Os Fenómenos do Entroncamento e a sua história

Se ainda hoje se fala ocasionalmente de Fenómenos do Entroncamento, já poucos se parecem interrogar sobre a sua origem, aquilo em que consistiam, e o porquê de (quase) terem deixado de fazer parte da nossa cultura portuguesa. Hoje, a expressão é usada quase somente como um sinónimo para “coisas estranhas”, mas com a clara excepção dos habitantes de aquela que também é chamada a “cidade ferroviária”, já poucos parecem saber de onde vem esta expressão. A título de curiosidade, tentámos que diversas pessoas, em várias cidades portuguesas, nomeassem pelo menos um destes fenómenos e (infelizmente) já ninguém foi capaz de o fazer… e é, portanto, dessa situação que nasceu o tema que aqui decidimos apresentar hoje de uma forma alongada.

 

O Entroncamento, a cidade portuguesa dos tais fenómenos, é relativamente recente. Nasceu, cresceu e obteve o seu nome a partir da linha de comboio que por ela passa, mas na qual poucos hoje ainda páram. Tem menos de dois séculos e, por isso, em comparação com muitas outras cidades e vilas portuguesas ditas históricas, não tem muito para se ver. Talvez tenha sido por isso que em meados do século XX um tal Eduardo O. P. Brito, que vivia no local, tomou a inspiração do que se ia vendo de estranho em países como os Estados Unidos da América – recorde-se, por exemplo, o famoso caso dos gémeos siameses, entre outros freaks – e decidiu que o nosso país também podia exibir coisas como essas. Seguindo essa ordem de ideias, procurou casos semelhantes na zona onde residia e encontrou um melro branco (para os menos inclinados ornitologicamente, os melros tendem a ser pretos), descoberta que posteriormente reportou para um jornal, o Diário Popular. Seguiram-se muitas outras descobertas locais, relativas ao reino vegetal e animal, que também foram sendo reportadas em jornais, e que teríamos todo o gosto em detalhar… mas foi aqui que surgiu o grande problema na nossa pesquisa para o tema de hoje – não parece existir qualquer grande livro ou estudo sobre os Fenómenos do Entroncamento, ou mesmo alguma listagem que os apresente a todos e/ou reproduza as pequenas notícias em que se inseriam, como nos dois exemplos da imagem abaixo*:

Algumas histórias dos fenómenos do Entroncamento

Ainda assim, visto que uma paixão por temas como estes é algo que nunca nos falta, decidimos ir procurar e compilar tudo aquilo que conseguíssemos encontrar sobre eles – normalmente, e como pôde ser visto acima, esses artigos não têm autor creditado, mas tendem a caracterizar-se por uma referência à cidade, uma representação gráfica do próprio “fenómeno” e a sua breve história. Para atingirmos esse objectivo queríamos consultar todos os jornais que apresentaram esses conteúdos entre os anos de 1950 e 1960 (a idade de ouro da expressão), mas no decurso da nossa pesquisa apercebemo-nos de que muitas edições não se encontravam em arquivos. Talvez já nem existam, a não ser que os familiares de Eduardo O. P. Brito, ou algum coleccionador mais ávido, tenham sentido o ímpeto de ir guardando estas referências à cidade. Por isso, passando à única alternativa que nos era possível em tempo útil, recolhemos informação relativa a estes Fenómenos do Entroncamento maioritariamente em fontes secundárias e conseguimos encontrar breves alusões a pelo menos alguns dos temas que os compunham:

“Abóbora com 60 kg” (esteve em exposição na Tabacaria Luanda)
“Árvore que dava cinco frutos diferentes” (eram tangerinas, laranjas, limões, pêras e maçãs)
“Batatas enormes”
“Cacto gigante” (parece ter morrido recentemente)
“Canária que teve 36 filhos em três meses”
“Cão que fala” (para quem estiver com curiosidade, já voltaremos a ele…)
“Carneiro com quatro cornos” (já reproduzido acima)
“Chica, a lebre que bebia leite de um biberão”
“Chuva amarela” (potencialmente incorrecto?)
“Corvo que falava como gente”
“Couve que dá cravos”
“Cravos verdes”
“Feijão com mais de um metro” (potencialmente incorrecto?)
“Um frango que morreu de desgosto”
“Homem com três rins”
“Laranja gigante”
“Melro branco” (de que já falámos acima, e que parece ter sido o primeiro de todos os casos reportados…)
“Oliveira com azeitonas brancas”
“Ovo de galinha com 800 gramas” (também já reproduzido acima)
“Pé de milho com vinte maçarocas”
“Pescador que pescou uma perdiz”
“Pinto com três patas”
“Pomba que acorda os hóspedes de um hotel”
“Raposa que enganou um caçador”
“Toureiro que morde no touro”

