O segredo do Bairro Estrela d’Ouro, em Lisboa

No coração da Lisboa antiga, onde o casario sobe pelas colinas e as ruas ainda guardam segredos de pedra, existe um bairro que carrega no nome e na memória um brilho especial: o Bairro Estrela d’Ouro. É um lugar que parece condensar, num pequeno quarteirão, histórias de cinema, de arquitetura operária e até de símbolos escondidos na calçada. Um lugar onde a lenda se mistura com a história documentada, convidando quem passa a olhar para cima… e para baixo.

 

 

Entre as suas memórias mais faladas, está o Royal Cine, alegadamente o cinema lisboeta onde foi exibido o primeiro filme sonoro em Portugal. A estreia desse tipo de projeção, na época, foi um acontecimento — o som no ecrã transformou para sempre a forma como o público vivia o cinema. Hoje, quem se dirigir ao número 106 da Rua da Graça já não encontrará filas para sessões noturnas, mas sim um supermercado Pingo Doce. As cortinas fecharam-se há décadas, mas ficaram histórias e rumores. Há quem diga que, durante muito tempo e até quase aos nossos dias, ainda se podiam aceder no edifício ás casas de banho originais, com quase 90 anos. Verdade ou lenda urbana? Ninguém nos conseguiu confirmar, mas o mistério só acrescenta encanto.

O segredo do Bairro Estrela d'Ouro

Seja como for, há um detalhe que resiste ao tempo: no topo do edifício ainda se ergue uma grande estrela, símbolo pessoal de Agapito da Serra Fernandes. No início do século XX, este industrial visionário construiu aqui um bairro para os seus operários, oferecendo-lhes habitação digna, num tempo em que isso não era prática comum. A Estrela d’Ouro tornou-se, assim, não só um emblema arquitetónico, mas também um testemunho de um certo espírito comunitário que marcava a Lisboa de outros tempos.

 

 

Para quem gosta de explorar, o bairro esconde ainda um percurso curioso. Na Rua Josefa Maria, incrustadas na calçada, podem encontrar-se pequenas estrelas de pedra negra. Algumas já quase se perderam com os anos, mas outras mantêm-se intactas. Segui-las é como seguir um mapa secreto: no fim do caminho, elas conduzem até à antiga residência de Agapito. A casa é imponente e, até certo ponto, contrasta com a simplicidade das belas moradias que ele construiu para os operários — um contraste que também conta uma história. Infelizmente, não é possível entrar; o porteiro, apesar de simpático para connosco, quando fomos ao local, deixou claro que a visita não é autorizada.

 

Mesmo sem entrar, passear pelo Bairro Estrela d’Ouro é como caminhar por uma pequena aldeia escondida no meio da metrópole. As casas, muitas delas preservadas, conservam uma tipologia peculiar: fachadas simples mas elegantes, pátios interiores, e aquela sensação de vizinhança que, noutras zonas, já se perdeu. É um pedaço de Lisboa que sobreviveu ao avanço do turismo em massa, mantendo um caráter genuíno e uma história para contar.

 

 

Talvez seja isso que torna este bairro tão especial: a forma como junta factos e mitos, memórias e pedras, brilho e simplicidade. No fim, fica a pergunta: será que a estrela ainda brilha para quem sabe procurá-la? Só há uma maneira de descobrir — seguir o seu rasto pelas ruas de Lisboa.

O mito da Atlântida – a da Antiguidade e a Futurista

Após muito ouvir falar sobre o mito da Atlântida, decidi aprofundar um pouco mais esse mito, já que tem a sua origem na literatura grega da Antiguidade.

Será esta a Atlântida?

O mito da Atlântida de Platão e da Antiguidade

A primeira menção (e certamente a que mais importa explorar) à existência desta civilização é feita em dois diálogos de Platão – Timeu e Crítias. No primeiro, a referência inicial é feita na sequência de um relato sobre o passado da civilização de Atenas, e é dada uma data para todo episódio – aproximidamente 9600 a.C. . É ainda dito que esta civilização se localizava no Oceano Atlântico, “em frente (…) aos Pilares de Héracles” e que apresentava uma extensão maior que “a Líbia e a Ásia juntas”. Após ter conquistado vários outros locais, tentou atacar Atenas mas foi derrotada (gostaria certamente de aprofundar mais esta parte, mas o autor não dá mais informações). Depois, e na sequência de “violentos terramotos e cheias”, a ilha “desapareceu nas profundezas do mar”, razão pela qual essa parte do mar era “impenetrável”, “devido à lama no caminho, causada pelo afundamento da ilha”.

