Esta obra, Philogelos, de Hierocles e Filagrio, merece aqui uma menção não tanto pelo conteúdo mitológico (que, diga-se, é praticamente inexistente) mas pelo seu conteúdo original – trata-se de uma compilação de piadas feita em tempos da Antiguidade, com base na qual se pode constatar que o humor se manteve bastante similar ao longo dos séculos. Sobre os autores, ou possíveis compiladores, nada se sabe, mas uma tradução de algumas piadas desta obra podem ser encontradas, em versão inglesa, neste link.
“Instruções”, de Comodiano
Estas Instruções de Comodiano são uma obra relativamente obscura, composta maioritariamente por acrósticos, mas tendo em conta o período em que foi escrita (século III d.C.) também nos permite ter contacto com uma nova visão da mitologia romana, que um autor cristão não podia então deixar de ver com alguma ironia. Nos primeiros 21 poemas a religião antiga é oposta ao Cristianismo, de forma a racionalizar as múltiplas falhas da primeira e exultar o novo Deus. Não posso, como é óbvio, cobrir toda a obra num punhado de linhas (uma tradução inglesa está disponível neste link), mas vou mencionar alguns elementos que considerei interessantes.
Começando então pelo terceiro poema, este relativo a Saturno, o autor interroga-se sobre os actos perpetrados por esta divindade; se era realmente um deus, porque envelheceria, porque comeria os filhos? Também Júpiter, dois poemas à frente, é visto como “um culpado de muitos crimes, (…) um parricida”, uma visão do divino que contrasta claramente com a visão bondosa, perfeita, do Deus agora admirado pelo autor. Sobre Apolo, é lançada uma interrogação curiosa: se este era um deus, como é que não conseguiu prever a morte de Jacinto? Depois, no poema 15 (este relativo aos deuses e deusas), é posta uma nova questão: se são os Destinos controlam as pessoas, porque rezam elas aos deuses?
Claro que estas questões têm todo o sentido, mas será que é correcto racionalizar uma religião? Vista por um não-crente, toda e qualquer religião terá elementos similares, componentes que se sobrepõem à própria razão e que assentam naquilo a que hoje chamamos “fé”. Mas, penso eu, talvez seja mesmo isso que esta obra nos permite observar, um confronto entre cepticismo e fé; veja-se que o autor também dedica diversos poemas à religião por ele praticada, mas não os sujeita a uma mesma visão crítica. Então, esta visão de Comodiano é um pouco falaciosa, enviesada, muito similar à dos confrontos religiosos a que assistimos nos dias de hoje, em que uma religião se considera como totalmente correcta e vê uma outra como falsa, demoníaca. Contudo, isso não retira o interesse à obra aqui mencionada, já que através dela podemos ver como é que coexistiram duas importantes religiões num dado espaço de tempo, e qual a influência dessa mesma coexistência nos próprios crentes.
O mito de Sirlene
Há uns dias, foi cá pedido um artigo sobre o mito de Sirlene, figura então referida como se tratando de uma suposta irmã de Atlas, um titã da Mitologia Grega. Pois bem, nada sei sobre um tal figura, e todas as fontes em que pesquisei também nada apresentam em relação à mesma. Atlas, filho de Japeto, tinha três irmãos – os famosos Prometeu e Epimeteu, e o mais obscuro Menoécio – e, aparentemente, nenhuma irmã sobre a qual nos tenha chegado alguma informação verdadeiramente fiel e digna de crédito. Ou seja, ou algum potencial mito desta figura de Sirlene é extremamente obscuro, ou não existia nos tempos da Antiguidade, podendo ser uma invenção de algum autor dos nossos dias.
Infelizmente, não sei qual o contexto em que este pedido surgiu, mas assumindo que essa figura de Sirlene aparece numa obra de ficção, é muito provável que seja uma completa invenção do seu autor. Maiores deduções não são possíveis, pelo menos não sem saber mais em relação a todo o contexto do pedido.
O mito de Momo
Momo era, na Mitologia Grega, uma personificação do sarcasmo e da ironia. É provável que existam vários outros mitos relativos a esta mesma figura, mas aquele que aqui irei mencionar sempre me pareceu ser o mais popular e significativo.
