Porque Lois Lane não gosta do Clark Kent?

É talvez um dos mais famosos triângulos amorosos da ficção dos nossos dias, o que une estas duas figuras ficcionais ao famoso Super-Homem. Mas, afinal, se a repórter do Daily Planet parece ter as maiores paixões pelo herói, porque é que Lois Lane não gosta do Clark Kent? Encontrámos a resposta por mero acaso, numa cópia de Action Comics No.1, de Junho de 1938, que adquirimos há alguns dias.

 

Nesta primeira de todas as suas aventuras, o Super-Homem ainda era uma figura muito simples. Em vez de combater seres interplanetários, desviar o curso de meteoros ou tornar-se bissexual, o herói salva um inocente condenado à morte, combate a violência doméstica e defronta políticos corruptos. Nesse contexto, o que esta primeira aventura também tem de especial é o facto de Clark Kent convidar Lois Lane para sair à noite – e, muito inesperadamente, ela aceitar! Vão dançar, e tudo parecia correr bem, até que…

Porque Lois Lane não gosta do Clark Kent?

Essencialmente, um mafioso abordou-os de forma muito rude, porque queria dançar com a Lois Lane, mas Clark Kent recusou-se a intervir, e mesmo depois de Lois Lane dar uma chapada no bandido o “herói” não ficou do lado dela, levando-a até a chamar-lhe um “spineless, unbearable coward“, um covarde da pior espécie. Convém adicionar que depois ela é raptada pelos tais mafiosos e acaba por ser salva pelo Super-Homem, o que ainda terá contribuído mais para a ideia de que este último era tudo aquilo que ela sentia faltar ao seu colega de redacção.

 

Face a estes acontecimentos, é fácil notar que a ideia de que Lois Lane não gosta do Clark Kent vem dos inícios de toda a sua história comum, já no primeiro volume das suas aventuras…

Anneliese Michel, um estranho exorcismo (com vídeo)

Hoje recordamos o estranho exorcismo de Anneliese Michel, uma jovem alemã que nasceu em 1952. Já faleceu, em 1976, mas são precisamente as razões por detrás dessa morte, completamente evitável, que motivam esta nossa publicação de hoje.

Anneliese Michel, jovem que passou por este exorcismo

Conta-se que Anneliese Michel, nascida sob o nome de Anna Elisabeth Michel, era uma boa jovem. Era uma excelente estudante, religiosa, ia muito à missa, até que um dia, por volta dos seus 16 anos, teve um ataque de alguma espécie e foi-lhe diagnosticada epilepsia. Foi sendo tratada para esse problema, mas continuou a sofrer essa espécie de ataques. Até que um dia – e é aqui que as coisas se tornam estranhas – na sequência de um desses episódios, supostamente epilépticos, começou a ter sintomas progressivamente mais estranhos – começou a ouvir vozes ameaçadoras, a ver faces demoníacas nas paredes, mostrou-se intolerante a quaisquer ícones religiões cristãos, e outras coisas que tais.

A solução, para os pais desta pobre Anneliese Michel, passou por recorrer a um exorcismo. Com a autorização do bispo local, dois padres lá aceitaram fazer esse ritual… e então os pais da jovem decidiram deixar de a levar a qualquer espécie de especialista médico e suspenderam a medicação que ela andava a tomar. O que aconteceu? Passadas semanas e semanas de rituais de exorcismo (por parte dos padres), de ausência de medicação (por opção paterna), e de ausência de comida (por opção pessoal da afectada), a 1 de Julho de 1976 esta rapariga faleceu.

 

Agora, a verdadeira questão é – será que Anneliese Michel estava verdadeiramente possuída por demónios? Será que necessitava de passar por um exorcismo real? Claro que optámos por omitir alguns dos episódios mais chocantes de toda esta história (real), até para não traumatizar os mais novos, mas face o que estudámos de outros rituais de exorcismo não é credível que esta jovem estivesse verdadeiramente possuída por seres demoníacos, mas com graves problemas de ordem psicológica. Ela morreu, isso sim, por aquilo a que poderíamos chamar uma enorme e completamente absurda loucura colectiva de todos os envolvidos – e, na verdade, todos os vivos foram culpados de negligência num tribunal alemão! Mas, ainda assim, esta história continua a inspirar muitos livros e filmes nos nossos dias (e.g. O Exorcismo de Emily Rose), como se de uma possessão totalmente real se tivesse tratado, quase que esquecendo que por detrás de todo o caso estava uma mulher real, com problemas reais, cuja ausência de um tratamento mais real acabou por levar a uma morte completamente evitável…

