O tema de hoje não estava planeado, mas surgiu de uma referência a uma Bruxa d’Arruda numa conversa do dia-a-dia. Não é propriamente uma figura muito evocada nos nossos dias, excepto se viverem nas imediações de Arruda dos Vinhos, a cerca de 35 Km de Lisboa, mas há cerca de um século era uma figura muito conhecida em território nacional. Há quem diga que ainda é conhecida em terras do Brasil, juntamente com a Bruxa Évora e outras figuras semelhantes. Mas, na verdade, passado mais de uma centena de anos, o que ainda se sabe sobre ela?

Infelizmente, a resposta não é tão prolífica como se poderia crer. Sabemos que esta figura existiu mesmo, porque ela foi mencionada em artigos de jornal e um médico que em dada altura escreveu a José Leite de Vasconcelos lhe menciona alguns dados biográficos. Chamava-se ela, em finais do século XIX e inícios do XX, Ana Loura (ou Loira), e chegou a ter 19 descendentes, cinco das quais parecem ter seguido as mesmas artes, de “curar gente e adivinhar coisas”. Isto se sabe ser mesmo verdade, mas o problema, como muitas vezes em situações desta natureza, é que depois se constroem muitas fantasias com base no que se sabe. Neste caso, por exemplo, diz-se então que esta Ana Loira era uma das mais recentes herdeiras de uma enorme sequência de bruxas, que data de tempos imemoriais… mas será mesmo verdade?
Duas grandes lendas lhe aparecem associadas – na primeira, diz-se que esta Bruxa da Arruda curou a filha de um médico de Setúbal. O pai não conseguiu fazê-lo, mas esta mulher, tomando para si a jovem durante três dias, fê-la jejuar, e depois… diz-se que lhe saiu uma espécie de cobra da boca, curando-a de uma vez por todas.
Uma outra lenda – porque, nestas coisas, os limites da verdade e da ficção nunca são fáceis de discernir – fala de outra jovem doente. Com a ajuda desta Bruxa d’Arruda, os pais dela conseguiram encontrar um sapo com uma boca cosida debaixo da cama, e quando o libertaram, a menina lá se curou, por “magia”.
O estranho destas duas histórias é que elas correspondem mais ou menos ao ideal de magia de finais do século XIX e inícios do XX, conforme pode ser visto em diversos outros livros. Isso pode dar a entender que estas histórias até têm, de facto, algum fundo de verdade, mas sem que isso o ateste por completo – na verdade, podem tratar-se apenas de criações por parte de pessoas que conheciam bem o imaginário da feitiçaria da época.
É neste sentido que encontrámos um livro digno de nota. Aparentemente publicado em inícios do século XX, uma obra de título Manual da Bruxa d’Arruda: Thesouro Precioso de Feiticeria nada revela sobre a figura que lhe deu título, mas é uma mera compilação da magia, como ela era pensada nessa altura. Contém sequências como as seguintes:
Para qualquer se tornar invisivel
Mata-se um gato todo preto. Coloca-se uma fava em cada olho, uma em cada ouvido e outra na boca e enterra-se o gato em sitio só conhecido da pessoa que faz esta operação.
Rega-se a terra de 15 em 15 dias. O gato, como é natural, apodrece, e as favas hão-de germinar e produzir cinco hastes que se deixam crescer, cultivando-as até que produzam. Colhe-se então uma fava de cada pé e guardam-se fechadas em uma caixa, durante 7 dias e 7 noites. Na última noite, ao dar meia-noite, collocai-vos defronte de um espelho e metei as 5 favas na boca, uma por cada vez. Quando virdes desaparecer a vossa figura do espelho, a fava que tiverdes na boca é a que tem a virtude de vos tornar invisível e que deveis guardar preciosamente. De cada vez que vos queirais tornar invisivel, metei essa fava na boca e pessoa alguma vos verá.
(…)
Receita para obrigar a mulher que nos pertence a dizer o que sentir
Obtém-se o coração de um pombo preto e a cabeça de um sapo. Colocam-se em uma vasilha de barro refractário e levam-se ao lume. Depois de consumidos pelo fogo, aproveitam-se as cinzas que se reduzem a pó, misturando lhes um pequenino grão de almiscar. Guarda-se tudo em um pequenino saco, que se coloca debaixo do travesseiro da pessoa que se deseja interrogar. Pouco tempo depois de ter adormecido, começará a falar. É então que se deve interrogar. Logo que tenha respondido, tira-se o saquinho e guarde-se.
Será que estas coisas funcionam? Não lhes encontrámos qualquer ligação real com as intenções da Bruxa da Arruda em “curar gente e adivinhar coisas”, até por se tratarem de exemplos de magia negra – note-se a necessidade de causar a morte a animais – sugerindo um reaproveitamento da fama do nome desta figura arrudense. É uma prática que talvez, nessa altura, ainda não fosse ilegal, mas que hoje poderia constituir uma violação de marca registada.
Outra obra, Guia Prático da Bruxa D’Arruda, é muito mais recente (acedemos-lhe numa reimpressão de 2019), e apresenta uma compilação de provérbios, rezas e ideias populares associadas à magia, que foram sendo compiladas por Catarina Gaspar, Jorge da Cunha e Paulo Câmara. É uma obra interessante, que num dos primeiros capítulos até fala um pouco da tal bruxa, mas nada de substantivo conta sobre ela, assim também reaproveitando o nome… mas aqui talvez de uma forma um pouco mais legítima, já que o livro, em si, foi editado pelo Município de Arruda dos Vinhos, nas proximidades de onde se diz que esta senhora vivia.
Mas então, o que se sabe, verdadeiramente, sobre esta Bruxa da Arruda? Muito pouco, quase nada, como demonstrado pelo facto de mesmo obras que ainda portam o seu nome quase nada nos informarem sobre ela. Ela existiu, sem quaisquer dúvidas, mas é provável que nunca ninguém tenha tentado saber muito sobre o seu passado, como ainda hoje acontece no caso de figuras como o Bruxo de Fafe. Quem não acredita nelas nunca se dá ao trabalho de as estudar, quem nelas acredita nunca as questiona, e portanto… Apesar de quase esquecida, a figura da Bruxa d’Arruda faz parte de um património imaterial português, que importa resgatar para não seja completamente perdida.
P.S.- Posteriormente, encontrámos uma breve mas significativa referência a esta mesma figura em A Villa da Ericeira, de G. Pereira, obra datada de 1905. Diz o seguinte:
“A bruxa da Arruda, —A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos ouros. Tem uma filha que já entende de moléstias. Em geral leva 300 reis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calor, e no sítio do corpo. Ouvi também chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos. Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ela pelo cheiro conhece a moléstia e logo receita. Costuma pousar numa casa do norte da vila, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venera e teme.Já teve questões com padres e médicos, já foi aos tribunais, me disse alguém, e ficou sempre victoriosa!”