Por esta breve compilação de alguns dos fenómenos se pode depreender que, no seu geral, eles se tratavam de algo que pode ser designado como milagres da natureza, em termos de possuírem características, ou fazerem actos, invulgares nas suas respectivas espécies. Se, por exemplo, tivesse existido na cidade uma história de um homem que mordeu um cão, isso certamente que pertencia a estas mesmas categorias. E então, visto que notícias como estas eram reportadas por Eduardo O. P. Brito, mas nada de semelhante se lia com frequência sobre outros locais, gerou-se a (falsa) ideia de que o Entroncamento as tinha de uma forma bastante mais assídua que as outras localidades portuguesas. Note-se que estes fenómenos ditos estranhos nada tinham a ver com o sobrenatural, com monstros ou extraterrestres ou locais assombrados, como a expressão nos pode sugerir nos dias de hoje – eram apenas e exclusivamente coisas menos vulgares que iam sendo encontradas nessa cidade!

O Cão que Fala, um dos fenómenos...

E pode então perguntar-se… eram eles verdade, ou um mero fruto da imaginação humana? Não conseguimos afirmá-lo com total certeza e para todos os casos apresentados acima, mas existem provas da veracidade de pelo menos algumas daquelas histórias – o cacto supostamente gigante ainda existe; a dona da Chica ainda está viva e tem uma fotografia com a lebre; os vegetais e árvores incomuns eram enxertados no quintal de um conhecido do autor; alguém tentou comprar o melro branco, etc. Outras, pela sua própria natureza efémera, são impossíveis de provar – a história do cão falante*, por exemplo, termina dizendo que ele foi à Pastelaria Ribatejo, se colocou em duas patas e pediu “bolos” aos funcionários, por ter gostado de comer um que o dono lhe deu no dia anterior…

 

Fossem verdade ou não, porque caíram então estes Fenómenos do Entroncamento no esquecimento, ao ponto de já quase ninguém se recordar do que eles foram? Poderia ser um mistério insondável, mas em 2001 Eduardo O. P. Brito revelou a razão por detrás desse desaparecimento – parece que alguns habitantes locais, descontentes com a forma como o Entroncamento andava a ser representado nos jornais, se puseram a dizer mal do escritor dessas notícias e a incomodá-lo com cartas anónimas, levando-o a deixar de reportar notícias como as que tinha por hábito escrever até então… o que é muitíssimo irónico se tivermos em conta que a cidade, mesmo após mais meio século, continua a ter como um dos seus poucos motivos para fama estes fenómenos de antigamente. Ao mesmo tempo, é uma ideia triste mas muito tipicamente portuguesa, daquele famoso “não se faz e não se deixa ninguém fazer”…

Mas, felizmente, toda esta ideia não morreu por completo. Outros autores se seguiram a Eduardo O. P. Brito nessa história dos Fenómenos do Entroncamento (que se diz que continuam a aparecer nos nossos dias…!), e na cidade em questão a sua memória colectiva ainda parece perdurar. Há muito poucos anos foi feito o videoclipe acima, que celebra todo este tema e até mostra alguns dos artigos de jornal originais, enquanto que a Casa Carloto ainda vende produtos alusivos a alguns dos “fenómenos” mais famosos, de que até mostrámos um exemplo numa das imagens acima. Tentámos apurar se a Câmara Municipal já faz ou pretende fazer alguma coisa com este seu património cultural (ao longo dos anos foram sugeridas muitas alternativas para o seu reaproveitamento, inclusive um festival e um pequeno parque temático), mas não obtivemos qualquer resposta deles ou da tal casa comercial em tempo útil…

 

 

*- Para referência futura, ou por simples motivos de curiosidade, transcrevemos aqui três dessas notícias:

  • O cão que fala – “O rafeirito acompanhava sempre o seu dono, que, diariamente, ia à Pastelaria Ribatejo, na Rua 5 de Outubro, comer um bolo. Numa dessas vezes, já habituado à rotina, mas farto de não provar a iguaria, o cão ganiu insistentemente e o dono acabou por lhe dar a doçaria. O rafeirito gostou e conta-se que no dia seguinte foi à pastelaria sozinho e, determinado, empinou-se no balcão e proferiu a palavra ‘bolo’.”
  • O ovo de 800 gramas – “Um ovo com oitocentas gramas? Sim, é possível. Aconteceu no Entroncamento. Uma galinha de aspecto aparentemente normal, habituada a pôr o seu ovo diário, conseguiu a façanha, para espanto de todos, de deixar no ninho um ovo com 800 gramas.”
  • Um carneiro com quatro cornos – “Nasceu e cresceu numa pensão em frente à polícia, na Rua 5 de Outubro. Espantava pela postura e pelo número e dimensão das suas hastes.”

A origem do nome dos gémeos siameses

Hoje, ouve-se falar ocasionalmente de gémeos siameses, talvez até sem que se pense muito nessas palavras e na sua verdadeira origem. É, como bem nos informa o dicionário da Priberam, uma expressão usada para “cada um dos gémeos que nascem ligados por uma parte do corpo”, mas de onde vem toda a expressão? Claro que ela pode ser associada, sem muita dificuldade, com o reino de Sião – actual Tailândia – mas porquê? Como chegou a este nome? É isso que, de forma sucinta, aqui explicamos hoje.

Os gémeos siameses originais, Chang e Eng Bunker

Claro que gémeos sempre existiram – já eram referidos em obras da Antiguidade Clássica como as de Aristóteles – e provavelmente sempre existirão, mas os que levaram à origem do nome que ainda lhes damos são relativamente recentes. As figuras que nos ficaram conhecidas como Chang e Eng Bunker nasceram no século XIX, mais precisamente a 11 de Maio, na província de Samut Songkhram, na Tailândia, e depressa se tornaram famosos no seu país. Depois, por volta dos 17 anos de idade começaram a ser exibidos pelo mundo fora e chegaram até a trabalhar com P. T. Barnum quando já eram bastante famosos. Às tantas, estes gémeos siameses decidiram viver nos EUA, obtiveram o apelido “Bunker” em suposta homenagem a um amigo americano, casaram cada qual com sua mulher, tiveram um total de 21 filhos (eram outros tempos…), e faleceram a 17 de Janeiro de 1874, estando hoje enterrados na White Plains Baptist Church, no estado da Carolina do Norte.

Os famosos Gémeos Siameses

Agora, o que este breve história tem de particularmente digno de nota é aquela parte, quase inicial, em que estes gémeos saíram do seu país natal e foram exibidos nos continentes americano e europeu. Se alguns os antecederam e muitos mais os seguiram, naquele tipo de entretenimento outrora conhecido como freak shows (a que aqui fizemos outra alusão recentemente), estes parecem ter sido os mais famosos numa época em que esse tipo de exibição era muito popular. Desta forma, os gémeos originários de Sião tornaram-se gémeos siameses (por compressão do seu país de origem), que pela sua grande fama passaram depois a dar nome a todos aqueles que se lhes seguiram e que se mostraram igualmente unidos como estes – para quem ainda não o tiveram notado na pintura e no poster acima, estes dois irmãos estavam juntos na área da barriga, com uma banda de pele e cartilagem em que muitos médicos mostraram especial interesse… não se sabe, hoje, se teria sido possível separá-los, algo que não foi tentado na época e que até levou a uma possível morte prematura de Eng, cerca de duas horas após o falecimento do seu irmão Chang.

 

Assim sendo, a origem do nome dos gémeos siameses, expressão que continua a ser utilizada hoje, advém da fama que Chang e Eng Bunker, nascidos na Tailândia(o antigo reino de Sião), obtiveram no século XIX. Eles não foram os primeiros gémeos que correspondem a esta designação, nem sequer os últimos (e.g. pense-se no caso de Abby e Brittany Hensel, nascidas em 1990 nos EUA), mas é agora claro que foram os mais conhecidos numa época em que o conhecimento se começava a espalhar entre países de uma forma mais fácil, e poderá ter sido essa possibilidade que contribuiu para a sua fama e para a adopção da sua designação para a generalidade de todos os irmãos gémeos que partilham da sua característica tão singular.

