O restaurante-dinossauro de Hawkins

Hoje, quando se fala em dinossauros, é comum pensar-se tanto em esqueletos como em reproduções. Se os respectivos esqueletos e fósseis já têm milhões de anos, eram conhecidos na Antiguidade e então interpretados de diversas formas, hoje fala-se aqui é da primeira reprodução de um dinossauro (quase) no nosso tempo, e de uma história mais curiosa a que ela também levou.

Assim, por volta de 1852 ao britânico Benjamin Waterhouse Hawkins foi pedido que construísse uma reprodução de um dinossauro com base no conhecimento que havia nessa época. Essas primeiras reproduções foram mostradas ao público em 1854, e ainda hoje podem ser encontradas – após diversas renovações – no londrino Crystal Palace Park. Até aqui tudo bem, isto seria uma breve curiosidade interessante para todos aqueles que gostem de dinossauros e tenham algum tempo livre na capital inglesa, mas o que esta história tem especialmente digno de nota é algo que aconteceu por volta dessa mesma altura.

O restaurate-dinossauro de Hawkins

A 31 de Dezembro de 1853, o mesmo Benjamin Waterhouse Hawkins deu um jantar no interior de um molde de Iguanodon, onde também esteve presente, no interior da cabeça do dinossauro, Richard Owen, o paleontólogo empreendedor de todo este projecto. A título de curiosidade, no local foram servidos os seguintes pratos, segundo uma fonte da época:

Soups: Mock Turtle, Julien, Hare

Fish: Cod and Oyster Sauce, Fillets of Whiting, Turbot à l’Hollandaise

Removes: Roast Turkey, Ham, Raised Pigeon Pie, Boiled Chicken and Celery Sauce

Entrées: Cotolettes de Moutonaux Tomates, Currie de Lapereaux au riz, Salmi de Perdix, Mayonnaise de filets de Sole

Game: Pheasants, Woodcocks, Snipes

Sweets: Macedoine Jelly, Orange Jelly, Bavaroise, Charlotte Russe, French Pastry, Nougat à la Chantilly, Buisson de Meringue aux [?]

Dessert: Grapes, Apples, Pears, Almonds and Raisins, French Plums, Pines, Filberts, Walnuts, etc.

Wines: Sherry, Madeira, Port, Moselle, Claret

Entre o bacalhau, a perdiz e os faisões, é curioso encontrar aqui vinhos da Madeira e do Porto. Quase que dá vontade de também experimentar esse jantar. Mas, para quem estiver com essa curiosidade de jantar num local verdadeiramente único… podemos revelar que este pequeno restaurante já não existe, porque se tratava somente de um molde para Hawkins fazer um dos seus Iguanodons, que posteriormente terá sido destruído. No entanto, uma dessas criaturas ainda pode ser vista no tal Crystal Palace Park, mas não é possível entrar para o seu interior, ou tomar qualquer espécie de refeição no local. Ainda assim, a curiosa ideia continua a ser reutilizada nos nossos dias – a companhia britânica Emerald Ant tem um projecto que envolve um “Iguanodon Restaurant“, e que definem como “An outdoor theatre show for all the family, set in and around a Victorian iguanodon”.

Hoje, reproduções de dinossauros, como as de Hawkins, são relativamente comuns e fáceis de encontrar, mas nenhuma ainda parece ter tido a audácia de transformar uma criatura extinta num salão de jantar. Aquele jantar dentro de um Iguanodon continua a ser um dos momentos mais improváveis e memoráveis da história da Paleontologia – uma verdadeira celebração da imaginação humana diante do mistério do passado, e que após um século ainda merece ser recordada nas linhas de hoje.

“Arte de Cozinha”, de Domingos Rodrigues

Se terminámos o ano passado com um tema estrangeiro, é justo começar este com um tema nacional, falando da Arte de Cozinha de Domingos Rodrigues. O autor foi cozinheiro da Casa Real de Portugal. Hoje já quase esquecido, este livro – datado inicialmente de 1680 – é o primeiro tratado de culinária em língua portuguesa que chegou aos nossos dias. Não é o primeiro livro de receitas nacional propriamente dito – essa honra cabe ao Livro de Cozinha da Infanta Dona Maria, possivelmente de finais do século XV – mas contém alguns pormenores aqui dignos de nota.

