A origem, significado e tradução de “Lorem Ipsum”

Sobre a origem, significado e tradução de Lorem ipsum, talvez só os muito distraídos nunca se tenham apercebido que existe um texto muito comum na internet que começa sempre com esta expressão. E isso poderá levar-nos a uma questão – afinal, qual a sua origem, e o que significa verdadeiramente toda essa sequência textual, semelhante à que reproduzimos abaixo?

Qual o significado de Lorem Ipsum, e a sua tradução?

Na verdade, costuma ser usado um gerador de texto para prolongar este lorem ipsum até à extensão desejada, mas a fonte original deste texto foi uma das obras de Cícero, no seu título latino De Finibus Bonorum et Malorum. Aparentemente – nunca conseguimos uma confirmação 100% segura – quando, por volta do século XVI, alguém estava a desfazer uma composição tipográfica desse texto, retirou umas palavras aqui, umas letras ali, criou parte deste texto e por uma qualquer razão imprimiu-o. Depois, talvez por mero acidente, talvez como uma espécie de piada que já nos escapa, ou até talvez “porque sim”, este Lorem ipsum foi sendo impresso sempre que se necessitava de um conjunto de palavras que não fossem para ser lidas, mas sim para testar como um texto irá surgir numa página ou num ecrã.

 

Mas o que diz ele? Essencialmente… o texto que começa com Lorem ipsum não tem qualquer significado ou tradução real! Pode haver, por mera coincidência, uma sequência aqui e ali que tenha algum significado acidental e real em Latim, mas no seu geral não tem qualquer sentido. A palavra lorem, por exemplo, nem sequer existe, tendo sido retirada do original dolorem, que significa “a dor” (em complemento directo).

Por isso, este lorem ipsum é um texto mais ou menos em Latim, mas sem qualquer significado real, como se alguém, nos nossos dias, escrevesse algo tão estranho como “sapo da comer um azul mas casa os porquê”.

Porque foi o Brasil chamado Terra de Vera (ou Santa) Cruz?

Quando os Portugueses primeiro chegaram ao Brasil, no ano de 1500, chamaram-lhe “Terra de Vera Cruz” (ou “Terra de Santa Cruz”, ou Ilha desse mesmo nome). Claro que já todos ouvimos isto, nos nossos tempos de escola, mas, afinal de contas, qual é a origem desse nome e o seu significado?

Vera Cruz no Planisfério de Cantino

Imagine-se que, como nos foi contado na escola, Pedro Álvares Cabral viajou por mar dias e dias até encontrar esta nova terra, que inicialmente pensou tratar-se de uma ilha. Viu um monte, uma floresta luxuriante, papagaios a esvoaçar, e tinha de decidir dar-lhe um nome para Portugal. E porquê “Vera Cruz”?

 

Explicar isso implica viajar no tempo para vários séculos antes. Quanto o cânone da Bíblia foi escolhido, existiram alguns textos que foram aceites e outros que ficaram de lado. Entre os que pertencem à segunda categoria contavam-se vários relatos (apócrifos) da juventude e idade adulta de Jesus. Esses textos, e outros que foram aparecendo mais tarde, continham várias histórias que se foram tornando populares ao longo dos séculos (por exemplo, as histórias de São Joaquim e Santa Ana, pais de Santa Maria, mãe de Jesus), mas que nunca foram totalmente aceites como “oficiais” pela Igreja, apesar de serem parte de uma tradição muito conhecida entre o povo.

Entre esses vários textos conta-se uma história, hoje já pouco conhecida, que dizia que José e Jesus, no seu emprego como carpinteiros, fizeram várias cruzes em que os criminosos iam sendo punidos. Entre as muitas que construíram contava-se uma cruz feita pelo próprio Jesus Cristo com a madeira de uma árvore muito especial – a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, a tal que deu o fruto que Adão e Eva comeram antes de serem punidos por Deus – e onde ele próprio acabaria por ser crucificado, associando (metaforicamente) a punição da humanidade com a expiação desse mesmo pecado original.

