O segredo da Sapataria A Deusa

Para este dia de hoje decidimos que também tínhamos mesmo que falar da Sapataria A Deusa, na cidade de Lisboa. Isto porque, se era uma das lojas históricas da cidade – fundada em 1951, ou seja, com já mais de 70 anos, e agora propriedade de José Fiandeiro – recebemos esta quarta feira a triste notícia de que ela ia encerrar definitivamente, vítima de uma ordem de despejo, para vir a dar lugar a mais um dos milhares e milhares de espaços quase exclusivos para turistas que já existem na capital portuguesa. É triste, indubitavelmente triste, que aquela que é provavelmente a mais antiga cidade de Portugal se esteja a tornar numa espécie de Disneyland só para visitantes estrangeiros, mas – deixando de lado essas inquietantes notas – o nome da loja, bem como a respectiva explicação por detrás dele, não pôde deixar de nos suscitar uma dúvida de curiosidade.

A imagem que dá nome à Sapataria A Deusa

A Sapataria A Deusa tem, segundo a sua informação no portal Lojas com História, como “ex-libris um baixo-relevo em verde de uma deusa hindu”. Ele pode ser visto acima (as fotografias são do mesmo portal!), tanto no seu contexto original, que aqui pensámos em tentar ajudar a preservar, como em maior pormenor. Porém, a nossa questão – uma que curiosamente, muitos jornais ignoraram por completo – prende-se com esta representação, que aparenta ser de origem hindu. Se ela tem representada, de facto, uma “deusa hindu”, qual é ela? Ou, de um modo até mais geral, se esta é uma representação de uma qualquer cena mitológica, qual será?

 

Relativamente a todo este tema da Sapataria A Deusa, fomos então inquirir – estes temas hindus, como já cá vimos anteriormente no caso de Ganesha, são pouco conhecidos em Portugal – e descobrimos que, curiosamente…. havia muitas opiniões, mas uma única certeza – que, por enorme ironia, não se trata de uma deusa hindu (já que essas são quase sempre representadas com mais de dois braços!), mas de algo um pouco diferente. Aqui ficam algumas opiniões:

  • Uma disse-nos que esta é uma Salabhanjika, uma representação de uma mulher ao pé ou debaixo de uma árvore.
  • Outra, que se trata de uma Gopika, uma devota de Krishna, reencarnação do deus Vishnu, que honra essa sua divindade através da dança.
  • Uma terceira sugeriu que, em alternativa, esta representação é budista, com base nas orelhas e no corte de cabelo das duas crianças que estão do lado esquerdo (ver a representação do Buda que incluímos quando cá contámos a sua história).
  • Uma quarta lançou a ideia de que esta até poderá ser uma intersecção de arte hindu com a budista, originária do norte da Índia.
  • Ainda outra disse tratar-se de Sita, esposa de Rama, no período de exílio que passou com os seus dois filhos na floresta (após ter sido abandonada pelo herói).

 

Ninguém parecia conseguir concluir nada sobre esta representação patente na Sapataria A Deusa, até que um leitor do site Reddit, de nome “_uggh”, nos enviou uma pista preciosíssima, cujo verdadeiro valor pode ser visto abaixo:

A mesma representação que está na Sapataria a Deusa

É extremamente fácil ver a semelhança desta imagem com a anterior, a que está na loja – e, de facto, elas até são quase iguais, salvo pequeninas diferenças! Então, o que representam ambas? Como este selo do Nepal indica no seu lado direito, a cena representada aqui é, na verdade, o nascimento de Buda! A figura feminina, em grande plano, não é nenhuma deusa, mas sim a rainha que deu à luz o fundador do Budismo, a que parece ser dado o nome de Maia (entre outros), e que deu à luz este seu filho agarrada a uma árvore cuja tradição diz ser a shorea robusta. Nesse sentido, as duas “crianças” na parte traseira são, aparentemente, dois seres celestiais – ou devas, no contexto original – que a ungiram antes desse nascimento!

 

Muito interessante, até porque é certamente uma das poucas representações budistas deste episódio em terras de Portugal, mas é também igualmente curioso que em mais de meio século ninguém pareça ter conseguido apurar tudo isto, que esta não era uma deusa hindu mas uma figura feminina significativa da história do Budismo – ou, se por acaso até alguém o fez, pelo menos parece que nenhum jornal nacional se importou em saber melhor quem era esta suposta “deusa” que habitava numa loja lisboeta e cuja Câmara Municipal falhou em proteger, em prejuízo dos que ali trabalharam… e assim se perdem as verdadeiras histórias e se criam as lendas, que pelo desconhecimento tornaram a Rainha Maia da Sapataria A Deusa numa vaga “deusa hindu”…

Como saber se tem mau olhado?

Acredite-se ou não nestas coisas, existem muitas pessoas que gostariam de saber se têm mau olhado. Agora, para evitar que se tenha de recorrer a falsos bruxos, alguns mais conhecidos que outros, em que essa resposta é sempre inquietantemente positiva (caso contrário, se a pessoa não acreditasse sequer nessas coisas, porque estaria ela sequer a recorrer a um suposto bruxo ou bruxa?!), vamos hoje ensinar aqui algo de pouco conhecido, um ritual popular português, com pelo menos uma centena de anos, que em outros tempos os nossos antecessores utilizavam para circunstâncias como essas. Isto nada tem de feitiçaria, ou dos desencantos de São Cipriano, mas é uma espécie reza popular do Cristianismo nacional.

Como saber se tenho mau olhado?