 

Mas, se alguém quiser deixar de lado a parte real de toda esta questão e apenas tiver vindo aqui para se assustar um pouco, pode sempre ouvir este audio, em que podem ser escutados os (falsos) demónios que supostamente atormentavam esta infeliz jovem. Não é, de todo, recomendado aos mais sensíveis, considerem-se avisados!

A verdadeira história da Bela e o Monstro

Quando pensamos numa verdadeira história da Bela e o Monstro, hoje tendemos a pensar na versão da Disney, que se baseia num conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont datado de 1756. Contudo, essa agora-famosa versão também é, por sua vez, uma adaptação de um outro conto, escrito por Gabrielle-Suzanne de Villeneuve na sua obra La Jeune Américaine ou les Contes marins (de 1740), que na verdade é a primeira versão literária de toda esta história (não temos provas concretas de que se tenha baseado em fontes orais). E é sobre esta trama original que hoje escrevemos estas linhas, porque as suas páginas são fascinantes.

Verdadeira história da Bela e o Monstro

A primeira metade da obra é semelhante à história como a temos hoje, salvo uma excepção muito significativa. Enquanto vive no palácio do Monstro, a Bela (é um criptónimo, o seu nome verdadeiro nunca é revelado) tem muito prazer nas diversões que vai encontrando e começa a ter uns estranhos sonhos em que vê um homem muito belo, por quem depressa se apaixona loucamente. E então, vê-se presa numa espécie de triângulo amoroso, em que não sabe se deverá amar essa figura misteriosa ou o Monstro – ou seja, trocando por míudos, deverá ela amar um homem lindíssimo (mas inacessível), ou uma figura horrenda mas disposta a fazer tudo por ela? O texto, aquando da altura em que a heroína fala com o seu próprio pai sobre isto, é muito claro na resposta que tem para nos oferecer – “a comparação que [Bela] fez entre os dois admiradores jamais poderia ser favorável ao Monstro”.

Mas depois, à medida que a história se aproxima do seu pináculo, o pai da heroína fá-la pensar que um pássaro na mão é melhor que dois a voar e a Bela lá decide casar com o Monstro. E fá-lo não porque tenha aprendido a amá-lo de alguma forma, mas porque – e tenha-se isto bem em atenção – face à perspectiva de ter um amante que só pode ver nos seus sonhos, lhe parece mais apropriado ficar com uma criatura que, apesar de “repugnante” (são palavras da heroína na própria obra!), lhe dava tudo o que ela quisesse. E então, vão casar e a Bela depressa tem uma enorme surpresa – afinal de contas, o misterioso homem com quem ela sonhava era na verdade o Monstro, que tinha sido enfeitiçado por uma fada!

 

Já todos conhecem essa parte da história, mas o que o texto de Gabrielle-Suzanne de Villeneuve tem de particularmente interessante é de não acabar aqui. Na verdade, ainda vai a metade! E continua a história, depois, revelando não só as razões pelas quais o Príncipe (que nunca recebe outro nome senão este…) foi transformado em Monstro, mas contando-nos também uma espécie de prequela de toda a trama, em que é revelado todo o passado do pai de Bela, destinando-se a explicar como um príncipe podia casar com uma plebeia. E, sem querermos estragar a enorme surpresa, são duas histórias que se entrecruzam e que, muito inesperadamente, talvez até sejam mais fascinantes do que a própria história da Bela e o Monstro que já bem conhecemos – por isso, para quem tiver essa curiosidade, fica o convite para que leia toda a história original, em tradução inglesa, aqui.

A Bela a sorrir por um Monstro bem rico...