Em termos de certa brincadeira, podemos acrescentar que a história nunca conta como foi obtida essa madeira, ou quem foi buscá-la ao Paraíso. Mas, seguindo esta história popular, a cruz em que Cristo foi crucificado foi feita com madeira provinda do Paraíso.

 

Mas toda esta história ainda não terminou. Séculos após esses eventos supostamente reais, quando Santa Helena procurou a Cruz de Cristo em Jerusalém encontrou várias cruzes. Querendo saber qual a verdadeira, testou-as de alguma forma (os contornos da lenda variam, mas mostram sempre o carácter miraculoso exclusivo do lenho em que Cristo foi crucificado) e encontrou a que procurava, que ficou conhecida em Latim como Vera Crux, a “cruz verdadeira”, por oposição às cruzes em que outros tinham sido crucificados.

 

Volte-se agora a Pedro Álvares Cabral. Certamente que ele conhecia estas histórias populares da sua época. Nesse sentido, quem for ler a Carta de Pero Vaz de Caminha, um dos primeiros relatórios do “achamento” do Brasil, poderá aí notar quatro aspectos dignos de nota:

  • A razão por detrás do nome nunca é revelada;
  • A descoberta teve lugar na altura da Páscoa, um monte próximo até foi chamado de “Monte Pascoal” (e a ligação entre essa festa religiosa e a cruz de Cristo é evidente);
  • É repetidamente referida a nudez impudica dos nativos de ambos os sexos, chegando esta até a ser comparada com a inocência de Adão;
  • São feitas várias referências à veneração da própria cruz.

 

Face a todas estas provas, não sabemos se alguma vez Pedro Álvares Cabral terá pensado verdadeiramente que tinha chegado ao Paraíso de que falava o Antigo Testamento, mas é certo que viu algo nas características da terra recém-descoberta que o fez pensar numa espécie de local paradisíaco, levando-o ao nome que lhe viria a dar – “Terra de Vera Cruz”, ou seja, o/um Paraíso.

 

 

P.S.- Um autor mais tardio, o Padre Simão de Vasconcelos, conta que quando foi celebrada a missa pascal na sequência deste descobrimento algo de muito curioso, mas relevante no contexto deste espaço, teve lugar. Citando-se o passo da sua obra:

No meio destes aplausos [derivados da missa] quis também o elemento do mar com um seu, e foi que vomitou à praia um monstro marinho. Não conhecido e portentoso, recriação dos Portugueses por coisa insólita, e muito aprazível aos Índios por pasto do seu gosto. Tinha de grossura mais que a de um tonel, e de comprimento mais que o de dois. A cabeça, os olhos, a pele, eram como de porco, e a grossura da pele era de um dedo. Não tinha dentes, as orelhas tinham feição de elefante, a cauda de um covado de comprimento, outro de largo.

Um exemplo de sexualidade na “Carmina Burana”

Neste Dia Mundial da Poesia achámos que também poderíamos escrever sobre algo que dá para sorrir um pouco, a Carmina Burana (i.e. “Canções de [uma cidade chamada] Buria”, hoje Benediktbeuern). Por isso, oiçam a música acima. Como a classificariam? Talvez por não a compreenderem, muitos são os ouvintes que a considerariam desinteressante, mas tome-se em atenção parte do refrão:

O! O! Totus Floreo
Iam amore viginali totus ardeo
Novus novus amor est, quod pereo,
Novus novus amor est, quod pereo.

 

O que quer isto dizer? Algo como:

Ó! Ó! Todo eu floresço
Agora, todo eu ardo com amor virginal,
É um novo, novo amor, de que eu morro,
É um novo, novo amor, de que eu morro.

 

O pudor impede-nos de traduzir e explicar aqui o resto (é possível que pessoas mais novas leiam isto…), mas caso ainda não tenham percebido esta canção, a 179 da compilação que ficou conhecida como Carmina Burana, pouco tem de religiosa. É, como algumas outras da mesma fonte literária, de conteúdo sexual, por vezes de uma forma velada, mas outras de uma forma muito mais aberta. Corem, todos aqueles que pensavam que as músicas medievais eram todas elas pouco interessantes e/ou religiosas!