Como tal, se algum leitor quiser saber se tem mau olhado, primeiro tem de obter um pequeno prato com água e uma candeia com azeite. Em seguida, fazem com a mão uma cruz sobre ambos os recipientes e deixam cair sobre a água uma única gota de azeite, enquanto dizem a seguinte oração:

Santa Catarina
Dois te o deram
E Três te o tiram,
São as três pessoas da Santíssima Trindade.
Em nome do Pai, [e fazem uma cruz com as mãos],
Em nome do Filho, [e fazem uma segunda cruz com as mãos],
Em nome do Espírito Santo, [e fazem uma terceira cruz com as mãos],
Ámen.
Casa varrida,
Santa Catarina
Dois te o deram
E Três te o tiram,
São as três pessoas da Santíssima Trindade.
Em nome do Pai, [e fazem uma cruz com as mãos],
Em nome do Filho, [e fazem uma segunda cruz com as mãos],
Em nome do Espírito Santo, [e fazem uma terceira cruz com as mãos],
Ámen.

Depois de repetirem isto três vezes, devem então olhar para a água no prato e ver se ela ainda contém as pingas de azeite. Se ainda aí estiverem, isso quer dizer que a resposta à pergunta “Tenho mau olhado?” é negativa. Se elas tiverem desaparecido do prato com água, isso já quer dizer, em alternativa, que têm de facto mau olhado (e se assim o for, basta que deixem um comentário com os vossos dados para ajudarmos, de forma completamente gratuita, com o que se passa ).

 

Mas o tema de hoje, sobre esta presença ou ausência de mau olhado, ainda não fica por aqui. Quem ler bem ali a reza poderá ver uma referência “dois te o deram”, ou seja, dois olhos de alguém malvado colocaram esse mau olhando na pessoa, mas o poder de três – ou seja, da Santíssima Trindade – consegue removê-lo, como é mais que natural. Além disso, as anotações que encontrámos referentes a este processo também adicionam algo de particularmente curioso – se, ao realizarem este processo, a resposta que procuravam for negativa… isso é ainda pior, já que não têm mau olhado MAS é Deus que está zangado com vocês e a punir-vos pelos vossos pecados do passado – não sabemos como alterar essa situação, mas uma confissão numa qualquer igreja católica da vossa área de residência é capaz de ajudar… fica toda a ideia, para quem insistir em viver atormentado com coisas como essas!

Os muitos nomes de Nossa Senhora

Há já alguns dias, um jornal português mencionava numa capa da sua revista os 744 nomes de Nossa Senhora. Infelizmente, quem comprasse o jornal em questão, e depois até fosse ler o artigo, notava que este não divulga todos esses nomes. Nem metade, ou sequer um terço deles… e claro que existem livros sobre o tema, sobre essas muitas designações e títulos que a Virgem Maria foi recebendo por terras de Portugal, mas o artigo incompleto desse jornal deixou-nos curiosos.

Assim sendo, pegámos no Santuário Mariano de Frei Agostinho de Santa Maria – que é sempre bom para estas coisas, como os artigos sobre o Santuário da Peninha ou a Quinta do Anjo comprovaram anteriormente – entre outras fontes literárias da mesma época e fomos ver os principais nomes da mãe de Cristo que existiam em Portugal até cerca do ano de 1707 (em que a obra foi publicada). Depois, tentámos anotar a maior parte deles (pouco mais de 300…), juntamente com pelo menos um local em que ocorriam, e até brevíssimas explicações por detrás dos mais intrigantes. Aqui fica o resultado:

Os muitos nomes de Nossa Senhora...

