O Homem de Taured – e a sua verdadeira identidade!

Se viajam bastante pela internet é provável que já tenham lido a história do Homem de Taured. Sucintamente, ela conta que em meados do século XX um homem misterioso foi encontrado num aeroporto de Tóquio, no Japão. Quando lhe pediram os documentos, mostrou um passaporte de um local completamente desconhecido, “Taured”. Quando ligaram para a empresa onde ele dizia trabalhar, ninguém o conhecia lá. Quando ligaram para o hotel onde ele tinha uma reserva, não havia nenhuma em nome dele. E, depois, ele desapareceu de forma tão misteriosa como primeiro surgiu… o que levanta a possibilidade, como é frequente mencionar-se em artigos sobre esta história, que existam multiversos e que ele tenha vindo de um outro mundo, no qual um país com aquele estranho nome até existe mesmo. Mas, como quem tiver por hábito ir lendo estas linhas já saberá, é comum haver aqui uma introdução, pelo menos uma imagem, e depois um desenvolvimento… pelo que o tema de hoje, e toda esta história como ela é apresentada em muitos outros lugares, ainda nem chegou a meio!

Quem foi o Homem de Tuared?

Estranhamente, conseguimos apurar que esta história é, quase toda ela, verdade – o que, infelizmente, não é o mesmo que admitir a existência de multiversos. Em vez disso, é uma curiosa história sobre a forma como as lendas nascem, crescem, se reproduzem e, em alguns casos, acabam até mesmo por morrer.

Em 1959 foi preso num aeroporto de Tóquio um viajante com um passaporte que se viria a provar falso, e que supostamente tinha sido emitido em “Tamanrasset, capital de Taured”. O seu nome reportado era “John Allen Kuchar Zegrus”, mas dada a dificuldade de apurar a sua verdadeira identidade ele ficou conhecido no país como “ミステリー・マン”, i.e. “o Homem Misterioso”. Posteriormente, foi levado a tribunal em virtude dessa falsificação de documento, condenado a um ano de cadeia, e finalmente deportado para Hong Kong. Mas, aparentemente, a verdadeira identidade deste Homem de Taured, então ainda bem real, nunca foi descoberta.

 

E então, para colmatar algumas das fraquezas de toda esta narrativa, é que parece ter surgido a versão lendária de toda esta história do Homem de Taured. Ele parecia ser, de facto, de Taured – possivelmente uma versão mal escrita de “Tuareg”, um povo da Argélia, país no qual até existe uma cidade de nome “Tamanrasset”. Provavelmente foram tentados diversos meios de confirmar a sua verdadeira identidade, mas falharam (todos?). E se, no final, ele desapareceu mesmo, isso aconteceu não por uma qualquer viagem interdimensional, como muito se argumenta, mas porque ele esteve preso e mais tarde foi deportado, aparentemente sem que a sua identidade real algum dia tenha sido descoberta. Como tal, para completar o que a história não nos diz, gerou-se uma espécie de grande mito urbano, que ainda hoje vai sendo contada pelos cantos da internet… mas sem que o seu fundamento, de facto bem real, seja contado aos possíveis leitores. Por vezes uma boa história parece importar muito mais do que a realidade…

Os Antigos acreditavam que a Terra era plana?

Poderíamos responder a esta pergunta com os mais diversos argumentos, mas desta vez deixamos aqui uma citação de Stephen Hawking, na sua Breve História do Tempo, com tradução e adaptação da nossa autoria:

 

Por volta de 340 a.C. o filósofo grego Aristóteles, no seu livro Sobre os Céus, foi capaz de apresentar dois bons argumentos para se acreditar que a Terra era uma esfera redonda, em detrimento de um prato raso.

Primeiro, notou que os eclipses da lua eram causados pela Terra se interpor entre o sol e a lua. A sombra de Terra na lua era sempre redonda, o que apenas seria verdade se a Terra fosse esférica. Se a Terra fosse um disco raso, a sombra alongaria e seria elíptica, a não ser que o eclipse ocorresse sempre numa altura em que sol estivesse directamente no centro do disco.

Segundo, os Gregos sabiam, pelas suas viagens, que a Estrela do Norte aparecia mais baixa no céu quando vista no sul do que nas regiões a norte. (…) Da diferença na posição aparente da Estrela do Norte no Egipto e na Grécia, Aristóteles até mencionou que a distância em redor da Terra seria de 400.000 estádios.

Os Gregos até tinham um terceiro argumento em favor da Terra ser redonda – porque outra razão veríamos primeiro as velas de um navio no horizonte e só mais tarde o seu casco?

 

Também Plínio o Velho diz, no primeiro livro da sua famosa obra enciclopédica, que a Terra era redonda. Poderão ter existido algumas excepções, claro está, mas de uma forma geral os autores gregos e latinos de maior importância nunca parecem argumentar que a Terra era plana… mas, então, de onde vem essa ideia? É mais tardia, só surgindo já na Idade Média, por influência de autores que nem sempre é fácil precisar.

Qual a aparência física de Aquiles?

