A verdadeira origem do nome do Chiado

Qual é, na verdade, a origem do nome do Chiado lisboeta? “Ele veio de um poeta” – diriam alguns – “até existe uma estátua à saída da estação do metro!” Mas… e se vos dissermos que podem estar enganados? Numa cidade que até ao Terramoto de 1755 esteve tão pejada de nomes religiosos, porque haveria de existir uma zona com o nome de um poeta que, admita-se em toda a verdade, já quase ninguém leu? É a busca por esse significado que aqui iremos apresentar hoje, mas tenha-se em conta que as linhas que se seguem serão longas…

Qual a origem do nome do Chiado?

Portanto, pense-se no seguinte. Historicamente, a termos de dar o nome de um poeta nacional a uma zona de Lisboa, a escolha mais óbvia seria Luís de Camões (com ou sem pala no olho). E falamos até desse autor dos Lusíadas porque no prólogo do seu Auto do El-Rei Seleuco, de meados do século XVI, surge uma frase curiosa da boca de uma das personagens:

Ainda vossas mercês não ouviram uma trova. Faço-as tão bem como o Chiado.

Depreende-se, portanto, que no tempo de Camões, ou um pouco antes, existisse uma figura conhecida pelas suas trovas com este nome real ou alcunha. Visto que esse nome não abunda em Portugal, depreende-se, quase automaticamente, que também tenha sido ele a dar o nome à zona lisboeta – caso encerrado, nesta busca pela origem do nome do Chiado? Não, nem por isso, porque se se pensar mais no tema nota-se o estranho que toda essa possibilidade é, mesmo que se queira supor, como alguns já fizeram, que o poeta tenha vivido na zona – como explicar que um autor de segunda ou terceira linha tenha dado o seu nome a algo no século XVI, quando o grande autor dos Lusíadas não o fez?!

Assim, face a este problema, já outros dizem que o nome veio de um taberneiro lisboeta da época, um tal “Gaspar Dias”, que supostamente tinha a sua casa comercial na zona. O que, no entanto, levanta outra dúvida – como é que sabemos isso?! Quer dizer, se alguém associa o nome que buscamos seja ao poeta (que, na verdade, nasceu António Ribeiro), seja a este Gaspar Dias, de onde lhe vem mesmo essa informação? É uma questão verdadeiramente importante, mas que as muitas respostas encontradas na internet e em jornais tendem repetidamente a ignorar…

 

Em busca de uma resposta mais fiável traçámos a fonte dessas informações até finais do século XIX, inícios do XX, altura em que Alberto Pimentel decidiu editar algumas das obras do poeta, então já muito esquecidas. No seu livro Obras do Poeta Chiado, em jeito de prefácio este autor defende, recapitulando as diversas opiniões anteriores, que essa personagem veio para Lisboa em meados do século XVI, depois de abandonar uma vida religiosa, e se tornou tão famosa que acabou por dar nome ao local em que viveu.

Porém, anos mais tarde, no livro O Poeta Chiado, o mesmo autor acrescenta que encontrou um novo documento, que os seus antecessores não consultaram (i.e. foi ele o primeiro a trazer à luz essa informação, permitindo defini-lo como a fonte dessa informação), e que atesta que até circa 1567 tinha vivido em Lisboa, mais precisamente na Rua Direita da Porta de Santa Catarina*, um “Gaspar Diaz o chyado d’alcunha vynhateiro” (ou “Gaspar Diaz Chyado”). Como o autor admite igualmente, não se percebe se a alcunha deste homem era Chyado ou Vynhateiro, mas a presença do artigo “o” na primeira referência, bem como a referência habitual à profissão em documentos da época, pode dar a indicar a primeira hipótese. Infelizmente não conseguimos consultar o próprio documento – ele está na Torre do Tombo mas não se encontra digitalizado (não é caso único) – mas fazendo fé apenas na transcrição parcial de Alberto Pimentel, em lado nenhum é dito que este homem tinha uma taberna (ele parecia fazer ou vender vinho, o que não é bem o mesmo).

Ao mesmo tempo, o autor também encontrou num manuscrito de título Diversas historias e ditos facetos a diversos propositos, que nos diz que “deve ser anterior ao ano de 1617”, um conjunto de histórias jocosas referentes a um homem astucioso deste nome. Não as cita directamente, parafraseia algumas delas, não sendo 100% claro pelo seu texto se se referem sempre ao poeta ou também a outra figura; o documento parece estar na Torre do Tombo**, mas entre as várias tramas aí apresentadas conta-se a seguinte, que aqui reproduzimos a puro título de curiosidade:

Passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes atenção, ouviu-os dizer:
– Eu tomara ser bispo.
– Eu tomara ser papa.
– Eu tomara ser rei.
O “herói”, acercando-se deles, interpelou-os dizendo:
– E sabeis vós o que eu tomara ser?
– …?
– Tomara ser melão, para que me beijardes [no sítio onde se beijam os melões]***.