Nossa Senhora da Pombinha (Lisboa), pela imagem ter uma pomba
Nossa Senhora da Assunção (Lisboa)
Senhora da Quietação (Lisboa), dá tranquilidade a quem precisa
Nossa Senhora dos Mártires (Lisboa, Sacavém)
Nossa Senhora da Enfermaria (Lisboa)
Nossa Senhora dos Remédios (Lisboa)
Senhora da Purificação, ou da Escada (Lisboa), por ser escada que conduz aos céus
Nossa Senhora do Monte (Lisboa)
Senhora da Oliveira (Lisboa), próxima de um local onde existia uma oliveira
Nossa Senhora da Piedade da Terra Solta (Lisboa), porque a sua igreja não tinha chão coberto
Nossa Senhora de Conceição (Lisboa)
Nossa Senhora da Graça (Lisboa)
Nossa Senhora da Luz (Carnide, Lisboa)
Nossa Senhora do Rosário (Lisboa)
Nossa Senhora do Restelo (Lisboa)
Nossa Senhora de Belém (Lisboa)
Nossa Senhora das Estrelas (Lisboa), por ter uma coroa com estrelas
Nossa Senhora da Encarnação, ou da Anunciada (Lisboa)
Nossa Senhora chamada a Madre de Deus (Lisboa)
Nossa Senhora a Grande, ou de Betancourt (Lisboa), por ser maior que as outras e ter vindo de Béthencourt (França)
Nossa Senhora do Vencimento [ou Vitória] (Lisboa), relativa a alguma vitória (neste caso, a de Aljubarrota)
Nossa Senhora da Piedade (Lisboa)
Nossa Senhora de Penha de França (Lisboa)
Nossa Senhora da Pérsia (Lisboa), porque tinha sido posse de um Mouro
Nossa Senhora do Amparo (Lisboa)
Nossa Senhora do Milagre (Lisboa), encontrada por milagre dentro de uma parede antiga
Nossa Senhora do Pé da Cruz, ou do Coro (Lisboa), por estar colocada ao pé da cruz e do coro da igreja
Nossa Senhora da Natividade (Lisboa)
Nossa Senhora do Coro (Lisboa)
Nossa Senhora do Rosário da Restauração (Lisboa), relativa à restauração no tempo de Dom João IV
Nossa Senhora do Pópulo (Lisboa), i.e. do povo
Nossa Senhora da Ajuda (Lisboa)
Nossa Senhora da Salvação (Lisboa)
Nossa Senhora do Pilar (Lisboa), por ser pilar que nos conduz aos céus
Nossa Senhora da Boa Hora (Lisboa), i.e. da hora da morte
Nossa Senhora das Virtudes (Lisboa)
Nossa Senhora da Consolação (Lisboa)
Nossa Senhora das Necessidades (Lisboa)
Nossa Senhora das Mercês (Lisboa), i.e. dos favores
Nossa Senhora da Saúde (Lisboa, Sintra)
Nossa Senhora da Glória (Lisboa)
Nossa Senhora da Pobreza (Lisboa), pelo desapego às coisas terrenas
Nossa Senhora da Paz (Lisboa)
Nossa Senhora da Caridade (Lisboa)
Nossa Senhora do Desterro (Lisboa), pela sua ida para o Egipto
Nossa Senhora do Refúgio (Lisboa), por ser o nosso refúgio
Nossa Senhora da Fé (Lisboa)
Nossa Senhora do Bom Despacho (Lisboa)
Nossa Senhora da Lembrança (Lisboa), por se lembrar dos pecadores
Nossa Senhora da Esperança (Lisboa)
Nossa Senhora do Paraíso (Lisboa), por se crer que a imagem vinha desse local
Nossa Senhora do Presépio (Lisboa)
Nossa Senhora de La Antigua (Lisboa), por relação com uma que existe em Sevilha
Nossa Senhora de Atocha (Lisboa), por referência à de Madrid
Nossa Senhora do Alecrim (Lisboa), nome que lhe foi imposto por um menino
Nossa Senhora da Pedrada, ou do Arco (Lisboa), porque esteve pintada debaixo de um arco, na Itália, e um ímpio lhe atirou uma pedra
Nossa Senhora da Redenção (Lisboa)
Nossa Senhora do Parto (Lisboa), de origem desconhecida, mas evocada pelas mulheres antes de um parto
Nossa Senhora do Bom Sucesso dos Agonizantes (Lisboa)
Nossa Senhora do Carmo (Lisboa)
Nossa Senhora das Candeias (Lisboa), por ligação a antigos ritos de Proserpina(?)
Nossa Senhora a Franca (Lisboa), pela sua suposta franqueza
Nossa Senhora do Socorro (Lisboa)
Nossa Senhora do Livramento (Lisboa)
Nossa Senhora de Monte Agudo (Lisboa), vinda da Holanda
Nossa Senhora da Paz (Lisboa)
Nossa Senhora dos Prazeres (Lisboa)
Nossa Senhora das Portas do Céu (Lisboa)
Nossa Senhora dos Olivais (Lisboa), por esta árvore ser um seu símbolo
Nossa Senhora do Desamparo (Lisboa)
Nossa Senhora dos Anjos (Lisboa)
Senhora do Abadinho (Lisboa), por ter ao colo um Menino Jesus com rosto gordinho
Nossa Senhora da Varanda (Lisboa), por estar próxima de uma varanda
Nossa Senhora dos Poderes (Lisboa)
Nossa Senhora da Redonda, ou Rotunda (Lisboa), por ter estado num templo redondo
Nossa Senhora do Monte (Lisboa)
Nossa Senhora da Nazaré (…), que não é só a de Dom Fuas Roupinho
Nossa Senhora de Copacabana (Lisboa), copiada de uma da América do Sul
Nossa Senhora do Mar, ou das Ondas (Lisboa), pela imagem ter aparecido nas ondas do mar
Nossa Senhora do Bom Sucesso (Lisboa)
Nossa Senhora da Boa Viagem (Oeiras)
Nossa Senhora de Porto Salvo (Oeiras)
Nossa Senhora da Guia (Cascais)
Nossa Senhora dos Milagres (Torres Vedras)
Nossa Senhora da Soledade (Sintra), origem desconhecida?
Nossa Senhora de Monserrate (Sintra), feita com esse título
Nossa Senhora da Pena (Sintra), por ter aparecido na penha em que hoje está o Palácio da Pena
Nossa Senhora da Peninha (Sintra)
Santa Maria do Castelo (Torres Vedras)
Senhora do Amial, ou do Ó (Torres Vedras)
Nossa Senhora do Pinheiro (Torres Vedras), por haver um pinheiro próximo da igreja
Nossa Senhora de Roca de Amador (Torres Vedras?), por uma rocha de Santo Amador onde existiu uma igreja à santa
Nossa Senhora de Sobreiro (Torres Vedras), por ter uma coroa de sobreiro
Nossa Senhora da Cátedra, ou da Cadeira (Torres Vedras), por ter aí existido uma povoação com esse nome, com uma igreja dedicada a São Pedro
