Como sabemos que a Terra gira em volta do Sol?

Modelo Geocêntrico vs Modelo Heliocêntrico

Como todos nós aprendemos nos tempos de escola, existiu um período de tempo em que as pessoas pensavam que a Terra estava no centro do Universo. Depois apareceu Copérnico, que parece ter sido o primeiro a postular a ideia de que, afinal de contas, no centro do nosso Universo estava era o Sol. Esta comparação dos dois modelos pode ser vista na imagem acima, mas deixa-nos uma questão – afinal de contas, como é que Nicolau Copérnico descobriu isto?

 

A sua obra mais famosa, Da Revolução das Esferas Celestes, não é um texto simples. De facto, em busca de uma resposta à questão anterior encontrámos algumas referências a ela como “o livro que ninguém leu”, possivelmente pela complexidade matemática que apresenta. Mas, felizmente para todos nós, uns anos antes o mesmo autor escreveu também um texto conhecido como Pequeno Comentário, em que apresenta a sua teoria de uma forma muito breve e simples.

 

E então, afinal de contas, como chegou Copérnico à sua teoria heliocêntrica? Simplificadamente, pegou nas medições dos muitos autores que o antecediam, como Cláudio Ptolomeu, e acabou por se aperceber de um problema – para esses autores, o movimento das esferas celestes não era uniforme. Em vez disso, os planetas moviam-se de uma forma muito inconsistente, como na imagem seguinte:

Geocentrismo

Em seguida, ele apercebeu-se que, em alternativa, se o Sol estivesse no centro do Universo todo este complexo modelo poderia ser muito simplificado – todas as medições que tinham sido feitas antes continuariam a bater certo, mas com um movimento das esferas celestes muito mais consistente e sucinto, em que todos os planetas se moviam de uma forma exclusivamente circular em torno de um mesmo centro, como pode ser visto na imagem abaixo.

Sistema Solar

Se esta explicação até poderá parecer simples, o que Nicolau Copérnico fez no seu livro Da Revolução das Esferas Celestes foi provar, matematicamente, que existia uma alternativa ao modelo dos Antigos, e que esta permita simplificar bastante o modelo que até então era seguido. Mais do que postular que cada planeta tinha o seu movimento individual, como antes, o seu modelo permitia compreender que todos os planetas tinham um mesmo movimento circular. Infelizmente, essa possibilidade também implicava vir a dizer que a Terra tinha de perder o seu lugar cimeiro no centro do Universo, algo que a Igreja de então não levou muito bem, condenando injustamente a teoria deste autor…

Será que o Rei Artur existiu mesmo?

Há alguns dias foi cá deixada esta pergunta – Será que o Rei Artur existiu mesmo?

Rei Artur e a espada

É uma boa questão, mas a grande dificuldade em responder a ela passa por definir aquilo que se considera uma existência do Rei Artur. Por exemplo, um episódio como o da espada presa numa pedra, mostrado na imagem acima numa versão da Disney, apesar de ser muito famoso dificilmente terá sido real. Se removermos esse episódio, certamente fictício, da vida do herói, abre-se a possibilidade de que outros também possam ter sido mera ficção, o que, por sua vez, nos transporta para uma questão adicional – se essa tal figura existiu, o que podemos verdadeiramente saber sobre ela?

 

É esse o grande cerne da questão. É possível que um monarca conhecido sob o nome de Artur até tenha existido, num dado momento da história da Grã-Bretanha, mas não temos forma de distinguir os seus feitos reais daqueles que foram tornados lendários.

Para dar um exemplo concreto, na Vida de Merlim, de Geoffrey de Monmouth (ou, se preferirem, Godofredo de Monmouth), é dito que Uther fugiu para a Grã-Bretanha quando “Constante”, supostamente seu irmão, foi traído (i.e. Constante II, ou seja, por volta de 411 d.C.). Sabendo que este Uther é o pai deste Rei Artur, isso permite-nos colocar a vida do herói que procuramos no século V d.C., mas somos rapidamente levados para elementos lendários quando é acrescentado que foi ele que derrotou o Procurador Lúcio Hibério (ou Tibério), uma figura quase certamente fictícia. Ou seja, até num mero punhado de linhas de um mesmo documento a potencial realidade e a ficção por detrás da figura de Artur fundem-se numa só, o que torna bastante difícil traçar onde acaba uma e começa a outra; de facto, o problema até se complica mais se tivermos em conta que o mesmo autor, na sua História dos Reis da Bretanha, também diz que Artur abandonou o trono, por ter sido ferido mortalmente em combate, em 542 d.C. – cerca de 130 anos depois da fuga do seu pai para a Grã-Bretanha, o que dá uma idade prodigiosa a pelo menos um deles!

