As Cantigas de Santa Maria, agora em Português de Portugal!

Quase que nos esquecíamos disto, mas as famosas Cantigas de Santa Maria, da Idade Média, existem agora e finalmente em Português! Quem tiver interesse nesta obra completamente única, pode adquirir uma versão digital ou uma versão física, na Amazon e em muitos outros locais, nomeadamente através do ISBN 979-8290724102.

As Cantigas de Santa Maria em Português de Portugal

Já há alguns anos aqui apresentámos uma tradução portuguesa de uma das cantigas, a décima, mas neste caso em particular é tão importa explicar o que é esta obra, como a própria história desta sua tradução para a língua portuguesa.

 

 

Essencialmente, as Cantigas de Santa Maria são uma obra que data do reinado de Afonso X de Castela (ou seja, do século XIII), e que compila aproximadamente 420 poemas relacionados com a Virgem Maria. Não se tem a completa certeza dos seus autores, mas é provável que alguns deles tenham sido da autoria do próprio monarca castelhano. Quanto aos temas, eles vão de simples hinos laudatórios (como o já apresentado no link acima), a histórias de milagres realizados pela mãe de Jesus Cristo, incluindo algumas sequências que supostamente tiveram lugar nas nossas terras de Portugal. Mas… a obra não é só isso, e um dos seus aspectos mais significativos é que estes poemas foram preservados em manuscritos com a música original. Nesse sentido, hoje qualquer pessoa pode localizar o número de uma das cantigas (como a centésima), e através de uma pesquisa em plataformas como o Youtube encontrar a versão cantada, muitas vezes até com uma breve tradução do original:

 

 

Esta é, portanto e sem qualquer dúvida, uma tradução de interesse cultural muito significativo, mas a que se deveu a sua existência?

 

Bem… esta tradução das Cantigas de Santa Maria tem, na verdade, uma verdadeira história por detrás. Há muitos anos atrás, um colega obteve um manuscrito desta obra e doou-o a um mosteiro local. As freiras ficaram felicíssimas com a oferta, mas depressa se depararam com um problema – não conseguiam ler a língua original, nem encontraram qualquer tradução que lhes fosse legível.

 

Os anos foram passando, até que em dada altura esse colega teve um grave problema e as mesmas freiras foram das poucas pessoas que lhe mostraram qualquer espécie de compaixão pela situação. E, por isso, ele acabou por decidir dar-lhes algo como nunca tivessem visto antes. Para tal, produziu esta obra e ofereceu-a ao mosteiro, sob condição da sua identidade nunca ser revelada a ninguém.

 

E, finalmente, foi decidido que esta obra também poderia vir a público, para benefício de todos aqueles que a queiram ler, com a grande dificuldade de publicação a se dever à sua extensão – é um calhamaço de mais de seiscentas páginas, mas que só faria sentido publicar num único volume.

 

 

Foi assim que nasceu esta tradução das Cantigas de Santa Maria para Português de Portugal. Espera-se que continue a encontrar leitores que apreciem a riqueza histórica e cultural do período medieval, e que estas cantigas possam encantar e inspirar todos aqueles que se interessam pela nossa herança literária e religiosa ibérica.

Hegéloco, o actor arruinado por uma palavra

Existem figuras da Antiguidade Clássica cuja identidade só nos chegou pelo mais completo acidente, e Hegéloco é um bom exemplo disso mesmo. Se uma poetisa como Praxila é hoje relembrada apenas por uma estranha referência ao que Adónis sentia falta no mundo dos mortos, já este actor ficou-nos conhecido apenas e somente por ter pronunciado mal uma palavra na tragédia Orestes de Eurípides. O texto original dizia γαλήν’ ὁρῶ, mas este intérprete trágico recitou-o como γαλῆν ὁρῶ. Pode parecer completamente igual, especialmente para quem não compreender a língua original, mas essa pequenina alteração mudou completamente o sentido da frase, fazendo com que Orestes dissesse não que via a “bonança” após uma tempestade, mas sim uma “doninha”. Conforme nos informa um escólio na passagem da peça euripideana, que aqui apresentamos em tradução para Português:

 

O verso em questão foi ridicularizado na comédia por causa de Hegéloco, o actor. Conta-se que, como não conseguiu pronunciar a divisão da elisão (galēn em vez de galēna), por lhe ter faltado o fôlego, pareceu aos espectadores que dizia galên (i.e. doninha), o animal, e não galēna (i.e. bonança).

Consequentemente, muitos poetas cómicos fizeram piadas sobre o assunto, como Aristófanes e Estrátis em Antroporestes:

“E não me importei com as outras canções,
mas ele destruiu um drama muito engenhoso de Eurípides,
Orestes ao contratar Hegéloco, filho de Cíntaro,
para dizer os versos do primeiro actor.

