Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres

Sobre este infame Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres, também conhecido na altura em que viveu como O Pancada, ele é hoje famoso essencialmente devido ao facto da sua cabeça ter sido estudada por múltiplos especialistas, em busca de uma explicação para as suas acções horrendas, e ter chegado bem preservada até aos nossos dias de hoje. Imagens que a mostram, que entretanto até se parecem ter tornado virais na internet, mostram algo deste género, em que a face do criminoso pode ser vista quase como ainda era em vida:

Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres

É provável que já conheçam as bases da sua história – ele foi o mais prolífico de todos os serial killers de Portugal, facilmente colocando na sombra as 33 mortes de Luísa de Jesus ao causar a morte de muitas mais pessoas. E como o fazia ele? Diz-se que este Assassino do Aqueduto das Águas Livres, essencialmente abordava as pessoas na parte superior do famoso aqueduto lisboeta e, depois de as assaltar e lhes roubar as suas posses, atirava-as daí abaixo, causando-lhes a morte (enquanto que também evitava possíveis testemunhos por parte das suas muitas vítimas, o que era bastante conveniente). Curiosamente ele nunca foi apanhado por esses crimes, que cometeu uma e outra vez, mas somente por ter morto a família de um médico, num local muito distinto de aquele que lhe trouxe a fama nacional (e, mais tarde, até internacional). Mas, mais do que recordarmos toda a sua história, por agora já suficientemente famosa, trazemos cá hoje é um pequeno filme sobre todo este episódio da história nacional. Datado de 1909, este filme (inacabado) recapitula parte da história de Diogo Alves e merece ser apresentado por cá por se tratar de um dos primeiros filmes da indústria cinematográfica nacional:

Um outro filme sobre o mesmo tema, esse já em forma completa e datado de 1911, pode também ser visto aqui, contando a história dos crimes deste Assassino do Aqueduto das Águas Livres numa sequência de alguns breves capítulos, nomeadamente os seguintes, tal como o próprio filme os apresenta:

Diogo mostra os Arcos ao “Beiço Rachado”
Uma das primeiras vítimas [que fez no local]
Único crime de que Diogo Alves se arrependeu, pelo motivo da criança se rir na ocasião em que era precipitada
Roubo e morte da Estanqueira
O encontro de Diogo com o Caseiro da Senhora Infanta
Diogo resolve ir esperar o Caseiro aos Arcos para o roubar
Combinação para o roubo em casa do Médico Andrade
O assalto a casa do Médico Andrade
Diogo com o Enterrador matam o criado do Médico Andrade
Diogo nega os crimes, a filha da Parreirinha acusa-o
Justiça feita [!]

É fácil constatar que ambos os filmes contam mais ou menos a mesma história. Claro que isso era difícil de evitar, tratando-se esta de uma trama baseada em factos verídicos, mas é curioso apercebermos-nos que mesmo após 50 anos do enforcamento do vilão – foi um dos últimos condenados à morte em Portugal*, em 1841, mas provavelmente um dos mais famosos da história nacional a sofrer esse derradeiro destino – a sua história ainda era bem conhecida entre os Portugueses, provavelmente porque foram sendo publicadas diversas obras e folhetos sobre a sua vida e os seus muitos e chocantes crimes**. Agora, se hoje já pouco se sabe sobre ela… pelo sim, pelo não, fomos ler diversos documentos da época sobre todo este caso e descobrimos que as coisas não foram tão simples como hoje se contam. Relatar toda a história deste criminoso fugiria dos nossos objectivos neste espaço, mas podemos aqui deixar cinco breves curiosidades sobre ela:

 

  1. Diogo Alves nem sempre foi um criminoso. Ele tinha uma vida relativamente boa, até que o seu caminho foi alterado pelo vício da bebida e pela influência de uma tal Gertrudes Maria, conhecida como “a Parreirinha”, com quem até chegou a viver. A “Estanqueira” mencionada no filme era, na verdade, a mulher que lhes alugou casa.
  2. Pouco se parece ter sabido sobre os crimes que tiveram lugar no Aqueduto, o que poderá ter contribuído para uma espécie de mitificação dos mesmos.
  3. Este criminoso não agia sozinho. Em dada altura juntou-se a uma quadrilha e cometeram bastantes crimes. Entre os seus companheiros contava-se Manuel Joaquim da Silva, conhecido sob a alcunha “Beiço Rachado”, a que o filme também fazia alusão.
  4. O mais famoso dos crimes que perpetraram foi o assalto e mortes causadas na casa do médico Pedro de Andrade, sita no número 36 da Rua do Alecrim, um evento que teve lugar na noite de 26 para 27 de Setembro de 1839.
  5. Ironicamente, os criminosos foram condenados porque a filha da “Parreirinha” testemunhou contra eles. Presume-se que não fosse um rebento deste famoso criminoso, o que até teria dado um desfecho demasiado hibrístico a toda a história, mas possivelmente de uma relação que ela tinha tido anteriormente. Manuel Joaquim e o criminoso aqui em questão foram condenados à morte, enquanto que a mãe da delatora foi desterrada (não sabemos o que foi feito da filha, mas dificilmente poderia ficar a viver com a mãe depois do que fez em tribunal).