Essas descobertas levantam três grandes possibilidades… se o nome da zona de Lisboa ainda não parecia existir antes do século XV, quem lhe deu essa designação? O poeta, o vinhateiro, ou uma possível figura popular de identidade incerta? Alberto Pimentel parece resolver o problema identificando o terceiro com o poeta e dizendo que António Ribeiro veio para Lisboa e ficou em casa de Gaspar Diaz, possibilitando uma espécie de transferência de alcunhas… o que é estranho, porque não é por termos um amigo com uma dada alcunha que nos começam a chamar o mesmo! Então, se várias figuras partilhavam esse mesmo nome, de onde vinha ele? Conforme a mesma obra também esclarece, na altura a palavra significava nada mais, nada menos, que “astuto” – algo que tanto o comerciante de vinhos, como o poeta e a figura popular, poderiam ter sido!

 

Portanto, a acreditarmos que viveram mesmo na zona em questão, e que até o possam ter feito na mesma altura, poderá ser isso que contribuiu para a dificuldade em descobrir a identidade da figura por detrás da origem do nome actual. Hoje, quando dizemos “vamos ali a X”, depreende-se que esse X tenha lá algo de notável – mas seria uma loja de Gaspar Diaz, ou o local em que um poeta, potencialmente famoso na cultura popular da época por mais do que os seus versos, tinha vivido? Será que alguns poemas eram declamados sob o efeito do dom de Baco, como algumas historietas parecem indiciar vagamente? Será que as figuras até se conheciam? Ou, talvez até mais importante, qual delas tinha um maior potencial para não ser esquecida ao longo do tempo? De uma forma irónica deve notar-se que ambas foram (quase) esquecidas, daí até a dificuldade em saber-se qual delas a mais – e menos – importante… mas, a tratar-se mesmo do poeta, ele poderá ter sido famoso entre o povo não tanto pelos seus versos, hoje quase olvidados, mas por todo um conjunto de histórias populares brejeiras que lhe foram sendo associadas – conforme apontado por Alberto Pimentel, pelo menos uma delas aparece mais tarde também associada a Bocage, dando-nos a perceber que a sua verdadeira origem já estava esquecida na segunda metade do século XVIII.

 

Quando a estátua foi colocada no local, foi-o por se considerar horizontalmente o poeta, o autor de trovas, como a origem do nome popular do Chiado. Mas foi-o quase sem provas reais, porque se depreendeu que o incomum nome só poderia mesmo vir dele. Mas, acreditando então que existiu no local uma loja de vinhos proeminente (o documento já referido acima dá a entender que o seu proprietário e a respectiva esposa tinham posses significativas), será que ela não poderá ter sido, numa dada altura, tão popular que passou a dar o nome à rua em que estava localizada, e que o facto de António Ribeiro também ter vivido lá é pura coincidência? Poderá pensar-se em toda a questão da seguinte forma – quando alguém nos diz “vou ali ao Ronaldo”, se a casa do futebolista for em frente a um restaurante com mais de 50 anos que até partilha o mesmo nome, como sabemos nós a que local a pessoa se referia? Sabemo-lo porque a conhecemos, conhecemos os seus hábitos e o seu contexto pessoal… mas no caso aqui em questão, e desconhecendo-se hoje o contexto da época, é difícil conseguir tirar essa conclusão.

 

Assim sendo, qual é a verdadeira origem do nome do Chiado? Numa dada altura do século XVI viveu numa determinada rua lisboeta um Gaspar Diaz, comerciante de vinhos, que tinha essa alcunha – isso é certo! Mas crê-se, agora com menos certezas, que António Ribeiro, poeta e potencial herói de histórias brejeiras, também aí tenha vivido e partilhado a mesma alcunha. É, na nossa opinião, possível que tenha sido a conjugação de todos estes factores que levou ao nome popular da rua, mas também à enorme dificuldade em traçar a sua verdadeira origem. Por isso, afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o nome veio mesmo do trovador – hoje quase esquecido, mas um dia também conhecido por meio de algumas aventuras ordinárias – não é completamente certo… e essa é a melhor resposta que temos para dar, pelo menos neste momento!

 

 

*- Pelo contexto depreende-se que tenha sido uma perpendicular à Rua da Misericórdia. A porta em questão, que dava nome à antiga rua, foi demolida no início do século XVIII, mas um pedaço da muralha ainda pode ser visto no interior do número 12 da Rua da Misericórdia.

**- Um enorme agradecimento aos funcionários da Torre do Tombo, que nos permitiram localizar este documento – aparentemente ele é o número 1817 dos manuscritos da livraria, mas ainda não está disponível online. A informação interna apenas informa que a obra em questão inclui “poesias, anedotas e notícias várias”.

***- Essa censura partiu do próprio Alberto Pimentel, que admitiu que algumas das histórias presentes no documento eram de natureza “pornográfica”.

As comunidades trans são cultos?

Poderá, a uma primeira vista, parecer estranho que aqui nos interroguemos se as comunidades trans são cultos, pelo que convém explicar o porquê de toda a questão. Será verdade, ou apenas um mito dos nossos dias? Há uns dias recebemos informação de que havia uma intenção recente de restringir o acesso a um livro recém-publicado da autoria de Abigail Shrier, Irreversible Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters, que era apresentando entre determinados grupos – sempre transexuais e transgénero – como “transfóbico” e (quase) como a pior ofensa da história do nosso universo. Então, como nos é comum nestes casos, decidimos que tínhamos mesmo de o ler.

