A censura no Sapo Blogs – mito ou realidade?

Celebramos a metade deste mês dedicado a temas nacionais com algo conspícuo – a censura no Sapo Blogs. Alegadamente não existe, nem aí nem em lado nenhum, até porque se alguma forma de censura existisse em Portugal ela violaria o artigo 37 da Constituição Portuguesa. Seria ilegal, e outras coisas que tais (como lemos recentemente), e poderíamos falar de Salazar, gritar “Liberdade, LIBERDADE!!!”, e assim por diante. Portanto, convidamos quem ler estas linhas a considerar a vaga hipótese de que ela até possa existir, e o seu porquê. Leiam até ao fim, fica aqui o convite, até porque será interessante:

 

Há já uns bons anos notámos que, misteriosamente, as nossas publicações nunca apareciam nas respectivas listagens do Sapo Blogs, por muito que até tivessem as respectivas “tags” e fossem publicadas a altas horas da noite. Achámos estranho, contactámos os respectivos serviços e, curiosamente, não recebemos qualquer resposta (parece que é uma queixa muito comum). Na mesmíssima altura apontámos também que era estranho que alguns espaços andassem constantemente a ser promovidos, muitas vezes até duas e três vezes seguidas nas mesmas “tags”, enquanto que outros nunca apareciam no mesmo local. A acusação não seria nova, mas o que é curioso é a forma como nessa altura um funcionário do Sapo Blogs, “Pedro”, se defendeu da mesma, dizendo (e citamos, com ênfase a negrito da nossa parte):

A página da tag “25 de abril”, tal como todas as outras páginas de tags, listam apenas um post por blog, de modo a que todos tenham oportunidade de ser listados. É assim desde o início do SAPO Blogs, há quase 14 anos. A partir do momento que o senhor publicou um segundo post com a tag 25 de abril, esse post saltou para o topo da página pública. (…) O SAPO Blogs é uma plataforma de publicação aberta a todos os que querem expressar a sua opinião. A censura não está nos nossos valores nem faz parte do nosso trabalho.

Ou seja, não há qualquer espécie de censura no Sapo Blogs. Não há, diz ele, que até sabe essas coisas. De facto, segundo é afiançado nessas linhas, uma pessoa não poderá ter duas páginas listadas ao mesmo tempo numa só “tag” (e muito menos três ou quatro). Não é possível, isto não acontece, de todo, como pode ser visto na imagem abaixo:

Censura no Sapo Blogs

O que se vê aqui é um milagre totalmente irrepetível, segundo o que “Pedro” afiançou, e que nunca aconteceu neste mundo desde o início do SAPO Blogs. “Que estranho!” E, ainda assim, quando lhes mostrámos este problema, com múltiplas imagens que o comprovavam, não obtivemos qualquer resposta. Acredite-se, portanto, que apesar de ser um “bug” muito recorrente até à presente data, não houve intenção de o corrigir, sem qualquer espécie de malícia. Esqueceram-se, só isso, casualmente promovendo alguns espaços várias vezes enquanto deixavam outros completamente de lado – acontece, nada de mais!

 

Saltemos então algum tempo. Em finais de Abril deste ano recebemos um e-mail bastante interessante que remetia os leitores para esta página, em que se diz que, ao abrigo de “critérios editoriais”, determinadas páginas poderão (agora) não aparecer nas listagens públicas do portal, nomeadamente nas “Tags”, “Últimos Posts”, “Mais Lidos” e etc. Ou seja, não há qualquer censura no Sapo Blogs, há apenas um “critério editorial” – vagamente indefinido com “entre os motivos mais comuns para essa remoção”, ou seja, os critérios apresentados na publicação deles não estão sequer completos – que pretende restringir a apresentação, por exemplo, de conteúdos “de terceiros”, “potencialmente abusivos ou ofensivos”, ou “que visam exclusivamente a promoção de serviços ou sites externos“. Não é censura – se fosse, era ilícito! – é apenas, chamemos-lhe… uma ocultação contínua e deliberada de determinados temas e certos autores, enquanto se promovem constantemente outros, sem que seja revelado muito bem o porquê. E é aqui que as coisas se tornam muito, muito interessantes, como iremos ver.

