Danny, o fantasma do Natal da África do Sul?

Hoje focamo-nos no estranho tema de Danny, o fantasma do Natal da África do Sul. Ouvimos falar de todo este tema através de um amigo que tinha lido a respectiva história online e queria saber se ela era de facto verdade. Por isso, decidimos partir em sua busca… mas visto que o tema não é propriamente muito conhecido em terras de Portugal, parece-nos bastante apropriado que se comece por contar a sua breve história.

A história de Danny, o fantasma de Natal

Supostamente, existia na África do Sul uma criança muito jovem que se chamava Danny. Ele era muito guloso. Então, um dia, mesmo na véspera de Natal, a avó dele – cujo nome nunca é referido – cozinhou bolachas para deixarem ao Pai Natal. Incapaz de resistir ao sabor das mesmas, este Danny comeu-as todas às escondidas. Depois, quando a respectiva avó notou o que o neto tinha feito, zangou-se tanto que lhe deu uma enormíssima tareia, acabando mesmo por matá-lo. Ele transformou-se num fantasma que visita as casas na Consoada, castigando as crianças que se portam mal.

Esta história de Danny, o fantasma do Natal, é estranhíssima, no contexto de potenciais tradições dessa altura do ano, pelo que não podia deixar de suscitar o nosso interesse. Seria ela verdade? De onde vem? Será que é, de facto e como diziam as pouquíssimas fontes que encontrámos, uma história tradicional da África do Sul? Intrigados, e depos de muitas conversas sobre o tema, decidimos partir em sua busca.

 

Começámos por perguntar a nativos da África do Sul se conheciam esta história – a resposta foi sempre peremptória, ninguém a conhecia. Procurámos depois em dezenas de livros sobre tradições de Natal, mas ela não era mencionada em nenhum deles. Tentámos ainda professores universitários desse país, bem como funcionários da embaixada, mas também eles nunca tinham ouvido absolutamente nada sobre esta história. Ou seja, se esta era, de facto, uma famosa história tradicional desse país, é muitíssimo curioso que absolutamente ninguém a tenha conhecido antes. O que seria possível – por exemplo, em Portugal poucos conhecem a história de Guesto Ansures – mas torna impossível que se trate de um famoso e tradicional conto de Natal desse país!

 

Decidimos então procurar mais informação sobre o seu nome, “Danny”. O nome não se encontrava entre os 1000 mais comuns desse país, mas visto que “Daniel” ocorria na lista, o suposto nome do fantasma podia ser um diminutivo utilizado pela avó. Ou poderia apenas ter sido associado à história mais tarde. Como tal, decidimos pesquisar tradições natalícias desse país, e se encontrámos toda uma panóplia que nos poderá parecer mais ou menos estranha, absolutamente nenhuma delas se referia a algum fantasma. O que também não deixa de ser curioso, porque se encontrámos, de facto, um número significativo de histórias fantasmagóricas vindas desse país, a de hoje nunca se encontra entre elas. É como se, na verdade, absolutamente ninguém desse país a conhecesse, um ponto que devemos frisar de forma muito repetida, até porque todas as páginas que mencionam esta história ou o fazem sem citar quaisquer fontes, ou revelam que a obtiveram de um local que também não mencionava quaisquer fontes.

 

Mas… queiramos ou não, esta história de Danny, o fantasma do Natal da África do Sul, existe. Alguém terá de a ter inventado e escrito pela primeira vez. Ela terá vindo de algum lado. Seguimo-la cronologicamente até ao dia 13 de Dezembro de 2015, altura em que Siobhan Downes, da Nova Zelândia, publicou online um artigo sobre estranhas tradições de Natal, como a Befana e o Krampus, entre as quais menciona o seguinte:

Deep fried caterpillars, South Africa

On Christmas Day, some South Africans tuck into a particularly wriggly delicacy – the sundried Emperor Moth caterpillar, which is served deep-fried. But if you think that sounds bad, wait until you hear about what happened to Danny, a young South African boy who ate all the Christmas cookies before Santa Claus arrived. In a fit of rage, the tale goes, his grandmother murdered him. The story is apparently meant to teach children about the perils of being too greedy, and Danny is said to haunt homes on Christmas Day, making sure they got the memo. So, how about those caterpillars?