"Arte de Cozinha", de Domingos Rodrigues

Como pode ser visto na imagem acima, o livro Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, está dividido em quatro partes – “guisados de todo o género de carnes”, “peixes, mariscos, fruta, etc.”, “preparar mesas em todo o tempo do ano”, e “fazer pudins e preparar massas”, apresentando um número significativo de receitas, desde pratos que ainda são bem conhecidos hoje (a título de curiosidade, nenhum deles é ainda o agora famoso Pastel de Belém), até coisas que o tempo fez esquecer. Dois exemplos:

Massa à Duquesa

Peguem em meia oitava de farinha, dois ovos frescos, um bocado de manteiga, e um pouco de sal, e amasse-se com vinho da Madeira, porém que não fique mole; deixe-se descansar, e depois sirva para diferentes pratos de entre-meio.

(…)

Pudim de Arroz

Cozido o arroz em leite, e enxuto, pise-se em um gral de pedra com manteiga, dez ou doze gemas de ovo, açúcar ralado, temperado de sal, canela, noz moscada, casca de limão ralada e uma gota de malvasia, juntem-lhe depois as claras batidas; e posto tudo em um prato com uma borda de massa ao redor, meta-se a cozer no forno por tempo de uma hora; estando corado, sirva-se com açúcar pulverizado por cima. Os pudins de aletria, ou de qualquer outra massa, temperam-se e servem-se do mesmo modo.

Mas esta Arte de Cozinha não é, como já explicado antes, apenas um livro de receitas. Tem, aqui e ali, outros conteúdos que não destoariam em livros semelhantes de inícios do século XXI, como este conselho do autor:

(…) Quando a quantidade que fizerem for menos que a referida no capítulo, se há de diminuir nas espécies, e nos mais ingredientes, que conduzem para o mesmo prato, e assim da mesma sorte, sendo a quantidade maior, se hão de aumentar os ingredientes.

É um conselho interessante, por nos remeter de volta a um tempo em que isto poderia não parecer tão óbvio, i.e. que para fazer menos – ou mais – quantidade de um determinado prato bastaria, respectivamente, diminuir ou aumentar os ingredientes. Já outros conselhos seriam problemáticos nos dias de hoje:

Advirto todos os Senhores que se prezam muito de serem assistidos pelos exercitantes desta arte, que de nenhum modo consintam nas suas cozinhas, nem ainda por moço delas, a negros, mulatos, ou qualquer cozinheiro que de sua criação, ou inclinação, for vil, ou proceder com torpes e depravados costumes, porque lhe confesso hão de comer com muito pouca limpeza, e com muito risco na sua saúde, que assim mo tem mostrado a experiência de muitos anos, e o muito exercício desta minha arte.

Parece, portanto, que a Domingos Rodrigues não seria muito boa ideia empregar possíveis escravos nas lides da cozinha. As razões não são completamente claras, pelo que os leitores são convidados a interpretar o trecho acima como preferirem.

Lendo hoje esta Arte de Cozinha, percebemos como até as receitas, desde as mais antigas até ao mais recente Pudim Abade de Priscos, podem ser testemunhos de mentalidades, de hierarquias e de gostos de uma dada época da nossa história. Entre a manteiga, o vinho da Madeira e a malvasia, Domingos Rodrigues deixou-nos mais do que um simples manual de cozinha: um retrato temperado do Portugal barroco, com todos os seus contrastes – do requinte cortesão ao preconceito quotidiano. E talvez seja isso que torna obras como esta tão valiosas: lembram-nos que a nossa mesa, tal como a nossa história, é feita de camadas – algumas doces, outras amargas, todas indispensáveis para entender quem fomos… e o que ainda hoje levamos à nossa mesa.

Cifras ou Papéis de Beale – um mistério por resolver!

Encerramos o ano de 2025 com um artigo dedicado a todos os que apreciam mistérios. Falamos então das Cifras ou Papéis de Beale, com data de finais do século XIX, mas que após um século ainda não foram completamente resolvidas.

Começando pela sua história muito resumida (mais detalhes podem ser lidos na obra The Beale Papers, datada de 1885), conta-se então que em inícios ou meados do século XIX um tal Thomas J. Beale, juntamente com outros companheiros, encontrou uma mina riquíssima no estado americano do Novo México ou da Virgínia. Essas riquezas foram levadas para um local seguro, e o tal senhor criou três cifras relativas a ela – uma primeira, contendo a localização do tesouro; uma segunda, com a descrição do mesmo; e uma terceira, na qual eram descritos os legítimos donos do tesouro.