Importa mencionar que todo esse relato nos é feito através da voz, não de Platão ou de Sócrates, mas de uma outra personagem (um sacerdote egípcio), e mesmo esse não é um relato na primeira pessoa, mas uma história que Solon (um interlocutores originais) contou a Crítias, que por sua vez a contou a outro Crítias, seu neto. Este último admite recordar-se de “quase tudo” após passar uma noite a relembrar os vários detalhes, os quais tinha ouvido na sua juventude, e Sócrates considera todo o relato como “facto, e não ficção”.

 

Partes desta mesma história são depois recontadas por Crítias no diálogo com o mesmo nome, mas também lhe são adicionados alguns novos elementos, nomeadamente em relação ao nascimento e desenvolvimento da ilha. É-nos contado como Poseidon dividiu a ilha principal em dez partes, deixando cada uma delas para cada um dos filhos que teve com a mortal Cleito, sendo o mais velho (a quem foi dado o nome de Atlas, provindo daí o nome do Oceano Atlântico) o rei dessa civilização e os outros (Eumelus/Gadeirus, Ampheres, Evaemon, Mneseus, Autochthon, Elasippus, Mestor, Azaes e Diaprepes) príncipes de cada uma das pequenas ilhas. É-nos falado de toda a riqueza das ilhas, da forma como era extraído o Oricalco (“mais precioso que tudo excepto ouro”, e de que eram feitos muitos dos elementos arquitectónicos desta civilização), da abundância de madeira, fruta e de animais (em especial elefantes). É-nos ainda relatada a forma como a ilha se desenvolveu e toda a sumptuosidade que a populava, com extensas descrições das diversas áreas e dos modos de vida.

Tudo isto até que, um dia, a herança divina no coração dos homens se começou a perder; os habitantes, apesar de parecerem “gloriosos e abençoados”, começaram a ficar “cheios de avareza e poder injusto”. Em busca de uma solução, Zeus reuniu-se com os outros deuses e… nada. Pode até parecer estranho, para quem não estiver habituado à leitura de textos antigos, mas no exacto momento em que Zeus se ia pronunciar sobre tudo isto a trama termina de uma forma demasiado inesperada. De facto, o texto a que hoje temos acesso termina no exacto ponto em que nos é referido que “[Zeus] disse o seguinte …”.

 

Pois bem, a meu ver é esta ausência de um final em Crítias que – e apesar de se saber do destino final da ilha através da sinopse patente em Timeu – gerou todo o mistério que nos chegou até aos dias de hoje. Tal como sucede em Perceval, le Conte du Graal, de Chrétien de Troyes (uma das primeiras histórias sobre o Santo Graal, também ela inacabada), neste caso não é dado um seguimento real a um importante mistério, o que deu lugar às mais diversas interpretações e conjecturas, como é tão frequente quando o género humano se confronta com um desconhecido.

 

Seria, por exemplo, toda a história da Atlântida nada mais que uma metáfora para ilustrar um ponto, como sucede noutros diálogos do mesmo autor? Não sabemos. Seria esta civilização composta por um aglomerado de ilhas? Em Crítias somos levados a pensar que sim, mas então porque procuram as pessoas um continente único? E de onde vem toda a sugestão de que esta civilização era surpreendentemente evoluída? Nada nos dois textos nos dá a entender isso. Os momentos finais de Crítias levam-nos até a pensar numa civilização imperfeita, repleta de defeitos humanos e reais, mais do que com um carácter (quase divino, parece-me) que hoje lhe é dado.

