“Shi’ur Qomah”, o livro que mediu Deus

Shi’ur Qomah, que é como quem diz “Dimensões do Corpo” (em Hebraico), é provavelmente um dos livros mais estranhos que já se nos cruzaram o caminho. Infelizmente já só existe numa forma fragmentária, parcialmente corrompida, não sendo sequer possível determinar com maiores certezas a data da sua composição original, mas nem por isso deixa de ser uma obra cuja ideia poderá causar um certo fascínio nos dias de hoje.

Um deus que poderá não ser o de Shi'ur Qomah

Essencialmente, Shi’ur Qomah é um livro que, através de uma revelação do anjo Metatron (figura pouco conhecida na cultura portuguesa, mas comum na tradição judaica e muçulmana, como já cá dissemos anteriormente), nos preserva as medidas do corpo de Deus. Claro que também tem alguns outros conteúdos místicos, aqui menos importantes, mas o verdadeiramente curioso na obra é essa tentativa de medida do corpo divino, traçando-o como se fosse o simples corpo de um homem, mas em ponto muito grande, e nomeando cada uma das suas partes. Assim, o Deus judaico, tal como apresentado neste trabalho que é de fins da Antiguidade ou da Idade Média (Maimonides conhecia-o no século XII), é quase um mero homem, descritível nas suas partes, sendo-nos possível saber, por exemplo, que diversas partes do seu corpo estavam inscritas com letras hebraicas; que tinha mesmo barba (como até tende a ser representado na tradição cristã); e que a distância entre os seus dois olhos é de 300000 parasangs*, permitindo-nos perceber a sua estatura quase inimaginável!

 

Mas, sendo assim, será que vale a pena localizar e ler este Shi’ur Qomah? Dificilmente – a obra não é de fácil acesso, não existe traduzida para língua portuguesa, e é provável que o seu tema só tenha interesse para um número muitíssimo limitado de leitores, até porque, mesmo no contexto das crenças judaicas, em dada altura esta foi considerada uma leitura completamente herética, que por essa notável antropomorfização divina era muito contrária à grande maioria dos ensinamentos religiosos do mesmo povo. É aqui digna de menção a título de pura curiosidade, sim, mas pouco mais que isso…

 

 

 

*- Um parasang é uma antiga medida iraniana de distância. O seu comprimento variava, mas pelo que pudemos descobrir era mais ou menos 5-6 Kms. Portanto, se a distância entre os olhos divinos era de 300000 parasangs, isso equivale mais ou menos a 1500000-1800000 Kms, fazendo dele uma figura aproximadamente 24193548387 vezes maior (!) que um ser humano de hoje!

A Batalha de Guadalete e o destino do Rei Rodrigo

Falar sobre a Batalha de Guadalete é, primeiro que tudo, admitir que a visão da História que todos recebemos em tempos de escola é muito incompleta. Pelo menos para quem viver em Portugal, para os períodos mais antigos ela representa a Península Ibérica como um local de passagem de diversos povos antigos, sem que se saiba muito bem quem fez o quê e quando, salvo excepções como a das lendas de Viriato, tão reaproveitadas mais tarde na cultura portuguesa. Por essa razão, alguns instantes da história ibérica estão envoltos num misto de história e lenda, sendo difícil reconhecer onde verdadeiramente termina um e começa o outro… e a história de hoje é precisamente sobre isso, sobre como um mesmo evento, supostamente histórico, pode fomentar lendas muito diferentes em países distintos.

O Rei Rodrigo e a Batalha de Guadalete

Nessa sequência, em Espanha a Batalha de Guadalete é, de um modo muito geral, a de um último monarca e cristão visigodo, que ficou conhecido apenas por Rei Rodrigo e que foi derrotado pelos Muçulmanos aquando da sua invasão inicial da Península Ibérica, no ano de 711. Diz-se ainda que o rei desapareceu em combate, sendo possível que tenha fugido da batalha sem ter sido morto, para um local incerto…

Porém, na versão portuguesa da lenda da Batalha de Guadalete, são acrescentados alguns elementos muito curiosos. Segundo ela, o tal Rei Rodrigo sobreviveu a essa batalha e depois fugiu por mar para uma localização incerta (alguns autores referem uma ilha que ficou conhecida por “Antilha”), juntamente com os muitos bispos que existiam nos seus domínios. Depois, ao longo dos séculos, foram sendo adicionados muitos novos elementos a toda a história – em particular, que esse monarca, os seus bispos e a respectiva corte ainda estavam vivos numa ilha mágica coberta por nevoeiro.