 

Imagine-se então que têm um espaço no Sapo Blogs e gostariam de incluir lá alguma publicidade. Como o mesmo “Pedro” afiançou em 2017, “não é possível alojar ficheiros .txt em subdomínios do SAPO Blogs”. Ou seja, não seria, segundo ele, possível associar um ficheiro ads.txt – tipicamente necessário para motivos de publicidade – num qualquer espaço da plataforma. Se, por exemplo, visitarem o nosso ads.txt original, ele está em branco. Como está o da maior parte de outros espaços. Assim, supõe-se que qualquer ads.txt estará, segundo o que ele disse, vazio, até porque não é possível adicioná-lo, ou pelo menos não aos comuns mortais. Porém, se procurarem bem encontram algo um tanto ou quanto estranho – apesar de supostamente isso não ser possível, alguns espaços do Sapo Blogs até têm esse ficheiro alojado, quando o “Pedro” disse que isso não era possível:

Ads.txt de espaços pertencentes ao Sapo Blogs

Estes dois exemplos (quem tiver tempo livre poderá encontrar mais), uma espécie de sapo escondido com a língua de fora, são repetidamente promovidos nas páginas da plataforma do Sapo Blogs ao abrigo desses tais “critérios editoriais”, mas encontram-se intimamente associados ao próprio Sapo (para quem perceber menos destas coisas, é como se três pessoas fossem almoçar fora e pedissem três facturas com um mesmo número de contribuinte, mas depois quisessem argumentar que não se conhecem de lado nenhum). E sabemos que lhes pertencem porque não só a informação técnica de publicidade é semelhante à do portal principal, como até têm um ficheiro Ads.txt associado a eles – algo que, repita-se ainda mais uma vez, não é possível fazer, segundo o “Pedro”, necessitando portanto de uma espécie de “cunhas” do lado da empresa, que obviamente não estão disponíveis para o autor comum. Assim, trocando por miúdos, quando potenciais leitores vão a esses espaços estão a ler conteúdos auto-promovidos pelo Sapo Blogs, em que promotor e promovido andam de braço bem dado. É como ter um amigo que diz sempre muito bem de um determinado restaurante, que nos garante que está sempre cheíssimo e serve a melhor comida do mundo a preços baixíssimos, mas que nunca nos refere que até é o patrão do espaço em questão. Espertalhão, não é?!

Os Mais Lidos do Sapo

Mas o que quer isto dizer? Imaginem-se dois espaços, X e Y. O primeiro tem 50 visitantes por dia, o segundo tem 1000. Este último tem, como é óbvio, um maior número de visitas. Porém, como não é aprovado pelos tais “critérios editoriais” da equipa, em alternativa o espaço “X” aparece no pódio do mais lidos em vez do “Y”, dando a (falsa) ideia de que é mais lido do que o outro. Assim, é mais fácil promoverem-se determinados conteúdos face a outros, até porque têm muito mais a ganhar ao mostrarem aos leitores espaços como os dois apresentados acima, do que ao lhes exibirem os de um autor comum. Logo, claro que não há qualquer censura no Sapo Blogs, de todo – é como se fossem a uma livraria no tempo do Salazar, pedissem um determinado livro de História, a funcionária diz que não tem esse, mas que tem outro, que até tem vendido muito (e que, curiosamente, foi aprovado antecipadamente pelo Governo, não dizendo nada contra ele); e claro que vende muito, só pode vender, porque há pouca ou nenhuma competição por esse lugar! Não é censura, não, é…. chamemos-lhe “critério editorial”.

 

Não estão convencidos? Acham que é pura coincidência, que os espaços até são muito lidos e, como tal, aparecem lá só mesmo por essa razão, sem falcatruas à mistura? Podemos tentar mostrar o contrário. Relembre-se que uma das regras, que até já citámos acima, restringe a apresentação “de conteúdos que visam exclusivamente a promoção de serviços ou sites externos“. Está nas regras que o Sapo Blogs instituiu, é-o claro como a água. Ou seja, segundo essa mesma regra, uma publicação apresentada em uma daquelas páginas não poderia apresentar um conteúdo extensamente promotor como o seguinte:

Post Promovido por Sapo Blogs

Mas acontece, curiosamente… Por isso, repita-se – não há censura no Sapo Blogs. Não há! Há “critérios editoriais” que, certamente por acidente e bug informático e desconhecimento e má memória e mera coincidência e tudo o que possa ser argumentado para os isentar de possíveis culpas, fazem com que um dado espaço, previamente aprovado pela mesa censória da PI… perdão, pela respectiva equipa do site, seja muito frequentemente publicitado. Depois, esse espaço, previamente aprovado pela tal equipa, promove produtos, conteúdos e espaços externos encapotados sob a forma de conteúdos próprios, da seguinte forma:

Promoção de automóvel, promovida de forma encapotada no Sapo Blogs

Claramente, não há nada de errado ou potencialmente ilegal em nada disto. Nada, nadíssima, mesmo que ali as regras digam que este tipo de conteúdos não seria mostrado naqueles locais específicos. Isenção, imparcialidade, correcção, quem liga a essas coisas? Só falta mesmo depois um possível leitor abrir o portal das notícias do Sapo e, pela mais mera coincidência do universo e absolutamente nada mais, encontrar também lá publicidade à mesmíssima marca de automóveis – se até acontece, ou não, deixamos essa resposta a quem ler estas linhas.

 

Por isso, recapitule-se. O Sapo Blogs agora reserva-se o direito de escolher, ao abrigo de vagos “critérios editoriais”, quem aparece nas suas listagens, inclusive definindo quem pode, ou não, aparecer entre os mais lidos e nas “tags”, entre outros locais. Ao abrigo desses mesmos critérios, depois promove alguns espaços e oculta outros (i.e. um espaço com 6000 leitores pode não aparecer nos “Mais Lidos” e um com 60 poderá receber esse “galardão”). Em seguida, coloca-nos à frente do nariz, de forma repetida, espaços que lhe estão associados, pouco informando os leitores que promotor e promovido andam alegremente de braço dado*, pelo que as regras para os outros autores não se lhes aplicam em nada. Daí a uma muito conveniente sugestão para o amigo do lado, “amanhã escrevam sobre X porque o Sapo quer promover essa marca” vai um passinho muito pequenino… e se não sabemos até que ponto ele acontece, temos é a certeza absoluta de uma coisa muito simples – “não se morde a mão que nos alimenta”, não é o que se diz?

 

Volte-se então, nas nossas imaginações, ao tempo de Salazar. Imaginem-se a entrar numa livraria e a querer comprar um livro de Karl Marx; vão à respectiva prateleira e por actividade da PIDE não está lá nada, apesar de ele ter escrito vários livros – a isso se chama censura.

Depois, voltem aos dias de hoje. Imaginem-se a querer ler algo sobre uma determinada derrota futebolística. Vão ali ao Sapo Blogs, clicam em “Tags”, viajam até à tag respectiva, e por actividade da equipa do Sapo Blogs não encontram lá o que um vosso amigo escreveu sobre o tema – a isso se chama “critério editorial”.

Não há qualquer censura no Sapo Blogs, é tudo mito. Censura é uma coisa do passado, Estado Novo e tal. “Censura” e “critérios editoriais” são duas coisas totalmente diferentes, não é?

 

 

P.S.- Ainda não estão mesmo convencidos de tudo isto? Recentemente apontámos à equipa do Sapo Blogs a legislação em vigor e pedimos explicações sobre tudo isto, até face ao problema de totalmente-não-censura que sofríamos há vários anos. Não responderam ao que perguntámos em concreto, nomeadamente em relação ao que compõe precisamente aqueles tais “critérios editoriais”, mas após insistência lá recebemos uma mensagem interessante – “após análise técnica e editorial, foram implementadas as medidas necessárias para corrigir a situação [com o nosso espaço], sendo que o blog mitologias [sic] deverá ser visível nas listagens dos posts recentes.” Que curioso… será que temos de estabelecer uma parceria com eles e, de repente, cada vez que chove intensamente lá nos promoveriam extensamente a Oração de Santa Bárbara? Fica a dúvida…

 

*- Para quem não o saiba, é por razões como essas que na televisão os programas costumam ter uma menção “publicidade” em instantes puramente publicitários, para que o telespectador saiba distinguir onde começam os conteúdos próprios do programa a que estão a assistir, muitas vezes de conteúdo factual,  e aqueles que surgem maioritariamente para promover terceiros, e.g. “O produto X é o melhor do mundo, mas estamos a ser pagos para dizer isto.”