E noutros versos, diz a brincar:

“A: Vejo galēn.

B: Onde, pelos deuses, onde, onde vês uma galēn?
A: Galēna.
B: E eu a pensar que dizias “vejo uma doninha”.

E Sanirión em Dánae:

Em que me transformarei então para entrar pela fresta?
Tenho de pensar numa resposta. Vejamos, e se me transformasse numa doninha?
Mas Hegéloco logo me denunciaria,
o actor trágico, e gritaria bem alto ao avistar-me:
“Pois após a tempestade, vejo de novo uma doninha.”

 

Estas peças estão maioritariamente perdidas, mas pelo contexto desta última citação de uma peça sobre o mito de Dánae é fácil constatar que Sanirión apresentava Zeus a contemplar a transformação que deveria adoptar para consumar o seu desejo pela jovem. O deus nunca tomou a forma de uma doninha, pelo menos nas fontes que nos chegaram, evidenciando que as suas palavras eram meramente satíricas, e que este Hegéloco ficou, de facto, conhecido exclusivamente por ter pronunciado uma palavra mal. Isto não pode deixar de nos lembrar a estranheza da fama na Antiguidade, com o outrora-importante Margites a nos estar quase inacessível, enquanto figuras que se pensariam pouco importantes a serem relembradas só por um pequeno deslize das suas línguas.

A Bruxa da Arruda, uma figura (quase) esquecida

O tema de hoje não estava planeado, mas surgiu de uma referência a uma Bruxa d’Arruda numa conversa do dia-a-dia. Não é propriamente uma figura muito evocada nos nossos dias, excepto se viverem nas imediações de Arruda dos Vinhos, a cerca de 35 Km de Lisboa, mas há cerca de um século era uma figura muito conhecida em território nacional. Há quem diga que ainda é conhecida em terras do Brasil, juntamente com a Bruxa Évora e outras figuras semelhantes. Mas, na verdade, passado mais de uma centena de anos, o que ainda se sabe sobre ela?

A Bruxa da Arruda ou d'Arruda, uma figura (quase) esquecida

Infelizmente, a resposta não é tão prolífica como se poderia crer. Sabemos que esta figura existiu mesmo, porque ela foi mencionada em artigos de jornal e um médico que em dada altura escreveu a José Leite de Vasconcelos lhe menciona alguns dados biográficos. Chamava-se ela, em finais do século XIX e inícios do XX, Ana Loura (ou Loira), e chegou a ter 19 descendentes, cinco das quais parecem ter seguido as mesmas artes, de “curar gente e adivinhar coisas”. Isto se sabe ser mesmo verdade, mas o problema, como muitas vezes em situações desta natureza, é que depois se constroem muitas fantasias com base no que se sabe. Neste caso, por exemplo, diz-se então que esta Ana Loira era uma das mais recentes herdeiras de uma enorme sequência de bruxas, que data de tempos imemoriais… mas será mesmo verdade?

 

 

Duas grandes lendas lhe aparecem associadas – na primeira, diz-se que esta Bruxa da Arruda curou a filha de um médico de Setúbal. O pai não conseguiu fazê-lo, mas esta mulher, tomando para si a jovem durante três dias, fê-la jejuar, e depois… diz-se que lhe saiu uma espécie de cobra da boca, curando-a de uma vez por todas.

 

Uma outra lenda – porque, nestas coisas, os limites da verdade e da ficção nunca são fáceis de discernir – fala de outra jovem doente. Com a ajuda desta Bruxa d’Arruda, os pais dela conseguiram encontrar um sapo com uma boca cosida debaixo da cama, e quando o libertaram, a menina lá se curou, por “magia”.

 

 

O estranho destas duas histórias é que elas correspondem mais ou menos ao ideal de magia de finais do século XIX e inícios do XX, conforme pode ser visto em diversos outros livros. Isso pode dar a entender que estas histórias até têm, de facto, algum fundo de verdade, mas sem que isso o ateste por completo – na verdade, podem tratar-se apenas de criações por parte de pessoas que conheciam bem o imaginário da feitiçaria da época.