Depois, diz-se que esse Thomas J. Beale deixou uma misteriosa caixa a um dono de uma estalagem de nome Robert Morriss, dando-lhe diversas instruções, inclusive que só poderia abrir a caixa se ninguém a viesse buscar durante uma década. Só passados quase 20 anos é que a caixa foi aberta, e no seu interior foram encontradas três cifras… que Morriss não conseguiu decifrar, mas que um amigo, anónimo, decifrou apenas parcialmente. Então, descobriu que a segunda dessas três cifras dizia o seguinte:

I have deposited, in the county of Bedford, about four miles from Buford’s, in an excavation or vault, six feet below the surface of the ground, the following articles, belonging jointly to the parties whose names are given in number 3, herewith:

The first deposit consisted of one thousand and fourteen pounds of gold, and three thousand eight hundred and twelve pounds of silver, deposited November, 1819. The second was made December, 1821, and consisted of nineteen hundred and seven pounds of gold, and twelve hundred and eighty-eight pounds of silver; also jewels, obtained in St. Louis in exchange for silver to save transportation, and valued at $13.000.

The above is securely packed in iron pots, with iron covers. The vault is roughly lined with stone, and the vessels rest on solid stone, and are covered with others. Paper number 1 describes the exact locality of the vault, so that no difficulty will be had in finding it.

Visto que este documento menciona os outros dois, que ainda não foram decifrados, faz todo o sentido mostrá-los aqui, na sua forma original:

As Cifras ou Papéis de Beale - um mistério por resolver!

O que quer isto dizer? Com base no suposto deciframento da segunda cifra (que não incluímos aqui), sabemos que cada um destes números se refere à primeira letra de uma palavra num qualquer documento. Imagine-se, por exemplo, que o documento em questão era Os Lusíadas – o número 1 corresponderia à letra “A[s]”, o 2 também à letra “A[rmas]”, o 3 à letra “E”, o 4 a “O[s]”, e assim por diante. A segunda cifra foi resolvida com base na Declaração da Independência Americana – portanto, resolver este mistério passa “somente” por encontrar pelo menos um outro texto, publicado nos EUA antes de 1821, cuja primeira letra das palavras permitam criar um texto conexo e inteligível com os números acima. Qual é ele… ainda ninguém parece saber. Fica, portanto, o convite aos leitores sem nada para fazer que tentem decifrar os dois documentos mostrados acima!

Para todos os outros, ou até para quem tiver mais que fazer da sua vida, uma questão impõe-se – será isto verdade? Será que as Cifras ou Papéis de Beale conduzem, de facto, a um enorme tesouro, que parece estar avaliado em mais de 50 milhões de dólares americanos? Os leitores são convidados a ter a sua própria opinião, mas acreditamos que tudo isto é apenas e somente um grande logro. Pensamo-lo com base num elemento fulcral.

É estranho que a única cifra que foi resolvida se trate da menos importante para encontrar o tesouro, mas da mais importante para aguçar o apetite dos leitores. É demasiado conveniente, mas também um tanto ou quanto irrealista – se os três documentos se destinavam a possuidores da chave para a cifra, eles podiam simplesmente lê-los a todos, não existindo qualquer necessidade de se dizer algo como “os nomes estão na terceira cifra” ou “a primeira descreve a sua localização exacta”. De um ponto de vista literário, essas são palavras destinadas apenas e somente a quem saiba revelar o conteúdo da segunda cifra, mas de nenhuma das restantes… como, de facto, parece ter acontecido!

A grande questão é… onde começa e acaba a verdade e a mentira em todo este caso das Cifras ou Papéis de Beale? Será que Thomas J. Beale, Robert Morriss, ou o suposto “decifrador” anónimo existiram mesmo? Ou, se tudo isto é um mero logro, como supomos, qual seria o grande objectivo do seu perpetrador? Mera publicidade a um determinado local, especialmente tendo em conta que se diz que Robert Morriss tinha sido um estalajeiro? Ou a mera intenção de enganar, de ver quem caía na patranha, dado o gosto intemporal da humanidade por tesouros escondidos?