As lagartas comidas no Natal

A tradição de comer as lagartas é bem real, por estranho que possa parecer no nosso país, mas nada conseguimos encontrar sobre o resto da história, nem ela parece ser conhecida entre os nativos sul-africanos (que também confirmaram que comem mesmo as tais lagartas, acrescente-se). E se uma suposta tradição não é conhecida ou sequer praticada entre aqueles que se crê que a praticam, sê-lo-á por quem?!

 

Então, de onde vem toda esta história, afinal de contas? Contactámos Siobhan Downes em busca de mais esclarecimentos sobre este Danny, o fantasma do Natal da África do Sul, mas nunca obtivémos qualquer resposta dela ou da editora da secção de viagens do respectivo site, aquele onde toda esta história parece surgir online pela primeira vez. É portanto provável que se tenha tratado de uma prática editoral em que se incluem informações falsas num artigo para conseguir detectar quem é que anda a reproduzir ilegalmente os mesmos… o que é uma prática relativamente comum em algumas indústrias para impedir cópias de conteúdos, e poderá ter sido isso que aconteceu aqui, visto que ninguém parece conhecer a história original por detrás de uma tradição que se suporia famosa entre os locais.

 

Mas tudo isto ainda não fica por aqui. Se o artigo anterior era de 13 de Dezembro de 2015, um outro, o segundo sobre o mesmo tema, datado de 23 de Dezembro de 2015 e da autoria de uma tal Melanie Dimmitt, diz o seguinte:

Fried caterpillars and ghosts in South Africa

South African’s celebrate the holiday by dishing out a freshly fried batch of Emperor moth caterpillars (and you thought KFC was bad…), while children are also told the charming story of Danny, the young lad who ate all of Santa’s cookies – enraging his grandmother so much that she killed him, leaving his ghost to haunt homes at Christmas.

As semelhanças com o anterior são mais que muitas, mas é notável que esta segunda autora nada adicione ao tema, apresentando a história precisamente com os mesmos elementos gerais da sua antecessora. Terá sido plágio? Não diríamos tanto, pelo menos não com provas limitadas, mas se uma história não parece existir durante décadas e depois aparece em dois locais distintos num espaço de 10 dias, contada sucintamente e com diversos elementos comuns, é difícil negar que a autora do segundo conhecesse o artigo da primeira sobre esse mesmo tema.

 

Então, o que podemos concluir sobre Danny, o fantasma do Natal da África do Sul? Por muito que possam ter lido essa história em outros locais, ela parece ser desconhecida no país de onde se supõe que vem. Não encontrámos qualquer prova real e bem atestada da sua existência antes do dia 13 de Dezembro de 2015, tratando-se quase certamente de uma falsa tradição natalícia, talvez criada para detectar potenciais plágios num tema que tende a ser muito comum no período de tempo que precede a celebração do Natal.

O que são os santos populares?

Esta altura do ano é famosa em Portugal pela celebração dos chamados santos populares. Estamos todos muito habituados às sardinhas, aos manjericos, às marchas lisboetas, a uma ou outra celebração popular da nossa respectiva região, mas… se toda a gente parece saber, mais ou menos bem, em que consistem as celebrações, afinal de contas quem são essas figuras, e porque são elas celebradas de uma forma tão grande? É desse tema que aqui falamos hoje, até porque nos fizeram essas mesmas perguntas há umas horas.

O que são os Santos Populares?

Os chamados “santos populares” são, como até pode ser visto na imagem acima, Santo António de Lisboa (identificável pelo penteado e pelo Menino Jesus ao colo), São João (aqui identificável pela face jovem e pela ovelha, símbolo do rebanho de Cristo) e São Pedro (sempre fácil de identificar por ser representado com as chaves do Céu). São todos os três figuras bastante conhecidas no nosso país – uma pessoa comum poderá nem saber identificar, por exemplo, uma imagem como Santa Iria, mas muito poucos são as pessoas ignorantes sobre a identidade de aquele santo de careca ao léu e menino ao colo – mas o que faz deles, nessa sequência, três figuras tão conhecidas e tão dignas de serem festejadas com tão grandes festas?