 

Por isso, será que o Rei Artur existiu mesmo? É possível que sim, mas face aos dados que temos nos nossos dias é-nos difícil reconhecer onde acaba uma possível figura histórica e onde começa a sua lenda. O Artur lendário pode ser encontrado nas mais diversas histórias da Idade Média, mas a figura potencialmente real por detrás dele parece estar, hoje, irremediavelmente perdida.

O mito de Pandora (e a origem da Caixa de Pandora)

Os mitos de Pandora e da Caixa de Pandora são certamente dos mais conhecidos da Grécia Antiga. Nesta história, e como poderá ser lido já em seguida, aquela que era a primeira mulher é culpabilizada pelos muitos males que afectam toda a humanidade. Curiosamente, esta mesma temática seria abordada em muitas outras mitologias e religiões, com uma das mais famosas referências a aparecerem na Bíblia, em que Eva, esposa de Adão e primeira mulher, seria também ela a culpada pelos males que hoje afligem o mundo. Segue-se então um pequeno resumo de toda a história:

O mito e a Caixa de Pandora

Resumo do mito de Pandora

Segundo o mito, a história de Pandora surge na sequência de alguns logros perpetrados por Prometeu, que viriam a privilegiar a humanidade em detrimento dos deuses do Olimpo.
Para se vingar, Zeus criou Pandora, a primeira mulher, os outros deuses deram-lhe todos os dons (justificando o seu nome), e depois o seu rei enviou-a a Epimeteu , que a deveria tomar como esposa.
Contrariamente ao que o irmão, Prometeu, lhe tinha aconselhado, Epimeteu aceitaria este presente vindo do Olimpo. Infelizmente, Pandora viria também com um objecto, no qual estavam contidos todos os males, dos quais a humanidade estava ainda liberta.
Vítima da sua curiosidade, esta primeira mulher abriria o objecto que lhe está associado, libertando todos os males e deixando, curiosamente, um simples dom por libertar – a esperança.

 

O mito de Pandora é normalmente terminado por aqui, mas esta personagem também se tornaria a mãe de Pirra , cujo matrimónio com Deucalião acaba por ser a base para um outro mito. Infelizmente, pouco se sabe em relação ao matrimónio desta importante figura com Epimeteu , além do que já foi referido acima.

 

Origem da Caixa de Pandora

Mas toda esta história ainda não fica por aqui, já que existe um outro pormenor que vale a pena explorar. Apesar do objecto normalmente associado a Pandora ser uma caixa, existe alguma iconografia em que ela também aparece com outros objectos, entre eles uma jarra. Porquê?

De facto, a expressão caixa de Pandora é uma das mais famosas que nos chegaram da Mitologia Grega. Na versão mais antiga que temos desse mito, a de Hesíodo, e que aparece na sua obra Os Trabalhos e o Dias, é referido que o objecto dado a esta mulher foi um πίθος (píthos), o que não é uma caixa, mas cuja forma seria provavelmente assim:

Seria esta a verdadeira Caixa de Pandora?

Isto faz sentido, porque o mito diz-nos que no seu interior estavam todos os males do mundo, e um píthos era precisamente o tipo de vaso em que os Gregos armazenavam coisas. Que o mito se referia a um recipiente como estes é particularmente perceptível num vaso hoje presente no British Museum, que num dos lados tem pintado a criação desta figura feminina, e num outro tem uma pintura de uma figura feminina totalmente contida dentro do recipiente (se esta será a própria heroína, ou a esperança personificada de que nos fala o mito, é mais discutível). Em suma, segundo a versão de Hesíodo os males estavam, originalmente, contidos no interior de algo que podemos definir como um grande jarro. Mas como se tornou isto uma caixa de Pandora?

 

Como se passou de um jarro para uma caixa de Pandora?

