Viagem a Vale de Cavalinhos, terra de feitiçaria

O nome de Vale de Cavalinhos está hoje quase esquecido, mas em outros tempos acreditava-se que era o local em que bruxas, feiticeiras e outras entidades semelhantes se encontravam durante a noite, venerando o Diabo, baptizando novas crentes e preparando as nefastas magias com que depois iam afectando as populações de Portugal, entre outras coisas. E se, na verdade, o nome do local se foi mantendo ao longo dos séculos – Gil Vicente até o menciona no seu Auto das Fadas – como um espaço mágico por excelência, a título de curiosidade podemos perguntar onde ficava este local tão misterioso.

Será este o Vale de Cavalinhos?!

Uma rápida pesquisa pela internet revela que ainda hoje existem vários locais conhecidos pelo nome de Vale de Cavalinhos, como o mostrado na imagem acima, mas nenhum deles parece estar, nos dias de hoje, particularmente associado a práticas mágicas ou de feitiçaria. Assim, entre as muitas possibilidades que poderíamos levantar nesta nossa inquirição, depressa se cria a ideia de que o que devemos procurar não é um espaço que ainda exista hoje com esse nome, mas um que ou já não tem esse nome, ou por alguma razão deixou de estar associado a todo um conjunto de práticas mágicas que em outros tempos o fizeram famoso. E, de facto, até existe um local que partilha dessas duas características. Mas já lá iremos!

 

Quando, nesses outros tempos, se falava de Vale de Cavalinhos, um dos únicos pontos de referência que são dados em relação ao local é que provavelmente se situava próximo da cidade de Lisboa (e dizemos “provavelmente” porque se as bruxas voavam para lá por pura magia, torna-se difícil compreender o quão longe podiam viajar durante a noite). Agora, existiu um local nessa cidade que em outros tempos tinha o nome que procuramos, e que era então caracterizado pelos seus extensos olivais. Após o Terramoto de 1755 adoptou uma nova designação, a de “Vale de Santo António”, altura em que o local começou a ser ocupado por novas casas e até lá foi construída uma ermida, que ainda hoje pode ser vista na lisboeta “Rua do Vale de Santo António”. Essa alteração do nome do local, bem como a sua posterior ocupação por um espaço religioso cristão (em detrimento dos tais olivais de outros tempos), pode fazer crer que este tinha sido, em tempos mais antigos, aquele famoso espaço tão repetidamente associado à magia.

 

Temos alguma certeza real disto? Não, claro que não… É possível que as referências a um Vale de Cavalinhos na literatura mágica até se referissem a um espaço completamente diferente, como aquele da imagem ali em cima, até porque o seu acesso nocturno por meios mágicos não facilita uma limitação geográfica, mas o seu desaparecimento completo de referências literárias após um determinado período de tempo, bem como a necessidade de sacralizar o anterior espaço para o Cristianismo (criando-se a pura lenda de que Santo António aí descansou antes de abandonar o país), podem contribuir para se afirmar, com algumas certezas, de que este bem poderá ter sido o local em que, até ao século XVIII, se acreditava que as bruxas se reuniam durante a noite.

Taaban, o Pokemon perdido!

Voltamos agora aos temas habituais apresentando o Taaban, um pokemon completamente verdadeiro mas do qual é bastante provável que nunca tenham ouvido falar até hoje. E mais, abaixo até apresentamos a origem nipónica da inspiração por detrás de toda esta criatura. Por isso, comecemos de forma relativamente simples, com a imagem de um boneco que os fãs deste jogo certamente já conhecem e bem.