Nossa Senhora das Mercês do Baleal (Peniche)
Nossa Senhora de Aboboris, ou da Ferraria (Óbidos), por um antigo nome do local, ou por lá ter existido uma mina de ferro
Nossa Senhora da Misericórdia (Óbidos)
Nossa Senhora do Claustro (Alcobaça), do local em que está colocada
Nossa Senhora a Bendita (Caldas da Rainha?)
Nossa Senhora da Buraquinha (Alcobaça?), por ter sido colocada num nicho do claustro
Nossa Senhora da Rosa (Alcobaça?), aparentemente por ter uma rosa?
Nossa Senhora das Neves (Alenquer), por nevar no local em que era venerada
Nossa Senhora do Carril (Alenquer)
Nossa Senhora do Espinheiro (Alenquer?), por ter aparecido num espinheiro
Nossa Senhora do Ó (Torres Novas)
Nossa Senhora do Egipto (Torres Novas), por ter vivido no Egipto
Nossa Senhora da Barreira Alva (Torres Novas), por existir muito calcário branco na região
Nossa Senhora de Guadalupe (Santarém), por ligação com a de Espanha
Nossa Senhora da Valada (Santarém), que tirou o nome da porta da cidade que lhe estava próxima
Nossa Senhora da Abóboda (Santarém)
Nossa Senhora de Marvila (Santarém)
Nossa Senhora de Alcáçova (Santarém)
Nossa Senhora das Angústias (Santarém)
Nossa Senhora das Trevas (Chamusca), porque as desfaz
Nossa Senhora da Curça (Mugem), origem desconhecida
Nossa Senhora da Serra (Almeirim), por ter sido encontrada numa serra
Nossa Senhora do Capítulo (Alenquer), por estar colocada num capítulo
Nossa Senhora à Rotunda (Alenquer), pela sua igreja ter forma circular
Nossa Senhora da Assunção de Triana (Alenquer), em virtude do nome de um rio próximo
Nossa Senhora da Ameixoeira (Alenquer)
Senhora da Barroquinha (…)
Nossa Senhora do Testinho (Vila Nova?), por ter aparecido num “testinho”
Nossa Senhora de Subserra (Vila Franca de Xira), “por causa do sítio”
Nossa Senhora do Tojo (Castanheira do Ribatejo?), por ter aparecido num tojal
Nossa Senhora de Povos (Vila Franca de Xira), pelo nome do local da sua igreja
Nossa Senhora da Purificação, ou do Carvalho (Bucelas), porque foi encontrada no interior de um carvalho
Nossa Senhora da Atalaia (Montijo)
Nossa Senhora de Tróia (Setúbal)
Senhora de Monte Sião (Almada)
Nossa Senhora da Arrábida (Almada)
Nossa Senhora do Cabo (Cabo Espichel)
Nossa Senhora da Escusa (…)
Nossa Senhora de Arrouquelas (Santarém)
Nossa Senhora do Mil-eu (Guarda), origem desconhecida, mas com algumas lendas associadas
Nossa Senhora do Templo (Guarda)
Senhora da Alagoa (Jarmelo)
Nossa Senhora do Cabido (Guarda), trazida de França
Nossa Senhora do Seixo (Fundão), por ter aparecido acima de um penhasco (ou “seixo”)
Nossa Senhora dos Açores (Vila de Açores)
Nossa Senhora da Serra da Gardunha (…)
Nossa Senhora dos Altos Céus (Lousã)
Nossa Senhora do Mosteiro (Castelo Branco)
Nossa Senhora de Mercoles (Castelo Branco), por ter sido encontrada a uma quarta-feira (i.e. “Mercoles” em Espanhol)
Nossa Senhora de Valverde (Castelo Branco)
Nossa Senhora da Granja (Proença a Velha), por ter sido encontrada numa granja
Nossa Senhora da Orada, ou a Alagada (Vila Velha de Ródão), em virtude de milagres que lhe estão associados
Nossa Senhora das Cabeças (Seixo Amarelo), origem desconhecida, invocada para as dores de cabeça
Nossa Senhora do Fastio (Covilhã), por ter aparecido no local com esse nome
Nossa Senhora da Ribeira (Abrantes)
Nossa Senhora do Incenso (Penamacor)
Nossa Senhora dos Carneiros (Guarda)
Nossa Senhora do Souto (Guarda)
Nossa Senhora do Almortão (Idanha a Nova)
Nossa Senhora de Almacave (Lamego), possível nome do reedificador do local?
Nossa Senhora de Cárquere (Lamego)
Nossa Senhora da Seixa (Lamego?)
Nossa Senhora da Lapa (Quintela)
Nossa Senhora de Aguiar (Castelo Rodrigo)
Nossa Senhora do Poreiro, ou Pereiro (Castelo Rodrigo)
Nossa Senhora do Campo (Almendra)
Nossa Senhora de Monforte (Pinhel)
Nossa Senhora de Sacaparte (Lamego)
Nossa Senhora das Amoras (Oliveira do Arda), por uma sua imagem ter aparecido entre amoras num sobreiro
Nossa Senhora do Pranto (Cinco Vilas)
Nossa Senhora dos Meninos (Lamego), pelo facto de os proteger
Nossa Senhora do Loreto (Almeida)
Nossa Senhora de Caliz (Lamego), porque veio de Cádiz
Nossa Senhora do Vizo (Numão), por causa de uma torre próxima do local onde é venerada
Nossa Senhora da Lapinha (Souto), por estar colocada no local de uma pequena lapa
Nossa Senhora do Anjo (Leiria)
Nossa Senhora do Fetal (Leiria), por ter sido construída a sua ermida num campo de fetos
Nossa Senhora da Gaiola (Leiria), pelos locais a terem colocado numa espécie de gaiola quando encontraram a imagem
Nossa Senhora do Real Convento da Batalha (Batalha)
Nossa Senhora das Areias (Aljubarrota), porque aparecendo a uma mulher, pediu para ser venerada sob esse nome
Senhora dos Murtinhos (Porto de Mós)
Nossa Senhora de Ceiça (Ourém)
Nossa Senhora da Ocaya, ou Olaia (Ourém), por existirem olaias em redor da ermida
Nossa Senhora de Radecouros, ou de Rio de Couros (Ourém)
Nossa Senhora da Urtiga (Fátima), porque foi encontrada num local repleto de urtigas
Nossa Senhora da Estrela (Marvão), apareceu com luzes semelhantes a estrelas
Nossa Senhora da Penha (Portalegre)
Nossa Senhora da Alegria (Portalegre)
Nossa Senhora de Flor da Rosa (Crato), origem desconhecida