 

Em suma, seria esta uma história verdadeira? Em Timeu, Sócrates dá-nos a entender que sim, mas até que ponto podemos acreditar nele, quando a nossa tarefa é a de julgar correctamente uma questão deste âmbito? Creio que sem termos acesso ao final de Crítias (e mesmo com as informações de Timeu, já que estas não são totalmente conclusivas) nada podemos concluir. Conjecturar sobre a existência da Atlântida de Platão é quase o mesmo que ler os fragmentos de Satyricon e tentar recriar toda a trama… Assim, vejo-me obrigado a concluir que tal como sucede com o Santo Graal de Chrétien de Troyes, também este local poderá ser uma invenção (ou, quem sabe, uma reinvenção) de Platão. Isto porque não temos, para além deste autor, acesso a qualquer outra fonte que nos confirme a veracidade dos eventos. Ainda assim, devo dizer que a creditação da história da Atlântida a “um sacerdote egípcio” me recorda de um artifício mais frequente após a idade média – para atestar a veracidade de um texto, eram então dadas fontes de um passado distante, que já não sobrevivem mas a que o novo autor/tradutor teve, de algum modo, acesso. Curiosamente, esse artifício era vulgarmente utilizado para dar um maior crédito a textos falsos…

 

 

P.S.- Sobre todo este tema existe, no mundo anglófono, uma expressão atribuída a Aristóteles que diz algo como “Plato alone made Atlantis rise out of the sea, and then he submerged it again”. Apesar de se tratar de uma sugestão muito interessante, não foi possível encontrar essa expressão específica em nenhum trabalho do filósofo grego, sendo, por isso, muito provavelmente uma citação falsa!

 

E… a Atlântida futurista?

O artigo acima foi escrito há mais de 15 anos, e ele não falava de um aspecto curioso do mito da Atlântida que é muito popular nos nossos dias – o de uma civilização futurista, com tecnologia muito superior à nossa, incluindo carros voadores e outras coisas que tais. Platão, e os outros autores da Antiguidade, nunca nos dizem nada disso, portanto… de onde vem toda essa ideia?

Essencialmente, e para quem tiver essa curiosidade, a ideia advém de dois autores distintos já nos séculos XIX e XX da nossa era. O primeiro deles, Ignatius L. Donnelly, publicou em 1882 um livro de título Atlantis: The Antediluvian World, em que apresenta uma Atlântida que tenta tornar histórica, e que o autor construiu, essencialmente, como uma base para explicar diversas coincidências entre as antigas sociedades americanas e europeias. Ele usa argumentos como “a letra A entre os Fenícios e os Maias é muito parecida, e isso indica uma fonte comum, um continente perdido entre ambos”, o que não é completamente verdade, já que se poderá tratar – tanto aqui, como em muitos outros casos apresentados no livro – de mera coincidência. Esta primeira obra popularizou, na imaginação popular, a ideia de que teria existido ali um continente com as capacidades culturais e científicas necessárias para popular outras regiões com sucesso.

 

Algumas décadas mais tarde, o médium Edgar Cayce falou do mesmo continente e da sua civilização em muitas das suas previsões. Encontrá-las a todas seria difícil, não fosse o facto de Edgar Evans Cayce – o filho do anterior – as ter compilado num livro de título Edgar Cayce on Atlantis. É aí que esse continente parece aparecer, pela primeira vez, como uma Atlântida futurista, destruída não por algum poder divino da Antiguidade, ou pelas águas do mar, mas pelo grande perigo gerado pela sua própria tecnologia.

Terá sido verdade? Será que uma Atlântida futurista existiu mesmo? A resposta parece ser dada pelo próprio Edgar Evans Cayce na obra em questão – se ele compilou as leituras do pai em torno deste tema, ele mostra, ocasionalmente, um certo cepticismo relativo à ideia, parecendo esperar que a Ciência, no futuro, confirmasse ou desprovasse esta antiga existência, nomeadamente através de uma biblioteca secreta, profetizada pelo pai, que supostamente existe nas redondezas da Esfinge do Egipto. Portanto, basta dizer que até à presente data, nunca foi encontrada qualquer prova real e incontestada de um continente perdido e com uma tecnologia perdida superior à nossa.