Taaban, um pokemon perdido ou esquecido

Na imagem acima pode ser visto um data file sobre uma criaturinha que é conhecida como Slowbro entre nós e no Japão como ヤドラン, “Yadoran”. Essencialmente, era a sua própria criatura até que um Shellder (ou, em japonês, シェルダー, como sublinhámos na imagem) lhe mordeu o rabo, dando-lhe o estranho aspecto que pode ser visto ali na imagem. E isto absolutamente nada teria de especial não fosse o facto da criatura que morde o cauda do Slowpoke ser completamente diferente de aquela a que o textos nipónico e ocidental aludem. Nestes casos, talvez seja até correcto dizer que uma só imagem vale mil palavras:

Slowpoke, Shellder, Taaban e Slowking

No lado esquerdo pode ser visto a criaturinha chamada Slowpoke. Do lado direito pode ser vista uma das suas evoluções, chamada Slowking, possivelmente em virtude da espécie de coroa que tem na cabeça. Mas o que tem, de facto, ele nessa sua cabeça? É um Shellder, como na parte superior do centro da imagem, ou um Taaban, como na parte inferior do centro da mesma imagem? Tendo em conta que a palavra taaban pode ser vista como uma versão japonesa da palavra turbante, a resposta é completamente óbvia!

Nesse seguimento, o problema é que quem tiver jogado os agora-muitos jogos dos Pokemons nunca se deparou com esta criatura, o Taaban, entre as infindáveis que vai encontrando. Isso poderá dar a ideia de que se trata de uma criatura falsa, inventada por alguém que não pertence aos criadores dos jogos, para nos enganar a todos. O que até seria possível, não fosse o facto de há muito poucos anos ter sido encontrada uma versão de teste das versões Gold e Silver, em que se podia encontrar, entre outras criaturas menos exuberantes que foram ficando pelo caminho, estas duas imagens, que confirmam que em dada altura ele esteve inegavelmente presente no código do segundo jogo da série:

Taaban no jogo

Não fazemos ideia do porquê de ele ter sido removido, até porque nunca foi referido em nenhum jogo oficial, mas é curioso que ainda hoje, quando se vêem imagens de formas evolutivas relacionadas com o Slowpoke, em muitas delas ainda se pode ver a própria cara do Taaban a tentar olhar para nós, como que a relembrar que ele ainda ali está, que o seu nome e as suas habilidades individuais podem ter sido esquecidas mas ele continua, de uma forma relativamente bem dissimulada, a apresentar-se-nos nos jogos da série.

 

Mas… na versão original, esta criatura não era senão uma alusão a Sazae-oni, uma lenda japonesa sobre um monstro aquático, do sexo feminino, que tem uma concha de molusco na sua cabeça, uma que até é muitíssimo semelhante à forma adoptada por este pokemon esquecido… o que nos revela facilmente a inspiração por detrás de toda esta sequência de pokemons – muitos outros também foram baseados em mitos e lendas do Oriente, como o Drowzee, Vulpix, ou a Magikarp – mas infelizmente nunca nos diz o porquê de ele ter sido esquecido e completamente omitido dos jogos, na sua forma independente, até aos nossos dias de hoje… será que um dia o saberemos?

Qual a diferença entre touro e boi?

Hoje decidimos explicar a diferença entre touro e boi. Começe-se então pelo seguinte, uma espécie de pequeno e fácil desafio – o que vêem na imagem que reproduzimos abaixo?

A diferença entre touro e boi

Este animal tem cornos proeminentes, sendo fácil de reconhecer como um bovino. Mas não tem tetas, aquelas de onde nos provém o leite, pelo que é naturalmente do sexo masculino. E até este momento tudo bem, é provável que até uma criança pequena consiga estabelecer estas inferências, mas qual é o nome correcto que devemos dar ao “marido” de uma vaca? Qual é essa grande diferença entre touro e boi, que nos possibilita saber qual é qual?

 

Já lá iremos. Por agora, um pequeno aparte – recentemente obtivemos uma cópia de um livro que tem as gravuras dos dois primeiros volumes da Historia Animalium de Conrad Gessner, que é uma espécie de enciclopédia de animais produzida em meados do século XVI, e em que a maior parte deles estão ilustrados com belíssimas gravuras. Entre elas encontra-se aquela que reproduzimos ali em cima, mas o que a obra que obtivemos tem de especial é o facto de incluir parte de um conteúdo que não foi produzido por Gessner, nomeadamente os nomes de cada animal em latim, italiano, francês e alemão. É interessante compará-los, para quem também gostar dessas curiosidades, mas no seu artigo sobre o nosso “boi” – o bos latino – o autor começa por frisar que este nome pode ser dado tanto a um touro como a uma vaca. Depois, prossegue explicando, de uma forma extremamente sucinta e em apenas sete palavras, que um touro é um boi que não foi castrado.