Nossa Senhora de Rodes (Crato), originária de Rodes, foi depois trazida para Portugal
Nossa Senhora da Sanguinheira (Amieira), que apoia as mulheres com fluxos de sangue
Nossa Senhora da Confiança (Pedrógão Pequeno)
Nossa Senhora das Águas Feras (Pedrógão Pequeno), invocada pela primeira vez durante grandes cheias
Nossa Senhora das Preces (Cernache do Bonjardim)
Nossa Senhora da Anunciada (Tomar)
Nossa Senhora da Expectação (Tomar)
Nossa Senhora das Lapas (Tomar)
Nossa Senhora do Tesouro (Braga), talvez por ser guardada no tesouro de Braga
Nossa Senhora Branca (Braga), por causa da Santa Maria das Neves de Roma
Santa Maria de Bouro, ou Nossa Senhora da Abadia (Braga)
Nossa Senhora a Verónica (Guimarães), aparentemente uma cópia do Véu de Verónica
Santa Maria de Pombeiro (Guimarães), pelo local onde era venerado ser perto do Monte Columbino
Nossa Senhora de Pedra Maria (Felgueiras), por aparecer sempre sobre umas pedras
Nossa Senhora de Aboim (Braga)
Nossa Senhora da Humildade (Arcos de Valdevez)
Nossa Senhora do Vale (Arcos de Valdevez)
Nossa Senhora do Couto de Azere (…)
Nossa Senhora da Ínsua (Caminha)
Nossa Senhora do Carvoeiro (Braga), venerada num sítio em que antes se fazia carvão
Nossa Senhora da Basta (Landim), origem desconhecida
Nossa Senhora de Teixeira (Braga?), origem desconhecida
Nossa Senhora do Campo (Calavre)
Nossa Senhora de Jerusalém (Sandim da Serra)
Nossa Senhora da Vela (Torre de Moncorvo), por outrora ter sido muito venerada com uma vela
Nossa Senhora da Riba Cavada (Torre de Moncorvo)
Nossa Senhora da Franqueira (Barcelos), por causa de uma serra próxima
Nossa Senhora da Boa Fé (Barcelos?)
Nossa Senhora do Vau (Celorico de Basto), pelo seu templo ser próximo de um pequeno ribeiro
Nossa Senhora de Freiriz (…)
Nossa Senhora de Junias (Barroso)
Nossa Senhora da Balinha, ou Valinha (Braga), o nome vem do local do santuário
Nossa Senhora da Nó (Ponte de Lima), do monte onde está localizada
Nossa Senhora da Barca do Lago (Esposende), originária de uma lenda local
Nossa Senhora de Castro (Castro Laboreiro)
Nossa Senhora de Anumão (Castro Laboreiro), do local em que apareceu
Nossa Senhora do Farol (Valença)
Nossa Senhora de Cubalão (Couto de Paderne), originário do local
Nossa Senhora de Fiães (…)
Nossa Senhora de Távora (…)
Nossa Senhora da Pedra Leital (Famalicão), em cujo lugar as mulheres a quem falta leite são ajudadas
Nossa Senhora da Torre (Braga), porque está abrigada dentro de uma
Nossa Senhora de Vé a Todos (Vermoim)
Nossa Senhora da Água Levada (Vermoim), origem desconhecida, mas venerada pelos navegantes
Nossa Senhora de Águas Santas (Barcelos), possivelmente por uma fonte no local
Nossa Senhora de Fregim (…)
Nossa Senhora do Salvador, ou da Cadeia (Coimbra), a santa apareceu em sonhos a uma devota com uma cadeia (ou corrente) na mão
Nossa Senhora da Vida (Lorvão)
Nossa Senhora da Cerca (Tentúgal)
Nossa Senhora de Ceiça (Montemor-o-Velho), ver a lenda do Abade João
Nossa Senhora a Prenhada (Coimbra), por parecer grávida
Nossa Senhora da Lomba (Ílhavo), por ter aparecido numa “lomba”, ou cabeço
Nossa Senhora de Lamas (…)
Nossa Senhora do Beco (Aveiro)
Nossa Senhora dos Banhos (Mamarrosa), pela existência de banhos salutares onde era venerada
Nossa Senhora da Lumieira (Esgueira)
Nossa Senhora de Finis Terrae (Soure), origem desconhecida
Nossa Senhora do Cardal (Pombal), pelo seu santuário estar perto de um local com muitos cardos
Nossa Senhora de Montalto (Arganil), pelo local em que apareceu a sua imagem
Nossa Senhora da Vera Cruz (Gouveia)
Nossa Senhora de Celas (Gouveia)
Nossa Senhora das Preces, ou de Culcurinho (…)
Nossa Senhora da Sedarça (…)
Nossa Senhora dos Linhares (Gouveia), por aí existirem muitos “linhares”
Nossa Senhora do Porto (Gouveia), talvez por estar próxima de um porto
Nossa Senhora dos Covões (Alvaiázere)
Nossa Senhora de Condeixa (Condeixa a Nova)
Nossa Senhora de Chão de Calvo, ou Chão de Calvos (Mortágua)
Nossa Senhora da Moita (Penacova), encontrada no mato
Nossa Senhora da Sapiência (Coimbra)
Nossa Senhora da Tosse, ou da Carapinha (Gouveia), por ser invocada contra as tosses
Nossa Senhora de Vagos (…)
Nossa Senhora da Candosa (…)
Senhora de Vandoma (Porto), supostamente originária da cidade francesa de Vendôme
Nossa Senhora do Ferro (Porto), pela colocação de um ferro no local em que era venerada
Nossa Senhora da Boa Nova (Rio Leça)
Nossa Senhora da Hora, ou das Sete Fontes (Maia), por aí existir uma fonte com sete bicas
Nossa Senhora de Campanhã (Porto)
Nossa Senhora de Meinedo (Porto), do local em que é venerada
Nossa Senhora do Salto (Penafiel), origem com várias lendas locais
Nossa Senhora de Valinhos (…)
Nossa Senhora de Entre as Águas (Ovar), aparecida entre duas ribeiras
Nossa Senhora de Agosto (Porto), celebrada no dia 15 desse mês, em que subiu aos céus
Nossa Senhora das Chãs (Valongo)
Nossa Senhora do Marão (…)
Nossa Senhora do Gerês (…)
Nossa Senhora de Ermelo (…)
Nossa Senhora de Sobre Tâmega (Canavezes), aparecida sobre o rio
Nossa Senhora das Maleitas (Baião)
Nossa Senhora do Viso (Penaguião), origem desconhecida
Nossa Senhora do Miradouro (Fontes)
Nossa Senhora do Pedrogal (Viseu), encontrada entre pedras
Nossa Senhora de Cervães (Póvoa de Cervães)
Nossa Senhora da Esperança do Lugar (Tondela), origem desconhecida