Os mito de Mu e Lemúria, os continentes perdidos

Quando, na tradição ocidental, se pensa num possível continente perdido, normalmente é a Atlântida, aquela terra desaparecida de que nos falou Platão e autores posteriores vieram a reutilizar nas suas obras. Mas, curiosamente, esse exemplo não é um caso único. Existem outros continentes supostamente perdidos, de que Lemúria (o suposto local de onde vieram os animais chamados “lémures”) e Mu são hoje provavelmente os mais conhecidos. Assim dedicamos-lhes as linhas de hoje.

 

 

Qual a origem de Mu?

O mito de Mu, o continente desaparecido

A história do continente Mu parece ter começado com um tal Charles Étienne Brasseur de Bourbourg, que por volta do ano de 1864, ao tentar traduzir um códice que ainda existe em Madrid com o nome de “Códice Tro-Cortesiano”, ficou com a ideia de que a palavra “mu” se referia a um continente desaparecido por uma catástrofe. Esse continente foi, em seguida, pensado por um Augustus Le Plongeon tratar-se da própria Atlântida, e toda esta história poderia ter ficado por aqui, mas ainda nem sequer vai a meio.

 

 

Quase um século mais tarde, em 1931, um britânico de nome James Churchward publicou um livro de título The Lost Continent Mu. Segundo ele próprio relata, nas suas viagens pela Índia encontrou, num local completamente desconhecido, um monge desconhecido que, após alguma relutância inicial, lá o levou a um local também desconhecido e lhe mostrou uns documentos muito antigos, que supostamente só três pessoas conseguiam ler, e que contava a história do continente aqui em questão. A repetida ênfase no “desconhecido”, nas linhas anteriores, é propositada – tenha-se em atenção que, mesmo que se queira acreditar em toda esta história, o seu autor parece seguir um conjunto de padrões ficcionais que já existiam na Idade Média, relativos à descoberta misteriosa de um documento que potencialmente mudaria toda a história como a conhecemos – o exemplo de Ânio de Viterbo é provavelmente o mais famoso na Europa.

 

 

Agora, muito inesperadamente, esta obra, cujo título pode ser traduzido como O Continente Perdido Mu, não conta o que James Churchward nos diz ter lido. Isso talvez fosse interessante, mas o que o autor faz, em alternativa, é dizer que coisas como… Mu foi a origem de todas as civilizações, era o Paraíso bíblico, existiu há mais de 35000 anos, foi lá que primeiro surgiu o sinal da cruz, e viviam lá 64.000.000 de pessoas que falavam “Naga-Maya”. Nunca explica como conseguiu ele saber todas estas coisas, ficando apenas a vaguíssima ideia de que o poderá ter lido nos tais documentos misteriosos a que teve acesso.

 

Essa sequência de informações misteriosas prolonga-se nesta primeira obra de James Churchward – ele depois escreveu outras – por páginas e páginas. Num dado instante conta até saber como é que nasceu o antropofagia – se Mu era uma civilização muito avançada, quando o continente em questão desapareceu nas águas, os poucos sobreviventes começaram a ter de se comer uns aos outros para a sua própria subsistência, algo que o autor afirma, com todas as certezas do universo, que nunca ninguém tinha feito até essa altura.

 

 

Mas a estranheza de tudo isto ainda não fica para aqui. Numa altura especialmente curiosa da obra, o autor confessa que não tinha ainda compreendido a origem de uma “trindade” que ainda existe em várias religiões dos nossos dias. Então, conta que o seu “velho amigo hindu” (que nunca tem um nome identificável…) lhe dirigiu as seguintes palavras:

 

Há uma lenda sobre isso. Pode ser verdade ou pode ser um mito. Não consigo dizê-lo. A lenda diz que a Pátria-mãe [i.e. Mu] consistia em três terras, que cada terra foi levantada por um deus diferente, pelo que três deuses foram necessários para levantar todo o continente. Mas os três deuses eram, na verdade, apenas um, todos juntos como os lados de um triângulo.”

 

Este trecho da obra é digno de nota porque, na sua essência, nos caracteriza as histórias de Mu como, na verdade, o são – um mito pleno de incertezas, que parece ir sendo construído ao longo da obra a belo-prazer de James Churchward. Quem a for ler com atenção, nota, sem grande dificuldade, repetidas fantasias e inconsistências. O momento em que ele explica como descobriu que este continente existia há 35000 anos quase faz rir – ele parece calcular essa idade não com base em quaisquer provas, mas por comparação com outros calendários que ele supõe relacionados com o seu tema. E como é que descobriu que em Mu viviam 64.000.000 pessoas? Mais uma vez, fica a supor-se que ele terá lido isso nos tais documentos misteriosos que nunca mais ninguém – que fosse identificável – alguma vez nos disse que viu ou leu.