 

A resposta, curiosamente, vem das próprias lendas associadas pelos Portugueses a cada uma destas três figuras ao longo dos séculos. Se figuras como, por exemplo, Santo Ovídio ou São Torpes são muito conhecidas em determinadas regiões do país, já estes três são-no por todo o país, mas com alguns aglomerados de maior popularidade em alguns locais. Progressivamente, isso contribuiu para os Antigos irem contando histórias sobre eles, que escapam completamente ao espírito das figuras originais, sendo uma espécie de relatos apócrifos que juntam (muita) ficção e (quase nenhuma) realidade. Recordem-se, a título de ilustração deste ponto, histórias como a da Festa de Santo António (em que o santo é reduzido a um jovem milagroso que, como qualquer outro, queria apenas ir a uma festa); a popularidade do nome João em Portugal; e as muitas lendas nacionais que colocam Jesus e Pedro como viajantes que se envolvem num qualquer problema. Estes não são casos únicos – relembrem-se, igualmente, as histórias de Nossa Senhora e o Linguado ou do devoto a São José – mas esta tríade é composta por um conjunto de três figuras que ao longo do tempo se tornaram muitíssimo populares entre o nosso povo e, como tal, passaram as ser chamados santos populares – isto, não só por serem do povo, mas igualmente em virtude da sua grande estima pública.

Uma festa dos Santos Populares

Poderia, no entanto, ser-nos colocada uma questão adicional – porquê estes três? Porque não outros santos, como o São Vicente de Afonso Henriques, ou aquela Nossa Senhora das centenas de nomes? Claro que esta última está num patamar completamente diferente, imediatamente abaixo da Santíssima Trindade, não sendo sequer comparável a figuras definíveis como “meros santos”, mas em relação às restantes possibilidades não é fácil perceber-se o porquê de terem sido estes três, em detrimento de um grupo de quaisquer outros, que se foram tornando populares. Por isso, se nos fosse feita aquela tal pergunta, a resposta seria, nada mais, nada menos, que algo como “não sabemos, apenas foram crescendo em popularidade ao longo do tempo, tal como em outros países os santos contemplados com essa elevação popular foram outros.”

 

Qualquer que tenha sido a razão, a elevação de aqueles três aos santos populares por definição teve e tem alguns aspectos um tanto ou quanto estranhos, igualmente difíceis de explicar. Por exemplo, quando falamos de Mouras Encantadas, muitas das suas lendas dizem que elas tendiam a surgir de forma mais frequente na Noite de São João. Porquê essa, e não uma outra? Em termos de certa brincadeira, poderíamos teorizar que as pessoas ficavam bêbadas e imaginavam coisas que não estavam mesmo lá, mas deixando de lado essa jocosa possibilidade, não é fácil compreender-se o porquê da associação da noite desse santo – a de 23 de Junho – com esse misticismo bem nacional.

 

Enfim, as linhas de hoje já vão longas. Volte-se à identidade dos santos populares e o porquê de eles serem celebrados como o são hoje em dia. Em relação ao primeiro ponto, eles tratam-se de Santo António de Lisboa, São João e São Pedro, e – para avançarmos para o segundo – são hoje celebrados de uma forma muito específica por terem sido, ao longo do tempo e por razões que não são claras, escolhidos pelo povo nacional como os maiores representantes da santidade no nosso país.

A diferença entre mosteiro e convento

Pensar-se na divergência entre mosteiro e convento é algo que poucos fazem hoje em dia. Isto porque, falando com diversas pessoas sobre o tema, descobrimos que se tende a pensar que a diferença entre as duas palavras, ou os respectivos conceitos, se prende exclusivamente com o género sexual dos seus ocupantes, sendo – supostamente – um para mulheres e outro para homens. E se isto até parece muito simples, devemos esclarecer que a ideia está errada. Na verdade, até existem mosteiros e conventos para homens, da mesma forma que os existem para mulheres. Por isso, qual é a diferença entre as duas designações?