Sobre a origem dos Kamikaze

Hoje, quando pensamos na palavra kamikaze, lembramo-nos dos pilotos suicidas japoneses da Segunda Guerra Mundial. E isso pouco teria de relevante para este espaço, não fosse o facto da mesma palavra japonesa – no original, 神風 ou かみ​かぜ – ter um significado muito específico e que pode ser traduzido para português como “vento divino”. Nesse sentido, se a ligação entre a própria expressão e os tais pilotos não é evidente, de onde vem ela? Que história se esconde por detrás de tudo isto? São as verdadeiras razões por detrás dessa palavra que aqui explicamos hoje!

A origem dos Kamikaze

Diz-se então que em finais do século XIII os Chineses tentaram invadir o Japão com uma frota naval. Essa tentativa de invasão inicial foi repelida e foram construídas infraestruturas para dificultar qualquer possibilidade de invasão marítima futura. Ainda assim, alguns anos mais tarde os Chineses voltaram a tentar atacar, desta vez com uma frota que se diz que teria mais de 4000 barcos e 140000 homens, um valor imenso para a altura. Não esperavam que a situação tivesse sido alterada significativamente – os nativos tinham-se unido e construído uma espécie de muralha em redor de toda a costa, impedindo o atracamento de navios – e quando confrontados com a situação não souberam o que fazer. Esperando então no mar por novas ordens, depressa foram atingidos por furacões, que destruíram a maior parte da sua frota, e que ficaram conhecidos como kamikaze.

 

E porquê chamar-lhe kamikaze, esse tal “vento divino”? Porque, face às ocorrências da altura, os Japoneses começaram então a acreditar que os deuses locais, face à grande união que os nativos mostraram para com um invasor estrangeiro e teoricamente muito superior (algo que nunca tinha acontecido até então…), os decidiram premiar com a sua ajuda etérea, com algumas versões a mencionarem até explicitamente a presença divina de Raijin e Fujin, divindades padroeiras dos ventos e das trovoadas.

 

Salte-se agora para o século XX. Em que medida é que os tais pilotos suicidas japoneses da Segunda Guerra Mundial tiveram este nome de “kamikazes” associado a eles? Essa ideia é fácil de compreender face a todo o contexto da história contada acima. Se, outrora, todo o Japão se tinha unido contra um adversário vastamente superior, e em virtude dessas acções os deuses lhe concederam a derradeira vitória, neste confronto mais recente os Japoneses acreditaram, até certo ponto, que se voltassem a demonstrar uma tal união, estando dispostos a abdicar das suas próprias vidas em prol do país, os deuses lhes voltariam a conceder a vitória. Não é claro, hoje, até que ponto é que eles acreditavam verdadeiramente nisso, se achavam que os deuses iam mesmo intervir ou se esta era apenas uma lenda antiga que foi reaproveitada na altura por motivos políticos, mas há que deixar claro que existem muitas lendas semelhantes por todo o mundo – recorde-se, por exemplo, a nossa lenda da Batalha de Ourique, de um Portugal destinado por Deus a ser o grande império cristão do mundo – nas quais as pessoas parecem ter acreditado verdadeiramente até um momento fulcral, como o do nosso desaparecimento de Dom Sebastião. É possível que também o Japão, o antigo Yamato, essa “terra dos deuses”, tenha mesmo acreditado numa lenda semelhante, de que os deuses os auxiliariam novamente contra um opositor muito superior, neste novo caso os Estados Unidos da América, levando-os a estarem dispostos a sacrificar as suas vidas por aquilo que viam como um bem maior.

A lenda de Maria Severa Onofriana e a origem do fado

Falar das origens do Fado português é, quase imperativamente, falar de uma lenda da Severa. Claro que não foi ela que inventou este estilo musical, mas foi essa a figura, talvez até a primeira de todas, que contribuiu para lhe dar uma cara real e uma história que é tão visível quanto audível. Portanto, na sequência de uma conversa informal sobre qual terá sido a prostituta mais famosa de Portugal, decidimos então abordar hoje um tema que já estava planeado há alguns anos mas que acabou por não se ir concretizando, o da breve história que une esta conhecida figura feminina àquele que é provavelmente o mais famoso estilo musical nascido em Portugal.