 

P.P.S- Hoje, a 24-6-2021, encontrámos mais um belo exemplo de publicidade encapotada. Então, o Sapo Blogs promove uma publicação que lhes pertence, de um daqueles locais referidos acima, e depois essa publicação promove muito casualmente uma determinada marca de automóveis. Aparentemente, aquela ideia de restringirem a promoção de “conteúdos que visam exclusivamente a promoção de serviços ou sites externos” só se aplica a quem não pertence à própria equipa deles… curioso, não é?

Publicidade encapotada no Sapo Blogs

Qual a origem dos cognomes dos reis?

Hoje descortinamos a origem dos cognomes dos reis de Portugal, que sempre nos pareceu tratar-se de um grande mistério. Se, por exemplo, em Espanha o rei Henrique IV teve a alcunha de “O Impotente”, dificilmente esse nome lhe poderia ter sido dado em vida, até porque o monarca jamais toleraria que um qualquer cronista se referisse a ele pela sua (suposta) incapacidade de gerar prole – como foi então possível que ele recebesse esse nome? Já lá iremos; por agora, e segundo informação oficial da Casa Real Portuguesa, em Portugal tivemos os seguintes monarcas, cujos respectivos cognomes também recordamos aqui:

Os cognomes dos reis, e sua origem

D. Afonso Henriques “O Conquistador”
D. Sancho I “O Povoador”
D. Afonso II “O Gordo”
D. Sancho II “O Capelo”
D. Afonso III “O Bolonhês”
D. Dinis I “O Lavrador”
D. Afonso IV “O Bravo”
D. Pedro I “O Justiceiro”
D. Fernando I “O Formoso”
D. João I “O de Boa Memória”
D. Duarte I “O Eloquente”
D. Afonso V “O Africano”
D. João II “O Príncipe Perfeito”
D. Manuel I “O Venturoso”
D. João III “O Piedoso”
D. Sebastião I “O Desejado”
D. Henrique I “O Casto”
D. António I “O Determinado”
D. Filipe I “O Prudente”
D. Filipe II “O Pio”
D. Filipe III “O Grande”
D. João IV “O Restaurador”
D. Afonso VI “O Vitorioso”
D. Pedro II “O Pacífico”
D. João V “O Magnânimo”*
D. José I “O Reformador”*
D. Maria I “A Piedosa”
D. João VI “O Clemente”
D. Pedro IV “O Rei Soldado”
D. Miguel I “O Tradicionalista”
D. Maria II “A Educadora”
D. Pedro V “O Esperançoso”
D. Luís I “O Popular”
D. Carlos I “O Martirizado”
D. Manuel II “O Rei Saudade”

O significado por detrás de cada um destes cognomes é relativamente fácil de se compreender, dados os feitos e vidas dos respectivos monarcas, mas há sempre alguma margem para dúvidas entre eles – por exemplo, Dom Sebastião chegou-nos como “O Desejado” porque sem ele não teria havido um herdeiro para o trono nacional, ou porque após o seu desaparecimento foram muitos os que desejaram o seu regresso? Não é totalmente claro, excepto se for explorada a origem dos cognomes dos reis. Mas, então, qual é mesmo ela?

 

Se inicialmente não saberíamos o que responder a essa questão, há algumas semanas passou-nos pelas mãos um manuscrito que nos deixou a pensar, o Livro das Linhagens de Portugal da autoria de Damião de Góis, que viveu no século XVI. Trata-se essencialmente de uma obra que referencia os casamentos e uniões da família real e das principais famílias nacionais, de que podemos até aqui mostrar um pequeno fragmento:

O Livro das Linhagens de Portugal, de Damião de Góis

Nesta obra, se o autor não dá qualquer alcunha aos primeiros monarcas do nosso país (e se alguém as soubesse seria certamente ele, até por se tratar de um historiador eminente), quando introduz o terceiro rei de Portugal refere-se a ele como “El Rey D. Afonso o Segundo o gordo filho de el Rey D. Sancho o Primeiro”. Pouco depois, em relação à sequência sobre o quarto rei de Portugal, e como até pode ser visto na imagem acima, dá-lhe o título “El Rey D. Sancho Segundo o Capelo” e prossegue as suas linhas dizendo “El Rey Dom Sancho o Segundo, de alcunha o Capelo (…)”. No mesmo parágrafo afirma ainda que a esposa do rei, uma tal Mécia Lopes de Haro, foi anteriormente casada com “Álvaro Peres de Castro (…) de alcunha o Castelão“.