No fim de contas, talvez o verdadeiro “tesouro de Beale” não esteja escondido sob as pedras do estado americano da Virgínia, mas sim nas histórias que continua a inspirar. Um enigma que atravessa séculos, confundindo criptógrafos, aventureiros e sonhadores – e que, quem sabe, ainda aguarda o olhar certo para ser desvendado. Seja mito, fraude ou mistério genuíno, estas Cifras de Beale lembram-nos de algo essencial: o fascínio humano pelo desconhecido é, em si mesmo, o ouro mais difícil de encontrar.

Em que data nasceu (mesmo) Jesus Cristo?

Aproximando-se o Natal, decidimos que (finalmente) devíamos falar sobre a data em que Jesus Cristo nasceu. Já se sabe que não foi a 25 de Dezembro, uma data convencionada por causa da Saturnália dos Romanos antes de 353 d.C., mas então… em que data foi? Ou, se não for possível apurar um dia específico, em que ano do nosso calendário actual teve lugar esse evento crucial da história do Cristianismo?

Olhando para os quatro evangelhos sinópticos, Lucas associa a essa data o chamado “Censo de Quirino” (Lucas 2:1-2), que teve lugar por volta do ano 6 ou 7 d.C., conforme atestado por Flávio Josefo. Mas, ao mesmo tempo, Mateus diz que Jesus nasceu no tempo do Rei Herodes (Mateus 2:1) – que faleceu em 4 a.C. – e que esse monarca até mandou matar todas as crianças para tentar impedir a vinda do Messias. As duas datas não podem ser cumulativamente verdade, mas visto que Josefo atesta o primeiro evento, mas nenhuma fonte da época relata as alegadas mortes causadas por Herodes (que parecem ser teologicamente simbólicas), faz algum sentido concluir que o primeiro autor esteja mais correcto que o segundo. Por isso, somente com base nestes dados, Jesus Cristo terá nascido por volta dos anos 6 ou 7 d.C. Mas será que se consegue ter uma precisão maior, ao nível de um ano específico, de um mês, ou até um dia?

De acordo com Lucas (2:6-7), quando os pais de Jesus procuravam lugar onde ficar, todos os lugares que encontravam estavam cheios. Isto, certamente que em virtude dos tais censos, mas não parece existir qualquer referência a chuva ou outras intempéries, o que seria comum no Inverno. A presença posterior de pastores na cena, parece indicar uma época quente do ano, e o facto dos Reis Magos terem seguido uma estrela também sugere um céu descoberto. Por isso, associando esses pontos, podemos pensar que Jesus Cristo terá nascido na Primavera ou Verão do ano 6 d.C., em que essas condições seriam mais prováveis – ou seja, entre os dias 20 de Março e 23 de Setembro.

Agora, Clemente de Alexandria, na sua Stromata (inícios do século III), diz que Jesus Cristo nasceu no 28º ano do reinado de César Augusto (c. 2-3 d.C.), e dá como datas correntes no seu tempo as de 6 e 10 de Janeiro, 19-20 de Abril, e 20 de Maio. Se as associarmos à informação acima, podemos então crer que este filho de Maria, adoptado por José, terá nascido na noite de 19 para 20 de Abril, ou a 20 de Maio. Infelizmente, o autor não nos diz o verdadeiro fundamento por detrás dessas datas, mas a de 25 de Dezembro aparece pela primeira vez em Hipólito de Roma (c. 204 d.C.), não nos parecendo credível.

Querem estes nossos argumentos dizer que Jesus Cristo nasceu, sem quaisquer dúvidas, a 19-20 de Abril ou a 20 de Maio do ano 6 d.C.? Ou que nasceu em Belém, na Judeia, como aqui dissemos há já alguns anos? Claro que não! O que é apresentado aqui é, única e exclusivamente, uma interpretação nossa derivada do texto bíblico, e de algumas fontes literárias dos primeiros séculos da nossa era. Por definição, uma opinião é discutível, até porque a outras pessoas Mateus poderá parecer mais fidedigno que Lucas. A grande verdade é que, conforme atestado por Clemente de Alexandria, mesmo nos primeiros séculos da nossa era já existiam grandes dúvidas sobre a data de nascimento de Cristo, levando a diversas opiniões. A nossa é só mais uma, e neste Natal os leitores são convidados a pensar em que medida concordam – ou não – com os argumentos apresentados aqui, numa espécie de prenda antecipada.