 

O que tem tudo isto de especial, de digno de nota, para ter inspirado a escrita das linhas de hoje? Existem, na realidade, um conjunto de lendas nacionais que podem ser ligadas à deste desaparecimento do Rei Rodrigo e dos seus Cristãos. Por exemplo, na famosa lenda de Dom Fuas Roupinho e da Nazaré, algumas versões dizem que a imagem de Nossa Senhora posteriormente encontrada por esse herói do tempo de Afonso Henriques foi deixada em Portugal,em inícios do século VIII, por um monge que também fugiu com o famoso monarca aqui em questão.

Mas… provavelmente a mais famosa e notável das lendas nacionais associadas a este Rei Rodrigo diz que a ilha em que ele agora vive é a mesma em que o nosso Dom Sebastião se esconde, aquela tal Ilha Encoberta de que nos falava o Sebastianismo e que hoje já está quase esquecida. Assim, quando o nosso rei voltasse para salvar Portugal, iria fazê-lo acompanhado por esse seu companheiro real e pelos bispos outrora desaparecidos, para instituir um novo reino cristão mundial, de que falam muitas lendas nacionais hoje completamente esquecidas, mas que até podem ser vistas em profecias do século XVI, e seguintes, que ainda nos chegaram em pequenos registos de diversos arquivos nacionais, como a que pode ser lida carregando na imagem abaixo.

Profecia do regresso do rei

Contudo, não sabemos onde acaba a verdade e começa a pura lenda em tudo isto. Será que a Batalha de Guadalete teve mesmo lugar? Será que o Rei Rodrigo existiu? Será que morreu em batalha, ou desapareceu para parte incerta? Será que foi acompanhado por outros Cristãos nessa possível viagem? Não sabemos, de todo, nem nos é possível sabê-lo com base nas provas que ainda temos neste momento. É tudo um misto de lenda e realidade, sem que se saiba, efectivamente, os contornos de cada um desses dois pólos.

 

Mas… uma última curiosidade sobre todo este tema. No Algarve existe um bolo chamado “Dom Rodrigo”, que se apresenta hoje como uma espécie de fios de ovos cobertos por uma folha de prata colorida e disposta numa forma que pode fazer relembrar uma ilha. Se o nome do bolo, originalmente, não se devia a este monarca, mas sim a outro Rodrigo do século XVIII, será esta sua nova forma, que foi sendo adoptada ao longo dos anos mas não era a original, uma alusão velada à lenda da tal Ilha Encoberta, com suas areias douradas, do Sebastianismo e deste outrora-famoso monarca ibérico, que igualmente se pensava que lá vivia? Não conseguimos, neste momento, ainda responder a essa questão, mas não deixa de ser intrigante pensar nessa grande possibilidade…

Exposição do Mundo Português (1940), o que resta hoje?

Falamos hoje da Exposição do Mundo Português, de 1940, em virtude de uma controvérsia que teve lugar há alguns meses. Na altura, pretendia-se remover alguns brasões florais que tinham sido colocados no tempo da exposição, símbolos de muitas das ex-colónias, a que uns se opuseram e outros apoiaram. Os brasões, feliz ou infelizmente, lá acabaram por ser removidos, o que representa mais uma perda simbólica do património histórico nacional, mas… então, o que nos resta desses tempos? Se muitos dos pavilhões, que hoje teriam mais de 80 anos, foram demolidos pouco depois do término da exposição, o que ainda pode ser visto na zona lisboeta de Belém?

Mapa da Exposição do Mundo Português de 1940

Na imagem acima pode ser visto um mapa oficial da Exposição do Mundo Português de 1940, em que assinalámos a amarelo o que ainda existe dessa altura e que pode ser dividido em seis locais distintos. Quais são eles?

No canto superior direito está a chamada “Secção Colonial”, em que podiam ser feitas visitas alusivas às agora-chamadas ex-colónias. Naturalmente que as exposições originais já não estão no local, mas naquele que é agora chamado o “Jardim Botânico Tropical” ainda podem ser encontrados, aqui e ali, edifícios e alguns resquícios desse tempo. Abaixo deste existia o “Bairro Comercial”, sendo possível que algumas das lojas no local, em particular na Rua Vieira Portuense, ainda sejam dessa altura. Do lado esquerdo desses dois locais está, como não poderia deixar de ser, o Mosteiro dos Jerónimos, a que já cá fizemos diversas alusões anteriormente, em particular na sua ligação aos famosos Pastéis de Belém.