Todavia, para quem não quiser (mesmo) ir ler essa história, ainda podemos, a título de exemplo, mostrar outra diferença muito significativa entre as duas versões. Na da Disney, como na de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, a transformação do Monstro para Príncipe é motivada pelo “amor verdadeiro [de uma virgem]”. Porém, nesta verdadeira história da Bela e o Monstro, ela tem lugar quando a Bela, tendo de escolher entre um homem bonito idealizado ou um ser horrendo que fazia tudo por ela, optou pelo segundo, ensinando ao seu futuro marido uma lição muito preciosa (que aqui até poderá parecer estranha, excepto para aqueles que tenham lido a segunda metade da obra).

Ou seja, se a moral da história original era algo como “Mulheres, casem com um homem que faça tudo por vocês, por mais horrendo que ele vos pareça”, ela foi deturpada nas várias versões posteriores, levando-nos a acreditar numa (falsa) moral de que o aspecto de alguém nada importa face ao amor verdadeiro. E essa lição não constava no original; esta não era, originalmente, uma questão de amor, mas sim de o Monstro estar disponível e a Bela querer para si um parceiro capaz de lhe dar tudo o que ela quisesse – uma verdadeira gold digger, que rapidamente deixaria este parceiro se tivesse conseguido encontrar o belíssimo homem que aparecia nos seus sonhos, como a própria história nos deixa muito claro. E, queiramos ou não, talvez essa moral da verdadeira história da Bela e o Monstro até fosse muito mais realista e apropriada para os nossos dias de hoje, em detrimento de toda aquela falsa ideia de que o aspecto físico nada importa nas questões amorosas…

A origem e o mito de Puck e Oberon

Quem já tiver lido, ou assistido, ao Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, certamente que se terá interrogado sobre a origem das personagens do reino místico – Oberon, Puck, Titânia, etc. Têm uma mitologia parcialmente palpável, mas ao mesmo tempo pouco se fala de cada uma delas fora dessa peça de teatro específica. É como se surgissem para essa peça e desaparecessem pouco depois, mas tendo por detrás delas, estranhamente, muito mais do que nos é dito, um conjunto de histórias que apenas podem ser subentendidas através de alguns instantes dos diálogos e da trama. Mas, então, qual é a origem de Puck e Oberon? E, na verdade, que mitos têm associados?

Puck, filho de Oberon

Segundo um pequeno panfleto do finais do século XVI, Robin Good-Fellow: His Mad Pranks, and Merry Jests, tanto Puck como Oberon têm a sua origem no folclore inglês, existindo até alguns poemas e cantigas que narram a relação entre ambos. E ela é relativamente simples, sendo possível resumir toda a história – que já de si não é muito longa – em meia dúzia de linhas:

 

Oberon era uma fada (do sexo masculino) que amava uma mulher mortal. Costumava visitá-la e “dançar” com ela durante a noite, até que a engravidou. Puck nasceu pouco depois, e enquanto era jovem fazia sempre muitas traquinices. Um dia, a mãe ia dar-lhe uma tareia enorme, e então ele decidiu fugir de casa. Pouco depois, o seu pai apareceu-lhe e contou-lhe que, como seu filho, tinha o poder de se transformar. Seguiram-se muitas aventuras, em que este jovem usou os seus poderes mágicos para ajudar vários injustiçados e punir alguns malvados, até que, finalmente, se juntou ao seu pai na floresta, onde ambos dançam todas as noites com o resto das fadas.

 

Um colega professor de teatro alertou-nos que, curiosamente, esta história até pode servir como uma pequena introdução ao Sonho de uma Noite de Verão, explicando de onde vêm as personagens e como se encontraram na floresta em que, depois, toma lugar a história de Shakespeare. E é verdade, mas também prova é que quando este dramaturgo inglês escreveu a sua peça, fê-lo num contexto em que a audiência já estava bem familiarizada com as personagens necessárias para que se entendesse a totalidade da trama. E sabiam-no porque, muito provavelmente, estas eram personagens famosas na sua época, mas que foram sendo esquecidas ao longo dos séculos, deixando a trama da peça agora parcialmente incompleta para nós.

 

Em forma de sumário, Robin Good-Fellow, hoje mais conhecido simplesmente como Puck, era filho de Oberon e são ambos entes da floresta, uma espécie de fadas, com poderes mágicos de transformação, e possivelmente muito bem conhecidos do folclore da época de William Shakespeare. Supõe-se, pelo contexto, que Titânia, enquanto rainha das fadas, venha do mesmo sistema de mitos, mas é um ponto que já não conseguimos atestar verdadeiramente, estando ela ausente das histórias que fomos consultando.

