Porque há tanta Maria e João em Portugal?

De um modo geral, ao longo dos séculos os nomes Maria e João foram os mais populares de Portugal, gerando até provérbios locais como “há muitas Marias na terra”. Mas então, de onde vem a popularidade de ambos os nomes?

Maria e João, nomes famosos em Portugal

Maria e João são nomes bíblicos. Isto poderia levantar uma primeira questão – quais eram os nomes mais populares na Península Ibérica antes da vinda do Cristianismo? – que teremos de deixar para outro dia, mas de entre os nomes provindos do Novo Testamento, porque se tornaram estes dois assim tão populares? Porque não Salomé, Pedro ou mesmo Jesus? Porquê os nomes da mãe de Jesus e do que se pensa ter sido o “discípulo amado”?

A resposta passa pelo facto de terem existido diversas crenças mágicas e supersticiosas associadas a todos estes nomes. Em terras de Portugal, isso é particularmente evidente na epístola Da Correcção dos Rústicos de São Martinho de Dume, que até criticava o uso dos nomes dos deuses pagãos nos dias da semana. Assim, o que eram inicialmente rituais pagãos foram passando a ser associados a figuras cristãs, e posteriormente aos seus nomes (ver, por exemplo, a lenda de Santo Ovídio). Ainda hoje existem diversas histórias populares que associam os nomes de Jesus, Maria, Pedro e Paulo a relatos extra-bíblicos e fantásticos – vejam-se, por exemplo, os casos de Nossa Senhora e o linguado, da lenda de São Pedro e o cão falante, ou do Quo Vadis

 

O que isto tem de particularmente importante é o facto de ainda nos terem chegado diversas superstições relativas a esses nomes num contexto nacional. Por exemplo, até há poucos anos ainda se acreditava que caso uma mulher tivesse sete descendentes do mesmo sexo, o sétimo deles se tornava um lobisomem ou uma bruxa – e o truque para evitar essa tenebrosa ocorrência passava, entre outros procedimentos, por dar o nome de Maria a essa filha (ou João a um filho). Outra tradição dizia que a felicidade de uma família estava bem assegurada se um dos filhos se tornasse padre e adoptasse o nome masculino aqui em questão. E ideias como essas, apesar de estarem hoje (quase) perdidas, comprovam que em outros tempos se acreditava que esses dois nomes, entre alguns outros (como Pedro), tinham certas propriedades mágicas. Assim, quando se tratava da hora de dar um nome aos filhos, é provável que muitas pessoas pensassem que, pelo sim, pelo não, mais valia não arriscar, e então continuaram a perpetuar a tradição, muitas vezes até já sem conhecer a sua razão de ser original.

 

Hoje, Maria e João são em Portugal nomes como quaisquer outros. Já ninguém pensa em coisas como as que discutimos acima, mas a popularidade de ambos os nomes mantém-se relativamente estável, numa espécie de homenagem tácita aos que vieram antes de nós.

Quem deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

É provável que o grande incêndio de Roma, que teve lugar entre 18 e 23 de Julho do ano 64 d.C., tenha sido um dos mais famosos da história da humanidade. Mas, no seguimento de uma publicação anterior sobre fake news, quem é que deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

Quem deitou fogo a Roma?

De um modo muito geral, a maior parte das fontes literárias que nos chegaram afirmam que o culpado de deitar fogo a Roma foi o Imperador Nero, mas há que considerar que essa informação se parece dever, maioritariamente, a um rumor que nasceu alguns anos mais tarde. Visto que este imperador queria construir um novo palácio para si, mas não havia local para tal na cidade de Roma, surgiu então a ideia de que o fogo tinha sido ordenado por ele para propiciar essa existência de um local vago. Infelizmente, não temos qualquer forma de saber até que ponto isto será verdade, i.e. se o incêndio foi uma feliz(?) coincidência, ou causado de forma deliberada e com um objectivo muito particular.

 

Uma outra opinião diz que foram os Cristãos que deitaram fogo à cidade, e que esse primeiro acto levou à sua perseguição pelos Romanos. Hoje, isto até poderá parecer-nos um tanto ou quanto estranho, até que se pense em toda a situação no contexto histórico – nessa altura quase nada se sabia sobre essa nova seita religiosa, excepto que se reuniam ilegalmente e a altas horas noite. Depois, nos dias de hoje sabemos até que algumas seitas cristãs da época acreditavam que o novo fim do mundo – por contraste com o anterior, o da cheia de Deucalião e/ou Noé – seria pelo fogo, ou seja, teria lugar quando todo o mundo fosse consumido por um enorme incêndio.

