Falar de George Psalmanazar é falar de um dos mais curiosos logros da história mundial, que nunca foi completamente resolvido. Ele poderia ter ficado para a história como só mais uma pessoa que fingiu ser o que não era, mas no decurso desse seu caminho também produziu uma obra tão fascinante que sentimos que a deveríamos apresentar nestas linhas.

Essencialmente, George Psalmanazar foi um nativo francês que por volta do ano de 1700 se fez passar pelo primeiro nativo de Taiwan a visitar a Europa. Seria um caso como muitos outros (e.g. a Princesa Caraboo, que até foi ajudada por um marinheiro português), não fosse o facto de em 1704 ter produzido um livro sobre o tema, que ainda está acessível online hoje, e tem por título An Historical and Geographical Description of Formosa. Ou seja, trocando por miúdos, este senhor escreveu uma obra sobre a antiga Formosa sem nunca ter visitado a ilha. E, caso não vos pareça algo difícil de fazer, o livro em questão não só inclui diversas imagens de supostas tradições e locais nessa ilha, como até apresentou um abecedário dessa linguagem (que é falso), e diversas traduções feitas para essa sua língua (igualmente falsa). É hoje uma obra fascinante, porque apresenta toda uma criação de um mundo ficcional que, a nosso ver, só será replicado vários séculos mais tarde com J. R. R. Tolkien.
Se algumas pessoas até duvidavam da veracidade da história deste senhor (como, séculos antes, também tinha sido feito a Marco Polo), e de muitas das coisas que escreveu nessa obra, não parece ter existido um momento em que ele foi completamente desmascarado. Em alternativa, mais tarde ele admitiu que era tudo uma impostura, e publicou vários livros sobre outros temas, demonstrando que era , de facto, uma pessoa verdadeiramente culta. E, quando faleceu em 1763, o trabalho da sua vida culminou num último livro, de título Memoirs of ****, Commonly Known by the Name of George Psalmanazar; a Reputed Native of Formosa, onde conta a sua verdadeira história… mas sem nunca revelar ao leitor o seu verdadeiro nome, sendo ainda hoje conhecido por aquele que o tornou conhecido na sociedade inglesa do século XVIII.
É esse, de facto, o verdadeiro mistério da vida de George Psalmanazar. Ele arrependeu-se da sua enorme mentira, e até acabou por nos revelar quase toda a verdade por detrás da mesma, mas ainda assim não conseguiu dar o derradeiro passo e revelar tudo sobre a sua identidade. Sabendo-se tudo o mais, talvez tenha sentido que esse elemento, um mero nome, já não era tão importante como as coisas por que foi passando ao longo da sua vida. O remanescente tornou-se secundário, um símbolo de que por vezes a mensagem importa muito mais do que quem a transmite.
No fim, George Psalmanazar tornou-se ele próprio uma lenda – um mito moderno, nascido não de deuses ou heróis, mas da imaginação humana e da vontade de acreditar. A sua Formosa nunca existiu – o que nos pode relembrar as aventuras de João de Mandeville ou do Barão Munchausen – mas talvez tenha sido mais verdadeira do que muitas terras reais: um reflexo do poder das histórias em moldar o mundo.


