Segredos do brasão do Porto – a cidade e o clube de futebol

Falar sobre a origem do brasão do Porto implica, talvez mais que tudo, descortinar duas espécies de mistérios que se esconderam e continuam a esconder na sua representação, o da Nossa Senhora e o do Dragão. Como em vários exemplos que já cá abordámos antes – e.g. os casos do brasão de Coimbra ou da Sertã – em Portugal parece existir frequentemente, mas nem sempre (!), uma ligação entre o próprio símbolo da cidade e algumas lendas locais. E, assim o sendo, que potenciais lendas da cidade da Francesinha se escondem nestas representações associadas ao Porto? É esse o tema de hoje, que por motivos de simplificação iremos separar em dois momentos, nascidos de estas duas imagens:

Os brasões do Porto - o clube de futebol e a cidade - em duas lendas

A origem do brasão do Futebol Clube do Porto

Muito aqui poderia ser escrito sobre o brasão do Futebol Clube do Porto, mas ele pode ser dividido em três elementos essenciais. O mais óbvio é a bola de futebol azul, que dispensa explicações de maior, mas sobreposta a esta pode ser visto um emblema e um dragão, sendo esses dois os elementos mais notáveis de toda esta representação.

Primeiro, porquê esse emblema? Ele não é senão um antigo emblema da cidade do Porto, que foi sofrendo diversas alterações ao longo dos séculos, mas que é fácil de identificar pela presença de duas torres (que não são a Torre dos Clérigos…), e de uma imagem de Nossa Senhora. Já voltaremos a esses elementos, para a secção abaixo, pelo que por agora bastará deixar claro que o que está lá representado é um antigo emblema da cidade.

 

Mas… e o dragão? De onde vem ele? Será que existe uma lenda portuense que une esta criatura lendária à cidade, como naquelas muitas lendas de São Jorge? O mais curioso face a esse elemento é que ele não aparecia nas versões mais antigas do símbolo da cidade, e depois tornou a desaparecer por volta de 1940. Parece aí ter sido colocado no tempo da Rainha Dona Maria II, aparentemente em homenagem à força das gentes do tempo em guerras de que já cá falámos antes. Não parece, por isso, ter uma lenda associada, mas sim tratar-se de uma espécie de metáfora da força local que o próprio Futebol Clube do Porto depois tomou para si mesmo.

 

A origem do brasão da Cidade do Porto

Se, conforme já referido acima, o brasão associado à cidade do Porto foi variando ligeiramente ao longo do tempo, um elemento sempre muito presente no mesmo foi uma Nossa Senhora com o seu Menino ao colo. O que a acompanha até foi variando, mas na versão mais recente, aquela que reproduzimos do lado direito ali em cima, é possível verificar que a santa é representada apoiada num pequeno nicho acima do que parece ser a porta de um castelo. Isto deverá, imperativamente, conduzir-nos a um espaço da cidade que, muito infelizmente, foi demolido em meados do século XIX, mas que em data desconhecida já se apresentou assim:

O Arco da Vandoma

Para quem não for Portuense, esta semelhança torna óbvio que a figura representada no brasão do Porto não é uma Nossa Senhora qualquer, mas sim a própria padroeira da cidade, a chamada “Senhora da Vandoma”, que segundo a tradição ou lenda  local foi para aqui trazida em finais do século X por cavaleiros vindos da localidade francesa de Vendôme. E, como tal, depressa se compreende que a figura nesta iconografia local não representa directamente uma qualquer lenda da aparição da Virgem Maria no local, como seria de supor, mas sim a famosa padroeira da cidade!

 

O que mais podemos aqui dizer sobre a origem do brasão do Porto, i.e. a cidade, e do seu semelhante, o brasão do Futebol Clube do Porto? Talvez sejam aquela excepção que confirma a regra de que nem todos os brasões nacionais escondem lendas locais, podendo, em alguns casos, ser lidos e interpretados de uma forma muito mais simples…

O rinoceronte mais famoso do mundo

A ter de se eleger um rinoceronte mais famoso do mundo, essa poderá parecer-nos uma tarefa extremamente fácil. Os brasileiros até têm o seu Cacareco na competição, mas o animal de que falamos hoje é certamente capaz de colocar todos os possíveis outros na sua sombra. É até provável que já o tenham visto antes, num de incontáveis locais que insistem – justamente – em reproduzir a sua figura:

O rinoceronte mais famoso do mundo

Esta gravura de aquele que se tornaria depois o rinoceronte mais famoso do mundo foi desenhada por Albrecht Dürer em 1515, mas depois foi sendo reaproveitada em diversas obras – encontrámo-lo, para a reprodução acima, na Historia Animalium de Conrad Gessner. E quem é ele? Contamos hoje aqui a sua surpreendente história!