 

Sabemos, portanto, que era esta a grande diferença entre touro e boi em outros tempos, há cerca de 400 anos, mas será que toda a ideia ainda se mantém nos dias de hoje? Com curiosidade, fomos consultar o dicionário online da Priberam, que nos define um touro como um “boi que não é castrado e que se utiliza como reprodutor”, enquanto que um boi é definido como um “touro castrado”. Ou seja, comparando-as com as anteriores, as definições actuais para ambos os animais reteram-se ao longo dos séculos.

 

O que é ainda mais curioso é que toda esta ideia até já tem muitos mais séculos e nos aparece preservada em mitos e lendas de outros tempos. O animal que raptou a princesa Europa é considerado um touro, dada a sua pujança, enquanto que os cornos de um touro são considerados um grande símbolo de poder sexual. Podemos então declarar, de uma forma um tanto ou quanto brincalhona, que um boi é apenas um touro que já perdeu a sua pujança, numa ideia que até se prolonga para outras línguas, e.g. em inglês, o pujante bull VS o ox que pasta nos campos…

Porque vem o pacote de batatas fritas meio cheio? E somos enganados com isso?

Acontece a todos – compra-se um pacote de batatas fritas e ele vem apenas meio cheio, ao ponto de ainda há dias termos lido um artigo em que uma senhora, ao comprar a sua marca favorita, se deparou com uma situação como essa. E as razões para tal já são, hoje, bem conhecidas, podendo ser encontradas em tudo quanto é site informativo – o pacote contém um gás que ajuda na conservação das batatas, e esse mesmo gás também ajuda a que o produto no seu interior não se danifique tanto. Ou, pelo menos, assim nos tentam informar. Mas até que ponto será isso mesmo verdade? É apenas um puro mito, será que as empresas em questão nos estão a tentar enganar a todos?

Um pacote de batata frita meio cheio

Ficámos curiosos com esta espécie de mito dos nossos dias, e então decidimos ir investigá-lo. Comprámos um pacote de batatas fritas – não fomos pagos para publicidades – e constatámos que, de facto, ele vinha apenas meio cheio. Depois, separámos o seu conteúdo em dois pequenos sacos transparentes, selámos o primeiro com muito pouco ar, enquanto que no segundo tivemos o especial cuidado de assegurar que também existia uma quantidade significativa de ar dentro do saco, quase como nos pacotes que se adquirem nas lojas. Em seguida, pedimos uma criança emprestada e pedimos-lhe que agitasse ambos de forma tão vigorosa quanto possível, mas tendo o cuidado de assegurar que ela não fazia nada que danificasse directamente as batatas. Depois, quando reabrimos ambos os sacos, reparámos que o segundo, aquele que tinha uma quantidade significativa de ar, tinha o produto no seu interior menos danificado – o espaço meio vazio no pacote parece ter servido como uma espécie de almofada para assegurar que o produto por que pagamos não choca tanto entre si, por ter mais espaços em que se mover.

Um pacote de batatas fritas rígido

Claro que este procedimento não foi realizado com o tal gás que promove a conservação da qualidade do produto, mas o processo seguido permitiu-nos constatar que, de facto, um pacote de batatas fritas meio cheio faz com que eles não se danifiquem tanto. Ao mesmo tempo, é igualmente essa a razão pela qual pacotes rígidos, como os visíveis nesta segunda imagem, estão ocupados por produto quase até ao topo – visto que a própria embalagem é rígida, é muito mais difícil que o seu conteúdo se danifique durante o transporte!

 

Agora, tudo isto pode gerar uma questão adicional – se os primeiros se encontram meio cheios de ar, enquanto que os segundos aparentam ter mais produto, até que ponto é isso verdade? Será que quando pegamos num pacote de batatas fritas e ele nos diz ter 160 gramas de produto, as tem mesmo no seu interior, ou andamos todos a ser enganados com explicações como as acima?