 

É neste sentido que encontrámos um livro digno de nota. Aparentemente publicado em inícios do século XX, uma obra de título Manual da Bruxa d’Arruda: Thesouro Precioso de Feiticeria nada revela sobre a figura que lhe deu título, mas é uma mera compilação da magia, como ela era pensada nessa altura. Contém sequências como as seguintes:

 

 

Para qualquer se tornar invisivel
Mata-se um gato todo preto. Coloca-se uma fava em cada olho, uma em cada ouvido e outra na boca e enterra-se o gato em sitio só conhecido da pessoa que faz esta operação.
Rega-se a terra de 15 em 15 dias. O gato, como é natural, apodrece, e as favas hão-de germinar e produzir cinco hastes que se deixam crescer, cultivando-as até que produzam. Colhe-se então uma fava de cada pé e guardam-se fechadas em uma caixa, durante 7 dias e 7 noites. Na última noite, ao dar meia-noite, collocai-vos defronte de um espelho e metei as 5 favas na boca, uma por cada vez. Quando virdes desaparecer a vossa figura do espelho, a fava que tiverdes na boca é a que tem a virtude de vos tornar invisível e que deveis guardar preciosamente. De cada vez que vos queirais tornar invisivel, metei essa fava na boca e pessoa alguma vos verá.

 

(…)

 

Receita para obrigar a mulher que nos pertence a dizer o que sentir
Obtém-se o coração de um pombo preto e a cabeça de um sapo. Colocam-se em uma vasilha de barro refractário e levam-se ao lume. Depois de consumidos pelo fogo, aproveitam-se as cinzas que se reduzem a pó, misturando lhes um pequenino grão de almiscar. Guarda-se tudo em um pequenino saco, que se coloca debaixo do travesseiro da pessoa que se deseja interrogar. Pouco tempo depois de ter adormecido, começará a falar. É então que se deve interrogar. Logo que tenha respondido, tira-se o saquinho e guarde-se.

 

 

 

Será que estas coisas funcionam? Não lhes encontrámos qualquer ligação real com as intenções da Bruxa da Arruda em “curar gente e adivinhar coisas”, até por se tratarem de exemplos de magia negra – note-se a necessidade de causar a morte a animais – sugerindo um reaproveitamento da fama do nome desta figura arrudense. É uma prática que talvez, nessa altura, ainda não fosse ilegal, mas que hoje poderia constituir uma violação de marca registada.

 

 

Outra obra, Guia Prático da Bruxa D’Arruda, é muito mais recente (acedemos-lhe numa reimpressão de 2019), e apresenta uma compilação de provérbios, rezas e ideias populares associadas à magia, que foram sendo compiladas por Catarina Gaspar, Jorge da Cunha e Paulo Câmara. É uma obra interessante, que num dos primeiros capítulos até fala um pouco da tal bruxa, mas nada de substantivo conta sobre ela, assim também reaproveitando o nome… mas aqui talvez de uma forma um pouco mais legítima, já que o livro, em si, foi editado pelo Município de Arruda dos Vinhos, nas proximidades de onde se diz que esta senhora vivia.

 

 

Mas então, o que se sabe, verdadeiramente, sobre esta Bruxa da Arruda? Muito pouco, quase nada, como demonstrado pelo facto de mesmo obras que ainda portam o seu nome quase nada nos informarem sobre ela. Ela existiu, sem quaisquer dúvidas, mas é provável que nunca ninguém tenha tentado saber muito sobre o seu passado, como ainda hoje acontece no caso de figuras como o Bruxo de Fafe. Quem não acredita nelas nunca se dá ao trabalho de as estudar, quem nelas acredita nunca as questiona, e portanto… Apesar de quase esquecida, a figura da Bruxa d’Arruda faz parte de um património imaterial português, que importa resgatar para não seja completamente perdida.

 

 

P.S.- Posteriormente, encontrámos uma breve mas significativa referência a esta mesma figura em A Villa da Ericeira, de G. Pereira, obra datada de 1905. Diz o seguinte:

 

 

“A bruxa da Arruda, —A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos ouros. Tem uma filha que já entende de moléstias. Em geral leva 300 reis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calor, e no sítio do corpo. Ouvi também chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos. Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ela pelo cheiro conhece a moléstia e logo receita. Costuma pousar numa casa do norte da vila, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venera e teme.Já teve questões com padres e médicos, já foi aos tribunais, me disse alguém, e ficou sempre victoriosa!”

 

“O Sonho das Nove Nuvens”, um clássico coreano

O livro a que dedicamos as linhas de hoje não é fácil de encontrar, até porque não parece existir em qualquer tradução portuguesa. Ainda assim, é um dos mais famosos livros da literatura clássica coreana, onde é chamado “구운몽“, com o nosso O Sonho das Nove Nuvens a ser uma tradução aproximada do título original – em Inglês, chamam-lhe “The Cloud Dream of the Nine“, e foi através de uma tradução nessa língua que conseguimos aceder a essa obra da autoria de Kim Man-jung, para a escrita das linhas seguintes.