Toda a verdade sobre Lilith, a “primeira esposa de Adão”

Achámos que seria importante mostrar o que é – e o que não é – verdade na sequência mais famosa de um “mito” associado à figura de Lilith, uma espécie de história nunca contada de uma figura conhecida por supostamente ter sido a primeira esposa de Adão. Fazêmo-lo porque há alguns dias nos envolvemos numa pequena controvérsia com um novo livro sobre essa figura, que mantém e perpetua as fantasias do costume. Portanto, indo ao que importa.

Lilith e a serpente

Se existiram, ao longo dos séculos, várias referências ao nome desta figura, a primeira fonte literária que a associa a Adão é o Alfabeto de Ben-Sira, possivelmente dos século VIII-X da nossa era. Este facto é muito repetido, repetido até à exaustão e fantasiado até mais não, muitas vezes num horrendo discurso anti-homens e pró-mulher que nunca parece ter ouvido falar de “igualdade de géneros”. Mas, convenientemente, nunca é contado aos leitores o resto da história. Apresente-se sucintamente o Alfabeto de Ben-Sira e veja-se onde isso nos leva:

 

O texto começa com a concepção miraculosa de Ben-Sira. O pai dele, Jeremias, foi forçado a masturbar-se numa casa de banhos, sob pena de ser sodomizado. Mais tarde, quando a sua própria filha foi a essas mesmas termas, engravidou do sémen do próprio pai. Sete meses depois deu à luz uma criança com dentes e capaz de falar desde a sua primeira hora, que desde tenra idade se mostrou muito sábio.

Algumas páginas depois Ben-Sira quis aprender a Tora, os textos sagrados do Judaísmo. Um professor disse-lhe que ainda era muito novo, seguindo-se uma sequência em que tenta dar um conjunto de instruções ao pupilo. Nesta sequência, a cada instrução o pupilo responde com uma frase de sabedoria e o professor parece supor que ele sabe algo de muito secreto. Alguns exemplos, que aqui traduzimos para Português:

 

O professor disse-lhe, “Diz alef. [i.e. a primeira letra do alfabeto hebraico]

Ben-Sira respondeu “Abstém-te de te preocupares no teu coração, porque as preocupações já mataram muitos.”

O professor entrou imediatamente em pânico – “Eu não tenho qualquer preocupação no mundo”, disse, “excepto o facto da minha mulher ser feia.”

(…)

“Diz mem” [ordena o professor].

[Ben-Sira responde] “São húmidos, doces e revigorantes, os sucos de uma jovem mulher. Mas os de uma idosa são amargos como fel. Eles esgotam a tua potência, como um poço cujas águas foram secadas pelo vento.”

(…)

“Diz tav” [ordena o professor].

[Ben-Sira responde] “Compra muito ouro para ti mesmo, tudo o que for riqueza. Mas nunca digas a uma mulher onde estão as tuas riquezas, nem mesmo se ela for uma boa mulher.”

 

Essencialmente, e de um modo geral, esta sequência tem um carácter misógino. Esse é um dos elementos que caracteriza a obra, uma misóginia evidente. Mas, depois, a trama continua com um relato da forma como Ben-Sira foi aprendendo a Tora, sendo dito que “pelo sétimo ano de vida não havia nenhum tema, grande ou pequeno, que ele não tivesse estudado”. Essa sabedoria chegou aos ouvidos do rei da Babilónia, Nabucodonosor, que decidiu testá-lo. Seguem-se várias páginas em que Ben-Sira é testado, até que o monarca decide colocar-lhe 22 questões. A mais famosa de todas elas é a quinta, que surge quando o filho de Nabucodonosor fica doente, e que aqui traduzimos para Português:

 

Ben-Sira sentou-se imediatamente e escreveu um amuleto com o Nome Sagrado, em que inscreveu os anjos encarregados da Medicina pelos seus nomes, formas e imagens, e pelas suas asas, mãos e pés. Nabucodonosor olhou para o amuleto e perguntou – “Quem são eles?”