Nossa Senhora dos Verdes (Chãs), evocada para protecção contra pragas dos campos
Nossa Senhora de Penabouga (Lamego), do seu local, i.e. “Penha do Bouga”
Nossa Senhora de Silgueiros (…)
Nossa Senhora do Sepulcro (Trancoso), semelhante à da Piedade
Nossa Senhora da Fresta (Trancoso)
Nossa Senhora dos Carvalhais (Oliveira do Conde), aparecida entre carvalhos
Nossa Senhora de Lourosa (…)
Nossa Senhora da Rua Fria (Santa Ovaia de Baixo), potencialmente tomou o nome de um local agora desaparecido
Nossa Senhora do Guardão (Viseu)
Nossa Senhora da Boa Morte (Lafões)
Nossa Senhora da Decide (Lafões), do local em que foi encontrada
Nossa Senhora das Romãs (Barrocal), não se referindo à fruta, mas à povoação
Nossa Senhora das Colmeias (Vila Maior), pela santa ter aparecido num local com colmeias
Nossa Senhora do Freixo (São Pedro de Cota), pela potencial existência dessa árvore no local
Nossa Senhora do Ribeiro de Frades (…)
Senhora dos Escravos (Lourosa de Cima), origem desconhecida
Nossa Senhora da Ouvida (Ranhados)
Nossa Senhora de Magide (Pinhel), possivelmente originária de “me ajude”
Nossa Senhora das Flores (Sezulfe), descoberta na Primavera, entre muitas flores
Nossa Senhora das Pousadas (Mascarenhas), porque dá pousada aos peregrinos
Nossa Senhora do Sardão (Bragança), apareceu sobre uma árvore desse tipo
Nossa Senhora de Balsamão (Chacim), por ter aparecido com um bálsamo para ajudar cristãos feridos
Nossa Senhora de Cara-Mouro (Chacim), pelos Cristãos dizerem “veremos a cara ao Mouro” antes dos combates(?)
Nossa Senhora do Nazo (Lugar da Póvoa)
Nossa Senhora do Azinhoso (…)
Nossa Senhora de Roncesvalles (Bragança), por ligação com a francesa(?)
Nossa Senhora das Veigas (Bragança), das “veigas”, ou vales, onde foi encontrada
Nossa Senhora da Hedra (Bragança), ou da hera, por razões desconhecidas
Nossa Senhora das Brotas, ou Abróteas (Évora)
Nossa Senhora da Presentação (Évora), possivelmente da apresentação de Maria no templo
Nossa Senhora da Vila (Montemor o Novo), por ser tutelar da então-vila
Nossa Senhora do Bispo (Montemor o Novo), pela sua igreja ter sido dos bispos
Nossa Senhora do Peso (Coruche), porque eram dados muitos “pesos”, ou quantidades, de trigo à santa
Nossa Senhora das Relíquias (Estremoz), por razões desconhecidas
Nossa Senhora da Coroa (Estremoz), em virtude de uma coroa de flores que lhe era dedicada numa lenda
Nossa Senhora das Angústias (Estremoz)
Nossa Senhora do Repouso (Estremoz), por ter sido o leito em que Deus descansou
Nossa Senhora das Servas (Borba)
Nossa Senhora de Monte Virgem (Redondo), por nesse monte ter sido encontrado a imagem
Nossa Senhora do Tojal (Mourão), por ter aparecido entre tojos
Nossa Senhora do Alcance (Mourão)
Nossa Senhora da Palma (Beja), vinda da Índia?
Nossa Senhora de Aires (Viana de Alentejo), ou “ares”, que se diz feita pelos anjos
Nossa Senhora de Ara Coeli (Alcácer do Sal?), uma “ara ao céu”, por contraste com uma ara aos antigos deuses que tinha existido no local
Nossa Senhora da Cinta (Alcácer do Sal), por ter uma correia de couro
Nossa Senhora das Salas (Sines)
Nossa Senhora do Queimado (Sines), porque queimou uns Mouros que atacavam uma ermida local
Nossa Senhora de Benafile (Évora), por corrupção de “boa fé”
Nossa Senhora da Foz (Benavente), por estar no sítio da foz do Tejo
Nossa Senhora de Vila Viçosa (…)
Nossa Senhora dos Pobres (Loulé)
Nossa Senhora da Rocha (Porches), por ela ter aparecido no local
Nossa Senhora do Repouso (Faro), origem desconhecida
Nossa Senhora de Vila Velha (…)
Nossa Senhora da Divina Providência (Lisboa)
Nossa Senhora da Bonança (Lisboa), invocada por navegantes e pescadores
Nossa Senhora de Jesus (Lisboa)
Nossa Senhora da Caridade (Lisboa)
Nossa Senhora da Doutrina (Lisboa)
Nossa Senhora a Estrela do Mar (Lisboa?), por ter uma estrela na testa
Nossa Senhora de Alpompé (…)
Nossa Senhora do Zambujeiro (Cadafães), por ter aparecido nessa árvore
Nossa Senhora del Carmen (Serra da Arrábida), pela devoção à Senhora do Carmo por parte de uma fundadora espanhola
Nossa Senhora da Pinha (Serra da Arrábida), por ter salvo uma devota com uma pinha
Nossa Senhora dos Matos (Abrantes), pelo seu santuário estar cercado de mato
Nossa Senhora das Casas (Sandim), porque curava logo as pessoas quando era levada a suas casas
Senhora da Solidão de Ferreirim (…), pelo santuário estar num local muito solitário
Nossa Senhora das Águias (Lamego), pelo santuário estar perto de uma torre em que existiam estas aves
Nossa Senhora de Chaves (…)
Nossa Senhora dos Envendos, ou Emendos, ou Inventos (Eixo)
Nossa Senhora do Postigo, ou da Verdade (Porto), por estar numa das portas da cidade(?)
Nossa Senhora da Ourega, ou Tourega (Évora), de um antigo nome do local em que a igreja está
Nossa Senhora a Douradinha (Loulé)
Nossa Senhora da Várzea (Vilar de Frades)
Nossa Senhora do Bosque (Borba)
Nossa Senhora do Couto (Coimbra)
Nossa Senhora da Piedade de Salvaterra (Arrábida)
Nossa Senhora de Campos (Montemor o Velho)
Nossa Senhora do Milagre da Cera (Évora)
Nossa Senhora das Barracas (Lisboa), por ter aparecido em cima de uma…
Nossa Senhora da Fonte Santa (Bencatel)
Nossa Senhora do Guincho? (Cascais)
Nossa Senhora dos Cheiros (Provesende)

