A origem do anjo e diabo no ombro

A ideia de que falamos hoje não é muito comum na cultura portuguesa, mas é provável que já todos a tenhamos visto pelo menos em séries e filmes americanos – uma personagem tem de tomar uma decisão sobre algo, e depois aparece-lhe num ombro um diabinho, que a insta a fazer uma qualquer maldade, enquanto que no outro ombro lhe surge um anjinho, que a tenta convencer a tomar uma boa decisão. A ideia é muito frequente, talvez até mais em séries animadas dos nossos dias, mas de onde vem ela?

Um anjo e um diabo no ombro

Na verdade, toda esta ideia do anjo e diabo no ombro não é senão uma adaptação cristã de uma ideia que já existia na Grécia Antiga – ela dizia que todos os seres humanos eram acompanhados por dois espíritos, chamados κακοδαίμων e ἀγαθοδαίμων (i.e. algo como “mau espírito” e “espírito nobre”), que ao longo da sua vida o iam instando, respectivamente, a más e boas acções. O conceito nunca parece ser explicado de uma forma muito mais precisa, mas sabemos, por exemplo, que Sócrates – o filósofo – dizia sentir algum aviso por parte de um seu daemon – sem qualquer sentido pejorativo – quando estava a tomar uma atitude correcta na sua vida, e até autores como Apuleio e Plutarco escreveram sobre essa ocorrência, que é provavelmente a mais famosa de todos os textos que nos chegaram da Antiguidade.

 

Mais tarde, ao longo dos séculos, quando o daemon foi obtendo um carácter completamente negativo na cultura cristã, o antigo – e, originalmente, bom – ἀγαθοδαίμων foi substituído pelo nosso “anjo da guarda”, mas a sua função parece ter permanecido praticamente a mesma, acabando por gerar toda esta ideia do anjo e diabo no ombro, tal como a temos nos dias de hoje, que não faz propriamente parte da cultura portuguesa, mas que nos chegou pela cultura anglófona!

Por favor, cuidado com o que deitam fora…

Fotografia

Hoje, enquanto vinha da universidade para casa, encontrei um quadro próximo do lixo, à chuva. Trouxe-o para casa e ainda tentei salvar o que pude (vejam os maiores danos na parte superior). É um quadro com os bustos e cronologia dos Reis de Portugal, terminando (no topo) com as figuras de D. Fernando e D. Luiz I. Este quadro foi aparentemente impresso por António Joaquim Alves em 1878, ou seja, tem aproximadamente 141 anos.

Não sei se terá qualquer valor monetário, mas provavelmente tem valor histórico. E, ainda assim, alguém decidiu deitá-lo fora, à chuva, como se fosse algo sem qualquer valor. A sério, por favor, tenham cuidado com o que deitam fora!

 

[Editado, em Fevereiro de 2024:]

Dois quadros de Fox Wood Tales

Muitas outras coisas foram sendo encontradas no mesmo local ao longo dos anos. Porém, mais recentemente foram dignos de nota dois quadros relativos à série Fox Wood Tales. Estão ambos assinados pelos autores, e têm uma dedicatória a uma Rita e a uma Sofia. Não foi possível apurar as suas identidades, mesmo após contactar os autores da série (que podiam lembrar-se de os ter assinado em Portugal), pelo que serão doados a uma biblioteca nacional.

O que diz o Tratado de Tordesilhas?

O mundo dividido no Tratado de Tordesilhas

Hoje, mais do que mitos e lendas, trazemos cá um pouco de cultura geral. O Tratado de Tordesilhas, como é que provável que os leitores se recordem dos seus tempos de escola, foi uma convenção celebrada entre Portugal e Espanha, segundo a qual os locais por descobrir pelo mundo fora se repartiriam entre os dois países, independentemente de qual dos dois o descobriu.

Mas, visto que foram certamente poucos aqueles que o leram, pensámos que podíamos revelar três pequenas curiosidades sobre o seu conteúdo:

 

Como bem se sabe, a principal divisória do Tratado de Tordesilhas foi colocada 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Contudo, o tratado também dá algumas indicações adicionais sobre como deveriam ser traçados esses limites na prática, para que se pudesse apurar se um determinado local iria pertencer a Espanha ou a Portugal;

Também é estabelecido neste tratado uma espécie de período de carência, dizendo o que deveria acontecer aos territórios descobertos antes da sua entrada em vigor.

Mas, finalmente e talvez muito mais interessante, é o facto de nunca se propor uma divisão do globo em duas metades, como se somente Portugal e Espanha fossem merecedores de possuir tudo o que existe*. O que é dito no Tratado de Tordesilhas, isso sim, é que se um dos dois países encontrar um novo território, esse poderá vir a ser pertença do outro mediante a sua localização. Na prática, é uma espécie de pacto de não-agressão entre os territórios ibéricos, mas sem que seja estipulado o que deverá acontecer a potenciais descobertas feitas por outros países.

 

Se, na prática, a ideia por detrás do Tratado de Tordesilhas nos poderá parecer hoje um tanto absurda, poderá ter sido a melhor forma que os dois países encontraram para gerir aquele que poderia ser um conflito constante. Se, de um ponto de vista literário ou mitológico, este documento não tem muito interesse, o seu valor histórico é completamente inegável.

