Em busca da verdadeira origem do Carnaval português

Carnaval

A semana passada inquirimos aqui sobre a origem do Carnaval português. A autora desse espaço disse-nos o seguinte:

(…) O Carnaval é o período de liberdade desregrada que antecede a Quaresma, época de limitações alimentares e comportamentais no calendário da Igreja Católica. Penso que esta será a explicação mais simples para o Carnaval na Europa, depois “exportado” para os territórios colonizados nos outros continentes. Penso que teve origem em festas pagãs depois “adotadas” pela Igreja Católica, para melhor as controlar. (…)

 

Se, depois de longos debates, concordamos quase totalmente com o que ela nos disse, não deixa de haver um problema muito significativo – procure-se na internet mil vezes a origem do Carnaval português, e mil vezes se encontrará uma resposta muito semelhante, dizendo sempre que terá vindo de festas pagãs. Mas de quais festas pagãs, afinal de contas?

 

Mais que tudo, o grande problema começa por definir o “nosso” Carnaval. A sua data está intimamente ligada com a Quaresma cristã, mas é variável. A existir alguma festa cristã que a antecedesse, será que a sua data também era variável? Se sabemos bem como a data da “nossa” Páscoa foi calculada, somos automaticamente levados à ideia de que a data do Carnaval português foi definida posteriormente, sem que qualquer festa pagã tenha existido 40 dias antes da morte e ressurreição de Cristo.

 

Então, onde deverá começar o Carnaval português? Com o mês de Fevereiro? Acreditando que sim, parece ter existido nessa altura algo a que alguns autores medievais chamaram Spurcalia. O grande problema, no entanto, é que quem quiser poupar tempo e for ler um artigo como The Rise of the Spurcalia: Medieval Festival and Modern Myth poderá notar um elemento fulcral – se esse festival realmente existiu, absolutamente nada de concreto sabemos sobre ele. Ponto final?

 

Nem por isso. A “nossa” celebração de um Carnaval, com máscaras e outras coisas que tais, foi importada do estrangeiro e mais tarde exportada para o Brasil. A existência de rituais semelhantes noutros países, como o chamado festum stultorum, a “Festa dos Loucos”, atesta bem isso. O que desconhecemos, no entanto, é se esses rituais tiveram um qualquer fundamento pagão, ou nasceram já como eventos completamente cristãos. Não sabemos (!), sendo que a ideia de que o Carnaval português poderá ter nascido de festivais pagãos surgiu de outros exemplos em que isso aconteceu de forma comprovada, e.g. o Natal e a Saturnália. É uma mera possibilidade, somente isso, porque desconhecemos por completo os rituais de potenciais festivais pagãos do mês de Fevereiro. E quem quiser acreditar mais que isso, fá-lo sem qualquer suporte real para as suas ideias.

Conhecem a versão original da Saia da Carolina?

Cremos que todos os leitores já conhecem a letra da Saia da Carolina dos nossos dias, i.e. “A saia da Carolina tem um lagarto pintado”, pelo que é preferível recordá-la somente com um pequeno vídeo infantil, o primeiro que encontrámos na internet, acessível aqui.

Saia da Carolina

Esta música nada teria de especial, não fosse o facto de ontem uma idosa, ao recordar-nos algumas músicas do seu tempo de meninice, nos ter cantando uma versão significativamente diferente. Os mais cépticos poderão tentar apontar que se tratam de músicas diferentes… e poderíamos aceitar, não fosse um problema na canção infantil dos nossos dias, que passa pelo facto de somente descrever uma saia, em que ás tantas é acrescentado “foi lavada com sabão, tem cuidado ó Carolina não lhes deixes pôr a mão”…

 

Estes versos não puderam deixar de nos intrigar. À medida que pesquisávamos, encontrámos uma versão da música que era a cantada pela idosa, e uma outra, bastante semelhante mas de origem galega. Em ambos os casos, apenas aqui reproduzimos alguns versos mais significativos:

A saia da Carolina tem um lagarto pintado
Quando a Carolina dança o lagarto dá ao rabo.

A saia da Carolina, ten un lagarto pintado;
Cando a Carolina baila, o lagarto dalle o rabo.

Bailaste, Carolina?

Bailei sim senhor

Diz-me com quem bailaste?

Bailei com o meu amor.

Bailaches Carolina?

Bailei, si señor.

Dime con quen bailaches.

Bailei con meu amor.

A Carolina é uma tola que tudo faz ao revés

Despe-se pela cabeça e veste-se pelos pés.

A Carolina é unha tola que todo fai ó revés.

Éspese pola cabeza e díspese polos pés.

 

Bailaches Carolina?

Bailei, no cuartel.

Dime con quen bailaches.

Bailei co coronel.

O senhor cura nos baila porque tem uma coroa.