A diferença entre Mosteiro e Convento

Responder a essa questão implica jogar, de certa forma, com outro conceito que lhe está associado, o da diferença entre monge e frade. A designação de um monge vem do latim monachus, que por sua vez vem do grego μοναχός (monakhós), que significa “solitário”, em virtude de esses religiosos praticarem a sua religião sozinhos, afastados da sociedade, como foi o caso de Santo Antão. Já a designação de frade (ou “frei”), vem do latim frater, “irmão”, pelo facto de esses outros religiosos praticarem a mesma religião de uma forma significativamente diferente, em que vivem todos no mesmo local e com um mesmo património em comum, como foi o caso de Santo António de Lisboa (ou Pádua). Para as mesmas funções religiosas no sexo feminino aplicam-se, em alternativa, os nomes de monja e freira.

 

Voltando então à questão original, um mosteiro é o local em que vivem monges ou monjas, enquanto que um convento é a designação dada a um sítio em que vivem os frades e freiras. E se isto pode levantar um problema ideológico – como podem os primeiros viver a sua solidão se, factualmente, não estão sós?! – outro aspecto significativo da diferença entre os dois conceitos é que enquanto os primeiros não podem, ou não devem, sair do local em que residem, já os segundos continuam a viver na nossa sociedade, aplicando a sua vida de religiosos nas mais diversas áreas.

 

Portanto, a diferença mais significativa entre mosteiro e convento não se prende com o sexo dos seus ocupantes, mas sim com o propósito das suas funções religiosas. Além disso, se os monges e monjas vivem no interior de um mosteiro, do qual (teoricamente) não devem sair, já os frades e freiras vivem na nossa sociedade, retirando-se para o interior do seu convento quase somente para tomar as suas refeições ou dormir, entre outras actividades aqui menos relevantes. Não é difícil de compreender, basta pensar na origem dos respectivos nomes!

Adolf Hitler tinha sangue judeu?

Se, há uns anos atrás, alguém nos viesse perguntar se Adolf Hitler tinha sangue judeu, a pergunta pareceria muitíssimo estranha. Seria respondida com algo como “O quê? Estás maluco? Claro que não!” Mas, desde há uns tempos para cá, como aludimos recentemente, essa sugestão parece ter-se tornado mais frequente, razão pela qual achámos que seria muito apropriado dedicar algumas linhas ao tema, seja para confirmar toda esta estranha ideia, ou para a negar de uma vez por todas. Nesse seguimento, qual é mesmo a verdade por detrás de toda essa questão? Para que ela possa ser compreendida há que, talvez mais que tudo, tentar procurar as respostas num breve passo a passo, como faremos abaixo, para deitar este tema por terra de uma vez por todas.

 

Em que consiste ‘ter sangue judeu’?

Saber se o ditador alemão “tinha sangue judeu” implica, muito naturalmente, começar por definir esse estranho conceito. É certamente possível que pelo menos um dos seus muitos ascendentes fosse judeu (como os nossos ou os de qualquer outro leitor…), porque é impossível traçar o percurso das nossas famílias até ao início dos tempos. Porém, desde tempos da Inquisição que esta mesma expressão e conceito foram sendo adoptados num sentido muito concreto – não o de uma ascendência quase eterna e impenetrável, mas uma que se prolonga por apenas três gerações, em que bastaria a pequena presença de, por exemplo, um único judeu entre os oito bisavós de Adolf Hitler para considerar que esta figura histórica tinha ascendência judaica. Seria esse o seu caso, ou nem por isso?

 

O que sabemos sobre a família de Adolf Hitler?

Hoje, é muitíssimo fácil abrir um qualquer motor de busca e tentar pesquisar a família do ditador alemão, com a intenção de saber se pelo menos um oitavo dos seus antecessores era de origem judaica. Sem muito trabalho, depressa se consegue encontrar um diagrama como o reproduzido abaixo (provindo da Wikipedia), que aqui foi adaptado para mostrar os pais, avós e bisavós dessa figura.

A família de Adolf Hitler

Muito poderíamos escrever sobre toda esta família, mas o mais importante para o tema de hoje concentra-se no lado esquerdo, relativamente à verdadeira identidade do avô paterno de Adolf, a figura com quem uma tal Maria Schicklgruber teve o seu único filho, a quem deu um nome que acabou imortalizado sob a forma de Alois Hitler. Explicar tudo o que aconteceu com esta família seria uma verdadeira telenovela do século XIX, mas podemos resumi-lo assim – quando este jovem nasceu, a mãe deixou claro, de forma oficial, que não queria revelar a identidade do pai do menino. Posteriormente, isto levaria a imensas confusões, e então, após a morte de um tal Johann Georg Hiedler, foi declarado que este tinha sido o seu pai para todos os motivos legais – quanto mais não fosse, para que pudesse vir a receber a sua devida herança!