“Os [três] anjos encarregados da medicina. Depois de Deus ter criado Adão, que estava sozinho, Deus disse ‘Não é bom para o homem estar sozinho’. Então criou uma mulher para Adão, feita de terra, como tinha criado Adão, e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a lutar. Ela disse ‘eu não ficarei por baixo’, e ele respondeu ‘Eu não ficarei por baixo, mas apenas por cima. Porque tu só és apta para a posição de baixo, enquanto que eu devo estar na superior’. Lilith respondeu-lhe ‘Somos iguais um ao outro, pois ambos fomos criados da terra.’ Mas eles não se ouviam um ao outro. Quando Lilith se apercebeu disto, ela pronunciou o Nome Inefável e voou para o ar. Adão rezou ante o Criador, ‘Soberano do universo!’, disse, ‘a mulher que me deste fugiu.’ De imediato Deus enviou estes três anjos para a trazerem de volta.

Deus disse a Adão, ‘Se ela aceitar voltar, perfeito. Se não, deve permitir que 100 das suas crianças morram a cada dia.’  Os anjos afastaram-se de Deus e seguiram Lilith, que apanharam no meio do mar, nas águas em que os egípcios estavam destinados a se afogarem. Eles contaram-lhe a palavra de Deus, mas ela não quis voltar. Os anjos disseram-lhe ‘Iremos afogar-te no mar.’

‘Deixem-me!’, respondeu. ‘Eu fui criada apenas para causar doenças às crianças. Se a criança for masculina, irei ter domínio sobre ela oito dias após o nascimento; se for feminina, por vinte dias.’

Quando os anjos ouviram as palavras de Lilith insistiram que ela voltasse. Mas ela jurou-lhes pelo verdadeiro nome de Deus Eterno: ‘Sempre que eu vos vir, aos vossos nomes ou às vossas formas num amuleto, não terei poder sobre essa criança.’ Ela também concordou em ter 100 das suas crianças mortas a cada dia. Dessa forma, a cada dia 100 demónios morrem, e pela mesma razão escrevemos os nomes dos anjos nos amuletos de crianças jovens. Quando Lilith vê os seus nomes, ela lembra-se do seu juramento e a criança recupera’.

 

Esta história é raramente apresentada assim, na forma completa desta primeira fonte literária, porque fazê-lo implicaria mostrar que Lilith não é somente uma figura bíblica que recusou subjugar-se ao marido. É muito mais que isso, a não ser que se pretenda ocultar metade da questão, como, infelizmente, demasiados livros misândricos adoram fazer. De facto, a verdade por detrás de toda essa história é facilmente perceptível se o mito for apresentado no contexto original. Volte-se, por isso, ao facto de esta ser apenas uma das 22 questões colocadas por Nabucodonosor a Ben-Sira. De que falam as restantes? Podemos resumir os seus conteúdos de forma muito breve:

1- Salomão gostava da Rainha de Sabá, mas ela era muito peluda. Então, esse rei criou uma mistura depilatória que lhe fez cair o pêlo todo, antes de fazer amor com ela.

2- As 30 árvores que existiam no jardim de Nabucodonosor. Ben-Sira enuncia-as sem nunca as ter visto.

3- Uma espécie de jogo da cabra-cega.

4- O rei tenta enganar Ben-Sira para o matar, mas sai ele próprio enganado.

5- (Já visto acima, contém o relato sobre Lilith)

6- A filha do rei, que sofria de flatulência quase infindável, é curada.

7- “Porque foram os traques criados?”

8- Uma questão sobre o pêlo.

9- “Porque foram os mosquitos criados?”

10- “Porque foram criadas as vespas e as aranhas?”

11- “Porque é que o boi não tem pêlo debaixo do nariz?”

12- “Porque é que o gato come o rato?”

13- “Porque é que o burro urina na urina de outro burro, e cheira o seu próprio excremento?”

14- “Porque é que o cão e o gato são inimigos?”

15- “Porque é que o cão dá atenção ao seu dono, mas o gato não?”