A lenda da Severa

A figura que nos ficou conhecida sob este simples nome nasceu com o nome de Maria Severa Onofriana a 26 de Julho de 1820, tendo depois falecido a 30 de Novembro de 1846, ou seja, aos 26 anos de idade. Pelo caminho, sabemos que era considerada muito atraente fisicamente, que deverá ter sido prostituta, que cantou o Fado, que mudou de casa várias vezes (sempre em Lisboa, frequentemente na zona da Mouraria), e que se envolveu romanticamente com Francisco de Paula de Portugal e Castro, o 13.º Conde de Vimioso. Terá sido essa associação romântica, ou talvez apenas puramente sexual, com esse nobre que contribuiu para a sua fama, mas… além destes elementos muito vagos, parece que tudo o mais que a envolve está cerrado numa neblina difícil de afastar. Isto porque, face à falta de informação mais fiável sobre esta figura, se parecem ter indo inventando todo um conjunto de histórias ficcionais(?) sobre ela – o pai era sido um cigano, ela envolveu-se com vários outros membros da nobreza, teve um conjunto enorme de peripécias sexuais, e tantas outras coisas que tais, ideias aparentemente nascidas da sua morte prematura e da própria natureza do Fado, que então lamentava a crueldade que a vida nos pode trazer a todos. É uma ideia bem captada no chamado Fado da Severa (posteriormente vários outros tomaram este mesmo nome), cuja versão registada ainda em 1847 reza a seguinte história:

Chorai, fadistas, chorai,
Que uma fadista morreu,
Hoje mesmo faz um ano
Que a Severa faleceu.
Morreu, já faz hoje um ano,
Das fadistas a rainha,
Com ela o fado perdeu,
O gosto que o fado tinha.
O Conde de Vimioso
Um duro golpe sofreu,
Quando lhe foram dizer,
Tua Severa morreu!
Corre à sua sepultura,
O seu corpo ainda vê:
Adeus ó minha Severa,
Boa sorte Deus te dê!
Lá nesse reino celeste
Com tua banza na mão,
Farás dos anjos fadistas,
Porás tudo em confusão.
Até o próprio S. Pedro,
À porta do céu sentado,
Ao ver entrar a Severa
Bateu e cantou o fado.
Ponde nos braços da banza
Um sinal de negro fumo
Que diga por toda a parte:
O fado perdeu seu rumo.
Chorai, fadistas, chorai.
Que a Severa se finou,
O gosto que tinha o fado,
Tudo com ela acabou.

Estes versos foram sofrendo as mais diversas alterações ao longo do tempo, existindo hoje em múltiplas versões, como este exemplo recente permite atestar, em que apenas foram cantados os versos presentes a negrito na letra acima, composta menos de um ano após a morte da lendária heroína:

 

Neste seguimento, se parece ser mesmo essa a própria natureza deste estilo musical, a intenção de cantar um triste destino de alguém, que até podemos tradicionalmente associar à própria pessoa que canta, somos levados uma questão adicional, mas nem menos importante – se não foi esta famosa figura nacional a inventar o próprio estilo, qual é mesmo a origem do Fado?

Sobre a origem do Fado

Sobre essa origem do fado, seria muitíssimo interessante dar-se aqui uma resposta como “Ah, foi inventado em inícios do século XIX pela pessoa X”, mas de facto não se parece ter uma completa certeza da sua origem. Terá sido a heroína de que já falámos acima a primeira a popularizar este estilo musical entre as massas nacionais e internacionais, mas ninguém parece argumentar, com conhecimento de causa, que terá sido ela própria a inventá-lo. Em alternativa, se até parecem existir muitas teorias sobre a sua génese, entre as que fomos lendo em diversas obras são três as que têm aqui especial interesse.

 

Uma dessas teorias sobre a origem do fado diz que este nasceu nos muitos caminhos marítimos viajados pelos portugueses, talvez entre criminosos desterrados para o além-mar, que se lamentavam dos caminhos a que a vida os tinha conduzido. Uma outra diz que estas canções eram verdadeiros lamentos das classes mais desfavorecidas, como na agora-famosa canção Povo que lavas no rio, cantada por Amália Rodrigues. Uma terceira diz que esta forma musical veio do “fado” brasileiro, que era um tipo de dança sobre a qual pouco se parece saber sobre as letras. Em todos os casos, a própria designação que lhe é dada – o “fado”, no sentido de destino, sorte, fortuna, como no caso das fadas de outros tempos… – parece apoiar pelo menos as duas primeiras hipóteses, ainda para mais se se tiver em conta que, originalmente, ele era cantado em tabernas frequentadas por gente pobre. Se sabemos que Ana Gertrudes Severa, mãe da heroína de que falámos hoje (o pai, esse, parece ter sido um quase-esquecido Severo Manuel de Sousa), até tinha o seu estabelecimento, é provável que tenha sido isso que conduziu a própria filha para estas artes… mas já não se parece saber, infelizmente, que letras cantava ela nessa altura. Só poderão ter sido tristes, como a própria vida das classes baixas lisboetas da sua época.