São várias as possibilidades, mas a mais famosa diz-nos hoje que Erasmo de Roterdão, ao traduzir a agora-famosa expressão, confundiu o significado de duas palavras – πίθος (píthos) e πυξίς (pyxis) – transformando aquilo que era originalmente uma espécie de grande jarro em algo com uma forma bastante diferente:

Um exemplo de pyxis

O erro de Erasmo, queiramos ou não, é bem justificado. Quando ele leu o texto em Grego, o contexto de todo o mito poderá ter-lhe sugerido a ideia de uma pequena caixa, mais do que um enorme jarro, que Pandora destapou. Até porque, tradicionalmente, a pyxis tem uma tampa, enquanto que um píthos não… mas se este segundo era um recipiente para guardar algo, faz sentido que em algumas alturas tivesse uma qualquer espécie de cobertura, que a heroína teve de remover para ver o que estava no interior.

 

Este erro aparece nos Adágios de Erasmo, uma obra muito interessante que depressa se tornou famosa por toda a Europa, espalhando com ela a ideia de que a caixa de Pandora era uma pyxis, uma espécie de pequena caixa com tampa, mais do que um píthos, um enorme vaso, e daí a ideia foi-se espalhando e prolongando até aos nossos dias de hoje…

 

O mito e a caixa de Pandora, uma conclusão

Para terminar estas linhas sobre o mito de Pandora deve também notar-se aquele que considero como sendo um dos pormenores mais importantes deste mito – a presença da “esperança” no interior de um objecto que, alegadamente, só continha males. Deixando de lado a hipótese de erros na tradução do mito (se pensarmos bem, isso poderá ser dado como uma desculpa para justificar seja o que for, o que poderá ser perigoso), esta presença parece quase injustificável. É possível, talvez, que a esperança fosse considerada como uma perdição, ao incitar a sociedade grega a lutar por ideais que, segundo as leis imutáveis das Moiras, seriam ridículos. Se o Destino realmente existia, sob a forma das três Moiras, que sentido teria a esperança de uma vida melhor? É uma mera hipótese, mas talvez uma das mais interessantes que tenho para apresentar. Caso alguém tenha outras, obviamente que está à vontade para as deixar por cá…

Os alfabetos do nosso passado

Nunca pensaram de onde vêm as letras do nosso alfabeto? Há bem mais de 3000 anos que o ser humano sente a necessidade de colocar alguma informação por escrito, mas desconhecemos quem terá sido o primeiro a fazê-lo. Claro que existem mitos sobre isso – entre os egípcios, por exemplo, o deus Thoth foi o seu criador – mas a identidade do primeiro dos homens a escrever uma letra será, provavelmente para todo o sempre, um dos grandes mistérios da humanidade.

 

O que sabemos é que, qualquer que tenha sido a sua origem, os alfabetos foram evoluindo ao longo dos séculos. Ainda há menos de 30 anos que as letras K, W e Y não eram consideradas como parte integrante da língua portuguesa, e poucos anos passaram para que todos nós as conheçamos. Nesse sentido, o diagrama abaixo, da autoria de Matt Baker, apresenta-nos numa só imagem um conjunto de informações interessantes.

Vários alfabetos

Como podemos constatar, os alfabetos ocidentais parecem ter evoluído com vista a uma simplificação dos seus símbolos gráficos, mas também para que as suas sonoridades sejam mais fáceis de perceber.

Mas, ao mesmo tempo, isto também acaba por levantar um número enorme de questões. Por exemplo, como é que o lamba grego (Λ ou λ) deu o nosso L? Porque foram alguns símbolos caindo pelo caminho e outros tornados quase irreconhecíveis? A que se devem rotações que em nada simplificam os originais? Não sabemos; até poderemos vir a ter as nossas opiniões, aqui e ali, mas as certezas são muito poucas, porque também foram poucos os que sentiram a necessidade de preservar essa informação até aos nossos dias…

Uma “coroa solar” rectangular?

Quem for a Roma poderá encontrar na Capela de São Zeno da Basílica de Santa Prassede o seguinte mosaico:

Mais do que nos focarmos nas três figuras com coroas solares – duas santas acompanhadas pela Virgem Maria – preste-se é atenção à figura no lado esquerdo. Ténues letras permitem identificá-la como uma Epíscopa Teodo[ra], ou seja, a mãe do Papa Pascoal I. Mas o que representa o rectângulo em redor da sua cabeça? A prática parece ter caído em desuso ao longo dos séculos, mas aqui refere-se ao facto de ela ainda estar viva quando o mosaico foi colocado no local; também o seu filho, como pode ser visto abaixo, tem nesse recinto uma representação com contornos semelhantes.

Interessante, hem?