Face a este problema, saber a ascendência de Adolf Hitler passa, mais que tudo, por saber com quem a sua avó, Maria Schicklgruber, gerou o pai do ditador. Não há qualquer informação completamente fidedigna, irrefutável, mas as três grandes teorias dos nossos dias dizem que ele terá sido: a) Johann Georg Hiedler; b) Johann Nepomuk Hiedler, irmão mais novo do anterior; ou c) um judeu de nome Leopold Frankenberger.

 

Quem foi Leopold Frankenberger?

Se o avô de Adolf foi um dos irmãos Hiedler – depois “Hitler”, tendo o nome sido alterado por razões agora obscuras – tudo bem, eles não tinham sangue judeu. Mas, a tratar-se de um tal Leopold Frankenberger, cujo próprio nome até indica ascendência judia, isso queriria dizer que o ditador tinha, efectivamente, sangue judeu, o que era um problema muito significativo para a carreira política de Adolf – para fazer uma espécie de comparação com os dias de hoje, seria como um partido político ter um dirigente cigano e mesmo assim querer exterminar todos os ciganos!

Mas será isto um mito, ou a mais pura realidade? Existiram, na altura da sua ascensão, diversas controvérsias sobre a ascendência do futuro ditador, mas não pode deixar de se considerar curioso que nunca ninguém tenha levantado a possibilidade directa de ele ser filho de um judeu, ou pelo menos não com o surgimento de um nome ou identidade concreta, de alguém que se tenha chegado à frente e dito que sabia que o verdadeiro avô era a pessoa X. Só depois da guerra é que surgiu, pelas palavras de Hans Frank (sem qualquer relação com a famosa Anne Frank!), antigo advogado do ditador, uma história intrigante…

 

Segundo ela – e recordamo-la aqui por mero título de curiosidade – numa dada altura alguém tentou chantagear Adolf Hitler, pedindo dinheiro em troca de ocultar a sua ascendência judia. O político parecia desconhecer por completo essa estranha possibilidade, até por nunca ter conhecido os avós paternos, e então pediu que ela fosse investigada. Hans Frank disse tê-lo feito, e supostamente encontrou informação que dizia que quando Maria Schicklgruber engravidou trabalhava na cidade de Graz, em casa de uma família judaica de nome “Frankenberger”, e se envolveu com um jovem de 19 anos, Leopold (outras versões falam de uma verdadeira violação, até porque a senhora já tinha cerca de 41 anos aquando dessa sua única gravidez).

 

Leopold Frankenberger foi avô de Adolf Hitler?

Claro que esta possibilidade é muito intrigante, sem qualquer dúvida, mas quando se começa a explorar a sua possível veracidade depressa começam a surgir diversos problemas, que nos impedem de afirmar, com certezas, que este Adolf Hitler tinha sangue judeu. Não iremos falar de todos eles, por motivos de tempo e espaço (e até porque este é um espaço de mitos e lendas!), mas talvez os três mais notáveis sejam o facto dos Judeus terem sido expulsos de Graz vários séculos antes; de não existir registo de qualquer família “Frankenberger” com um filho de nome “Leopold” cuja data de nascimento bata certo com toda esta ideia; e de Hans Frank só ter mencionado toda esta história após a guerra, quando nada tinha a perder (nem ninguém para o refutar), e tudo a ganhar para a sua causa anti-semita, ao inventar esta estranha possibilidade.

Alois Hitler, pai de Adolf Hitler, tinha sangue judeu?

Conclusão: Afinal, Adolf Hitler tinha sangue judeu?