 

Se, por um lado, sabemos que Nero não deitou fogo a Roma por si mesmo e na primeira pessoa – as fontes tendem a dar-lhe uma autoria apenas moral – a segunda possibilidade levanta uma questão muito significativa – se os Cristãos se andavam a reunir durante a noite, e alguns deles até tinham essa ideia de um fim do mundo causado pelo fogo, será que algum deles, por simples acidente ou por alguma ideia mais amalucada, acabou por causar o famoso incêndio? Sabemos que a história é escrita pelos vencedores, e por isso ela tem de isentar os Cristãos de qualquer culpa, mas isso também implicava encontrar alguém a quem culpar – e quem melhor do que Nero, esse seu primeiro perseguidor, para ocupar o lugar, reduzindo-o a um opositor teatral?

Efectivamente, não sabemos quem deitou fogo a Roma, Nero ou os Cristãos, naquele fatídico ano 64 d.C. As fontes literárias que ainda temos nada nos permitem concluir sobre o tema, mas a termos mesmo de eleger um culpado, é mais provável que tenham sido os Cristãos do que este famoso imperador. Não podemos afirmar que o fizeram de uma forma deliberada (o que até é possível, dadas algumas teologias da época, como já foi apontado acima…), mas o que é muito difícil de negar é o facto de eles se andarem a reunir durante a noite; como tal, tinham de levar alguma espécie de fonte de luz consigo, o que poderá ter originado todo este famoso incêndio. Depois, juntando-se os rumores – ou fake news, se preferirem – a toda a equação, criou-se a famosa versão de que eles foram perseguidos não por uma ilegalidade que faziam (e que, de forma até estranha, ninguém parece negar), mas somente para mascarar o “verdadeiro” culpado.

Será que isto foi o que realmente aconteceu? Face à falta de informação mais fidedigna e imparcial da época em questão, essa é uma resposta que temos de deixar aos leitores…

João Soares de Paiva, primeiro autor português?

Quando se fala de um potencial primeiro autor português, o nome que tende a surgir frequentemente é o de João Soares de Paiva, que terá vivido em meados do século XII. Porém, Teófilo Braga também incluiu este mesmo nome entre o das maiores lendas de Portugal, dando a entender que ele não terá sido apenas um simples autor, mas também terá associado pelo menos algo semelhante a uma espécie de lenda. Assim, o que se esconde por detrás deste nome?

Um trovador como João Soares de Paiva, o primeiro autor português

Para que possamos considerar João Soares de Paiva como um primeiro autor português é necessário, obviamente, que ele tenha composto algo nesta língua. E, de facto, chegou-nos mesmo uma cantiga de maldizer que lhe é atribuída:

Ora faz host’o senhor de Navarra,
pois en Proenç’ést’el-Rei d’Aragón;
non lh’han medo de pico nen de marra
Tarraçona, pero vezinhos son;
nen han medo de lhis poer boçón
e riir-s’han muit’Endurra e Darra;
mais, se Deus traj’o senhor de Monçón,
ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.

Se lh’o bon Rei varré-la escudela
que de Pamplona oístes nomear,
mal ficará aquest’outr’en Todela,
que al non ha a que olhos alçar:
ca verrá i o bon Rei sejornar
e destruír ata burgo d’Estela:
e veredes Navarros lazerar
e o senhor que os todos caudela.

Quand’el-Rei sal de Todela, estrẽa
ele sa host’e todo seu poder;
ben sofren i de trabalh’e de pẽa,
ca van a furt’e tornan-s’en correr;
guarda-s’el-Rei, come de bon saber,
que o non filhe luz en terra alhẽa,
e onde sal, i s’ar torn’a jazer
ao jantar ou senón aa cẽa.

Ela não é muito fácil de ler, até por estar em Galaico-Português, mas uma espécie de prefácio, presente em algumas edições, dá uma informação muito importante e bastante simples de compreender, que permite descortinar aquilo que aqui procuramos hoje:

Esta cantiga é de maldizer e feze-a Joam Soárez de Pávia a ‘l-rei Dom Sancho de Navarra porque lhi troub’host’em sa terra e nom lhi deu el-rei ende dereito.