 

Assim se compreende que Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres, não foi somente o perpetrador daqueles crimes que lhe trouxeram uma enorme fama, mas também cometeu muitos outros, tendo a sua condenação à morte sido bem merecida. Agora, o resto da sua história real deixamos para que outros a contem melhor nos nossos dias, até porque as nossas linhas sobre esta pequena curiosidade de hoje já vão demasiado longas…

 

*- Para quem tiver essa curiosidade adicional, o último condenado à morte em Portugal parece ter sido um tal José Joaquim Grande, que em 1846 foi enforcado em Lagos pelo crime de ter violado e morto a criada de um padrinho.

**- Numa nota mais pessoal, há alguns dias vimos um destes filmes com um grupo de idosos, o que até inspirou a escrita destas linhas. Durante o filme, quando o criminoso se prepara para atirar uma criança do topo do aqueduto, quase todos os visualizadores se mostraram chocados com o horrendo acto. Certamente que a audiência original terá sentido uma repulsa ainda maior!

As principais povoações islâmicas de Portugal

Há alguns dias, enquanto procurávamos informação para a lenda de São Vicente, encontrámos um curioso mapa que data do século XII e mostra as povoações islâmicas de Portugal. Presume-se, naturalmente, que não mostre todas elas, mas o que contém é tão interessante que achámos que o deveríamos mostrar por cá. Ah, e para os menos atentos, este mapa está aqui com o Norte para baixo, apenas para facilitar a leitura dos nomes das povoações:

Povoações islâmicas de Portugal

Datado do século XII e da autoria de Muhammad al-Idrisi, mas reproduzido aqui numa cópia já do século XX (e com os nomes latinizados), este mapa mostra um Portugal que ainda quase não o era, delimitado a Norte por Sant Iakub (Santiago de Compostela) e outras duas povoações; e a Oeste por Salamanka, Al kantara, um rio (já lá iremos), e Cádis. Se a geografia aqui presente nem sempre é muito precisa, permite identificar várias localizações cujos nomes ainda são famosos nos nossos dias. Começando então pelo Norte, temos:

  • Minu, que possivelmente deu lugar ao nosso “Minho”, mas cuja localização actual não conseguimos descobrir;
  • Mont Maior, a cidade de Montemor (próxima de Coimbra);
  • Kalimria e Koria [/Kuzala], para as localidades de Coimbra e Curia;
  • Asbuna, a cidade de Lisboa;
  • Santarín, a cidade hoje conhecida como Santarém;
  • Alkasr, moderno Alcácer do Sal;
  • Silb, certamente Silves;
  • Sant Maria, provavelmente as actual cidade de Lagos;
  • Martala, i.e. Mértola, próxima do rio Guadiana, o limite de Portugal a Este.

Face a este mapa, e à geografia que ele nos comunica das povoações islâmicas de Portugal, é curioso poder perceber que algumas grandes cidades dos nossos dias ainda não existiam nessa altura, enquanto que outras foram perdendo progressivamente a importância que tiveram em outros tempos. Ainda assim, foi interessante podermos perceber quais as povoações mais notáveis no tempo da Reconquista Cristã, num conjunto de pequenas curiosidades que achámos que tínhamos mesmo de deixar por cá!

Os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis

Há já quase uma década que aqui se falou dos conselhos amorosos de Ovídio, mas hoje completamos o tema falando sobre os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis, três figuras femininas que indubitavelmente merecem ser referidas no mesmo contexto que as famosas obras sobre o amor do autor romano. Por isso, quem foram elas?

Os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis

Conta-se que Astyanassa foi uma das empregadas que cuidou de Helena de Tróia quando esta ainda era muito jovem. Depois, aqui e ali, podem ser encontrados alguns brevíssimos factos que lhe foram sendo associados, mas o mais relevante para o tema de hoje é que se dizia que foi ela que ensinou à causadora da Guerra de Tróia as artes da sedução, contribuindo muito significativamente para a paixão de (Alexandre) Páris . Ainda mais – foi esta figura que inventou as diversas posições sexuais, tendo até escrito uma obra literária sobre esse tema. Mas, caso alguém tenha interesse em ir procurar esse texto, devemos deixar claro que não há qualquer prova de que ele tenha mesmo existido, visto que é sempre referido mas jamais citado.