 

 

Caso ainda não seja completamente claro, a ideia de Mu, enquanto um continente perdido, é apenas e somente um mito e mais pura ficção. Nada tem de credível, de um ponto de vista científico, e o facto do próprio autor nunca dizer claramente o que supostamente leu – a obra, pelo menos no primeiro livro, nunca relata o que foi lido – até sugere que, na altura, Churchward ainda não tinha decidido a totalidade dos contornos que viria a dar à sua história, nas obras seguintes – The Children of Mu (1931), The Sacred Symbols of Mu (1933), Cosmic Forces of Mu (1934) e Second Book of Cosmic Forces of Mu (1935) – que não fomos ainda ler, mas cujos títulos sugerem uma ligação crescente ao Misticismo. Mesmo que Mu tenha existido, a sua verdadeira história certamente não pode ser encontrada nestas obras de James Churchward, nem nas muitas fantasias que se lhes seguiram, e que continuam a inspirar novas histórias até aos nossos dias de hoje.

 

 

E qual a origem de Lemúria?

 

A origem de Lemúria é um pouco menos fantasiosa. Essencialmente, em meados do século XIX um zoólogo britânico, de nome Philip Sclater, apercebeu-se de algo curioso – existiam fósseis de criaturas semelhantes a lémures em Madagáscar e no sul da Índia, mas não em África (e daí o nome que deu ao continente). Isso fê-lo supor que, em tempos muito mais antigos, teria existido nessa zona um local desaparecido, que ligava esses dois territórios, mais ou menos assim:

A origem de Lemúria

Toda esta história também ficaria por aqui, não fosse o facto de, anos mais tarde, personagens como Helena Blavatsky terem reaproveitado este e outros conceitos para os seus propósitos pessoais, sugerindo, neste caso em específico, que Lemúria tinha mesmo existido e era a terra primordial de todas as raças humanas. Não existe, como é evidente, qualquer prova real disso mesmo, nem de que este continente alguma vez tenha existido, nascendo a ideia de uma mera hipótese científica que foi colocada por um inglês há cerca de 150 anos.

Cinco perguntas a… #5- Christy Marx

Após algum tempo de pausa desta coluna, trazemos hoje aqui uma nova entrevista, desta vez a Christy Marx. Deixaremos as cinco perguntas que lhe foram colocadas falarem por si mesmas:

Entrevista a Christy Marx

1 – Se tivesse de se apresentar a alguém que nunca tivesse ouvido falar de si — digamos, numa tribo remota da Amazónia — como explicaria quem é Christy Marx e o que faz?

 

CM: Eu diria que sou uma contadora de histórias. Todas as culturas entendem o que é uma contadora de histórias. O meu objetivo, enquanto contadora, é criar uma experiência partilhada sobre pessoas e vidas que podem ser diferentes das pessoas e vidas que elas conhecem. Dependendo da cultura, teria de explicar melhor como escrevo histórias, e como essas histórias às vezes são lidas em palavras e outras vezes representadas por outras pessoas.

 

 

2 – A sua página da Wikipédia [em Inglês] diz que é “mais conhecida pelo seu trabalho em várias séries de televisão”, mas não diz nada sobre a sua juventude. O que levou a jovem Christy Marx ao caminho da escrita, e como é que isso evoluiu até aos dias de hoje?

 

CM: Nasci contadora de histórias e encontrei a minha paixão quando descobri as bandas desenhadas em criança. Os comics tornaram-se uma obsessão, e isso levou-me a pensar que a única forma de contar as histórias que queria contar era nesse formato. Ou seja, narrativa visual.

 

Infelizmente, pensei também que isso significava que tinha de ser artista. Apliquei as minhas habilidades artísticas muito rudimentares nessa direção, mas eu era péssima como artista. Não tinha formação nem temperamento, e não sabia o suficiente para perceber o quão má era. Ainda assim, usei essas tentativas para criar dezenas de personagens heroínas, desde super-heroínas a espiãs.