Toda esta informação permite-nos saber que numa dada altura Dom Sancho [VII] de Navarra invadiu terras alheias, incluindo algumas de um rei de Aragão, possivelmente em finais do século XII, e que isso afectou de alguma forma este poeta, motivando-o a escrever o poema acima, em que o afectado critica o rei pelas suas acções cobardes. Portanto, a termos de associar uma espécie de lenda a este João Soares de Paiva, ela passaria precisamente por estes precisos eventos, i.e. provavelmente algumas terras que lhe pertenciam foram invadidas e o poeta escreveu um poema em que criticava o invasor. Ao mesmo tempo, a realidade histórica destes eventos permitem datar a sua composição, tornando possível constituir o seu autor como um pseudo-“primeiro autor português”, não porque o que tenha sido com todas as certezas do mundo, mas porque parece ser o mais antigo que nos seja possível datar.

 

Os mais chatinhos poderão querer argumentar que o que está ali em cima é um poema de João Soares de Paiva em Galaico-Português, até de difícil leitura nos nossos dias, não uma composição na língua portuguesa tal como a conhecemos hoje. Contudo, as línguas são entidades mutáveis, que evoluem ao longo dos séculos, e pela mesmo ordem de ideias seria, de alguma forma, até possível dizer-se que um autor como Luís de Camões não escreveu em Português, já que nas edições originais dos Lusíadas, bem como dos seus outros poemas, nem sempre é fácil compreender o que ele nos escreveu. Gil Vicente ainda é pior, a esse nível, mas ninguém duvida que eles tenham escrito na nossa língua! Portanto, o que o poema ali exposto apresenta é como que uma forma embrionária da nossa língua, que já não é Latim mas que ainda não é igual à nossa.

 

Assim, faz todo o sentido afirmar-se que João Soares de Paiva foi o primeiro autor português cuja data ainda conseguimos atestar. Não foi certamente o primeiro a escrever na língua que vimos acima, mas é o primeiro que o fez de uma forma que conseguimos datar. Em outras cantigas medievais – relembre-se, a título de exemplo, a do nosso Sancho I a Maria Pais Ribeira – nem sempre é possível datar os eventos em questão, pelo que até poderão existir autores anteriores ao aqui em questão, mas já não temos qualquer forma real de o vir a saber…

Um feitiço para matar alguém

Se já cá mostrámos vários feitiços antigos, desde os de Luís de la Penha até à chamada Cabra Preta Milagrosa, passando por alguns de conteúdo amoroso, entre muitos outros, há uma questão inquietante que ficou por se fazer – mas então, e se alguém odiasse tanto outra pessoa que quisesse, pura e simplesmente, um feitiço para matar alguém? Seria isso possível? Ou, perguntando-o até de um modo mais geral, quais eram os limites atribuídos à magia há uns poucos séculos atrás?

Feitiço para matar alguém

De facto, dos muitos registos que nos chegaram dessa época podemos inferir que se acreditava, efectivamente, que a magia tinha alguns limites. Eles raramente são colocados de uma forma bem explícita, i.e. “a magia não pode fazer X ou Y”, e nem nunca sequer vimos uma listagem concreta dos seus limites – apenas inferências que podiam ser feitas, através de histórias como as da poção mágica dos amores de Tristão e Isolda. Mas aqui e ali até é dito – por exemplo, no Malleus Maleficarum – que os seus limites se prendiam com uma permissão divina para se conseguir realizar determinados actos, e.g. Deus jamais permitiria trazer os mortos de volta à vida no seu corpo original até ao Dia do Julgamento. Por isso, se o poder da magia face à morte e vida não era completo, com efeito até foi possível encontrar um exemplo de feitiço para matar alguém. O que reproduzimos aqui hoje é nacional e vem de um dos muitos casos de feitiçaria julgados pela Inquisição:

Anjos do céu,
Justos da terra,
Santos fiéis de Deus,
D’além mar,
D’aquém mar,
No Monte Olivete vos ajuntai,
E por Jesus Cristo chamai,
No seu coração gritai
Por [nome da pessoa],
Que não durma,
Que não coma,
Que se afogue,
Que se mate,
Que se enforque,
Por tal santo *
E tal santa *
E que seja logo e logo e já.

