutação de Todas as Heresias, livro 5.19 a 5.22 (uma versão em inglês pode ser consultada neste link). Mas porquê, esta referência a um obra de ideias gnósticas neste espaço?

 

A explicação é relativamente inesperada… em 5.20, Hipólito reconta-nos um mito de Hércules que parece provir de Heródoto. Parafraseio:

Enquanto descansava no deserto da Cítia, Hércules adormeceu e o cavalo em que se deslocava afastou-se. Depois, e em busca do animal, o herói encontrou um ser meio-mulher, meio-cobra, que lhe revelaria a localização do cavalo em troca de relações sexuais. Dessa união nasceram três filhos.

 

Até aqui este poderia ser só mais um mito, mas Hipólito continua o texto com uma referência a algo bem mais infrequente: “Justino transforma esta lenda na sua versão da criação do mundo”. Mas como? Na secção seguinte, 5.21, o autor reconta toda a história da criação segundo o Livro de Baruch (que vai para além do objectivo deste blog, importa lembrar) e eventualmente refere Hércules como sendo um dos profetas enviados por Elohim. Os seus doze trabalhos são aqui vistos como confrontos contra os doze anjos de Edem, mas este acaba por ser um herói apenas parcialmente victorioso – preso nos encantos de Onfale, acaba por se esquecer da sua verdadeira tarefa, a qual é deixada para um profeta seguinte, Jesus.

 

Note-se, nesse sentido, a passagem de testemunho de Moisés para Hércules, de Hércules para Jesus, que servia uma figura mais tarde identificada como Príapo (“aquele que criou antes de alguma coisa ser”, diz o texto). Seria este o Príapo da mitologia grega? É provável, já que era um deus da fertilidade, mas esta é também uma relação com dois sentidos que se mantém para os vários elementos seguintes, em que o autor mostra várias fusões entre as antigas figuras (nomeadamente Leda, Ganimedes e Danae) e as da nova religião (Elohim, Edem, Naas e Adão).

 

Portanto, este é um texto que, apesar de nos ser somente acessível numa paráfrase de Hipólito de Roma, ainda nos permite constatar uma curiosa evolução religiosa, passando de cultos mais antigos para uma ideia que, eventualmente, se irá tornar parte do Gnosticismo.