Baile, senhor cura, baile que Deus tudo lhe perdoa!

O señor cura non baila porque ten unha coroa.

Baile señor cura baile, que Dios todo llo perdoa.

 

Bailaches Carolina?

Bailei, abofé.

Dime con quen bailaches.

Bailei co meu Xosé.

A Saia da Carolina não tem pregas nem botão

Tem cuidado ó Carolina não te caia a saia ao chão.

A saia da Carolina foi lavada com sabão

Tem cuidado ó Carolina não lhe deixes pôr a mão.

 

A saia da Carolina é curta é das modernas

Tem cuidado ó Carolina ela não te tapa as pernas.

 

 

No curro da Carolina non entra carro pechado.

Na máis entra Carolina, co seu cocho polo rabo.

 

Co teu amor Carolina, non volvas a bailar,

Porque che levanta a saia

Ié moi mala de baixar.

 

Onde nos pode levar esta comparação? Essencialmente, a canção infantil dos nossos dias é uma versão sanitizada de uma versão sanitizada portuguesa de uma canção originalmente galega. Que é a versão de nuestros hermanos a original, e não a nossa, pode ser compreendido pelo facto de existir uma simplificação da letra geral e do próprio refrão, que é algo muito mais comum do que uma ampliação de um original.

 

A canção original não era, de todo, para crianças. Contém alguns elementos metaforicamente sexuais, associados a uma rapariga “tola” que “faz tudo ao contrário”. Em que consistem as suas várias tolices é fácil de compreender na versão galega, mas esses elementos foram sendo censurados ou removidos tanto na versão dos nossos dias como na cantada pela idosa. E compreende-se assim de que “lagarto” fala a letra, a razão pela qual andavam a pôr as mãos na saia da Carolina, e o porquê de esta necessitar de ser lavada com sabão… e, no mesmo contexto, talvez um dia revelemos quem foi o tal gato a quem atiraram um pau!

Qual o significado do brasão do Rio de Janeiro?

Há poucas horas falámos sobre o brasão da cidade de Coimbra, apontando nessa altura a dificuldade que era descortinar o verdadeiro significado por detrás dos seus símbolos. E, nesse sentido, antes de voltarmos a um mito grego, queríamos então cá trazer também um exemplo de uma situação contrária, um caso em que é bastante mais fácil fazê-lo.

Agora, se Coimbra foi a segunda capital de Portugal, achámos que poderíamos igualmente dedicar algum tempo aos leitores “do outro lado do oceano” e falar da segunda capital do Brasil – Rio de Janeiro – cujo brasão pode ser visto abaixo. Qual o significado do brasão do Rio de Janeiro?

Brasão da Cidade do Rio de Janeiro

No topo, como é costume, podem ser vistas as cinco torres que simbolizam o seu estatuto de cidade. Em redor, o louro e o carvalho e duas criaturas marinhas (foi-nos dito que são botos, parecidos com os golfinhos), cada qual com seu significado hieráldico. Mas o que está no centro?

O azul significa a lealdade. A esfera armilar e as três flechas, que já aí constam desde o tempo dos portugueses, remetem-nos para as descobertas manuelinas e a morte de São Sebastião (não confundir com Dom Sebastião). Finalmente, o barrete frigio central é, desde os tempos da Revolução Francesa, um símbolo da república.

 

O que distingue o caso deste brasão do de Coimbra, em Portugal? Se ambos foram sendo alterados ao longo dos séculos, no caso do Rio de Janeiro os símbolos essenciais foram (quase) sempre os mesmos, de uma simplicidade que evita quaisquer confusões. Já os de Coimbra, na sua complexidade tornaram possível que o significado inicial se fosse perdendo, levando a múltiplas interpretações que, por parecerem verdade, contribuíram para o esquecimento de uma simbologia que lá teria existido antes.

Qual o significado do brasão de Coimbra?

Há alguns dias, enquanto passeávamos pela cidade em questão, perguntaram-nos qual o significado do brasão de Coimbra? Para quem não souber a que nos referimos, aqui fica uma imagem dele:

Brasão de Coimbra

Quem é a mulher na parte superior da imagem? Porque é o elemento central tão vermelho? A que se referem a presença de um dragão, um leão e um cálice?

 

O grande problema em descortinar o significado por detrás de todos estes elementos não se prende tanto com uma ausência de fontes, mas com uma enorme discrepância entre todas elas, cada qual com uma opinião muito distinta, como dá facilmente a entender a obra conimbricense O Brasão de Coimbra, da autoria de Augusto Mendes Simões de Castro. E, por isso, nada como contar duas das versões que nos chegaram.

