Uma misteriosa Nossa Senhora do Guincho

Próximo da praia do Guincho, em Cascais, Portugal, pode ser encontrado um pequenino santuário com uma imagem de uma Nossa Senhora. Ele pode ser visto no Google Maps aqui, mas já não se parece saber muito bem o que faz por lá. É fácil notar a existência de algum culto popular no local, até porque frequentemente estão lá algumas flores, colocadas por alguém de identidade desconhecida, mas… qual é a história escondida por esta imagem, a que poderíamos chamar, de uma forma puramente tentativa, a Nossa Senhora do Guincho?

A Nossa Senhora do Guincho?

Seria, obviamente, interessante contar aqui uma qualquer espécie de história ou lenda para explicar esta presença no local, mas não parece existir uma, até porque aí também foi colocada, algures no espaço de tempo que separou os anos de 2009 e 2018, um pequeno azulejo de Nossa Senhora de Fátima, como pode ser visto na imagem acima, dando a subentender que quem o fez, por muito religioso que fosse, já desconhecia qualquer história notável para este local.

Ao mesmo tempo, não nos parece que alguém tenha morrido aqui. Em casos semelhantes, como o de Maria do Carmo de Mello, existe quase sempre uma cruz no local, frequentes vezes acompanhada pelo nome da pessoa e uma potencial data de uma ocorrência para ela significativa, o que também não acontece aqui.

 

As presenças marianas em memoriais como este são, a maior parte das vezes, pequenas referências a algum milagre que outrora teve lugar nesse local, uma espécie de ex-voto, como no conhecido caso da Nossa Senhora da Arrábida, de que já cá falámos antes. Neste caso específico, e tomando até em conta o facto do santuário estar localizado muito próximo de um farol, é provável que a imagem aí tenha sido colocada por algum navegante cuja vida só foi preservada da fúria de uma qualquer tempestade com o auxílio de algo – ou alguém – que lhe pareceu ser a imagem celestial da Virgem Maria, e à qual poderíamos chamar “… do Guincho” dada a sua localização próxima dessa notável praia. Desconhecemos, é importante admitir isso, se alguma vez ela foi mesmo denominada Nossa Senhora do Guincho, ou se teve o nome de outra versão da Virgem – como a Nossa Senhora da Guia, figura com um santuário a poucos quilómetros de distância – mas se existiu outrora uma qualquer lenda associada a este pequeno local, já (quase?) ninguém a parece saber hoje em dia.

Poderá ter sido a Virgem Maria a aqui salvar alguém, poderá ter sido o próprio farol, é agora difícil saber, mas conhecendo-se outros locais semelhantes a este, é aqui apropriado afirmar que este pequeno memorial aí foi colocado para agradecer alguma coisa que o oferente pensava ter acontecido por auxílio divino. E, na falta de informação mais concreta, estas breves linhas terão de nos chegar…

O sapo e o escorpião, a fábula e a sua moral

É provável que a fábula do sapo e do escorpião se encontre entre as mais famosas dos nossos dias, e portanto vale a pena recontá-la aqui juntamente com a sua moral. Mas, antes disso, talvez importe explicar que esta não é uma das muitas histórias que se atribuíam a Esopo, nos tempos da Antiguidade, ou fruto de alguma obra famosa como o Panchatantra indiano. Toda a ideia, e até mesmo a respectiva moral, já existia antes do século XX, mas esta pequena história, na forma como a temos agora, apenas surgiu quase já nos nossos dias, de uma fonte literária russa que pouco parece ter de importante fora ter sido a primeira versão do tema a que ainda temos acesso. Feita, portanto, essa breve introdução, foquemo-nos agora na história em si mesma:

O sapo e o Escorpião, uma fábula e sua moral

Um dia, um Escorpião viu um Sapo à beira de um ribeiro. Visto que queria cruzar esse curso de água para o lado oposto, chamou este animal verdinho e pediu-lhe que o ajudasse. Mas o Sapo, desconfiado, reconheceu em quem o interpelava um seu inimigo mortal e a sua grande prudência fez, inicialmente, levá-lo a pensar que não poderia confiar nele. Porém, o Escorpião disse-lhe que nada tinha a temer, que não lhe ia fazer nenhum mal, até porque se o picasse colocaria ambos no mais mortal perigo. E o Sapo, coitadinho, acreditou nessa ideia, colocando o Escorpião sobre as suas costas enquanto se movimentava para o lado oposto do rio. E tudo parecia correr bem, até que este segundo lá ferrou quem o transportava… conduzindo-os ambos à morte, mas não sem que antes o Sapo tivesse pedido explicações. A ele, o Escorpião disse apenas “Desculpa, não pude evitá-lo, é apenas a minha natureza”…

Esta fábula do sapo e do escorpião é relativamente simples, não tem muito para contar, mas o que alguns parecem ter mais dificuldade em compreender é a sua moral. Se ela é um pouco discutível, normalmente pode ser interpretada para significar que todos nós temos uma natureza intrínseca que não podemos contrariar. Até podemos tentar argumentar contra ela, afastar o cerne do tema por aqui e por ali, desviar as atenções com esta e aquela ideia, mas tal como o Escorpião da história tem um poderoso ferrão na sua cauda, também cada um de nós tem uma parte de si mesmo que não consegue contrariar, e que em limite até poderá levar-nos à nossa destruição, como aconteceu com o Sapo.