O Sonho das Nove Nuvens, de Kim Man-jung

A história pode ser resumida assim –  Hsing-chen era um jovem monge budista que, após encontrar oito “fadas” (assim lhes chama a tradução, certamente imperfeita*), começou a sentir desejos terrenos. Aparentemente para os expurgar, ele foi então enviado para o mundo terreno, onde, ao longo das suas aventuras, foi conhecendo oito belas mulheres, casando com algumas e obtendo as restantes como concubinas. E se até esse instante quase-final esta obra talvez pouco destoasse no panorama dos romances dos nossos dias, há ainda aqui uma sequência adicional que, no final, não pode deixar de surpreender os leitores ocidentais.

 

A obra termina com Hsing-chen a acordar e a entender, por via de um seu mestre, que as suas aventuras terrenas não passaram de um mero sonho. Ele aprende que a verdadeira felicidade não passa pela fama, riqueza ou pelos prazeres do corpo (como as suas aventuras poderiam sugerir ao leitor), mas pelo desapego físico característico do budismo. E, nesse sentido, é um ciclo que completa o início da obra, fazendo de toda a história uma espécie de grande fábula moralizadora, relembrando, de certa forma e por exemplo, o Sonho do Quarto Vermelho chinês.

 

 

Será que vale a pena aos leitores ocidentais lerem esta obra? Neste caso em particular, tudo parece depender do seu interesse na cultura coreana. Este não é um livro simples, percebê-lo numa forma completa implica até ter conhecimentos significativos de crenças religiosas orientais (como o Taoismo), e isso poderá assustar quem estiver menos preparado para essa dificuldade. Por isso, é uma obra literária mais indicada para quem tiver um interesse significativo na cultura que a produziu, até por ser, segundo conseguimos apurar, uma das mais famosas obras da península coreana.

 

 

 

*- É comum a tradução de obras orientais com uma readaptação à mitologia ocidental, por exemplo o caso da Fenghuang vs. “fénix”, e isso pode induzir em erro quem for ler a tradução. É muitíssimo provável que o original não fale de “fadas”, mas de algo mais semelhante a ninfas, ou a alguma figura mitológica coreana.

Um Power Ranger fez pornografia?

O tema de hoje não é muito habitual, mas prende-se com uma espécie de mito ou lenda que surgiu internacionalmente há uns poucos anos atrás. Na sua essência, a história passa pelo seguinte – por volta dos anos de 1993 e 1996 os Power Rangers eram uma das séries de televisão mais famosas do mundo. Depois, ao longo do tempo e através das suas diversas versões, a série foi perdendo a sua pujança original e muitos dos actores originais deixaram de ser vistos. Com uma excepção, a de Jason David Frank (o Power Ranger verde), alguns fãs começaram a interrogar-se sobre o que era feito, por exemplo, do Power Ranger vermelho, nascido Jason Lawrence Geiger, mas conhecido profissionalmente por Austin St. John. A sua página no IMDB diz que ele esteve na série até 1999, fez dois filmes nos anos seguintes, e depois, num espaço de 13 anos, entrou apenas numa curta-metragem. O que era feito dele? Ninguém parecia saber, até que alguma pessoa esquecida pelo tempo lá encontrou isto:

Um Power Ranger fez pornografia?

A imagem da esquerda mostra este actor, Austin St. John, num qualquer episódio da série dos Power Rangers, antes da sua transformação numa espécie de super herói dos nossos dias. A da direita mostra um actor de filmes pornográficos homossexuais cujo nome profissional parece ser apenas e somente “Brock”. São uma e a mesma pessoa? Será que este actor ganhou uns bons quilogramas de músculo e passou uns anos da sua vida no ramo da pornografia? O que vos parece, alguma ideia?

 

 

Mais que opiniões, também queríamos ter respostas concretas. Então, aplicámos um algoritmo de comparação facial entre estas duas imagens, bem como entre diversas outras retiradas da série para crianças e dos tais filmes pornográficos, e ele revelou que as semelhanças eram, sem grandes dúvidas, mais que muitas. Mas, ao mesmo tempo, quem prestar a devida atenção também poderá notar algumas diferenças significativas entre as pessoas representadas nas duas imagens, como ao nível das orelhas e da linha natural do cabelo. Já outros pesquisadores anteriores tinham notado essas divergências, entre outras, e o próprio Austin St. John negou ser este outro actor, cujo nome real ainda se parece desconhecer. E, portanto, toda esta estranha teoria lá caiu completamente por terra… mas os rumores e mitos sobre esta estranha história, particularmente nos Estados Unidos da América, ainda persistem até aos nossos dias de hoje, como se fossem verdade, em vez do verdadeiro mito que nos levou a escrever estas linhas.