Já conheces o segredo de Peter Pan?

A história de Peter Pan é bastante famosa nos dias de hoje, mas também esconde um grande segredo de que poucas vezes ouvimos falar. Se, tanto quanto nos foi possível apurar, a figura e as suas histórias não são baseadas em qualquer mito, lenda ou tradição oral – serão, portanto, somente uma criação do inglês J. M. Barrie nos primeiros anos do século XX – a forma como a história chegou aos nossos dias, em versões como a da Disney, está muito sanitizada, censurada, esquecendo “misteriosamente” alguns elementos mais estranhos da obra original.

O sinistro Peter Pan

Esta agora-famosa história é contada em duas obras da autoria exclusiva de J. M. Barrie, Peter Pan in Kensington Gardens e Peter and Wendy. Quem quiser conhecê-la por completo deverá ler ambas, mas quando o fizer acabará por encontrar faces muito sinistras da história que, naturalmente, parecem ir desaparecendo ou sendo amenizadas nas versões mais modernas.

 

Por exemplo, o primeiro desses livros conta as origens de toda esta figura. E quem é ele? Uma criança com menos de um ano de idade que fugiu de casa da mãe, esvoaçando, e que passou a viver escondido nos Kensington Gardens londrinos. Até aqui tudo bem, é apenas uma história de fantasia, mas mais à frente o herói começa a sentir falta da sua mãe e decide visitá-la. Encontra-a ainda a chorar, com a janela de casa ainda aberta, etc., e então decide fazer uma derradeira aventura e voltar mais tarde. Retornando depois, encontra a mãe no mesmo quarto, já feliz, com um novo filho nos braços – e, repita-se, até aqui tudo bem – mas tendo posto barras de ferro na janela do quarto, para que nada possa entrar ou sair. Nesse sentido, o herói sente que a mãe se esqueceu dele, tal como o leitor provavelmente já se terá esquecido que está a ler uma história para crianças.

 

Na mesma história, Peter Pan conhece também uma menina de quatro anos, chamada Maimie Mannering, e têm algums aventuras juntos. Trocam dedais e beijos, até que o herói lhe pede para casar com ele. Ela rejeita, dizendo que iria ter saudades da mãe, mas continua a voltar aos jardins de tempos a tempos, deixando prendas ao antigo amado. E vai crescendo… mas o herói, esse, continua sempre com a idade que tinha originalmente – ou seja, acabaram de testemunhar uma história de amor entre um menino com menos de um ano (recordem-se, ele não envelhece!), e uma menina de quatro anos que, quando vai crescendo, mantém uma espécie de paixão por uma figura estranha que conheceu há anos e que se mantém igual ano após ano.

 

Poderíamos estar a tentar ver mal onde não o há, mas quem conhecer a história presente na segunda obra notará que estes temas se mantêm – Wendy terá cerca de 12 anos, o herói não envelhece (será que continua com um ano de idade?! Não é claro), eles têm aventuras juntos na Terra do Nunca, no final os restantes Meninos Perdidos acabam adoptados pela família Darling, mas a figura que dá o nome a estas histórias, essa, volta sozinha para o local de onde vinha e parece esquecer esta jovem. É novamente abandonada (quantas mais vezes o terá sido?!), e parece esquecer também esta companheira. Isto até que, muitos anos mais tarde, quando Wendy já é mais velha e tem uma filha, aparece subitamente e parece querer levar a menina em novas aventuras… quantas mais crianças terá ele levado consigo, e trazido depois de volta à medida que se tornam mais velhas?!

 

Quando os Irmãos Grimm censuraram muitas das histórias que recolheram, talvez tenham tido uma certa razão no que faziam. Há um conjunto de possíveis leituras muito inquietantes em algumas histórias infantis, um vector muito sinistro nestas histórias de Peter Pan, que se até podem levantar várias razões para debate nos mais velhos, poderão inquietar as crianças. A nós, sinceramente, levaram-nos a muitas questões – por exemplo, há um subtexto nestas obras que levanta a possibilidade de que quase todas as personagens estejam mortas… mas será que essa era uma das leituras pretendidas pelo autor? Fica a questão…