Depois, na parte inferior, pode ser visto o agora-chamado “Museu de Arte Popular”, seguido pelo “Restaurante do Espelho de Água” (que era uma Cervejaria Portugália da última vez que lá fomos…) e o “Padrão das Descobertas”, que é, obviamente, hoje o Padrão dos Descobrimentos.

 

Além destas estruturas “maiores”, nesta zona baixa de Belém também existem diversas “pequenas” recordações desses tempos da Exposição do Mundo Português de 1940, como os próprios jardins ou a Praça do Império, mas não eram contemplados com uma referência específica no mapa mostrado acima, sendo essencialmente uma forma de embelezar todo o espaço para os visitantes. O que poderá suscitar uma questão por agora completamente impossível de responder – que recantos dos tempos da Expo 98 também um dia chegarão a essa mesma idade de 80 anos? É, talvez mais que tudo, esperar para ver, mas já cá não estaremos para comentar esse outro tema…

Na verdade, quem foi Jim Crow?

Existem muitas histórias que são famosas nos respectivos países de origem mas quase desconhecidas em outros, e o caso de Jim Crow parece ser uma delas. E, de facto, quando assistimos a uma participação numa conferência por parte de um professor americano, há algumas semanas, ele estranhou que os Europeus desconhecessem o significado das chamadas “Jim Crow laws“, como se o conceito fosse imprescindível e conhecido por todo o mundo, numa espécie de egocentrismo muito comum na cultura americana. Portanto, para quem não for americano, quem foi esta figura?

Quem foi Jim Crow?

Não conseguimos descobrir se um verdadeiro Jim Crow já existiu, uma personagem completamente real por detrás de toda a ideia, mas fomos lendo duas teorias, segundo as quais a figura ou se baseou na performance de um escravo deficiente encontrado por Thomas D. Rice durante as suas viagens do início do século XIX, ou foi composta por esse criador de uma forma satírica, gozando com um conjunto de características que nessa altura eram associadas aos escravos americanos, e que foram incorporadas numa canção mutável ao longo desse mesmo século.

Agora, por definição uma “canção mutável” é difícil de reproduzir aqui, mas as suas diversas versões parecem ter alguns elementos em comum. Primeiro, a canção e dança eram interpretadas, tradicionalmente, por um branco em blackface, ou seja, com a cara pintada de negro, como pode ser visto no vídeo acima. Segundo, estas canções, apesar da divergência de versos, eram frequentemente críticas da população negra. E, em terceiro lugar, tinham sempre em comum um mesmo refrão, que também pode ser ouvido no vídeo:

Weel about and turn about and do jis so,
Eb’ry time I weel about I jump Jim Crow.

Essa constância de refrão parece ser característica da época – recorde-se o caso da canção sobre Maria Cachucha, também ela com versos distintos mas um refrão sempre comum. E se assim se explica a fama do nome, porquê este (?), e porque veio ele a dar a designação a leis segregacionistas aparecidas posteriormente? Mais uma vez, essa informação parece estar envolvida em alguma neblina histórica, mas poderá ter nascido de uma prática local de chamar crow – “corvo” – aos escravos negros, e mais tarde da grande popularidade da própria canção, que representava – como já foi dito – os escravos negros de uma forma significativamente pejorativa.

 

Assim se tenta explicar a origem das chamadas “leis de Jim Crow”, e da personagem cultural que lhes deu o nome, mas… será que, hoje, é legítimo o uso da chamada blackface? Para escrever estas linhas tivemos de ver dezenas de vídeos do Youtube, e um elemento curioso é que nas reconstruções da dança feitas nos nossos dias de hoje se evita sempre essa característica, agora considerada racista… quando, em alternativa, se deveria era pensar que ela era, culturalmente, uma parte significativa da representação original, que não deve ser julgada pelos padrões actuais. Não dizemos que seja correcto, mas sim que se a canção original tinha essa característica essencial, não é completamente justo representá-la hoje sem ela, a bem da precisão histórica – caso contrário, seria como tentar representar Luís de Camões em filme sem a sua famosa pala, o que nos pareceria muito estranho…

Como foi a Batalha de Aljubarrota?