 

Quando tinha 19 anos, mudei-me para Los Angeles. Na minha ingenuidade, cheguei a mostrar os meus desenhos a uma diretora artística de uma agência. Ela fez-me um grande favor: disse-me que eram terríveis. Percebi que tinha razão. Isso libertou-me, porque a vontade de contar histórias continuava a arder em mim, e virei-me para a escrita. Experimentei escrever contos que enviei para revistas de ficção científica e fantasia da época. Não venderam.

 

Fui uma “late bloomer”: só a meio dos meus vinte anos é que consegui finalmente entrar no meio. Estar em Los Angeles revelou-se o melhor lugar para começar como escritora. Conheci Roy Thomas, que comprou as minhas primeiras histórias de banda desenhada (Conan e Red Sonja). Fiz amizades no meio dos comics que me ajudaram a ligar-me à animação, e foi o meu amor pela BD que me deu a primeira oportunidade de escrever para animação — Quarteto Fantástico, e depois Homem-Aranha.

 

Diria que o meu percurso como escritora foi errático e extraordinariamente afortunado. Tive oportunidades raras que soube agarrar, e isso levou-me a uma carreira para toda a vida.

 

 

3 – Ao longo da sua carreira, criou histórias que moldaram a vida de muitas pessoas. Na sua perspetiva, o que faz uma história ser excelente — e que falhas comuns nota nas narrativas atuais?

 

CM: Uma grande história tem de criar uma experiência partilhada com a pessoa que a lê, ouve ou vê. A habilidade do escritor dita a eficácia com que essa experiência é transmitida.

 

No coração de qualquer boa história tem de existir uma ou mais personagens de quem o leitor se importe. E por personagem pode entender-se qualquer coisa com que o leitor consiga relacionar-se — humano, alienígena, mitológico, animal, até um objeto antropomorfizado — desde que haja essa ligação.

 

Além disso, uma boa história exige algum tipo de conflito, seja físico, emocional, mental, espiritual ou psicológico para a(s) personagem(ns).

 

Finalmente, deve ter um princípio, um meio e um fim com uma resolução satisfatória. Isso não significa que tenha de ser em ordem cronológica, apenas que comece em algum ponto, que algo aconteça, e que termine de forma resolvida.

 

Pode soar simplista, mas não precisa de ser mais complicado do que isto. O que se complica é a forma como se executa.

 

Existem contadores de histórias há milhares de anos, alguns bons, outros maus. Continuam a existir hoje excelentes histórias, como sempre existiram desde que o ser humano conta histórias.

 

Quando uma história falha hoje, falha pelas mesmas razões que levaram ao fracasso de qualquer história noutro tempo — por quebrar algum dos elementos que referi acima. Por não criar uma personagem de quem alguém se importe. Por não ter um conflito interessante ou significativo que mova a personagem. Por não oferecer uma resolução satisfatória. Ou simplesmente por não saber transmitir a história.

 

 

4 – Imagine uma escavação arqueológica daqui a 4.000 anos encontrar uma das suas obras. Qual gostaria que fosse — a sua própria “Ilíada” — e porquê?

 

CM: Essa é difícil, mas neste momento escolheria a minha série de banda desenhada Sisterhood of Steel. Foi totalmente uma criação minha (e é uma obra que me pertence). Adoro o mundo e as personagens que criei, com destaque para figuras femininas fortes.

 

Espero vir a escrever um ou dois romances no futuro, e talvez a minha resposta mude se eu conseguir concretizar isso.

 

 

5 – A vida de cada pessoa começa com uma primeira história. Qual é a primeira história de que se lembra — e qual escolheria para ser a primeira história de outra pessoa?

 

CM: Agora estamos a falar da infância. Houve de facto uma história que adorei e que me marcou quando criança. Era The Color Kittens, publicada na coleção Little Golden Books. Tratava de três gatinhos que aprendiam a misturar cores e tinha sequências de fantasia muito coloridas. Sempre adorei gatos (tenho cinco atualmente), sempre fui atraída por cores vivas, e adoro fantasia. Essa história tinha tudo!