 

Segundo a Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, de Gil Vicente, o elemento feminino era uma princesa de nome Colimena (ou Cindazunda), que foi raptada por um gigante e aprisionada numa torre, acabando por ser salva por um leão e uma serpente que, inesperadamente, parecia ter amestrado. Poderia ser uma boa resposta ao mistério por detrás de toda a simbologia da cidade, mas na mesma peça a princesa acrescenta que “o cálice está errado, pois devia ser uma torre aprisionadora”. Mas não é uma torre – é um cálice ou uma fonte (em algumas versões mais antigas do brasão da cidade até pode ser vista a figura feminina no seu interior), denotando que o autor da peça já desconhecia a razão verdadeira por detrás desse elemento central do brasão de Coimbra, descartando-o com uma alternativa muito pouco real.

 

Noutra versão, a figura feminina representada no brasão de Coimbra era a Rainha Santa Isabel. Face a séculos de confrontos na cidade (até se poderia dizer que o Mondego foi sendo tingido de sangue, daí o elemento vermelho), a sua vinda veio trazer comunhão e harmonia a dois grandes grupos que aí habitavam (seriam eles, por exemplo, cristãos e muçulmanos, escondidos por detrás das figuras do leão e do dragão?), juntando-os com um mesmo sangue (aqui representado na figura do cálice). É uma metáfora interessante, mas também só parece surgir mais tardiamente.

 

O que sabemos, na verdade, é que estes símbolos no brasão de Coimbra não surgiram por magia. Quando alguém decidiu, por exemplo, que este deveriam conter uma serpente (ou um dragão), isso foi feito com uma determinada intenção. Infelizmente, neste caso particular essa realidade una já se parece ter perdido ao longo dos séculos, como denota o facto de não existir uma só explicação horizontal, mas várias opiniões divergentes. E por isso não sabemos o que este brasão significava, na sua forma original – temos acesso, isso sim, é a diversas opiniões, aparentemente construídas sobre o desconhecimento de aquelas que foram, faz já muitos séculos, as razões reais.

Como é o baptismo das bruxas?

Se já cá falámos várias vezes sobre as bruxas, uma questão pode permanecer – como é que alguém se torna uma bruxa? Como é o baptismo das bruxas? Que juramentos fazem elas, para ganharem os seus agora-famosos poderes? Claro que vemos muito essas coisas na cultura popular, em séries de televisão e em alguns livros, mas serão esse eventos mera ficção, ou até têm um fundo de realidade?

O baptismo das bruxas

Inesperadamente, o juramento ficcional que tanto vemos na cultura popular até tem um fundamento real. Segundo um documento nacional, datado de 1559 e que é conhecido como Confissão de umas bruxas que se queimaram na cidade de Lisboa, aquelas que se diziam feiticeiras tinham de passar por um ritual específico que, depois, as tornava bruxas, numa espécie de pós-graduação. Surgiam-lhes, supostamente, três demónios a transportar um livro que não tinha uma única folha branca, e de onde deviam ler um conjunto de promessas que faziam ao Diabo:

Prometes e juras que nunca servirás, nem adorarás, outro deus senão nós?

Renegas Deus e o baptismo que recebeste? [I.e. supõe-se, naturalmente, que a crente nestas coisas já tinha sido baptizada na Igreja Católica]

Prometes nunca deixares de fazer o nosso mandado?

Prometes não nomear o nome de Jesus de nenhum modo ou maneira, e nunca confessares a verdade, mesmo que te confesses [a um padre]?

Prometes apartares-te de Deus, e nunca teres amizade com ele, e lhe fazeres quando mal puderes?

(…)

 

Naturalmente que a pessoa, quase sempre do sexo feminino, deveria responder afirmativamente a todas estas questões. Depois, tinha relações sexuais com o Diabo, era-lhe dado um sinal corporal do seu juramento, recebia algumas prendas para recordação do que tinha feito, e até jantava sumptuosamente uma comida sem sal. Estes, entre outros, eram os elementos que então faziam parte do baptismo das bruxas, conduzindo-as a uma espécie de mundo alternativo em que se afastavam de tudo aquilo que era o Cristianismo e as suas leis. É curiosa, esta semelhança com os pactos com o Diabo de que cá falámos anteriormente, na medida em que a Bruxaria dos recentes séculos da nossa era, no seu geral, parece ser construída como uma negação ou antítese do Cristianismo e de Deus, mais do que uma entidade díspar.

Ao mesmo tempo, se as bruxas (femininas) tinham de ter sexo com o Mafarrico, esse elemento parece estar sempre ausente dos rituais para o sexo masculino, fazendo crer numa espécie de estranha heterossexualidade do opositor de Deus, que gosta de possuir carnalmente as mulheres, mas nunca faz uma tal exigência aos homens. Estranhas ideias, estas, que os textos de outros tempos nos vão revelando, não só em relação ao baptismo das bruxas, mas também em relação a todas aquelas crenças que os nossos antecessores lhes imputavam…