'Irreversible Damage' e as comunidades trans como cultos

É, sem qualquer dúvida e de facto, um livro a que alguns gostariam de chamar muitíssimo abominável e perigoso, mas só porque levanta um conjunto de questões inquietantes sobre uma moda que há uns anos se espalhou pelo mundo fora, e que passa por um conjunto de pessoas, quase sempre mais novas e com sintomas claros de depressão, se identificarem como trans quase somente porque os amigos também o declaram e porque, em comum, vêem que isso é representado como muito positivo entre determinadas subculturas nas redes sociais. Mas já lá voltaremos. Entretanto, há algumas semanas um dos nossos colegas apresentou numa conferência um tema relacionado com cultos religiosos, e então apercebemo-nos, pelo mais completo acaso, de que existiam vectores comuns entre esses cultos, de que já cá demos um exemplo, e as comunidades transfrequentes nas mais diversas redes sociais. Nesse sentido, se discutir todas as características que um culto deve ter ultrapassa o nosso objectivo de hoje, podemos dar quatro exemplos basilares:

Love Bombing

Quando uma pessoa se junta a um culto é automaticamente bafejada por um processo que os anglófonos chamam love bombing, e que passa por lhes ser mostrada toda a atenção e afecto do universo. Isto faz com que a pessoa – que, normalmente, está deprimida e a precisar bastante dessa atenção extra, razão pela qual foi conduzida a uma solução para a sua vida que esse culto apresenta – não questione a sua decisão, até porque todos a asseguram de que, mesmo que tenha quaisquer dúvidas, é o correcto e o melhor a fazer.

 

Indoutrinação

Em ambos os casos, os aderentes são introduzidos a um conjunto de vocabulários e práticas características do endogrupo, que lhes permitem identificarem-se entre si. São ensinados a não questionar nada, a ver que o mundo está todo contra eles – excepto os que também pertencem ao mesmo grupo, já eles também indoutrinados – e até lhes são fornecidos um conjunto de fontes de informação que reafirmam constantemente e sem qualquer divergência os diálogos internos. Por exemplo, ensina-se que quem não aceitar automaticamente a conversão a um desses grupos é “tóxico”, uma “pessoa supressiva”, “transfóbico”, “TERF”, etc.

 

Mentalidade de grupo

Tanto os cultos como estas comunidades movem-se como um grupo e repetem quase exclusivamente o pensamento vendido pelos seus líderes. Isto é particularmente fácil de notar no caso da obra Irreversible Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters; quem for ler a página do livro na Amazon poderá notar que tem neste momento 8% de supostos leitores que lhe deram a pior nota possível, mas entre essas 300 críticas quase ninguém leu o livro em questão, como o próprio sistema demonstra. Criticam-no não porque o tenham lido, mas porque o endogrupo já lhes vendeu uma ideia do que ele contém e, fruto da indoutrinação, ninguém consegue questionar essa ideia. Isto torna-se mais interessante se notarem até que a retórica dessas críticas é quase robótica e assenta quase sempre nos mesmíssimos pontos – como até é comum nos cultos!

 

Quem sai do grupo é vilificado

Em ambos os casos, quem sai do grupo torna-se, automaticamente, o pior ser humano que alguma vez existiu. Se menos de 24 horas antes até podia ser uma pessoa fantástica, ao sair do grupo tem de ser completamente abandonada e tratada de uma forma que o grupo decidiu antecipadamente, e que normalmente passa pelo chamado shunning, essencialmente para impedir que possa causar dúvidas ou abandono em outros membros. Porém, é também curioso que se a pessoa voltar depois ao grupo, por uma qualquer razão que nos transcende, todos esses acontecimentos são rapidamente esquecidos.

 

Em sentidos como estes, entre muitos outros, é correcto dizer que as comunidades trans são cultos, porque partilham de elementos comuns. Poderia pensar-se que não têm um elemento religioso, mas na verdade eles oferecem uma veneração quase religiosa face a determinadas figuras que, para eles, atingiram ou pretendem atingir determinadas coisas que o endogrupo vê como positivas – basta ver-se, por exemplo, o boom que a identificação como trans sofreu com o caso de Bruce Jenner, tal como um determinado culto se apoia em Tom Cruise para a sua relevância.

 

Volte-se, por isso, ao livro Irreversible Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters. Ele não é anti-trans. O que ele faz é demonstrar que existe, neste momento, uma tendência muitíssimo preocupante nas sociedades ocidentais, em que crianças e adolescentes são convencidos de que “nasceram no corpo errado”, e que depois a chamada “terapia afirmativa” os faz acreditar mesmo que sim. Sobre isto, existe uma citação muito interessante na obra, em que um médico diz:

“I can’t think of any branch of medicine outside of cosmetic surgery where the patient makes the diagnosis and prescribes the treatment. This doesn’t exist. The doctor makes the diagnosis, the doctor prescribes the treatment. Somehow, by some word magic or word trickery, gender [activists] have somehow made this a political issue.”