 

Em relação a uma história para crianças de hoje, sugeriria a minha série de animação Jem and the Holograms [*]. As personagens, os visuais e a música continuam a cativar as crianças. São histórias fundamentalmente boas, com mensagens subjacentes benéficas sobre amor, confiança, amizade e fazer o que é certo. No mundo conturbado de hoje, as crianças precisam de mensagens positivas e esperançosas — e Jem oferece isso mesmo.

 

 

 

Esperamos que tenham gostado desta pequena entrevista. Para nós foi fascinante – Christy Marx é não só uma autora acessível e muito generosa, mas também alguém cujo conhecimento — expresso em livros como Writing for Animation, Comics, and Games — é valioso para todos os que se interessam pela escrita em animação, banda desenhada e jogos.

 

 

 

*- Não encontrámos provas de que esta série tenha passado em Portugal numa forma completa, mas deu na televisão no Brasil, onde era conhecida por “Jem e as Hologramas“.

O mistério da Praia do Anjo (em Cascais) RESOLVIDO?

Hoje falamos do mistério da Praia do Anjo, um tema que já nos fascina há vários anos. Não é muito complexo, bem pelo contrário, pelo que estas linhas serão, mais que tudo o resto, uma tentativa de que, um dia, talvez alguém as encontre e seja capaz de nos esclarecer aquilo que até agora não conseguimos descobrir.

O mistério da Praia do Anjo

A zona de Cascais, em Portugal, é conhecida pelas suas praias. Poderíamos aqui nomear algumas delas, como as do Tamariz ou do Guincho, entre muitas outras que são relativamente fáceis de conhecer no local, mas… o mistério de hoje prende-se com a ausência completa de uma “Praia do Anjo” na região cascalense. Parece ser até uma praia mais misteriosa que o próprio castelo da vila, e por muito que se tente inquirir sobre ela no local, os habitantes dizem-nos, uma e outra vez, que não conhecem nenhumas areias com este nome.

 

 

Mas ainda não estamos loucos, de todo. Ela existiu, e tanto existiu aparece nomeada em obras que antecedem o século XIX. O seu próprio nome até nos sugere a existência de uma presumível lenda com a (antiga) aparição de um anjo no local. Mas depois, nada. Não conseguimos encontrar uma única linha que atestasse este antigo nome para uma praia na zona. Algumas delas, como a Praia da Rainha, pela ligação a uma figura histórica recente – neste caso, a última rainha consorte de Portugal – poderão fazer-nos supor que o local já teve outro nome, anterior a esse, mas ninguém se recorda dele. Seria esta Praia do Anjo? Ou, em alternativa, seria essa a designação para um areal que já há muito desapareceu desta costa lisboeta? Nada se sabe, e mesmo pesquisa em motores de busca, ou com recurso a Inteligência Artificial, não levam a qualquer espécie de resposta. Esta praia, que sabemos ter existido em outros tempos, está hoje completamente esquecida pelo povo.

 

 

E é mesmo por isso que sentimos a necessidade de escrever estas linhas de hoje, sobre essa antiga Praia do Anjo. Será que alguém, algum leitor ou leitora, tem mais informação fidedigna sobre este tema? Se sim, por favor deixem-nos um comentário, e digam-nos o que ainda sabem sobre ele. Ou como o sabem, que até é tanto ou mais importante neste caso específico. Agradecemos bastante, para que o conhecimento de temas como este não se perca, e para que também as gerações futuras venham a saber onde se localizou, outrora, esta praia da zona de Cascais. Talvez a Praia do Anjo ainda esteja lá, escondida aos nossos olhos, à espera de ser redescoberta — se é que alguma vez deixou realmente de existir…

 

 

[Adicionado posteriormente:] O livro “Museu da Misericórdia de Cascais: História, Património, Identidade” revela, numa das suas páginas, que anteriormente a Praia da Rainha tinha o nome de “Praia dos Anjinhos”. Uma pesquisa por esse nome alternativo revelou que nessa tal praia foi outrora encontrada uma imagem de madeira de Nossa Senhora dos Anjos, o que poderá explicar a origem do nome.