No fim de contas, talvez nunca saibamos o dia exacto em que Jesus nasceu – se foi em Abril, em Maio, ou em pleno Inverno. O que sabemos é que aquele nascimento, anónimo e improvável, transformou para sempre a história humana. O essencial talvez não esteja em descobrir quando tudo começou, mas em compreender por que esse nascimento continua, dois milénios depois, a inspirar fé, arte, compaixão e debate. A dúvida histórica permanece, mas o impacto espiritual é inegável.

As (esquecidas) Aparições da Asseiceira

Nem sempre é fácil decidir como conduzir estas linhas, e falar das Aparições da Asseiceira, agora quase esquecidas, é um perfeito exemplo disso mesmo. Isto, porque falar de aparições marianas em Portugal é, hoje, falar quase e exclusivamente de Fátima. Se se acredita que a santa mãe de Cristo até pode ter aparecido em outros locais (como a Peninha), ou salvo a vida de diversas pessoas (como no potencial caso do Guincho), o século passado parece ter feito do caso da Nossa Senhora de Fátima o grande exemplo de aparição nacional… e para isso, foi necessário também deixar cair pelo caminho diversas outras aparições. A de hoje tomou lugar na Asseiceira, no município de Rio Maior.

Aparições da Asseiceira e Carlos Alberto da Silva Delgado

Sobre estas Aparições da Asseiceira, diz-se então que Carlos Alberto da Silva Delgado (visível na imagem acima), na altura com 11 anos de idade, foi aconselhado por uma professora a rezar para ter melhores notas. Quando, a 16 de Maio de 1954, o fez próximo de um loureiro, com intenção de evitar a galhofa dos colegas, apareceu-lhe Nossa Senhora.

Esta aparição da Virgem começou, segundo ainda se sabe, por dizer a Carlos Delgado “Não fujas, eu sou a Mãe do Redentor”, revelando-lhe depois que ia ter boas notas no exame vindouro (algo que, aparentemente, se cumpriu – mas a história não preserva a nota), pedindo-lhe que se rezasse mais o terço, se cumprissem os Dez Mandamentos, e que ele voltasse ao local no mês seguinte. O menino parece ter repetido a sua presença por nove vezes, talvez até à data de 16 de Janeiro de 1955, mas nada mais conseguimos descobrir sobre o aconteceu, salvo uma curiosa excepção – o livro As Aparições da Asseiceira, compilado por um tal Fernando António, foi proibido nos tempos de Salazar. Consultando alguns registos, parece ter sido o único livro sobre uma aparição nacional vítima dessa censura, e ainde hoje é difícil de encontrar – mas até o conseguimos encontrar, para este artigo, e ele somente preserva alguns artigos de jornal da época, relativos ao período até à suposta terceira aparição.

O que mais aconteceu, portanto, nestas Aparições da Asseiceira? Não sabemos, mas pelo menos algumas pessoas que foram visitando o local naquele período de nove meses disseram ter presenciado alguma espécie de milagres, e o livro As Aparições da Asseiceira refere, de forma muito breve, pelo menos três pessoas que parecem ter sido curadas por milagre. Terá sido verdade? Fruto da censura da época, quase nada é agora possível encontrar sobre o tema, com o livro a mencionar, uma e outra vez, que o rapaz ia ser sujeito a exames psiquiátricos no futuro.

Não conseguimos encontrar, de forma fidedigna, o que mais teve lugar na época. Foi, posteriormente, construído um pequeno santuário no local, que ainda pode ser visitado nos nossos dias, como se vê acima, e onde ainda hoje se realizam celebrações religiosas, especialmente no dia 16 de cada mês, segundo foi possível apurar no Facebook oficial.

E quanto ao tal Carlos Alberto da Silva Delgado, o que é feito dele? Segundo também nos foi possível apurar, faleceu aos 37 anos, vítima de um acidente de automóvel. Em sua memória, duas pequenas fotografias ainda podem ser encontradas próximas do próprio altar da Nossa Senhora do Rosário da Asseiceira, relembrando também este jovem escolhido para transmitir uma mensagem divina – um lembrete de que, mesmo longe dos grandes santuários, há por todo o nosso país outras pequenas colinas e árvores antigas onde alguém, um dia, jurou ter visto a Mãe do Redentor. Se foi verdade, ou mera imaginação pessoal, já não o saberemos…