Não é fácil traduzir Tsurezuregusa do seu original japonês, mas poderá ser algo como “Reflexões do Ócio”. Trata-se de um livro escrito por Yoshida Kenko, que após uma vida secular no Japão do século XIV, se tornou um eremita budista. E então, nessa sua nova vida, este homem decidiu anotar o que lhe ia passando pela cabeça, numa obra que ainda hoje é estudada pelos alunos no Japão. É um texto provavelmente tão actual hoje como nos instantes em que foi sendo escrito, preservando não só algumas histórias breves, mas também diversos pensamentos filosóficos. Assim, decidimos deixar por cá dois momentos da obra, sugerindo aos leitores alguma reflexão, até porque a quadra natalícia já se aproxima:
Na província de Inaba vivia uma rapariga, filha de um certo sacerdote leigo de família nobre, cuja mão era pedida em casamento por muitos que tinham ouvido falar da sua enorme beleza. Contudo, esta rapariga não comia senão castanhas, recusando-se a tocar em arroz ou qualquer outro tipo de grão; por isso, os seus pais recusaram todos os seus pretendentes, dizendo que um hábito tão invulgar nunca devia ser mostrado aos outros.
Acautela-te de adiar a prática da religião até à velhice. As antigas sepulturas pertencem, na sua maioria, àqueles que morreram jovens. Só quando o homem é de súbito abatido pela doença e sente próxima a morte é que reconhece os erros da sua vida passada. E que erros são esses?
Nada mais do que adiar o que deveria ser feito sem demora, e apressar o que deveria ser levado com calma – causa de grande arrependimento quando o passado já não pode ser mudado. Quando chega a sua hora, de que lhe servirá então o arrependimento?
O nosso coração deve manter-se firmemente consciente da proximidade da morte, que jamais devemos esquecer, nem por um instante. Assim, ficaremos menos manchados pela contaminação deste mundo, e o nosso espírito será sincero na observância do caminho de Buda.
Um dos santos antigos (…), quando as pessoas vinham falar-lhe de negócios, costumava dizer-lhes:
“Tenho diante de mim uma tarefa premente. O meu tempo está próximo.”
E, tapando os ouvidos, continuava as suas preces – até ao dia em que, dessa forma, passou deste mundo.Outro sábio, de nome Shinkai, tão profundamente impressionado pela fugacidade desta vida, jamais se sentava comodamente: permanecia sempre de cócoras, em atitude de vigilância e atenção.
As palavras de Yoshida Kenko lembram-nos que, mesmo em tempos e lugares distantes, o ser humano permanece o mesmo na sua busca por sentido. Entre o humor discreto da rapariga das castanhas e a gravidade serena da reflexão sobre a morte, Tsurezuregusa convida-nos a olhar para a vida com atenção e simplicidade. Talvez seja esse o verdadeiro ensinamento do “ócio” de Kenko – o de parar um instante, observar o que nos rodeia e reconhecer, com humildade, a beleza efémera de todas as coisas neste mundo.

!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin "O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos.jpg)