Estes breves momentos da obra permitem-nos saber um pouco sobre a origem dos cognomes dos reis portugueses. Primeiro, para quem ainda não o saiba, um cognome é apenas uma alcunha – o que, por definição, é inventada por alguém mas eventualmente partilhada entre muitos. Depois, este famoso historiador nacional conhecia designações para alguns monarcas, mas não para todos eles. E, em terceiro lugar, não eram apenas os reis que tinham essas suas alcunhas, mas também alguns nobres e cavaleiros (e.g. relembre-se que Dom Quixote era “o Cavaleiro da Triste Figura”), sendo que as dos monarcas nos terão chegado devido à importância que estes tiveram ao longo dos séculos. Portanto, o que nos diz tudo isto?

 

A origem dos cognomes dos reis vem certamente do povo da altura, estando mais fixamente associada a alguns monarcas do que a outros. Se não sabemos quem foi o primeiro a chamar “o Gordo” a Dom Afonso II, ele terá ficado conhecido assim porque, muito naturalmente, tinha excesso de peso. Nesse sentido, inquirir sobre estas alcunhas reais é o mesmo que perguntar de onde vem qualquer outra alcunha do nosso mundo – e a resposta é simples, vem de quem conheceu essas figuras, as suas características e costumes. Alguém terá sido o primeiro a chamar “o Capelo” a Dom Sancho II, por ele ter tomado um hábito religioso em tenra idade, e Damião de Góis sabia disso, mas há que frisar que outros monarcas até foram recebendo vários cognomes – Dom Sebastião foi “o Desejado”, como ainda lhe chamamos, mas também “o Encoberto” e “o Adormecido”, em evidente alusão aos mitos do Sebastianismo (que se foram perdendo ao longo do tempo, justificando o esquecimento desses cognomes adicionais). Mais tarde, estes nomes foram sintetizados numa listagem única – recorde-se o que um dos nossos colegas encontrou há uns tempos, que prova que uma listagem como a aqui teorizada já existia em finais do século XIX – e alguém escolheu que um determinado rei iria adoptar o cognome X em vez do Y, seja porque o povo já lhe o tinha dado e ele era muito conhecido – como nos exemplos acima – ou porque fariam um absoluto sentido, e.g. Afonso Henriques como “O Conquistador [de muitas terras aos Mouros]”.

Admita-se, não descobrimos quem foi o primeiro a associar somente um cognome concreto a cada um dos nossos reis, numa lista continuada de nomes + alcunhas, mas é certo que, como pode ser visto nas linhas de Damião de Góis, no século XVI alguns deles já eram famosos, enquanto que outros pareciam ainda não existir – relembre-se até que o famoso historiador nacional não dá qualquer cognome a figuras como Afonso Henriques, Dom Sancho I, Dom Dinis ou Dom Pedro I, mas dá-as aos reis referidos acima, por razões agora desconhecidas…

 

Em suma, qual é mesmo a origem dos cognomes dos reis, de Afonso Henriques a Manuel II, passando por figuras estrangeiras como Henrique IV? Eles têm uma génese popular, como qualquer alcunha dos nossos dias. Depois, ao longo dos séculos, alguns desses (muitos) nomes foram-se tornando mais famosos do que outros. Numa dada altura alguém os compilou a todos numa única listagem, escolhendo entre diversas alternativas para cada monarca ou acrescentando associações onde elas ainda não existiam, o que levou a uma listagem única e indisputada, como a que apresentámos ali em cima, que até aparece frequentemente nos manuais escolares dos nossos dias. Pelo caminho ficaram muitos outros nomes associados aos mesmos monarcas nacionais ao longo dos séculos, como aqueles apelidos “menos bons” que os Portugueses certamente chamavam aos Filipes durante os anos da invasão espanhola…

 

 

*- Curiosamente, a obra Mappa de Portugal, de meados do século XVIII, dá a estes dois monarcas o cognome comum de “Fidelíssimo”, demonstrando-nos que os cognomes dados aos reis não eram 100% estáveis, podendo ser alterados até mesmo pouco depois das suas mortes.