16- Sobre a boca do rato

17- “Porque é que o corvo parece baloiçar ao andar?”

18- “Porque é que o corvo copula pela boca?”

19- “Porque não existem peixes semelhantes à raposa e à doninha?”

20- “Porque razão os descendentes de um dado pássaro não morrem?”

21- “Quem são aqueles que não são afectados pela morte?”

22- “Porque é que a águia voa mais alto que os outros pássaros?”

 

A maioria destas questões tem um aspecto comum – apresentam um contexto bíblico, ao qual depois acrescentam elementos completamente ficcionais. As linhas finais da questão número 21, por exemplo, relatam a expulsão do Paraíso, mas depois acrescentam-lhe um episódio adicional, em que Eva oferece parte da maçã aos outros animais (que a comem). Um único pássaro rejeita fazê-lo, criticando a mulher, e então Deus concede-lhe a imortalidade somente a ele, por ter respeitado as mesmas regras que todos os outros quebraram.

 

Inserida assim, no seu contexto original, a história de Lilith, enquanto suposta “primeira esposa de Adão”, “sagrado feminino”, ou até “mulher primordial”, torna-se muito diferente. É uma mera fantasia por parte do autor (anónimo), que ao longo de toda a sua obra pega em vários momentos dos textos do Antigo Testamento e lhes acrescenta novos eventos, quase sempre com resultados puramente satíricos, que ainda por cima ocorrem numa obra de contornos misóginos.

Qualquer pessoa, independentemente do seu género, saberá reconhecer que numa obra satírica não se poderá considerar um punhado de frases como completamente reais e, ao mesmíssimo tempo, descartar todas as outras como grandes mentiras. Fazê-lo é enganar os leitores, demasiadas vezes em favor do seu próprio bolso e de lhes vender uma ideia infame, infelizmente já tão comum em obras sobre esta figura, de que os homens são umas bestas e as mulheres são as mais puras deusas, vilificadas por toda a sociedade patriarcal desde o início dos tempos.

A autora desse livro, que aqui ficará sem nome, assim o disse, quando nos revelou que o seu era um texto “talvez surrealista a partir da minha experiência de MULHER e onde os homens NÃO ENTRAM porque como é obvio não entendem nada, de facto de mulheres…Lilith é uma experiência no amago da mulher e nenhum homem a pode entender intelectualmente”.

E, para terminar (que as linhas de hoje já vão longas), esse é um sexismo muitíssimo triste que a figura de Lilith é demasiadas vezes apropriada para apoiar. Ela não é uma figura que os homens invejosos procuraram esconder debaixo do proverbial tapete, não é uma pobre coitada que recusou acatar as ordens de um homem, é – repetindo o que aqui já foi dito há uns anos – “somente uma história fictícia medieval”, que até então jamais tinha sido considerada esposa de Adão, e que surge numa obra ficcional com um contexto marcadamente misógino e satirico.

Que práticas do Paganismo continuaram na Idade Média? Alguns exemplos…

Se existe uma palavra que bem poderá definir a Idade Média ocidental é “Cristianismo”. Porém, se nessa altura a maior parte das pessoas já tinha abandonado as religiões ditas “pagãs”, havia igualmente um conjunto de práticas do Paganismo que continuavam a tomar lugar. A informação presente na obra Da Correcção dos Rústicos, de São Martinho de Dume, é um dos exemplos portugueses mais eminentes, mas também existiram muitos outros autores que se preocuparam com essa interrelação, essa fusão de crenças, que lhes parecia abominável.