 

Se os Romanos da Antiguidade até conheciam animais como o rinoceronte e o elefante, após a queda do Império Romano eles foram sendo esquecidos e tornaram-se bastante incomuns na Europa. Depois, em 1515, Afonso de Albuquerque recebeu um destes animais em terras da Índia e enviou-o para Lisboa. É provável que o caminho marítimo tenha sido infernal tanto para o animal como para os navegadores que o acompanhavam, mas ele lá chegou à capital de Portugal – de onde veio a informação que levou à gravura de Albrecht Dürer e foi recebido pelo rei Dom Manuel I, que até tentou encenar uma batalha deste animal com o elefante que já possuía – segundo Plínio o Velho, os dois animais eram inimigos figadais, esperando-se uma gigantesca batalha entre eles – mas sem qualquer sucesso. Talvez pela desilusão, talvez por mera coincidência, o nosso monarca decidiu então oferecer este seu rinoceronte ao Papa Leão X, mas o barco que o transportava para Roma foi apanhado numa tempestade e o pobre animal veio a afogar-se…

Este rinoceronte na Torre de Belém

Mas a história do que foi este rinoceronte mais famoso do mundo ainda não fica por aqui, restando algo que pode ser resumido como mais dois capítulos. O primeiro deles é uma espécie de lenda, que nos diz que o corpo do animal foi recuperado das águas, empalhado e levado para outro local. Não sabemos se voltou para Lisboa, se foi para Roma, se foi guardado num qualquer terceiro lugar, ou se toda essa história não passou de um mero rumor, mas desconhece-se o seu paradeiro nos dias de hoje, se ainda existir.

O que sabemos, isso sim, é que o célebre animal não foi esquecido na sua época. Por exemplo, a Torre de Belém estava então a ser construída (a sua construção só terminou em 1520), e então optou-se por representar este rinoceronte abaixo de uma das guaritas. Ele pode ser visto ali na imagem, onde também é fácil reconhecer o resultado de séculos de influência marítima, cujas ondas maceraram o animal até ao corno quase já não o ser. Mas ele também foi repetido em algumas outras construções da época, e.g. o chamado “Rinoceronte de Alcobaça”, fazendo deste o rinoceronte mais famoso do mundo, também conhecido por “Rinoceronte de Lisboa”, por ter sido essa cidade a sua porta de entrada na Europa.

 

Será que já o conheciam? Será que, na vossa opinião, existe um que até possa ser considerado mais famoso do que este? Fica a pergunta no ar…

A Verdadeira Origem do Multiverso

Hoje em dia parece falar-se muito sobre o conceito de multiverso, mas igualmente pouco sobre a sua origem real. Isso dá, falsamente, a ideia de que todo este conceito é uma invenção moderna, completamente nascida já nos nossos dias. Assim, ele aparece na série animada Family Guy, em filmes como Spider-Man: No Way Home, Doctor Strange in the Multiverse of Madness, em repetidas fanfics, e em muitos locais como uma ideia já bem assente na nossa cultura popular, mas sem que alguma vez pareça ser explicado de onde nasceu. E, assim sendo, decidimos hoje tentar explicar de onde vem toda esta ideia, que parece ser cada vez mais popular nos nossos dias.

A Origem do Multiverso (e o Family Guy)

Na imagem acima pode ser vista uma cena do primeiro episódio da oitava temporada do Family Guy, em que duas das personagens principais viajam através de diversos universos, cada qual com as suas características particulares. Um dos mais intrigantes (e que optámos por mostrar aqui), é um em que todas as personagens são representadas como se vivessem num filme da Disney, em que até cantam músicas e outras coisas que tais. O episódio em questão é de Setembro de 2009, ainda uns anos afastado dos filmes de agora, mas acaba por levantar uma questão – se pudessemos seguir essa corrente de possíveis multiversos até à sua origem, onde iríamos dar? Qual é, pergunte-se, a primeira de todas as fontes para esta ideia que tanto reutilizamos hoje em dia?