A Oração de Santo António para Encontrar Objetos Perdidos

Em dia de Santo António nada como recordar a outrora famosa Oração de Santo António para Encontrar Objetos Perdidos. Se hoje ela já está muito esquecida, como outras orações populares nacionais, ainda existem idosos que a procuram, normalmente quando querem encontrar algo que perderam em suas casas. Note-se que esta oração já aparecia, com propriedades que se criam mágicas, atestada em finais do século XVII, altura em que uma tal Ana Martins, acusada de feitiçaria perante a Inquisição, a usava para ajudar aqueles que procuravam coisas perdidas. Já nessa altura a oração se encontrava associada ao santo lisboeta, de que cá contámos uma de muitas lendas anteriormente. E então, esta oração, na versão apresentada no interrogatório de Ana Martins, diz-nos o seguinte:

A Oração de Santo António para Encontrar Objetos Perdidos

Milagroso Santo António,
Pelo hábito que vestiste
Pelo cordão que cingiste
Pelo breviário que rezaste
Pela cruz que tomaste
Pelo Senhor que levantaste
Por aqueles três dias
Que no horto de Jesus
Em busca do Breviário andaste,
Pelo contacto que de Jesus tiveste;
Que nos seus braços se foi sentar,
Pelo rico sermão
Que na cidade de Pádua estava pregando,
E revelação
Que tiveste que levavam vosso pai
À força por sete sentenças falsas,
E delas o livraste,
Enquanto a gente rezava a “Avé Maria”,
E o vosso rico sermão acabaste,
Assim vos peço P. S. António
Façais aparecer o que se furtou [/ou perdeu].
Amén.

 

É curioso constatar que esta Oração de Santo António para Encontrar Objetos Perdidos faz breves menções à vida do próprio santo. Existem (muitas) outras versões, algumas das quais nem contêm esse elemento específico, mas esta versão prima pelo facto de ter sido comunicada à Inquisição durante um julgamento por feitiçaria, como já referido antes, dando-nos a entender que quem a dizia tinha plena confiança nos poderes místicos deste conjunto de palavras. Mas… será que funciona, ou nem por isso? Não fomos tentá-lo, mas fica esse convite, para quando perderem alguma coisa. Em pior dos casos, nada acontece; no melhor, reencontram o que perderam sem muita dificuldade. Se assim o for, agradeçam ao santo e avisem-nos também, para atestar – ou, pelo contrário, negar – o seu alegado poder.

A origem e significado de Alfacinha, Tripeiro, Morcão e Tanso

Existem palavras que usamos no nosso dia-a-dia e que se foram tornando tão habituais que raramente pensamos na sua ascendência e significados reais. A origem e significado de Alfacinha, Tripeiro, Morcão e Tanso caem nessa categoria, porque tendemos a perceber essas palavras como uma espécie de insultos, mas não nos interrogamos sobre o porquê de o serem – ou até de terem deixado de o ser, como é especialmente evidente no primeiro caso. Então, de onde vem o carácter depreciativo de cada uma dessas quatro palavras?

A origem de Alfacinha, Tripeiro, Morcão e Tanso

Alfacinha… poderia pensar-se que não é um insulto! E já não o é, nos dias de hoje, mas começou por sê-lo. Quando vimos a designação atestada numa obra do século XVI, ela referia-se aos lisboetas – como ainda hoje – mas num sentido pejorativo, pelo facto de eles dedicarem todo o seu tempo e dinheiro a uma excelente aparência exterior, enquanto que em suas casas só comiam alfaces e rabanetes, ou seja, as coisas mais baratas então acessíveis ao povo. Assim sendo, ser “um alfacinha” era, originalmente, ser um habitante da capital de Portugal, mas um que era caracterizado como sempre muito bem vestido, mas que ao mesmo tempo quase que passa fome para alimentar essa grande ostentação exterior.

O nome de Tripeiro vem de um episódio histórico, apesar de já não se ter bem a certeza de qual (lemos duas teorias, mas não sabemos afiançar qual das duas será a correcta), em que os habitantes da cidade cederam toda a sua carne para ajudar o país, reservando apenas as tripas para si mesmos. Nesse sentido, o que para eles era um motivo de grande orgulho, ao longo dos séculos gerou uma designação, “tripeiro”, que muitas vezes é utilizada pelos não-habitantes como uma espécie de insulto.