 

Assim, se, por exemplo, alguém decidisse dar o nome de O sapo e o escorpião a um programa de televisão ou rádio, talvez o fizesse para dizer que tudo na vida tem a sua própria natureza, que em limite ninguém é capaz de contrariar. E, portanto, para moral da conhecida fábula, esta é uma ideia que nos chega…

O mito grego de Tâmiris, o primeiro homossexual

Tâmiris é uma daquelas personagens da Mitologia Grega que não é muito conhecida. Talvez até já lhe tenham lido uma alusão ocasional aqui e ali, mas ele não é, certamente, o que se possa chamar um herói de primeira linha, alguma espécie de figura a que os diversos autores recorram uma e outra vez. Em alternativa, são essencialmente duas as aventuras que lhe são atribuídas, uma muito mais famosa que a outra, mas que em ambos os casos merecem hoje ser recordadas por aqui.

O mito de Tâmiris

A primeira das aventuras de Tâmiris conta-nos, quase exclusivamente, que ele foi um dos amantes de Jacinto (um mito ainda não contado por aqui antes, mas que terá de ficar para outro dia). Se esse outro jovem depois acabou por preferir o deus Apolo, como bem sabido do seu mito, o que nos importa aqui, para a figura de hoje, é que algumas versões dizem que esta figura e esse seu antigo companheiro foram o primeiro par de amantes homossexuais humanos. Alguns autores discordam, claro, mas pelo menos alguns escritores da Antiguidade deixaram-nos essa opinião!

Anos depois, Tâmiris voltava a casa quando teve uma ideia muito pouco vulgar – ele decidiu desafiar as Musas para um concurso musical. Se ele ganhasse, as várias irmãs tinham de fazer amor com ele (ou, segundo outra versão, uma delas tinha apenas de casar com ele); se perdesse, ele dava-lhes o que elas quisessem. Agora, como é sabido de casos semelhantes – recorde-se, por exemplo, o mito de Marsias – é óbvio que as Musas ganharam esse desafio, tendo por base os seus infinitos talentos musicais… o que se seguiu nem sempre é totalmente claro, mas sabe-se é que o herói nunca mais voltou a tocar música, com algumas versões a explicarem que isso se deveu ao facto de ter ficado cego, talvez por castigo das irmãs divinas.

 

O mito de Tâmiris, a que alguns também dão o nome menos comum de Tâmaris (os textos gregos chamam-lhe Θάμυρις, fazendo portanto mais sentido o primeiro dos dois nomes…), não é tanto sobre a homossexualidade do herói, algo que na altura se tornaria relativamente comum – relembrem-se os possíveis casos de Aquiles e Héracles – mas sobre a confiança exacerbada com que ele desafiou as entidades divinas. Como em muitos outros mitos, essa ideia acaba por ser sempre punida pelos deuses, e por aquele facto de um ser humano ter a imprudente coragem de os tentar desafiar…

Mais alguns provérbios antigos portugueses

Os provérbios antigos portugueses são sempre um tema que não pode deixar de nos fascinar. Por diversas razões, mas a mais evidente de todas elas é o facto de preservarem um conjunto de conhecimentos que eram considerados particularmente importantes na sua época. Os de hoje, por exemplo, vêm de meados do século XVII, da compilação de um autor chamado Aleixo de Santo António. Na sua obra intitulada Philosophia moral tirada de algus prouerbios ou adagios, ele sugere diversos temas filosóficos, ilustra cada um deles com um provérbio conhecido da sua época, e finalmente comenta-os com base em fontes literárias religiosas e pagãs. O primeiro e terceiros destes elementos não são, provavelmente, lá muito interessantes para o tema de hoje, mas entre os ditos que conhecia da sua época ele cita os seguintes na obra:

Mais alguns provérbios antigos portugueses

Faz bem, não cates a quem.
Quem semeia, espera.
Quem à boa árvore se chega, boa sombra o cobre.
Quem com farelos se mistura, porcos o comem.
A quem Deus quer ajudar, o vento lhe apanha a lenha.
Primeiro à lima, e depois à língua.
Mal vai a corte onde o boi velho não tosse.
Nunca Deus fez a quem desamparasse.
De manhã em manhã perde o cordeiro a lã.
A mouro morto grande lançada.
Onde a galinha tem os ovos, lá se lhe vão os olhos.
Ovelha que berra bocado perde.
Tu pedro e eu pedro, muito vai de pedro a pedro.
A mulher a galinha, por andar se perde asinha.
O medo mete a lebre a caminho.
Quem tempo tem e tempo espera, tempo vem que lho demo leva.
Melhor é quem Deus ajuda, que quem muito madruga.
Quem quer mais do que é bem, a mal vem.
Dádivas quebrantam penhas.
Quando Deus não quer, santos não rogam.
A honra é de quem a dá.
Ninho feito, pêga morta.
Não se tomam trutas com redes enxutas.
Barriga farta e pé dormente.
Também parece o ladrão na forca como o sacerdote no altar.
O cordeirinho mansa mama a sua teta e mais a alheia.
A pão de quinze dias, fome de três semanas.
Quem sofre, vence.
Quem faz o que quer, não faz o que deve.
Ao que mal vive, o medo segue-o.
Não dá quem tem, senão quem quer bem.

Alguns destes provérbios antigos portugueses ainda são conhecidos nos nossos dias, outros nem tanto, mas podem juntar-se há alguns outros que aqui publicámos há uns anos, na altura com o título de “Alguns ditados e provérbios portugueses pouco conhecidos“, nessa nossa tentativa de trazer à luz temas que hoje já estão quase esquecidos…

“Otia Imperialia” de Gervasio de Tilbury

Estes Otia Imperialia, de Gervasio de Tilbury, poderiam ser apenas mais uma de incontáveis crónicas medievais. Têm algumas características do género, nomeadamente começarem no início dos tempos e depois prolongarem-se até à própria idade do seu autor. Pelo caminho, vão fundindo mito, lenda e história propriamente dita, apresentando até figuras como o Rei Artur. Porém, a razão que levou à sua apresentação aqui não é os dois primeiros livros que compõem a obra, que seguem muito naturalmente essas características, mas sim o terceiro dessa sequência, cujo tema é um pouco diferente.

Otia Imperialia, de Gervasio de Tilbury

Reproduzimos acima uma edição moderna do terceiro livro dos Otia Imperalia. Conta com o subtítulo, nesta tradução em Italiano “Le meraviglie del mondo”, que é como quem relata, em bom Português, tratar-se este de um livro sobre as muitas maravilhas do mundo. Foi compilado no século XIII, com o seu autor ora a reportar coisas que diz ter visto com os seus próprios olhos, ora a citar o que foi lendo em muitas outras obras clássicas ou medievais. O tema é quase sempre o mesmo, as maravilhas que o mundo tem para apresentar, no sentido de coisas invulgares, causadoras de espanto, que podiam ser encontradas no mundo europeu, africano e asiáticos então conhecidos. Coisas como estas, um fragmento adaptado da obra total:

O mosteiro de Fruttuaria é na diocese de Turim em Itália. É famoso pela sua venerável tradição religiosa. Contém, ao lado da sua igreja dos santos, um cemitério em que os monges são enterrados em campas individuais. Mas se uma campa for aberta após três dias, nem os ossos nem as cinzas dos mortos serão encontradas no local. Isto foi testado e confirmado muitas vezes. Soube disto através de um monge fiável dessa região, que é um homem devoto e educado.
(…)
Existe um local [, o Averno,] entre Nápoles e Pozzuoli que parece ter sido um lago e em que o chão é muito lamacento. Se alguma criatura for levada a este local morre instantaneamente. Até os pássaros que o sobrevoam são imediatamente afectados pela atmosfera do local e morrem pelos seus efeitos. Lucrécio escreveu sobre este local (…).
(…)
No reino de Arles, na província de Embrun, no castelo a que chamam Noth, existe uma rocha gigantesca. Se empurrarem esta rocha com o dedo mindinho podem movê-la muito facilmente; porém, se o tentarem fazer com todo o vosso corpo, ou com imensos bois, não será possível movê-la.

Essencialmente, são temas como estes que podem ser encontrados no terceiro volume da obra Otia Imperialia, de Gervasio de Tilbury, um conjunto de factos presos entre ficção e realidade, onde nem sempre é fácil perceber onde acaba um e começa o outro. Por exemplo, uma secção sobre o Velo de Verónica pode ser seguida por uma sobre o Castelo do Ovo (e outras lendas de Nápoles), sem que se saiba muito bem o que pode ser encontrado a cada novo parágrafo. O que, queiramos ou não, não pode deixar de ser interessante para o leitor, que nos dois primeiros livros da obra encontrava apenas uma história – ou, se preferirmos, uma espécie de mitologia – contínua da história ocidental.

 

Em suma, o que pode ser dito sobre esta obra, os Otia Imperialia de Gervasio de Tilbury? Os seus dois primeiros livros preservam uma espécie de crónica medieval que funde repetidamente mito e realidade, mas o seu verdadeiro encanto surge apenas no terceiro livro, que é uma espécie de compilação de alguns mitos e lendas da Idade Média. Como tal, é uma obra indicada para quem tenha um interesse específico nesses temas, mas talvez e também para quem quiser conhecer um pouco mais de aquilo em que se ia acreditando na época.