Para ter a certeza disso, fomos a um hipermercado e pesámos 10 pacotes de batatas fritas de diversas marcas. Com excepção de um dado pacote de marca própria do Continente (que, relembre-se, não é novato em estratégias de iludir os clientes), todos eles pareceram ter um pouco mais de peso do que se suporia. Não abrimos cada um, para pesar somente o próprio produto, mas parece-nos difícil que o pacote pese tanto que os clientes se sintam enganados por ele.

 

Em suma, o nosso pacote de batatas fritas tende a vir meio cheio porque a presença de ar no seu interior torna possível uma mulher conservação do produto, que assim tem mais espaço por onde circular e se danifica menos. Se, por um lado, a visão de um pacote meio vazio até pode assustar o consumidor, devemos reportar que ele está a receber mesmo aquilo por que pagou, pesando o produto no interior aproximadamente o mesmo valor apresentado no texto patente na embalagem.

O que significa comer gato por lebre?

Seria muito interessante aqui contar uma qualquer lenda para a origem da expressão comer gato por lebre, mas hoje focamo-nos é no seu significado. Isto não porque não exista uma qualquer história por detrás de toda a ideia – ela já aparece, com contornos bastante satíricos, em obras da Idade Média, em que é criticada a qualidade da comida de determinadas tabernas – mas porque não parece existir uma qualquer história particularmente famosa que tenha contribuído para toda a popularização da famosa expressão na língua portuguesa. Por isso, o que significa esta expressão bem portuguesa, que ainda muito se utiliza nos nossos dias de hoje?

O que significa comer gato por lebre?

Na cultura portuguesa é comum que se coma coelho e lebre, até em virtude da grande facilidade que é caçar esses animais em meios rurais. Agora, o que menos pessoas saberão é que removido todo o seu pêlo, os dois animais ilustrados na imagem acima são bastante semelhantes, ao ponto de quase se confundirem, tanto em termos da cor da carne como até do próprio sabor da mesma. Agora, teoricamente, isto pode levar alguns donos de restaurantes como menos escrúpulos a matarem gatos e os servirem como lebres – isto porque os primeiros até são muitos mais fáceis de encontrar e de capturar que os segundos!

Nesse sentido, “comer gato por lebre” significa, pura e simplesmente, comprar algo que é mais barato ao preço de algo que tem um valor maior, como fazem muitos restaurantes quando nos servem a todos, por exemplo, pota em vez de polvo.  O cliente, quase sempre fruto da sua inexperiência em reconhecer determinadas espécies, é assim enganado sem muita dificuldade, ao ponto de – como já cá aludimos uma vez – já ter existido um restaurante na zona de Sintra que cozinhava, sem que ninguém parecesse saber, os dois animais que deram nome a esta expressão.

 

Mas… para quem se estiver a interrogar até um pouco mais sobre tudo isto, será que se comem gatos – “por gato”, ou seja, sem que seja ocultada a sua origem animal – em Portugal? Mesmo que o leitor comum tenha alguma dificuldade em acreditar em toda a ideia, já existiu uma aldeia do nosso país em que o prato típico foi outrora chouriço de gato. Inicialmente o prato era cozinhado sem qualquer malícia, fruto apenas da grande pobreza da região, mas à medida que o tempo foi passando começou a descartar-se toda a ideia como puro e simples rumor, até porque eram muitos aqueles que se dirigiam ao local só com a intenção de ver se era mesmo verdade (o que ainda irrita os habitantes locais, daí não mencionarmos aqui o nome da aldeia em questão)… mas a confecção do prato, essa, manteve-se até há menos de meia dúzia de anos, altura em que faleceu uma das últimas idosas que ainda se atrevia a seguir a receita tradicional. Agora, em 2022, tanto quanto foi possível apurar na primeira pessoa essa estranha tradição culinária já terminou no local. Como tal, quem quiser comer os tais bichanos, só mesmo se os cozinhar em sua própria casa, ou naqueles estranhos casos em que os restaurantes ainda nos fazem comer o literal gato por lebre. Não recomendamos a dificuldade da experiência, até porque o seu sabor é mesmo muito semelhante ao da lebre!