Se sabemos que a família de Adolf Hitler teve uma história complicada, também está comprovado que aproximadamente sete oitavos dos seus ascendentes não eram judeus. Não sabemos com quem é que a sua avó materna, uma tal Maria Schicklgruber, teve o filho Alois (visível na imagem acima), pai de Adolf, mas é importante notar, nesse ponto, que salvo uma única história, claramente ficcional e que não é suportada por quaisquer provas reais, e que até só apareceu no pós-guerra por via de uma fonte enviesada, não existem provas de que este senhor de bigode farfalhudo tenha tido ascendência judaica. Ao mesmo tempo, existem algumas provas circunstanciais de que ele tenha sido filho de um dos irmãos Hiedler, Johann Georg ou Johann Nepomuk, quanto mais não seja porque a mesma senhora depois casou com o primeiro.

Portanto, a maior parte dos constituintes de família hoje-conhecida como “Hitler” era comprovadamente cristã, e se Maria Schicklgruber, avó de Adolf, nunca parece ter revelado quem foi o pai do seu único filho, não temos qualquer prova real para afirmar que ele era judeu. Claro que também não temos grandes provas concretas em contrário, mas pelo menos existem alguns indícios de que a mãe tinha alguma ligação notável à família Hiedler, que não era judia.

 

Como tal, dizer que Adolf Hitler tinha sangue judeu é falso, na medida em que não existem quaisquer provas reais dessa possibilidade, com excepção de uma história falsa e inviesada, certamente inventada por Hans Frank, antigo advogado do ditador, por volta do ano de 1946. Não fosse essa infame história – que, relembre-se ainda mais uma vez, é falsa e não tem provas reais a suportá-la – e ninguém ousaria dizer, hoje, que o responsável pela morte de tantos judeus era, também ele, seu consanguinário. Afirmá-lo assim, de uma forma tão pouco suportada por quaisquer provas reais, é uma completa abominação, e deveria ser feito com muito mais prudência e cautela nos nossos dias, dadas as horrendas implicações que pode gerar…

Uma profecia portuguesa do século XVI

Quando aqui falámos sobre o Rei Rodrigo mencionámos uma de muitas profecias do regresso de Dom Sebastião e/ou da monarquia portuguesa. Supostamente encontrada em Alenquer, e também alegadamente do tempo de Dom Sancho II – ou seja, do século XIII – esta é uma de muitas profecias que foram surgindo no século XVI, procurando inspirar o povo português a não aceitar o domínio de Espanha. Já cá falámos de exemplos semelhantes, como o Pretinho do Japão e as famosas Profecias do Bandarra, mas o que este outro exemplo tem de notável é o facto de ser uma profecia muito curta mas nem por isso menos interessante – o manuscrito, que pode ser visto na imagem abaixo, tem um (grande) título no primeiro parágrafo, o texto em Latim no segundo, e uma tradução para Português, num total de oito linhas, no terceiro. E ela diz mais ou menos o seguinte:

Profecia portuguesa do século XVI

Isidoro e Cassandra, filha do Rei Príamo de Tróia, concordando juntamente em um parecer disseram, “E nos derradeiros dias reinará na Maior Espanha um rei duas vezes, dado piadosamente. Ele reinará por meio de uma fêmea cujo nome começará [por] Y e acabará por L. E reinará sendo moço, e limpará os [uma ou duas palavras ilegíveis] e maus costumes dos Espanhóis, e o que o segue não será consumido. [palavra ilegível] o porá por terra. E visitará a Terra Santa e porá o final do crucifixo sobre o Santo Sepulcro e será o Maior Supremo Monarca e toda a igreja [palavra ilegível] renovará.”

Claro que toda esta profecia é uma clara ficção – não aparece em qualquer texto real atribuído na Antiguidade a Cassandra de Tróia (o mais notável será certamente Alexandra de Licofron), nem parece ocorrer nos de Isidoro de Sevilha – mas ela não deixa de suscitar algumas boas questões. Que o nome começado por Y e terminado em L seria “Isabel”, então grafado “Ysabel”, é provável, mas porquê esse nome em concreto e porquê a necessidade de incluir os outros elementos, de um rei católico supremo que viria da Península Ibérica no final dos tempos para controlar todo o mundo? Era uma ideia relativamente comum na época, até em terras de Portugal, mas como todas essas ideias foram surgindo na fantasia popular já não é completamento claro.

 

Pelo sim, pelo não, se um dia voltar ao poder monárquico uma regente de nome Isabel, não se esqueçam desta profecia portuguesa…