Um outro dos nomes de Nossa Senhora - a do Ó!

Essencialmente, parece que os nomes de Nossa Senhora ou derivam de um local em que ela apareceu – seja pessoalmente, ou apenas na forma de uma imagem miraculosa – ou de alguma lenda popular que lhe está associada em dado local, mas existiam, já nessa altura, muitos nomes cuja verdadeira origem o tempo tinha feito esquecer, e.g. o caso de Nossa Senhora da Hedra.

 

Porém, deixe-se muito claro que estes não são TODOS os nomes de Nossa Senhora em Portugal – recorde-se, por exemplo, que em inícios do século XVIII ainda não existia a Nossa Senhora de Fátima (mas já existia uma tal “Nossa Senhora da Urtiga” nessa povoação…), e que decidimos não incluir todos nesta listagem – mas esta pequena lista serve para ilustrar algumas das muitas designações que ela já teve no nosso país, e serve também de curiosidade para quem, como nós, se tiver interrogado, na sequência do artigo do jornal, sobre essas centenas de nomes da santa, de que aqui reproduzimos alguns… por isso, já sabem, se alguém tiver curiosidade sobre algum dos nomes que Santa Maria recebeu por cá, bastará deixar um comentário e logo veremos se o conseguimos descortinar!

Ainda existe um Templo Romano em Sintra?

Há já algum tempo que nos vieram perguntar se existe algum Templo Romano em Sintra. E de facto, quando se pensa em vestígios arqueológicos do tempo dos Romanos em Sintra, a possível existência de um templo aos deuses de outrora nesta região, de algo semelhante ao Templo de Diana eborense, raramente cruza a mente do viajante comum. Se até existem vestígios vagos de um recinto dessa natureza na zona da Praia das Maçãs, mais precisamente no chamado “Sítio Arqueológico do Alto da Vigia” (a National Geographic até escreveu recentemente um artigo interessante sobre o local), em que foram encontradas agora-famosas inscrições latinas ao Soli et Lunae (as tais que fizeram da serra local o “Monte da Lua”), pouco mais na região levanta, hoje, a ideia de que ele ainda possa existir. Assim, hoje decidimos apresentar um dado local aos leitores e deixá-los julgar as provas por si mesmos.

 

Perto da aldeia de Janas, que fica a cerca de oito quilómetros do centro da vila de Sintra, em Portugal, pode ser encontrada, na beira da estrada, uma capela ou ermida que tem hoje o nome de São Mamede de Janas. A uma primeira vista, ou para aqueles que percebam pouco destes temas, o local actual pouco ou nada parecerá ter de romano, como tendemos a imaginar a arquitectura da altura, até que, com algum estudo, se notem três elementos dignos de nota:

Possível Templo Romano em Sintra, a Capela de São Mamede de Janas

Primeiro, esta capela tem uma planta circular, o que não é muito comum nos locais de culto do Cristianismo, que têm mais habitualmente uma planta rectangular ou em forma de cruz. Contudo, alguns templos romanos também tinham uma forma circular, muitas vezes para permitirem uma fácil circulação de animais no seu interior – e, se isso acontecia em alguns recintos de culto pagão, também sabemos que já aconteceu, no passado, neste espaço que tomou o nome de São Mamede de Janas (actualmente, parece que os animais apenas o circundam pelo exterior).

 

Depois, o local está localizado em “Janas”. Quando a deusa Diana era venerada juntamente com o deus Jano, ela tomava o nome de Jana e o par divino era, de um ponto de vista simbólico, considerado como a Lua e o Sol. Isto torna-se particularmente interessante em virtude do facto de já terem sido encontradas inscrições a esses dois astros na mesma região, o que prova que os Romanos veneravam, de facto, deuses como estes nas localidades próximas – o “Sítio Arqueológico do Alto da Vigia”, já referido acima, está a escassos de cinco quilómetros deste local.