Assim sendo, talvez até para colmatar a impossibilidade de leitura de uma obra como essa, outras mulheres cortesãs (ou seja, que se dedicavam à venda do prazer por dinheiro), escreveram os seus próprios textos sobre o tema. E talvez até tenham sido muitas, mas só nos chegaram informações associadas a duas delas.

 

Uma delas, conhecida sob o criptónimo de Elefantis, publicou um livro que sabemos que até tinha ilustrações, contendo novas (ou “nove”, como outros preferem ler) formas diferentes de praticar os actos derivados do amor. Infelizmente, nada nos chegou dos seus textos, ou mesmo das respectivas ilustrações, pelo que não nos é possível averiguar se terão tido algum impacto na obra de Ovídio.

Contudo, um outro caso é um pouco diferente – Filenis também escreveu um livro sobre os mesmos temas, mas dela já nos chegaram algumas breves linhas, permitindo-nos saber um pouco mais. Assim, a autora nasceu na ilha de Samos e era filha de um tal Ocimenes. A sua obra parecia abordar não só a prática sexual, em si mesma, mas também tudo aquilo que envolvia o tema do amor e a sedução, chegando a dizer, por exemplo, que mesmo que uma mulher fosse muito feia o potencial amante a deveria equiparar a Afrodite, ou que uma mulher mais velha poderia ser comparada a Reia (a chamada “Mãe dos Deuses”). É uma informação que suscita curiosidade, claro, mas que ao apenas nos ter chegado em breves fragmentos, também não nos permite saber muito mais sobre o texto original.

 

Ainda assim, isto prova que os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis, tal como o de outros potenciais autores e autoras da Antiguidade, podem ter dado um pano de fundo à Arte de Amar ovidiana, mas também contribuído para a sua proibição, pelos seus antecessores se tratarem, como nos informam os autores que aludem a estes textos, de obras pouco recomendáveis ao público em geral. Recorde-se até que, como já cá foi dito antes, livros pornográficos em Latim apenas vieram muito mais tarde, mas aqueles em língua grega foram, quase certamente, aqueles que aqui apresentámos hoje…

A história da Lampreia de Ovos

Esta espécie de história da Lampreia de Ovos merece ser contada pelo facto de estar já quase totalmente perdida. Sim, claro que é comum ver-se este bolo nos supermercados e pastelarias do nosso país, mais frequentemente até na altura do Natal, mas de onde surgiu toda esta singular ideia de representar este estranho peixe numa versão dourada e feita com ovos?

A história da Lampreia de Ovos

Numa página “oficial” sobre doces tradicionais portugueses (que sempre seria mais fiável que um artigo da Wikipedia…), em relação à Lampreia de Portalegre – uma possível antecessora desta nova e mais famosa versão? – é dito que se “desconhece o que terá levado as freiras [de Santa Clara e/ou São Bernardo] a confeccionarem este bolo com uma forma tão pouco habitual e imitando um animal não existente na região de Portalegre.” Por isso, de onde vem a ideia? Procurámos, procurámos, procurámos, e… acabámos por formular duas possíveis teorias que poderão ajudar a explicar uma possível história deste doce.

 

Quem for ao norte de Portugal, mais precisamente à fronteira estabelecida pelo rio Minho, perto de Melgaço poderá encontrar uma localidade espanhola chamada Arbo, que na sua bandeira e brasão até tem uma lampreia dourada, uma sintetização dos peixes e do ouro que, anteriormente, existiam muito na região. A mesma cor dourada do peixe, puramente lendária, também podia ser explicada por se acreditar que na região as feiticeiras – ou as Mouras Encantadas – adoptavam essa forma e, movendo-os pela notória procura pelo vil metal, afogavam os pescadores locais, numa lenda que está atestada em inícios do século XX, mas poderá até ser muito anterior.

Não sabemos se a Lampreia de Ovos original era feita de massa-pão (como a de Portalegre), ou já era também toda de gemas, mas faz algum sentido que esta segunda forma do doce descenda da primeira, não só pela simplificação da receita, como pelo facto de não se parecer, de todo e mesmo nos nossos dias, com o próprio peixe, como se o seu criador nunca tivesse visto o respectivo animal. Por isso, mediante a forma original do doce – que parece desconhecer-se hoje – esta ligação a Melgaço e/ou Arbo poderia ser provada ou negada.

 

Outra opção é que, tratando-se este de um doce raro, tivesse sido feito originalmente com o nome de “lampreia” por esse se tratar de um peixe cujo consumo, na altura e segundo conseguimos apurar, era associado às classes mais altas – novamente, isso ajudaria a explicar a diferença significativa entre o verdadeiro peixe e a forma representada no doce, já que o simbolismo teria mais significado do que a própria representação correcta do animal.