Antes de abordar o mito propriamente dito, devo referir que tenho algumas dificuldades em classificá-lo justamente como tal. Por um lado, o episódio que vou contar aparece brevemente em autores como Luciano de Samósata (veja-se a alusão ao mesmo na obra Hermotimus), e em tudo se assemelha a um qualquer outro mito, mas também é uma fábula de Esopo – hoje referida como Babrius 59 ou Perry 100 – e é com essa designação que Aristóteles a menciona no terceiro livro de De Partibus Animalium. Tendo essa consideração em mente, passe-se então a uma versão simplista da trama:
Zeus, Poseídon e Atena estavam a fazer um concurso para ver qual deles conseguia fazer algo realmente bom, e Momo foi escolhido para juiz. Zeus criou um homem, Atena uma casa, e Poseídon um touro.
Em seguida, Momo criticou o homem por não ter uma janela para o coração (que permitiria ver o que este queria fazer), a casa por não ter rodas (o que impediria os proprietários de a moverem de um lado para o outro) e o touro por não ter olhos abaixo dos cornos (o que lhe permitiria atacar com uma melhor precisão).
A moral por detrás desta fábula é bastante simples: quem quer encontrar falhas acaba sempre por conseguir fazê-lo, mas isso também não diminui a importância da própria criação.
Os Hinos Homéricos e a Mitologia
Apesar do nome, importa começar por dizer que estes Hinos Homéricos, apesar do seu nome, não foram compostos por Homero, e a sua designação provém do facto de se assemelham, em termos de estilo, aos épicos desse autor.
Ao todo, tratam-se de 33 hinos sobre diversos deuses e divindades gregas, como Afrodite, Atena, Hermes, Héracles, Castor e Pólux, Gaia ou Hera. Por vezes estas figuras são apresentadas juntamente com alguns mitos, mas também são frequentes os casos em que as figuras são simplesmente invocadas pelo autor, sem que exista a referência a um qualquer mito.
Também, importa mencionar que não são 33 as figuras abordadas, já que as temáticas se tentem a repetir – existem três hinos a Dionísio, três a Afrodite, dois a Hermes, dois a Castor e Pólux, …
Não irei, por motivos de tempo e espaço, dissecar todos os hinos – quem os quiser ler pode fazê-lo, em versão inglesa e de forma gratuita, no seguinte link – mas farei breves alusões a alguns deles.
O primeiro destes hinos, dedicado a Dionísio, está em más condições, independentemente da edição que se consulte. Ainda assim, podem ser vistas algumas alusões ao local de nascimento do deus – não nasceu em Tebas, Naxos ou Dracanum, mas foi criado na montanha de Nysa (já que nasceu de Zeus, um mito não contado aqui) – e pouco mais.
Num hino de Deméter, um dos mais longos desta colecção é contado o mito que a relaciona com Perséfone, aquele que explica as estações do ano, e um dos mais famosos da mitologia grega.
Mais à frente, o hino de Hermes conta-nos algumas das aventuras deste deus. Ainda bebé, raptou o gado de Apolo e criou a primeira lira, que depois acabaria por dar a Apolo, e que se tornaria um símbolo maior deste segundo deus.
O hino a Ares, o oitavo da colecção, parece cingir-se a uma invocação do deus, em vez de apresentar um qualquer mito com ele relacionado. Essa mesma tendência parece continuar nos hinos seguintes, dedicados a Artemis, Afrodite, Atena, Hera, Deméter, à “mãe de todos os deuses”, Héracles e Esculápio, entre muitas outras figuras.
Mais tarde, o 31º hino fala de Hélios (ou Hélio). Mais do que apresentar um mito relativo a esta figura, o hino fala-nos de algumas das características do deus, e relata a sua viagem diária ao longo dos céus.
O 33º, e último, hino fala-nos dos Dióscuros – Castor e Pólux . É-nos contado, de forma sumária, o mito do nascimento destes gémeos, antes de nos ser relembrada a sua função de protectores dos marinheiros.