 

*- Parece ter até existido uma pequena piada relativamente a esta ideia. Nela, diz-se que um rei da França, anos mais tarde, pediu para ver o testamento em que Adão deixou o mundo aos Portugueses e Espanhóis…

Porque é que os ciganos não gostam de sapos?

Afinal de contas, porque é que se pensa que os ciganos não gostam de sapos? Há alguns dias fomos contactados por uma publicação nacional que nos queria colocar essa questão curiosa. Assim, fomos levados a questionar essa ideia – será que eles temem esses animais, apenas não gostam deles, ou a realidade até é completamente diferente? Do que os ciganos têm medo… será mesmo de sapos, como a cultura popular portuguesa frequentemente nos diz?

Sobre os Ciganos e os sapos

Infelizmente, por muito que tentássemos nunca conseguimos encontrar qualquer mito ou lenda concretos que justifiquem esse suposto temor. Porém, como evidenciado pela prática corrente em muitas lojas portuguesas, que usam um sapo de louça para tentar afastar os ciganos dos seus recintos, na verdade esta crença não passa por terem medo do pequeno animal, em si mesmo, mas de uma ideia que este lhes parece sugerir. E, pergunte-se então, que ideia grotesca é essa?

 

Essencialmente, e segundo foi possível apurar, em alguns dialectos da língua romani, ou dita “cigana”, a palavra beng significa tanto sapo como diabo. Por isso, para este povo olhar para a figura de um sapo poderá ser equacionado a evocar o diabo, o que, por sua vez, empresta a sua protecção a um determinado local; e se essa figura tão bem conhecida na nossa cultura até não tem na cultura deles precisamente o mesmo simbolismo que na cristã, não deixa de ser temida.

Trata-se, portanto, de uma inferência sapo -> beng -> diabo, propiciando o afastamento dos ciganos tal como aconteceria no nosso caso se, por exemplo, alguém colocasse à porta da sua loja uma imagem que consideramos particularmente ofensiva ou chocante. Não é totalmente correcto dizer que eles têm verdadeiramente medo desse animal, mas sim que o evitam como também nós procuraríamos evitar alguma ideia que consideramos menos positiva, e.g. um local em que se realizam rituais “maléficos” de alguma seita brasileira.

A Crónica de Paros e a contagem do tempo na Antiguidade

O Mármore Pário

Na imagem acima pode ser vista uma reprodução do texto da Crónica de Paros, um mármore que foi reencontrado no século XVII e que apresenta uma cronologia dos tempos gregos, aproximadamente desde o ano 1581 a.C., em que Cécrops se tornou o primeiro rei de Atenas, até ao ano 299 a.C., em que Euctemón foi arconte em Atenas. É uma crónica curiosíssima, na medida que funde eventos míticos (o dilúvio de Deucalião, o reinado de Teseu, a vida de Héracles, etc.), com aqueles que tendemos a considerar como históricos, como as conquistas de Alexandre Magno. Essa necessidade de contar o tempo, a altura em que tiveram lugar alguns dos eventos do passado, levanta uma questão – afinal, como era a contagem do tempo feita na Antiguidade?

 

Partindo do exemplo da Crónica de Paros, as entradas mais antigas mencionam quem foi rei em Atenas na altura em que um dado acontecimento teve lugar. Depois, por volta da entrada relativa ao ano de 683 a.C., é dito que começou a ser praticado um arcontado, e então as datas seguintes vão sendo associadas à pessoa que num dado ano era arconte em Atenas. O que distingue os dois períodos? Os eventos anteriores a esse ano de 683 a.C. podem ser considerados míticos, enquanto que os mais recentes já têm um fundamento histórico.

 

Poderá parecer simples, mas esta não era a única opção. No tempo dos Gregos também era feita uma contagem do tempo associando eventos aos Jogos Olímpicos, algo como “no terceiro ano da vigésima-segunda olimpíada…” E, de facto, nas fontes que temos a contagem é feita recorrendo-se tanto aos arcontes como aos períodos dos Jogos Olímpicos.

 

Salte-se algum tempo e considere-se, agora, um segundo exemplo, o dos Romanos. Como é que eles contavam os seus períodos de tempo? Essencialmente, tendiam a recorrer a um contagem ad urbe condita, ou seja, algo como “passados X anos da fundação da cidade [de Roma]”, com esse evento crucial a tomar lugar por volta de 753 a.C. Mas, tal como no caso dos Gregos, esta não era a única opção – muitas vezes a datação também era feita recorrendo-se aos cônsules, de que a obra de Júlio Obsequente é um bom exemplo, ou até aos Imperadores.

 

Depois do tempo dos Romanos começou, essencialmente, a ser usada uma cronologia cristã, que apesar de ter sido alterada ao longo dos tempos já ultrapassa o nosso tema de hoje. Resta, no entanto, uma questão problemática – como é que os Gregos contavam o tempo antes dos reis de Atenas e dos Jogos Olímpicos? Ou, se preferirmos os Romanos, como é que eles o faziam antes da datação AUC? Não sabemos, mas se alguém tiver alguma ideia por favor deixe-a nos comentários.