Já Morcão vem do Latim murcus, nome que era originalmente dado a alguém que se auto-mutilou para evitar o serviço militar obrigatório. Visto que sem o polegar era quase impossível conseguir segurar numa espada, num escudo ou até numa lança (o que era obrigatório para as guerras do tempo dos Romanos), essas pessoas eram dispensadas do dever militar. Depois, ao longo dos séculos, a expressão “morcão” foi crescendo nesse seu sentido, para passar a designar aqueles que não têm jeito para determinadas tarefas, não só as das artes da guerra, mas também muitas mais.

 

Já Tanso é um pouco mais complicado, com os dicionários nacionais que consultámos a atribuírem-lhe uma “origem obscura”. Nada teríamos para dizer em relação a essa palavra, não fosse o facto de termos ouvido uma opinião muito intrigante – Tian Shu era uma divindade famosa na China, uma espécie de deus supremo, e através da influência cristã nesse país ela foi ficando mal vista no Ocidente, até que se passou a designar por “tanso” aquele que acreditava nesse tipo de coisas, que os Cristãos tendiam a ver como nada mais que, como eles tendiam a pensar nessa altura, “superstições estúpidas”. Será esta a verdadeira origem da palavra e do seu sentido na nossa cultura? Não podemos ter a certeza…

 

Serão mesmo estas as explicações correctas por detrás da origem de Alfacinha, Tripeiro, Morcão e Tanso, enquanto palavras insultuosas? A resposta é claramente positiva para os três primeiros casos, mas já em relação ao último, e como já foi dito acima, tudo é mais discutível e muito menos seguro – chamemos-lhe, por isso, uma questão de mera opinião, que serve para explicar o significado, mas que também o faz de uma forma dubiamente insegura. É, pelo menos por agora, uma questão de pura e simples opinião.

A estranha história de Júlia Pastrana

Júlia Pastrana, mexicana, podia ter sido uma mulher como tantas outras, mas recordamos a sua história por cá em virtude do facto de poder convidar a múltiplas reflexões. Repita-se – Júlia Pastrana, mexicana, podia ter sido uma mulher como tantas outras, não fosse o facto de ter um aspecto físico muito singular, que em dada altura lhe valeu o título informal de “mulher mais feia do mundo”:

A história de Júlia Pastrana

Júlia Pastrana nasceu no México, viveu nesse país durante alguns anos, até que foi levada para os Estados Unidos da América, e exibida em circos, como se de um verdadeiro animal se tratasse. Às tantas fugiu com um homem, casaram, e ela continuou a ser exibida pelo mundo fora. Entretanto lá engravidou e deu à luz um filho com o mesmo problema genético, que acabaria por falecer apenas uns dias depois. Júlia, essa, seja por complicações pós-parto, ou de coração partido, acabou também ela por falecer rapidamente.

Normalmente toda esta história ficaria por aqui, até porque já tinha muito digno de crítica, mas neste caso específico a proverbial procissão ainda ia no adro. Quando faleceu o respectivo marido mandou empalhá-la, e ao próprio filho de ambos, e continuou a exibir o cadáver de ambos, até que acabou por casar com uma outra mulher, que também ela tinha a mesma doença genética que a anterior. Reza a história que, mais tarde, acabou louco e internado num hospício.

O corpo de Júlia Pastrana, esse, continuou a ser exibido pelo mundo fora, pertença de sabe-se lá quem, até que foi parar a terras da Suécia. Esteve interdito durante alguns anos, até que em 2013 foi devolvido ao México, teve o seu devido funeral e foi enterrada próxima da terra que a viu nascer. Para quem tiver alguma curiosidade, pode ver este pequeno vídeo, em língua espanhola, relativo a toda a história:

Certamente que os tempos mudaram, desde os meados de século XIX em que os episódios mais centrais de toda esta história tiveram lugar, mas não pode deixar de suscitar as mais diversas questões. Talvez a maior de todas elas seja… onde está a dignidade humana, quando nem após a morte uma pessoa pode descansar em paz? Felizmente, coisas como estas já pouco acontecem nos nossos dias…