 

Bem, mas as linhas de hoje já vão longas. Conclua-se. Faz todo o sentido falar-se de uma lenda de Maria Severa Onofriana porque, se ela até foi uma figura bem real, os contornos mais precisos da sua vida são hoje quase desconhecidos, o que gerou uma construção da sua vida que assenta mais na ficção e no pressuposto do que em factos comprováveis. O que sabemos é que ela terá tido uma vida difícil e faleceu cedo, elementos inspiradores de um primeiro fado que tomou o seu nome (reproduzido ali em acima), e que, de um modo mais geral, parecem estar frequentemente envolvidos na própria origem do fado. Isto, apesar de já não se saber quando ou onde nasceu este estilo musical, por se ter tratado, na sua forma original, de algo ligado às classes mais desfavorecidas, a que as elites anteriores ao tempo de vida de Francisco de Paula de Portugal e Castro, 13.º Conde de Vimioso (viveu em 1817-1865), parecem ter prestado muito pouca atenção…

O estranho Outubro de 1582

Se todos nós temos dias bons e maus nas nossas vidas, o mês de Outubro de 1582 foi, na nossa cultura ocidental, extremamente invulgar, porque entre os seus dias se contaram 10 que foram iguais para toda a gente. Isto porque ninguém nasceu, ninguém morreu, ninguém passou por qualquer espécie de dificuldades, entre os dias 5 e 14 desse mês, que até só teve 21 dias. E claro que tudo isto poderá parecer muito esquisito, até que se saiba o que então tomou lugar.

Calendário de Outubro de 1582

Em inícios de Outubro de 1582 o calendário que se utilizava na maior parte dos países ocidentais era o Juliano, assim chamado em honra de Júlio César, que o tinha instituído em inícios do ano 45 a.C., face a um calendário romano que era relativamente complicado, onde até existiam meses intercalares, era difícil saber-se quantos dias tinha cada mês, etc. Assim, o novo calendário de Júlio César passou a ser muito semelhante ao que tínhamos hoje, em termos da sua formatação, mas ao longo dos séculos começou a gerar problemas, nomeadamente ao nível do cálculo da data da Páscoa. Assim, a 24 de Fevereiro de 1582, e após infindáveis discussões sobre o tema ao longo dos séculos, o Papa Gregório XIII publicou a bula Inter gravissimas, que, resumidamente, tentou resolver os problemas que existiam com o calendário de então.

 

O texto desta Inter gravissimas, para quem estiver com essa curiosidade, não é nada de especial – apenas aponta o problema que existia e sugere como é possível resolvê-lo. Para tal, o papa em questão definiu que de forma a fazer entrar em vigor esse novo calendário, as últimas horas do dia 4 de Outubro de 1582 seriam seguidas pelas primeiras do dia 15 do mesmo mês. E claro que isto poderia gerar N problemas entre as pessoas vulgares, mas a mesma bula também se precave contra essa dificuldade, sugerindo novas datas para os festivais dos santos que tomavam lugar nessa altura e atrasando as datas de todos os pagamentos por 10 dias (e.g. se tinham uma conta para pagar até dia 12, agora poderiam pagá-la até dia 22, mas no mês seguinte ela voltava a ser paga ao mesmo dia 12).

 

Esse novo calendário, o Gregoriano (em honra ao Papa Gregório XIII, que o instituiu, como é óbvio), é ainda utilizado nos nossos dias de hoje, mas não foi automaticamente adoptado por todos os países europeus, com a Grécia a tê-lo adoptado somente em 1923. Mas, se continua a ser o oficial nos nossos dias, já ninguém se parece lembrar destes estranhos 10 dias de Outubro de 1582, em que o tempo parou, de forma metafórica, para que as datas da Páscoa pudessem acertar-se de uma vez por todas… mas enfim, histórias de outros tempos!