A uma pessoa comum pareceria óbvio que uma criança ou um adolescente não sabe, não pode saber, já o que quer para todo o seu futuro. De facto, se temos um filho ou uma filha e eles nos pedirem para comer só bolos e a todas as refeições, naturalmente que não o aceitamos. Se eles nunca quiserem ir à escola, em vez de o aceitarmos de forma inquestionada interrogamo-nos sobre a razão para tal. Mas, na “terapia afirmativa” que nos querem vender hoje em dia, encapotada sempre sob acusações de transfobia, se uma criança ou adolescente quiser ser trans, dizem que não só devemos aceitá-lo como apoiá-lo plenamente. Portanto, se um menino de três anos disser que quer ser astronauta, rimo-nos; se disser que gostava de ser um cão e nos “ladrar”, sorrimos; mas se nos disser que quer ser menina, devemos automaticamente apoiar essa ideia e procurar um especialista que lhe reafirme constantemente esse suposto desejo (mas, curiosamente, nenhum dos dois anteriores). E isso, a uma pessoa comum e que esteja de fora destes ambientes, deveria parecer aquilo que verdadeiramente é – um enorme absurdo! Ou, se preferirem uma citação directa de quem investigou este tipo de coisas, Helen Joyce, na sua obra Trans: When Ideology Meets Reality admite o seguinte:

Reading [acerca de tudo isto] as an outsider, these parents seem to have collectively lost their minds.

 

É grave que, hoje em dia, muitas comunidades vendam essa mesma atitude e mentalidade de verdadeiros cultos, em que se pretende construir um ideal constante de “quem não está comigo está contra mim”. Já Cícero, no seu Sobre a Amizade, alertava para o perigo de atitudes como essas, mas J. K. Rowling, a autora do Harry Potter, o disse de uma forma fantástica, quando recentemente afirmou o seguinte:

J. K. Rowling e as comunidades trans como cultos

Talvez seja essa a forma mais fácil de afirmar e provar que as comunidades trans são cultos. Isso não é, de todo, um mito. Ambas criam um enorme ambiente de “nós VS eles”, em que o “outro” é constituído como tão indigno da sua humanidade que tudo se torna permissível face a ele, e em que se passa de bestial a besta só porque uma opinião, por pequena que seja, não é totalmente condizente com a vendida e partilhada entre os membros do grupo.

 

Nestes sentidos, se um culto pode ser definido como uma “forma extrema de uma qualquer religião”, só podemos sugerir uma coisa – se são pais e têm um filho ou filha que recentemente se identificou como trans, leiam este livro e vejam como os casos (reais) que são reportados lá se lhe aplicam. É o mínimo que podem fazer, porque tal como se supõe que não deixariam os vossos filhos cair num culto religioso, também os devem proteger de coisas semelhantes, e o melhor remédio para tudo isso é informação – a mesma informação a que os cultos tentam restringir o acesso, sob pena de os reconhecermos como tal. E, quando vos chamarem “transfóbicos”, respondam simplesmente que se essa palavra é agora usada para designar uma não-pertença a um culto, o poderão aceitar ser com todo o gosto.

 

P.S.- Posteriormente encontrámos esta imagem, que ainda capta melhor essa relação de movimentos entre as comunidades trans e o cultos…

Será que as comunidades trans são mesmo cultos?

A receita secreta dos Pastéis de Belém revelada

Gostariam de conhecer o segredo da receita dos Pastéis de Belém, aqueles que se vendem apenas numa única casa comercial da cidade de Lisboa? E será que a conseguimos mesmo revelar aqui, como há uns poucos dias nos foi pedido..? “Pede e te será dado”, como dizia São Mateus e como tende a ser sempre o nosso objectivo, mas responder a esse pedido implica, antes de mais e em termos de uma introdução importante, contar uma história breve, mas que também se prolonga por mais de duas centenas de anos, até para que possam compreender bem a origem da receita (secreta) que vamos apresentar abaixo.

O segredo dos Pastéis de Belém

Assim sendo, quem for a Lisboa e adquirir os Pastéis de Belém na respectiva casa poderá notar, sem qualquer dificuldade e de uma forma que até é muito publicitada nas próprias embalagens, que eles são produzidos “desde 1837”. E porquê essa data, em particular…? Como iremos ver, ela dá-nos uma pista preciosa sobre toda a origem deste afamado bolo lisboeta.

 

Podemos considerar que o nosso caminho em busca da receita dos Pastéis de Belém começou com o terramoto de 1755. Três anos mais tarde, em 1758, os Távoras foram acusados de ter tentado assassinar o rei D. José I. Como diz a famosa história portuguesa, que todos conhecemos de tempos de escola, o grande palácio dessa família foi destruído e o seu terreno foi salgado por ordem do Marquês de Pombal, para que nada aí voltasse a crescer até ao final dos tempos. Agora, partindo da famosa loja aqui em questão, quem for na direcção do Mosteiro dos Jerónimos poderá encontrar, na segunda ruela à direita, o chamado “Beco do Chão Salgado”, onde está o famoso pilar que anuncia toda esta ocasião e demarca o respectivo terreno. O seu texto não é fácil de ler hoje em dia, mas termina com uma frase agora famosa – (…) Neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum.