 

Hanuman e a Origem dos Multiversos

Essa busca por respostas levou-nos, eventualmente, ao Ramayana. Por toda a Índia, e até por alguns dos países vizinhos, existem diversas versões do épico que divergem das versões, que até são as mais famosas, de Valmiki e de Tulsidas. Seria aqui difícil explicar quais são os elementos comuns e os divergentes em cada uma delas, mas o traço que as une é bem captado numa lenda indiana que é acessória à trama do épico. Relate-se aqui essa lenda, que encontrámos por mero acaso, para que se consiga, depois, compreender melhor todo o conceito de multiverso, bem como da sua respectiva origem.

 

Conta-se que nos últimos dias da sua vida Rama deixou cair um anel ao chão. Foi incapaz de o encontrar, e então pediu ao seu fiel companheiro Hanuman, o deus-macaco, que o fosse procurar. Nessa busca, esta figura, ainda hoje muito popular nas terras da Índia, desceu ao submundo e encontrou um dos seus monarcas. Quando lhe explicou o que andava a fazer por esses estranhos locais, Yama mostrou-se estupefacto, mas decidiu ajudar nessa procura pelo anel. Então, pediu a um dos seus servos que trouxesse um enorme prato onde estavam infindáveis anéis que tinham caído para o submundo. Todos eles eram muito parecidos, quase iguais. Hanuman não sabia o que fazer, não sabia qual deles era o do seu amado Rama, e então perguntou ao rei dos mortos qual era o correcto, aquele que procuravam. Este monarca, igualmente desesperado, disse-lhe: “Rama veio muitas vezes a este mundo. Em cada uma das suas vidas, pouco antes de morrer deixou cair um anel. Todos eles lhe pertencem.”

 

O que esta lenda tem de muito especial é o facto de possibilitar a existência de um mundo em que não existe apenas um Ramayama, uma versão oficial de toda a história do épico, mas em que muitas versões tiveram lugar e em que todas elas podem ser apresentadas como igualmente válidas, por muito estranhas que até nos possam parecer – existem, por exemplo, algumas em que Ravana até é o herói da história, outras em que Sita não é rejeitada por Rama no final, e assim por diante, numa infinidade de possíveis narrativas em que as semelhanças e as divergências são sempre mais que muitas e bastante difíceis de traçar… e não é caso único – numa outra versão do poema épico, quando Sita deseja seguir Rama para a floresta, uma das razões que ela dá em favor da sua decisão é “já foram escritos tantos outros Ramayanas, conheces algum em que Sita não acompanhe Rama?!”, e o herói acaba por dar-se por convencido face a esse invulgar argumento.

 

Mas, deixando de lado essas antigas lendas, podemos agora voltar ao tema da origem do multiverso. Parece ter sido, originalmente, um conceito asiático, derivado do Budismo e do Hinduísmo, em que se acredita numa infinidade de existências que nos precederam e incontáveis outras que se nos seguirão. Por essa perspectiva, cada um de nós viveu 300000 vezes e viverá 300000 mais, numa espécie de bailado eterno em que tudo aquilo que existe passa de existência em existência sem cessar. Poderá, nesse seguimento, existir um universo com um Porco Aranha, outro com uma Mulher Aranha, um terceiro em que Peter Parker é órfão, um quarto em que ele vive com o Batman, e assim por diante…

 

Em suma, qual é mesmo a origem do conceito de multiverso? Seguindo os fundamentos de todo o conceito até ao nosso passado cultural mundial, é bastante provável que toda esta ideia tenha originado no Budismo ou no Hinduísmo, religiões em que ainda hoje se acredita numa infinidade de existências, que começaram com um de muitos inícios do universo e terminarão, um dia mais tarde, com uma das suas quase-infinitas extinções. De todo esse conceito é um excelente exemplo a lenda indiana que reproduzimos acima, em que o deus Hanuman é confrontado com o mistério das repetidas existências humanas e se mostra tão estupefacto como nós em virtude da existência, passada e futura, de tantos homens a que ele também poderia chamar Rama.

Já alguma vez viram uma Truta com Pêlo?

A Truta com Pêlo é um daqueles peixes que muito raramente se consegue encontrar nas peixarias do nosso país. De facto, nem alguma vez conseguimos encontrar um exemplar desta raríssima espécie em nenhuma peixaria pelo mundo fora, mas em alternativa encontrámos algo de muito interessante num museu, que até aqui merece ser reproduzido com uma fotografia que foi tirada nessa altura:

Quem já viu uma Truta com Pêlo?!