Uma Lampreia de Ovos do século XIX

Esta potencial história da Lampreia de Ovos é, assim, bastante circunstancial, mas há que frisar que a informação que se tem sobre o nascimento e evolução deste doce conventual é muito limitada. Se o animal é característico e famoso no norte do nosso país, não sabemos se ele originalmente já era feito de ovos (o que o poderia ligar a uma origem em Melgaço e Arbo, já sob a forma dourada), ou tinha mesmo a forma do peixe (o que poderia indicar que quem o fez até conhecia o animal, ou pretendia apenas dar esse nome ao seu doce). Assim, talvez esta acabe por ser uma daquelas histórias que se perdeu ao longo do tempo, como a da igualmente natalícia razão por detrás da fava do bolo-rei

A história do Jumbo, o elefante real que se tornou supermercado

A história do Jumbo, que aqui contamos hoje, é a de um elefante real que se tornou supermercado, pelo que tem obrigatoriamente de começar com uma consideração completamente nacional. Até há uns poucos anos podiam ser encontrados por todo o nosso país diversos supermercados com este nome. Hoje já adoptaram um outro, muito mais feio, mas porque tinha o supermercado esse nome, e de onde vinha ele? É isso que vamos aqui explicar hoje, até porque toda esta história ainda é famosa nas culturas inglesas mas muito pouco conhecida em Portugal.

História do Jumbo

Esta história real do Jumbo começa por volta de 1862, em que um dado elefante foi capturado na área do Sudão. Foi levado para a Europa, mais precisamente para França, onde foi exibido em Paris durante algum tempo, antes de ser trocado, em 1865, para um jardim zoológico em Londres. Tornou-se muitíssimo popular sob o nome de Jumbo – as crianças até passeavam nele todas as tardes! – e casou com a elefanta Alice, mas nunca tiveram os seus próprios elefantinhos. No entanto, ele era tão popular entre as crianças que se produziram muitos produtos com o seu nome, como o postal mostrado acima.

A vida de Jumbo poderia ficar por aqui, mas depois, em 1882, ele começou a portar-se mal, numa espécie de puberdade elefantina, e o jardim zoológico decidiu vendê-lo ao famoso P. T. Barnum. Na altura da partida para os EUA ele não quis ir, fez trinta por uma linha, tornando-se até notícia dia após dia, numa situação que foi evoluindo de tal forma que chegou à Rainha Vitória, ao parlamento inglês e aos tribunais locais, com muitas crianças locais a quererem que o seu elefante não fosse levado para longe.

Mas… ele acabou por ser levado, e já nos EUA obteve uma popularidade ainda maior num circo, até pelo facto de se tratar do maior animal que existia em cativeiro – dessa altura, ainda vimos muitos mais produtos com o seu nome e a sua figura! Depois, morreu em 1885, atropelado acidentalmente por um comboio. O seu esqueleto e a sua forma empalhada foram separados, exibidos no circo durante alguns anos, e depois doados para locais diferentes (o primeiro está no American Museum of Natural History, em Nova Iorque, enquanto que o segundo esteve na universidade Tufts até ao dia em que se perdeu num incêndio).

 

Também não é este o fim de toda a história. Nos anos que precederam a sua morte este elefante tornou-se tão popular que o seu nome, por via de toda a publicidade que o envolvia, se tornou um adjectivo na cultura americana, com o significado de “muito grande”, como o era o animal (com quase quatro metros de altura). Assim, é certo que quem deu o nome à antiga cadeia de hipermercados ainda conhecia toda esta história – basta até relembrar a presença do elefante no logo – tendo-lhe potencialmente atribuído esse nome para mostrar que o espaço era muito grande, um hipermercado, muito maior e melhor do que os supermercados a que as pessoas já estavam tão habitudas. E assim, durante muitos anos e até ao ano de 2019, esta pequena, história real do Jumbo perdurou, de um forma muito oculta e quase esquecida, na cultura portuguesa… mas é provável que também tenha inspirado outros supermercados com o mesmo nome pelo mundo fora, já que eles existem na Argentina, na Canadá, no Chile, na Colômbia, na Holanda e na Bélgica, entre outros lugares…

 

Uma última curiosidade, em relação a este tema? No famoso filme animado Dumbo, de 1941, o nome original do elefantinho era “Jumbo Jr.”; o seu pai nunca é visto, presume-se que a audiência já soubesse o que se passou com ele, mas é provável que a sua mãe fosse a Alice de toda esta história, apresentada no filme apenas sob o nome de “Mrs. Jumbo”.