Os anos foram depois passando. D. Maria I, que não gostava nada do Marquês de Pombal, mandou anular muito de aquilo que o estadista tinha instituído, incluindo a proibição de construção nos terrenos que tinham sido dos Távoras. Como na altura o local em questão, hoje chamado “Rua da Belém”, estava quase em frente ao rio Tejo (ver imagem abaixo), era naturalmente um local muito apetecível para a construção, e então os locais desse antigo palácio – que provavelmente se prolongava do Palácio Nacional de Belém até ao Mosteiro dos Jerónimos – foram rapidamente ocupados por diversas construções, num local que antes estava quase reservado aos palácios dos maiores nobres do país.

O Mosteiro dos Jerónimos antes de 1755

Depois, os anos foram passando, mais uma vez, até que se chegou ao ano de 1834. Nessa altura foram extintas as ordens religiosas, e então os monges da Ordem de São Jerónimo tiveram de sair do local em que viviam. Contudo, até essa data os monges do Mosteiro dos Jerónimos, como os de muitos outros locais semelhantes em todo o país, tinham por hábito fazer doces e seguiam um conjunto de receitas que se presume que lhes fossem secretas. Não sabemos se as anotaram a todas num livro, ou se eram apenas passadas de boca em boca entre os religiosos, mas duas coisas são absolutamente certas – muito do património deste famoso mosteiro desapareceu após o abandono a que esta ordem foi forçada; e chegaram-nos múltiplos livros de receitas de outros mosteiros e conventos, levando-nos a supor que também os habitantes deste mosteiro tinham os seus. Por isso, acreditar que entre 1834 e 1837 potenciais livros de receitas foram levados por pessoas que viviam a cerca de 200 metros do local do mosteiro, enquanto o próprio mosteiro caía num enorme abandono (já cá mostrámos como ele estava em 1878), ou que os seus segredos foram revelados por um antigo monge, nada tem de demasiado estranho ou invulgar… e, de facto, até o próprio site da marca parece confirmar essa segunda associação, quando nos diz:

No início do Século XIX, em Belém, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, laborava uma refinação de cana-de-açúcar associada a um pequeno local de comércio variado [o que só pode ter acontecido depois de 1758, como mostrámos acima]. Como consequência da revolução Liberal ocorrida em 1820, são em 1834 encerrados todos os conventos e mosteiros de Portugal, expulsando o clero e os trabalhadores.

Numa tentativa de sobrevivência, alguém do Mosteiro põe à venda nessa loja uns doces pastéis, rapidamente designados por “Pastéis de Belém” [i.e. note-se que não era o seu nome original].

Sabemos, portanto, que a receita dos Pastéis de Belém teve origem num mosteiro ou convento nacional, e então decidimos procurá-la em diversos manuscritos da época. Após analisarmos centenas e centenas de páginas escritas à mão e com informação culinária, acabámos por encontrar a seguinte receita, preservada num manuscrito da primeira metade do século XVIII, e que é a que mais se assemelha ao bolo que procuramos, tanto no seu nome, como na sua composição e até no aspecto físico que sugere:

A verdadeira receita dos Pastéis de Belém

Desfeitos em açúcar fino seis covilhetes de natas e quinze gemas de ovos, engrosse-se ao lume. Guarneçam-se depois umas formas de massa folhada, e metida a nata dentro, meta-se a cozer no forno. Em a massa estando cozida e com boa cor, sirvam-se quentes.

A informação oficial da marca dá a entender que a receita dos Pastéis de Belém tem algum ingrediente resultante da “refinação de cana-de-açúcar”, e veja-se que esta receita, anterior a 1758, requer “açúcar fino”. Também estes originais deviam ser servidos quentes, denotando duas ligações directas – e nenhuma contradição – entre esta fórmula e o próprio bolo que é feito em Lisboa. Dessa forma, são portanto levantadas duas grandes questões – porque diz ali “Pastelinhos de Natta”? E será que é mesmo esta a receita original daqueles pastéis que se vendem em Lisboa?
Em relação ao primeiro ponto, eles eram originalmente chamados “pastelinhos” devido ao seu (pequeno) tamanho, e “de nata” pelo óbvio facto de terem natas na sua composição. Os pastéis originais não tinham a designação de “Belém” neles, como a própria marca nos informa, mas passaram a ser conhecidos assim devido ao facto de se terem tornado especialmente famosos nesse local.
Nesse seguimento, se esta receita da primeira metade do século XVIII não vem especificamente do mosteiro de Belém, há que frisar que era provavelmente a mesma também conhecida aí, porque as receitas destes bolos de origem religiosa eram quase sempre muito parecidas ou até completamente iguais, i.e. quem comprasse um Pastel de Santa Clara, fosse no norte ou no sul do país, comia sempre um bolo muito semelhante (como acontecia com a versão original da Lampreia de Ovos, entre muitos outros doces), que ia passando de um membro religioso para outro.