 

Um exemplo particularmente curioso do problema está preservado num texto de autoria anónima conhecido como Indiculus superstitionum et paganiarum. Pensa-se que terá sido composto antes do século IX da nossa era, mas o que o torna especialmente digno de nota é o facto de ter sido quase totalmente perdido. Na verdade, não nos chegaram quaisquer fragmentos das suas linhas, com uma excepção totalmente inesperada – o índice, que nos apresenta os 30 capítulos que compunham a obra original. Optámos por traduzi-los para Português, dada a sua importância para o tema aqui em questão:

 

  1. Do sacrilégio nos sepulcros dos mortos.
  2. Do sacrilégio em relação aos que já partiram, ou seja, dadsisas*.
  3. Da Spurcalia em Fevereiro.
  4. Das pequenas casas, ou seja, santuários.
  5. Dos sacrilégios com ligação às igrejas.
  6. Dos rituais sagrados dos bosques, a que chamam nimidas**.
  7. Das coisas feitas sobre as pedras.
  8. Dos rituais sagrados de Mercúrio e de Júpiter.
  9. Dos sacrifícios oferecidos aos santos.
  10. Dos amuletos e nós.
  11. Das fontes de sacrifícios.
  12. Dos encantamentos.
  13. Dos augúrios das aves, dos cavalos, do esterco dos touros ou dos espirros.
  14. Dos adivinhadores ou dos feiticeiros.
  15. Do fogo feito pela fricção da madeira, ou seja, nodfyr.
  16. Do cérebro dos animais.
  17. Da observação pagã do fogo, ou do início de qualquer coisa.
  18. De locais incertos celebrados como sagrados.
  19. Do apelo que algumas boas pessoas fazem a Santa Maria.
  20. Dos feriados que são feitos a Júpiter e Mercúrio.
  21. Do eclipse da Lua, a que chamam Vinceluna***.
  22. Das tempestades, cornos e caracóis.
  23. Dos sulcos em redor das casas.
  24. Da corrida pagã chamada yrias, com panos rasgados ou com calçado.
  25. Daqueles que fingem que aqueles que morrem são santos.
  26. Da imagem feita de farinha espalhada.
  27. Das imagens feitas de panos.
  28. Da imagem que é levada pelos campos.
  29. Dos pés ou mãos de madeira num rito pagão.
  30. De se acreditar que as mulheres controlam a lua, e que podem destruir os corações dos homens, segundo os pagãos.

 

Cada uma destas linhas, por si só, mereceria um comentário individual alongado da nossa parte, mas por motivos de tempo e espaço não podemos fazê-lo aqui (se alguém quiser saber mais sobre alguma em particular, bastará deixar um comentário). Podemos, isso sim, é mostrar duas características curiosas deste índice:

  • Estão aqui presentes quatro palavras que não são latinas, i.e. dadsisas, nimidas, nodfyr e yrias. Pelo menos uma delas é indisputavelmente germânica, dando-nos a supor que o seu autor reportava, pelo menos em parte, um conjunto de crenças dos povos germânicos.
  • Em alguns casos as práticas reportadas neste índice ainda chegaram aos nossos dias – colocam-se velas nos túmulos dos falecidos, dizemos “santinho” quando alguém espirra, são feitas oferendas aos santos (como se eles se tratassem de deuses pagãos…), acredita-se em amuletos, pedem-se favores a Nossa Senhora, celebram-se eclipses, etc.

Oferendas de Cera

É pena que este Indiculus superstitionum et paganiarum não nos tenha chegado de uma forma mais completa, porque certamente teria muito para nos ensinar em relação a um conjunto de rituais pagãos que, em alguns casos, até chegaram mesmo aos nossos dias. Continuam a ser praticados, por exemplo, quando alguém deixa em Fátima uma vela com uma representação de Santa Maria ou uma escultura de cera em forma de uma mão. Quem o faz, fá-lo na sequência de um conjunto de crenças que, em alguns casos, já têm mais de dois milénios, e que sucessivas gerações de ministros da Igreja Católica não conseguiram exterminar. Porquê? Porque é que já não parecemos celebrar a Spurcalia, mas continuamos a acreditar na magia e no estranho poder de saber o futuro? Ficam as perguntas, mas as respostas, essas, não são nada fáceis e vão além do nosso objectivo nestas linhas…

 

*- Aparentemente, esta tradição poderá ter passado por elaborados cantos fúnebres.

**- Poderão ter estado ligados com o culto aos Carvalhos Sagrados.

***- A expressão latina era, acredita-se, gritada durante os eclipses.