Ainda sobre guerras, a Batalha de Aljubarrota parece ser um daqueles episódios da história de Portugal que todos conhecemos “muito bem” dos tempos de escola. E conhecemo-la essencialmente através de um grande facto intemporal – que os soldados de Castela eram muito mais numerosos que os nacionais, mas que estes últimos os conseguiram derrotar devido à chamada “táctica do quadrado”. Toda a gente nata no nosso país se tende a lembrar disso, mas infelizmente aos alunos de escola e aos leitores comuns raramente é explicado muito mais que esse facto consumado numa singela frase somatória, pelo que achámos que hoje deveríamos contar aqui o cerne de toda esta enorme lenda da história nacional. A própria história, os factos contextuais, esse grande “o que aconteceu antes e depois”, terá de ficar para outros (hey, isto ainda é um espaço sobre mitos, lendas, livros esquecidos e curiosidades…) – o que queremos contar, aqui, hoje e de uma forma muito simples, é exclusivamente o que aconteceu na Batalha de Aljubarrota, à data de 14 de Agosto de 1385, e como é que a vitória portuguesa foi conseguida!

A mais famosa imagem da Batalha de Aljubarrota

Assim, e como se aprende na escola, por razões de sucessão ao trono nacional os exércitos de Portugal e de Castela encontraram-se na zona de Aljubarrota. Porém, o que é menos sabido é que os primeiros tinham o auxílio de tropas inglesas, enquanto que os segundos tinham também o apoio de soldados franceses. E isto é importante porque, de acordo com Jean Froissart, cronista francês da época e que até falou com alguns dos sobreviventes, há um primeiro passo interessante na batalha de Aljubarrota – vendo apenas um pequeno exército à sua frente, os soldados franceses decidiram atacá-lo sozinhos, num acto hubristico,  e… acabaram derrotados, com muitos deles até a serem capturados!

Toda a batalha até poderia ter ficado logo por aí, não fosse o facto dos Castelhanos terem decidido atacar pouco depois, o que poderia levar a uma situação muito problemática, em que o exército português era atacado pela frente enquanto também tinha, por trás, os prisioneiros franceses; como tal, tiveram imperativamente de os matar a (quase?) todos antes do confronto com nuestros hermanos. E como se processou esse outro confronto, aquela tal famosa “táctica do quadrado”?

A táctica do quadrado da Batalha de Aljubarrota, por José Hermano Saraiva

Num dos seus vídeos sobre a Batalha de Aljubarrota, que pode ser visto carregando na imagem acima, José Hermano Saraiva explicou-o com um excelente diagrama que, segundo ele, podia ser visto há alguns anos no museu comemorativo da batalha. Essencialmente, e começando pela imagem inferior, os Castelhanos atacaram pela frente dos Portugueses e fizeram-no com uma tal pujança que rapidamente entraram numa espécie de quadrado formado pelo exército nacional. Em seguida, o nosso exército fechou essa formação e “capturou” grande parte dos adversários no seu interior, onde os podia atacar por todos os lados e até à distância.

Agora, poderia perguntar-se o porquê de os Castelhanos não terem, por exemplo, circundado toda a formação portuguesa… ora bem, se isso não é visível na imagem acima, o “nosso” exército estava no topo de uma pequena colina, flanqueado por dois ribeiros (o Ribeiro de Vale de Madeiros e o Ribeiro de Vale da Mata*), o que tornava muito difícil, ou quase impossível, um ataque senão pela frente – e quando, de uma forma previsível e natural, ele lá chegou, este confronto guerreiro tomou lugar precisamente como o exército de Portugal e Nuno Álvares Pereira esperavam, dando-lhes a tão-almejada vitória em menos de um só dia, até porque a noite já se avizinhava!

 

Dito assim, tudo isto até parece fácil, mas há que recordar que esta foi provavelmente uma das mais importantes batalhas da história de Portugal, talvez a par da semi-lendária Batalha de Ourique, ao ponto de um dos seus grandes actores – Nuno Álvares Pereira, “o Condestável” – surgir em diversas lendas nacionais e ser considerado, mesmo até vários séculos após a sua morte, como o grande defensor da nação e uma das quatro maiores figuras da história nacional. Incrivelmente, quando em 2007 se decidiram eleger os “Grandes Portugueses”, ele ficou em 18º lugar, atrás de figuras como Álvaro Cunhal, D. João II, Mário Soares ou Pinto da Costa – uma grotesca injustiça, se se tiver em conta que sem ele poderíamos ter passado estes últimos séculos como uma província de Espanha… enfim, é o clássico esquecimento português, que tanto gosta de olvidar os grandes heróis do passado…

 

*- O local da batalha também pode ser identificado por um outro elemento importante – alguns anos mais tarde o famoso Condestável mandou erigir lá uma pequena capela, supostamente no mesmo local em que ele próprio tinha comandado o exército. Hoje é conhecida como a Capela de São Jorge, na zona de Aljubarrota, o que permite identificar com alguma precisão adicional pelo menos parte do local da batalha!