 

Não podemos ter a certeza absoluta se entre 1834 e 1837 esta receita dos Pastéis de Belém chegou aos primeiros proprietários da loja apenas de uma forma oral ou numa obra escrita (hoje perdida ou escondida numa qualquer colecção particular), mas é provável que os proprietários a tenham como que melhorado, até para tornar o seu produto único e diferenciá-lo de aqueles que ainda hoje estão disponíveis por todo o país. E se essa (potencial) alteração poderá ser, na verdade, o grande segredo por detrás destes doces, também acaba por ser algo que já não conseguimos revelar aqui, até porque – segundo reza uma espécie de lenda nacional – se contam pelos dedos de uma mão aqueles que hoje conhecem as potenciais adaptações que foram feitas a esta receita basilar e original. E, face à famosa e notória impossibilidade de sabermos o resto da sua história, de conhecermos que (possíveis) alterações lhe foram sendo impostas ao longo dos anos, esta versão inicial da receita, anterior a 1837 mas que ainda é muito confeccionada nossos dias, terá de nos chegar…

Como interpretar vasos gregos?

Se hoje podemos encontrar vasos gregos nos mais diversos museus, nem sempre é fácil interpretar o que está representado em cada um deles. Assim, o que propomos aqui hoje é uma espécie de micro-curso para os compreender. Não oferece uma resposta completamente mágica, não irá tornar quem ainda não percebe nada disto num especialista de forma instantânea, mas irá apresentar é uma técnica basilar que permite, com algum esforço adicional, conseguir compreender as imagens que eles apresentam. E se, por um lado, esta ideia de “algum esforço adicional” poderá assustar alguns leitores, por outro há mesmo que esclarecer que este não é um processo mágico, implica pelo menos algum conhecimento basilar dos mitos gregos e latinos, como iremos ver – caso contrário, sem isso não há qualquer hipótese real de se conseguir entender o que os diversos vasos têm representados.

Um exemplo de vaso grego - Aquiles e Mémnon

Feita então esta ressalva inicial, passe-se ao que realmente importa. Imaginem que vão a uma loja e querem comprar um quadro com o Cristiano Ronaldo a levantar a taça dos campeões europeus de 2016. Como saberiam que estão a comprar isso mesmo, em vez de uma qualquer outra representação? Para nós, hoje, a resposta pode parecer quase óbvia – um quadro como esse teria representado uma pessoa que reconhecemos como esse jogador português, numa posição muito específica de celebração, e nas suas mãos poderia ser vista uma determinada taça. Assim, associando todos esses elementos, podemos saber que se trata do quadro que procuramos, em vez de um qualquer outro.

De uma forma muito semelhante, quando na Antiguidade alguém queria comprar, por exemplo, um πίθος (píthos) com uma representação de um determinado episódio mitológico, o que essa pessoa fazia era algo parecido, em que olhava para as figuras dessa espécie de vaso e, depois, reconhecendo as figuras e circunstâncias presentes no mesmo, lá afirmava que se tratava, como na imagem já mostrada acima, do combate de Aquiles com Mémnon. E sabia disto porque na representação em questão existiam um conjunto de características que não só possibilitavam identificá-lo como tal, mas também distingui-la de episódios como o combate do mesmo herói com Heitor – nomeadamente o facto dos dois heróis estarem acompanhados por figuras femininas, e de existir um terceiro combatente caído entre eles. Mas como se faz isso? Comecemos com um exemplo relativamente simples, um vaso falso criado nos nossos dias:

Um Hércules moderno num vaso grego

1- Decompor a representação presente no vaso grego nos seus elementos principais

A uma primeira vista, para quem percebe pouco ou nada destas coisas, é difícil compreender o que pode ser visto em vasos gregos como o acima. Contudo, mesmo que ainda não se reconheçam os intervenientes em toda a cena, é fácil constatar que eles são três, cada qual com as suas características individuais. Assim, posto de uma forma muito simples, podemos até dar um número a cada figura – a no canto inferior direito será a “1”, a do lado esquerdo será a “2”, e a colocada ao centro será a “3”. Comecem por escrever estes três números numa folha de papel.

 

2- Anotar as características de cada figura

Depois, para cada uma dessas figuras, anotem também as respectivas características, de uma forma como a seguinte:
1- Criatura pequena, com pernas de animal, cornos e barba. Tem um babete ao pescoço, um garfo numa mão e um prato na outra.
2- Figura humana, com um arco numa mão, que segura uma espécie de travessa.
3- Um javali muito grande, supostamente morto (vejam-se os olhos), com uma maçã na boca.

 

3- Procurar o significado de cada figura

Em seguida, ainda mais se (ainda) perceberem pouco destes temas, terão de investigar quem poderá ser cada um dos intervenientes. Esta é certamente a parte mais difícil de todo o processo, porque ou já leram muito sobre os mitos gregos e latinos e sabem mais ou menos as características de determinadas figuras (e.g. um monstro com muitas cabeças é a Hidra de Lerna, um homem com um raio na mão é Zeus, e assim por diante), ou então terão de ler bastantes obras da Antiguidade. Não há um atalho para este passo, mas à medida que investigam o tema poderão aperceber-se do seguinte:
1- Existem muitas criaturas na Mitologia Grega que são um misto de ser humano e animal, mas apenas os sátiros costumam ter pequenos cornos. O babete, garfo e prato – relembre-se que este não é um vaso da Antiguidade, mas uma representação dos nossos dias – indicam que ele está prestes a tomar uma refeição.
2- Não são muitos os heróis gregos que usem arco e flecha. Portanto, neste momento, deixe-se essa figura de lado.
3- Existem alguns mitos gregos que incluem javalis – o Javali do Erimanto, o Javali da Calidónia, e o animal que matou Adónis talvez sejam os mais famosos – mas apenas os dois primeiros foram capturados.