Supostamente, esta truta com pêlo foi capturada em Lake Superior, numa fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, e ao longo do tempo foi-se tornando tão famosa que diversas reproduções foram feitas e podem ser encontradas um pouco por todo o mundo. A forma mais famosa da sua lenda revela que este raríssimo peixe apenas pode ser encontrado nas águas mais frígidas, onde ele desenvolveu esta sua curiosa característica para protecção contra o frio, mas uma versão alternativa diz que toda a espécie foi criada quando bastantes garrafas de um qualquer tónico capilar caíram num rio próximo.

Até existem versões de toda esta história da Truta com Pêlo, como a da Lodsilungur da Islândia, que atribuiu a sua criação aos pecados dos homens… e, em comum, essas diversas lendas parecem ter o facto de, em muitos casos, até explicarem o porquê de ela ser tão rara – por exemplo, na versão mais curiosa que encontrámos, diz-se que muitas outras trutas até têm pêlo, mas quando são retiradas das frígidas águas de onde são originárias, perdem-no quase completamente.

 

Mas será isto verdade? Será que a Truta com Pêlo é mesmo um animal real, que com muita dificuldade poderá voltar a ser capturado num qualquer curso de água deste nosso mundo, e talvez até vendido numa qualquer peixaria do nosso bairro?

Bem, em toda a verdade merece ser admitido que não conseguimos encontrar nenhuma prova indisputável da sua existência real. Encontrámos, isso sim, foi todo um conjunto de puras lendas e relatos locais, em alguns casos com já cerca de 300 anos, que já no século XX parecem ter levado à criação de uma primeira espécie como a mostrada acima, em que o pêlo de um coelho foi colocado numa truta “normal”, gerando aquela estranha representação que depois contribuiu ainda mais para a popularização de toda uma antiga história pelo mundo fora. E é apenas isso que podem ver ali em cima, na imagem – uma pura fantasia trazida ao mundo como que para legitimizar o que até então se pensava ser nada mais que uma pura lenda.

Vespúcio e a origem do nome da América

Se se costuma dizer, de uma forma um tanto ou quanto incorrecta, que o descobridor da América foi Cristóvão Colombo, qual é a origem do nome desse continente? Europa, Ásia e África já apareciam como personificações femininas nos mitos gregos da Antiguidade Clássica, estando os seus nomes bem estabelecidos na cultura ocidental, mas a que se deve este nome para todo um continente que se crê que só foi descoberto pelos europeus em finais do século XV? É isso que iremos explicar hoje.

Vespúcio e origem do nome da América

Em meados do século XV nasceu em Florença um homem que ficou conhecido na nossa língua portuguesa como Américo Vespúcio. Foram muitas as peripécias da sua vida, mas para o tema de hoje bastará contar que em dado momento ele empreendeu pelo menos três viagens de exploração a pedido de monarcas da Península Ibérica. Não é muito claro que percurso seguiu em cada uma delas (e já lá iremos…), mas uma espécie de tradição diz que, seguindo esse seu objectivo de puramente encontrar nossas terras, ele terá chegado a umas mais a oeste que as descobertas por Colombo, onde viviam homens que pareciam ter pele vermelha e que se pintavam de diversas cores.

 

Como sabemos disto? Porque este Américo Vespúcio escreveu algumas cartas (privadas?) sobre as suas viagens, que posteriormente se tornaram famosas, e nas quais descreve, de forma muito sucinta e como a um amigo, os locais por que passou e o que viu por lá. Alguns desses locais são relativamente fáceis de identificar, até dado o percurso que vai mencionando, mas outros nem tanto, o que terá contribuído para a atribuição dessas descobertas a este Vespúcio, aparentemente o primeiro a se aperceber que os locais próximos dos descobertos por Colombo eram, na verdade, todo um novo continente, e não parte da Ásia (como esse seu antecessor tinha pensado). Depois, com a passagem do tempo, a designação geral de “terras descobertas por Américo …”, então ainda sem um nome mais real, foi sendo alterada nos mapas para algo bastante mais simples, “América”, originando o nome que o continente ainda tem nos nossos dias.

 

É essa a verdadeira origem do nome da América – o continente americano tomou esse nome em homenagem a este Américo Vespúcio, que parece ter sido o primeiro de todos os navegadores europeus a aperceber-se que as grandes terras encontradas a oeste e a sudoeste da Europa eram todo um novo continente. Se Colombo até encontrou algumas ilhas nessa área, como referimos anteriormente, nunca parece ter imaginado – pelo menos com base nas provas que recolhemos até agora – que tinha chegado a um local muito próximo de terras que não eram, de todo, a Ásia a que um dia esperava chegar…