 

Ainda, esta espécie de igreja toma hoje o nome de São Mamede [de Cesareia], que é venerado no calendário católico a 17 de Agosto, e nos locais que a circundam ainda toma lugar, entre os dias 15 e 17 desse mês (ou, mais recentemente, até entre 12 e 20), uma romaria. Ao mesmo tempo, o deus Jano tinha um festival a 17 de Agosto, enquanto que um dos festivais mais famosos consagrados à deusa Diana tomava lugar entre os dias 13 e 15 do mesmo mês.

A ser pura coincidência, tudo se torna ainda mais estranho se tivermos em conta que São Mamede é aqui visto como um “santo protector do gado”, mas esse atributo não lhe parece ser associado em outros locais, em que essa tarefa é frequentemente ocupada por Santo Antão (também conhecido como Santo António do Deserto, que não deve ser confundido com o “nosso” Santo António). Porém, a ligação da deusa romana com a caça, com os vários animais e até com a fertilidade é bem conhecida e está bem atestada de uma forma horizontal na literatura da Grécia Antiga e dos Romanos.

 

Se tudo isto parece indicar a existência de um antigo templo romano em Sintra, ainda devemos considerar as provas que indicam o contrário. E há uma que é preponderante – lemos que em finais do século XX foram feitas escavações arqueológicas no local e foram encontradas duas estruturas anteriores, uma do século IX e outra do século XII, o que parece refutar a possibilidade de que tenha existido aqui um templo romano.

Será, por isso, que existiu um templo pagão próximo deste local, mas não necessariamente aqui, e que a forma deste espaço religioso é apenas uma vicissitude da arquitectura renascentista, que alguns até atribuem a Francisco de Holanda? Serão o nome da povoação, e os rituais aqui praticados, uma estranhíssima coincidência do acaso? Ou será que esta ermida ou capela de São Mamede de Janas foi construída para fomentar o abandono de um antigo culto local, de raízes pagãs mas já sem um templo físico, providenciando alternativas cristãs a um conjunto de rituais que as populações locais se recusavam continuamente a abandonar?

Não sabemos. Com excepção das provas arqueológicas, tudo levava a crer que existiu mesmo um templo romano em Sintra, neste preciso local, e que até poderia ter uma história notável. Sabe-se que Diana foi uma das deusas romanas cujo culto perdurou mais tempo (ver, por exemplo, a explicação por detrás do nome do Templo de Diana em Évora), e que ela foi venerada na zona de Sintra, possivelmente até na companhia do deus Jano. Isto é difícil de negar, que existiu nesta região um templo associado a pelo menos um dos dois deuses, mesmo que ele não tenha estado localizado aqui.

Depois, com o passar dos séculos, o local que lhe(s) esteve consagrado poderia ter sido transformado em local de culto cristão, mantendo-se a sua ligação original aos animais (que ainda eram abençados no local, por se acreditar que assim manteriam a sua saúde e vitalidade), e o nome da antiga figura divina teria sido substituído pelo de uma figura cristã bem conhecida em Portugal e venerada mais ou menos na mesma altura do ano. E esta seria uma boa possibilidade, sem qualquer dúvida, que até faria com que as diversas peças encaixassem quase na perfeição, mas as provas arqueológicas parecem afirmar que tudo isto é uma mera coincidência e nada mais…

 

Portanto, será que a capela ou ermida de São Mamede de Janas foi, em outros tempos, um templo romano em Sintra? Se grande parte das provas apresentadas acima parecem sugerir uma resposta afirmativa, as provas arqueológicas presentes no local parecem afirmar-nos o contrário. Contudo, é igualmente necessário ter algum cuidado com estas afirmações – isto não é o mesmo que afirmar que nunca existiu um recinto religioso dos Romanos no “Monte da Lua”, mas sim que ou ele não esteve localizado neste local preciso, como supúnhamos, ou todas as provas dessa antiga presença in situ se perderam por razões desconhecidas e muito difíceis de explicar.

Beringel e Panóias, dois brasões portugueses

Segundo a informação que temos, serão quase 3100 as freguesias que existem em Portugal. Cada uma delas, se não mesmo todas, têm um brasão associado, e entre eles contam-se representações muito curiosas. Por isso, hoje falamos de dois estranhos brasões de Portugal, os de Beringel e de Panóias.

Os estranhos brasões de Beringel e de Panóias

O primeiro deles, de Beringel, localidade próxima de Beja, é definido da seguinte forma oficial – “Escudo de vermelho, com dextrochero de ouro, com um voo adossado do mesmo e empunhado de uma espada de prata, encabada de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: BERINGEL.

O segundo, de Panóias, localidade próxima de Ourique, define-se oficialmente assim – “Dois braços de carnação vestidos um de ouro, outro de prata, passados em aspa, em ponto de honra. Escudo de azul, com dois braços de carnação vestidos um de ouro e outro de prata, passados em aspa; em ponto de honra, uma cabeça de homem de carnação, com barba e cabelos de negro sobre nimbo de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: PANÓIAS – OURIQUE.

 

Agora, tendo-se em conta que os muitos brasões de Portugal têm sempre a representação de uma lenda local (relembrem-se os casos de Coimbra, de Lisboa e de Moura) ou de algo que caracteriza a região (como nos casos de Benfica, de Matacães, ou da Quinta do Anjo), o que dizer em relação a estes dois? Em ambos os casos parece ser notório que caem na primeira das duas categorias, mas não conseguimos encontrar, mesmo nas fontes literárias mais antigas, qualquer explicação para estas representações, com excepção de um pequeno elemento – originalmente, a cabeça apresentada no brasão de Panóias era a de Jesus Cristo (se os braços lhe pertencem, porquê as cores diferentes para cada um deles?). Sobre a representação presente no de Beringel, nada.

É, portanto, bastante provável que o seu verdadeiro significado nunca volte a ser conhecido, tendo a altura em que ambos os brasões foram desenhados ficado para sempre perdida nas areias do tempo…