 

4- Escolher o elemento menos comum

Agora, para não terem de reler todos os mitos gregos que chegaram aos nossos dias, deverão então escolher qual é o elemento menos comum presente no vaso em questão. “Mas como sabemos qual é ele?”… é uma pergunta super natural, mas bastará que pensem em qual dos elementos obtidos no passo anterior vos parece o mais raro, e.g. um monstro é certamente mais raro que um ser humano. Nesse sentido, se apenas existem três mitos com javalis, esse elemento será um óptimo ponto de partida para a busca por um significado.

 

5- Somar todos os significados presentes no vaso grego

Finalmente, partindo do elemento menos comum (que aqui é o animal), deverão então somar todos os significados presentes na representação. Já sabemos que ele se trata do Javali do Erimanto ou do da Calidónia, que “alguém” parece ter caçado com arco e flecha. Mas será a figura humana Hércules ou um dos muitos heróis da caça que teve lugar num outro local? A resposta vem da pequena figura também presente na imagem, que já sabemos que se trata de um sátiro. Idealmente, existiria um mito que conjuga todos estes elementos, que nos permitiria dizer que esta é mesmo uma representação de um dado episódio mitológico. Mas, neste exemplo em particular, não há… e já lá vamos!

 

6- Ter em conta os contextos da representação

Neste caso específico, e como já dito acima, a representação em questão não parece ser a de nenhum episódio mitológico da Antiguidade. Isto faz todo o sentido porque, na verdade, se trata de uma cena retirada do filme Hércules, da Disney, e que portanto não corresponde, de uma forma completamente fiel, aos mitos gregos e sua representação, tal como eles eram conhecidos na Antiguidade. Isto acontece porque os mesmos episódios mitológicos nem sempre são representados da mesma forma, ou podem até referir-se a mitos que já não nos chegaram, seja de todo ou na forma como eram conhecidos nessa altura…

 

7- Não podemos ter toda a certeza, mas… o vaso grego pode ter uma representação de X!

Assim, seguindo todos esses passos, é possível chegar a uma espécie de conclusão face ao que é visto na representação que aqui estamos a analisar. Ao termos em conta o contexto (moderno) deste vaso grego, podemos então perceber que ele representa Hércules e o seu professor (ficcional), Filoctetes, tal como eles surgem no filme da Disney. E, assim, podemos aperceber-nos de que os dois companheiros estão prestes a almoçar o Javali do Erimanto, uma das muitas criaturas que o herói grego encontrou nas suas viagens.

 

Dois outros exemplos de interpretações de vasos gregos

Agora, se o exemplo anterior não foi de um vaso da Antiguidade propriamente dito, mas sim de uma adaptação moderna dos mesmos, achámos que também poderíamos dar aqui outros dois exemplos da Antiguidade, seguindo os mesmos passos que já apresentámos acima, até para que se compreenda melhor todo o processo:

Um exemplo de vaso de figuras vermelhas

1- Estão aqui três figuras.
2- Do lado esquerdo está uma criatura que parece uma serpente gigante, com um homem a sair da sua boca. Do lado direito está uma figura feminina, com um capacete, uma lança e uma espécie de manto com uma figura representada na zona do peito. Na parte superior está um carneiro ou ovelha estendido numa árvore.
3- A serpente será provavelmente um dragão, no sentido que essa palavra tinha na Antiguidade, i.e. uma serpente grande. A figura feminina é a deusa Atena, possivelmente a única figura divina feminina que costuma aparecer armada e com a égide ao peito. O carneiro ou ovelha… é desconhecido? Por agora assumamos que sim.
4- Procurar por um homem comido por um dragão é algo que parece desconhecido nos mitos da Antiguidade, e a deusa Atena é demasiado frequente. Por isso, que faz ali aquele carneiro ou ovelha?
5- A ideia de dragão + deusa Atena + ovelha (ou carneiro) poderá conduzir-nos ao mito do Dragão da Cólquida.
6- Mas o que faz um herói na boca do dragão? Mesmo que se trate de Jasão, não nos chegou qualquer mito em que este episódio tenha lugar…
7- Provavelmente* o interior deste copo tem representada uma versão do mito de Jasão e os Argonautas que já não chegou aos nossos dias. E, de facto, este problema até já cá foi falado anteriormente.