Será que – como questionámos em relação a feitiços anteriores – este funciona mesmo? Talvez haja uma questão muito melhor a ser colocada, neste caso concreto – como seria possível atestar que ele funciona? Mesmo que a pessoa com quem este feitiço fosse usado morresse, como se saberia se foi do feitiço para matar alguém, em si mesmo, ou por quaisquer outras razões? Não é propriamente algo fácil de se responder, pelo que – como em muitos casos anteriores – isto é tudo e somente uma questão de crença, opinião e fé. Por isso, como até já é costume, este conteúdo foi reproduzido aqui por pura curiosidade e nada mais – presume-se, como sempre, que não funcione, mas os nossos inimigos ficam convidados a tentar e deixar cá algum feedback.

 

 

*- Não é totalmente claro, pela fonte consultada, se o feitiço era mesmo com estas palavras específicas ou se, na sua forma original, continha referências a santos e santas específicos, que poderão ter sido omitidos pela Inquisição.

A Passarola de Bartolomeu de Gusmão voava mesmo?

Quem foi o primeiro homem a voar em Portugal? A acreditar-se numa espécie de lenda nacional, terá sido Bartolomeu de Gusmão na sua Passarola, ainda em inícios do século XVIII, ou seja, mais de um século antes de João da Mata Camacho Pina de Gouveia. A uma primeira vista já não deveria ser possível ter-se a certeza de que ela funcionava mesmo – já lá iremos… – mas ainda hoje a sua imagem é famosa na cultura nacional e europeia, ao ponto de ser um elemento importante da trama da uma das obras de José Saramago, o Memorial do Convento. Mesmo assim, para quem ainda não a conhecer, reproduzimos aqui uma imagem da estranha máquina voadora, retirada especificamente do seu manuscrito original:

Bartolomeu de Gusmão e a Passarola

O que tem então de especial, esta representação original da agora-famosa máquina? Ela foi incluída num pedido de apoios que o autor fez ao rei de Portugal e que ainda existe nos nossos dias. Mas, se o conteúdo desse pedido, feito em Latim, provavelmente não terá muito interesse para o leitor comum, já a legenda desta imagem apresenta alguns aspectos curiosos. Ela explica em que consiste cada uma das partes da máquina – as tais letras A, B, C, D, […] presentes ali na sua representação – e entre elas podem ser encontrados dois elementos particularmente importantes, que traduzimos do original latino:

E [na frente e traseira da máquina] – duas esferas que contêm o segredo da atracção (…)

F [na parte superior, acima do homem] – (…) fios com um grande número de bolas de âmbar (…) que pelo calor dos raios do sol irão atrair os tensores.

Ou seja, trocando por míudos, supostamente a Passarola de Bartolomeu de Gusmão mantinha-se no ar devido a alguns elementos físicos (apresentados com as letras restantes na legenda), bem como a duas esferas com uma substância completamente secreta – sobre a qual, muito naturalmente, nada conseguimos aqui dizer – e pela capacidade do sol em atrair a âmbar. E se isso nos pode parecer bastante estranho neste nosso século XXI, é porque a segunda dessas características assenta num conjunto de ideias que vêm de tempos da Antiguidade – relembre-se o mito de Faetonte e depressa se compreenderá essa suposta relação entre a âmbar e o elemento solar – mas que também foram sendo desmentidas ao longo dos séculos. De facto, tanto quanto se saiba hoje, não há qualquer propriedade “mágica” que os atraia!

 

Portanto, será que a Passarola de Bartolomeu de Gusmão voava mesmo? Visto que os dois grandes elementos que referimos acima eram considerados cruciais para o funcionamento da máquina… a não ser que a tal “substância secreta” fosse da mais pura magia (algo que, verdade se diga, não temos qualquer forma real de confirmar ou desmentir…),  é difícil que esta criação conseguisse mesmo elevar-se nos céus e voar “muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia”, como a proposta feita ao rei prometia. Curiosamente, os argumentos do seu criador convenceram tanto o monarca como a sua corte, mostrando-nos que estas bases principais, estranhas para os nossos dias, ainda eram consideradas como da mais completa validade em inícios do século XVIII…