Ultimamente vários visitantes têm procurado por cá informações sobre a aparência física de Aquiles. A questão provavelmente virá de uma série da BBC, “Troy: Fall of a City”, em que o herói é representado com pele escura. Mas será que ele tinha mesmo essa ascendência africana, ou era branco e loiro, como no filme Tróia? Como era Aquiles, fisicamente?

Aparência física de Aquiles

João Tzetzes, no século XII, incluiu nos seus trabalhos [dos quais já aqui publicámos uma tradução] a descrição de algumas das figuras mais importantes dos épicos homéricos. Entre elas encontra-se, naturalmente, a aparência física de Aquiles, em relação a quem é dito que era alto, branco e de cabelos loiros. Momentos depois, sobre Pátroclo é dito que este também tinha cabelos loiros, mas pele avermelhada (provavelmente por passar menos tempo abrigado do sol), dificultando que algum dos dois fosse africano.

 

Mas estava João Tzetzes correcto? Que fontes utilizou para obter essa informação? Nem sempre é fácil sabê-lo, até pela existência de discrepâncias em várias das suas fontes, mas é inegável que o primeiro livro da Ilíada define o cabelo do herói como “ξανθή / xanthē”, que pode ser traduzido como loiro, e a mesma ideia é referida na terceira Ode Nemeia. Mas se também essas provas não forem suficientes, o herói é frequentemente representado em mosaicos com uma tez inegavelmente branca; em relação a vasos, no entanto, o caso não é tão simples, já que até a pele do etíope Mémnon por vezes se confunde com a de todas as figuras europeias.

 

Assim se poderá concluir que o Aquiles homérico tinha cabelos loiros, sendo também quase certamente branco. Por essa razão, o herói, tal como é representado na série da BBC, não corresponde à figura imaginada por Homero, mas devemos relembrar que não tem de o fazer. A cor da pele do herói, seja ela qual tenha sido, é muito menos importante do que as suas aventuras.

Uma espécie de “Vingadores” da Idade Média

No texto medieval Culhwch and Olwen juntam-se ao herói um conjunto de figuras dignas de nota. Assim, Culhwch recebe a ajuda do famoso Rei Artur, mas também dos seguintes heróis, todos eles muito menos conhecidos:

 

  • Gwrhyr, capaz de falar com pássaros e animais, bem como transformar-se nos mesmos.
  • Mewn, com o poder de tornar invisíveis todos os companheiros.
  • Morvran, que não era atacado pelos adversários devido à sua fealdade.
  • Sandde Bryd, que não era atacado pelos adversários devido à sua beleza.
  • Sgilti Yscawndroed, com a capacidade de correr sobre os ramos das árvores e sobre a relva sem os pisar.
  • Drem, senhor de umas capacidades visuais incríveis.
  • Gwadyn Ossol, para quem a maior montanha era pouco mais do que uma planície.
  • Sol, que aguentava ficar o dia inteiro num só pé.
  • Gwadyn Odyeith, lançava fagulhas dos pés.
  • Gwevyl, que conseguia cobrir-se totalmente com os lábios quando estava triste.
  • Ychdryt Varyvdraws, com uma barba extensível.
  • Yskyrdaw e Yseudydd, rápidos como o pensamento.
  • Klust, que mesmo enterrado conseguia ouvir uma formiga a sair da sua toca a mais de 80 Km de distância.
  • Gwiawn, conseguia remover um grão de areia do olho de uma mosca com um só golpe.
  • Ol, com o dom de conseguir seguir o rasto de porcos que tinham desaparecido sete anos antes de ter nascido.

 

Por muito curiosos que todos estes invulgares poderes nos possam parecer, a associação de diversos heróis, cada um deles com capacidades especiais pouco comuns, não é uma novidade dos nossos dias. Já na Antiguidade Jasão tinha nos seus Argonautas um conjunto de figuras dispostas a seguirem-no na sua difícil aventura, e ideias como essas continuariam a repetir-se ao longo dos séculos, através de exemplos famosos como os Cavaleiros da Távola Redonda. Mas será que conhecem outros exemplos como os agora mostrados em Vingadores: Guerra do Infinito?

O que pensa a religião do conceito de evolução?

Aqui pode ser lido um pequeno artigo em inglês sobre o que diversos grupos religiosos pensam sobre o conceito de evolução; se alguém que pertença a outros grupos religiosos ler estas linhas, por favor deixem-nos também as vossas próprias opiniões sobre o tema.

 

Ainda hoje, muitas pessoas tendem a pensar que só pela referência a “Adão e Eva” os Cristãos já negam completamente a ideia de qualquer possibilidade de evolução, mas, curiosamente, já nos tempos de Filo de Alexandria e Santo Agostinho essa história era vista com alguns contornos metafóricos. O segundo destes autores até admite, de uma forma indirecta, uma potencial crença naquilo que viria a ser conhecido como “evolução”, quando, referindo-se aos Blémias (uma espécie de figuras humanas sem cabeça e com a cara no peito), escreveu “assumindo que se tratam de humanos [i.e. por oposição a animais], descendem certamente de Adão”.