Um exemplo de vaso de figuras negras

1- Estão aqui duas figuras.
2- A do lado esquerdo representa um homem com “algo” numa das suas mãos, que tem quatro letras de texto ao seu lado. Do lado direito está uma criatura com asas e múltiplas serpentes a saírem da parte inferior do seu corpo.
3- Pela leitura do texto podemos inferir que a figura da esquerda é Zeus e, portanto, aquilo que tem nas suas mãos é quase certamente um raio. A figura do lado direito é uma espécie de monstro.
4- É óbvio que existem infindáveis vasos com uma representação de Zeus, mas que criatura está do lado direito? Após muito procura poderão ver que se trata de Tífon, identificável aqui pelo seu corpo parcialmente serpentesco.
5- Zeus + Tífon são conhecidos de diversos combates que travaram nos mitos da Antiguidade.
6- Dado que este episódio mitológico já não nos chegou de uma forma completa, é difícil saber como a representação se intersecta com o mito da Antiguidade.
7- Provavelmente* este vaso tem representado o combate entre Zeus e Tífon. Visto que o primeiro dessas duas figuras tem o seu instrumento guerreiro na mão, é provável que ele se prepare para atacar o seu opositor, acabando por destruí-lo, o que pensamos que tomava lugar próximo do final de toda a história que une ambos.

 

Visto assim, de uma forma tão sucinta, poderá parecer que a leitura e interpretação de vasos gregos, sejam eles de figuras vermelhas ou de figuras negras, é uma coisa bastante simples de se fazer, mas a grande dificuldade passa precisamente pelo terceiro passo, em que se tenta associar um conjunto de características a uma figura, seu respectivo nome e eventos. Isso só pode ser feito com um conhecimento significativo dos intervenientes e mitos da Antiguidade e, portanto, é raramente algo que se consiga fazer em meia dúzia de minutos. Exige prática, exige estudo das fontes literárias e exige tempo. E, por isso, se os leitores quiserem deixar algum exemplo de vaso ali nos comentários, podemos tentar ajudar na leitura desses exemplos – fica o convite!

 

 

*- Na maior parte dos casos a tentativa de leitura de uma representação num qualquer vaso é apenas isso, uma mera tentativa e pouco mais. Por muito que se estude e se pense, essa leitura, ao abrigo do seu terceiro passo, é baseada num conjunto pequeno de fontes literárias a que ainda temos acesso, e por isso poderá, na verdade, estar incompleta ou incorrecta. Assim, é particularmente preciosa a leitura de exemplos em que as figuras representadas até têm o seu nome (i.e. o caso de Zeus no último vaso acima), porque a sua identificação se torna sempre mais fiável e credível; infelizmente, nem todas as representações têm esse elemento disponível…

A origem da Alheira e da Farinheira

Há alguns dias vieram perguntar-nos a origem da Alheira e da Farinheira. Visto que os dois enchidos têm uma origem bastante semelhante, é apenas justo que se considerem ambos em paralelo, nesta espécie de história que aqui relatamos hoje.

A origem da Alheira e da Farinheira

A Alheira, para quem ainda não o souber, tem origem no norte de Portugal – daí até existir a muito famosa “Alheira de Mirandela” – e é feita com pão de trigo, carnes desfiadas e alguns temperos. Já a Farinheira é feita com farinha, entre outros ingredientes, como o seu nome indica, sem margem para maiores dúvidas. Agora, se ambas também têm, hoje em dia, algum ingrediente retirado do porco, ele não fazia originalmente parte da sua composição, e é importante frisar isso para que se possa compreender a sua origem.

 

Passando então a esse ponto, sabe-se que há muitos séculos atrás os Judeus foram perseguidos em Portugal, como também o foram em diversos outros países europeus. Para continuarem vivos e no país tinham de se converter à religião de Jesus Cristo, o que implicava, naturalmente, terem de abandonar as regras da sua antiga religião. Assim, se os Judeus e os Islâmicos não comem porco, uma proibição que vem das respectivas escrituras, e essa era uma carne que estava extensamente disponível no país, uma das formas mais fáceis de verificar a sua adesão à nova religião era verificar se esses chamados Cristãos-novos já comiam a carne desse animal, nomeadamente sob a forma de chouriços. Nesse seguimento, diz-se então que esses Cristãos-novos criaram a Alheira e a Farinheira para parecer que estavam a comer porco, mas sem que na verdade o fizessem… e é por isso que os dois enchidos se parecem com o Chouriço, mas depois, na sua forma original, no seu interior tinham várias constituições que, como é mais que natural, nunca incluíam aqueles animais que a sua antiga religião proíbia.

 

Porém, esta origem da Alheira e da Farinheira, a ser mesmo verdade (poderá tratar-se de um mero mito…), levanta necessariamente uma questão – será que estes Cristãos-novos, como então eram chamados, pretendiam esconder que não praticavam a nova religião, ou eles apenas ainda não se sentiam confortáveis a comer animais que anteriormente tinham visto como “sujos” e impróprios para consumo? Não nos é possível ter uma certeza absoluta, mas talvez a resposta venha de uma conjugação dos dois factores, do que era esperado deles numa sociedade em que qualquer alternativa à religião cristã era mal vista. E, por isso, fizeram o que tiveram de fazer para sobreviver, acreditassem, ou não, na religião que lhes estava a ser imposta…