Porquê estudar Letras? Plutarco dá uma resposta…

Num dos seus textos, que não vou estar a aqui a identificar, Plutarco revela uma importante razão para o estudo das Letras:

Nem todos precisamos de habilidades na caça, nas artes militares, na navegação, ou na mecânica; mas estudo e instrução são necessários para todos aqueles que comem os frutos da espaciosa terra.

Esta é uma ideia com que tenho de concordar, mas que, infelizmente, muita gente se recusa a ver. E porquê? Muito realisticamente, devo dizer que existe, cada vez mais, uma enorme falta de consideração tanto para com quem estuda como para com quem dá a instrução devida aos jovens. E mais não digo, que aqui não é espaço para isso.

Porque segue o cão a pedra?

Quando se atira, por exemplo, uma pedra a um cão, porque é que ele reage da forma que reage? Pode parecer uma pergunta um pouco estranha, mas é uma das questões, uma das mais curiosas, que Plutarco se põe nas Questões Naturais. Para lhe responder, o autor põe-se várias hipóteses:

– O cão, contrariamente ao ser humano, não tem logos, e portanto não consegue perceber quem o está a atacar. Portanto, pensado ser a única coisa que vê – uma pedra – persegue-a e procura vingar-se;

– O cão pensa que a pedra é uma besta, e então tenta capturá-la o mais depressa possível, mas quando entende que foi enganado, só aí ataca o ser humano;

– O cão apenas persegue a pedra por esta lhe estar mais próxima.

Claro que todas estas três hipóteses nos podem parecer demasiado simplistas, mas é precisamente esse o tipo de esclarecimento que também abunda nesta obra de Plutarco, um simplismo quase juvenil, quase como se fossemos fazer todas essas perguntas a uma criança, mas sem que possamos deixar de ter em conta que, em muitos dos casos, o próprio autor está, mais do que a dar a mera opinião dele, a veicular-nos a de outros autores, tais como Heraclito, Platão, Empedocles.

Como se escreviam os números grandes na Antiguidade?

Mesmo quem pouco saiba sobre a cultura dos romanos saberá, normalmente, como representar os números deles, mas isso é apenas o início de um problema significativo – afinal, como se escreviam os números grandes na Antiguidade?

“I” para 1

“IV” para 4

“X” para 10

“LXVII” para 67

“CCXXIII” para 223

“CDXL” para 440

“CMXCIX” para 999

“MMMCDXXI” para 3421

“MMMCMXCIX” para 3999

 

Mas… e como escrever 4000? 10000? Ou números ainda maiores? Pensemos, portanto, no primeiro desses exemplos. Para escrever qualquer número que incluísse um quatro, normalmente teríamos de saber como escrever o cinco e, depois, subtrair-lhe um da unidade em questão, como nos casos de IV, XL, ou CD. Porém, sem saber como se escreveria 5000 (um número raro nessa cultura, importa mencionar), torna-se impossível saber como escrever 4000.

 

Ao ler, então, um texto de Arquimedes (trata-se de O contador de Areia, em que o autor calcula a quantidade de areia que caberia num universo finito) encontrei, finalmente, a resposta. Apesar de se tratar de um texto grego, a solução encontrada pelo autor também se aplica à cultura romana. A resolução do problema passa por recorrer à multiplicação, ou seja, para escrever um número como 5000, deverá então escrever-se 5×1000, sendo que, no caso dos romanos, essa multiplicação “por mil”, em específico, parece poder ser representada com um tracinho acima do número que pretendemos multiplicar. No caso de Arquimedes, ele estabelece um valor base (creio que 10000?) e obtém os seguintes fazendo multiplicações com esse valor, ou seja, para escrever 20000 ele escreveria 2×10000, para escrever 1000000 ele escreveria 100×10000, e assim sucessivamente.

 

Agora, é óbvio que este procedimento, e toda esta ideia, tem os seus limites. Eventualmente, toda e qualquer multiplicação terá o potencial de atingir um novo limite máximo, e se na teoria de Arquimedes (que, no livro acima, aborda este tema levemente) se poderá chegar a qualquer número, por muito grande que ele seja, eventualmente chegar-se-á sempre ao problema de os representar graficamente.

Uma interpretação de parte do mito de Belerofonte

Num dos textos da Moralia, de Plutarco, é eventualmente feita uma alusão ao mito de Belerofonte, mito esse que parece ser de especial interesse para diversos mitógrafos. O autor diz então o seguinte:

 

Some unriddle the fabulous part of this story, by telling us that it was not by execrations that he brought up the sea; but the fattest part of the plain lying lower than the sea, and a certain ridge extending itself all along the shore which beat off the sea, Bellerophon broke through this, so that the sea forcibly flowed in and overwhelmed the plain; and when the men by their humble addresses obtained nothing, the women assembling about him in multitudes gained respect from him and pacified his wrath. Some tell us that the celebrated Chimaera was a mountain opposite to the sun, which caused reflections of the sun’s beams, and in summer ardent and fiery heats, which spread over the plain and withered the fruits; and Bellerophon, finding out the reason of the mischief, cut through the smoothest part of the cliff, which especially caused these reflections. But on seeing that he was treated ungratefully, his indignation was excited to take vengeance on the Lycians, but was appeased by the women. The reason which Nymphis (in the fourth book concerning Heraclea) doth assign is to me not at all fabulous; for he saith, when Bellerophon slew a certain wild boar, which destroyed the cattle and fruits in the province of the Xanthians, and received no due reward of his service, he prayed to Neptune for vengeance, and obtained that all the fields should cast forth a salt dew and be universally corrupted, the soil becoming bitter; which continued till he, condescendingly regarding the women suppliants, prayed to Neptune, and removed his wrath from them.

fonte

 

 

 

(P.S.-> Um problema recente neste espaço fez com que alguns posts e comentários se perdessem; portanto, caso alguma referência neste blog esteja cortada e notem o problema, por favor avisem-me!)

Os Mistérios de Elêusis revelados

Revelar o verdadeiro conteúdo dos Mistérios de Elêusis seria, para os autores pagãos da Antiguidade, algo impensável. Diz-se que Ésquilo quase que o fez, como que por acidente, numa das suas peças perdidas, mas salvo essa menção extraordinária quase nada se sabe sobre eles. Pelo seu contexto, depreende-se que a mitologia de Elêusis estivesse de alguma forma ligado com o mito grego do rapto de Perséfone, mas não fosse a actividade de um autor cristão e esta tratar-se-ia de uma mera hipótese. Porém, Clemente de Alexandria, na sua Exortação aos Gregos, faz o que teria sido impensável até então e revela os grandes segredos deste culto. Fá-lo nas seguintes palavras, que aqui citamos de uma tradução inglesa:

Os Mistérios de Elêusis revelados?

And the following is the token of the Eleusinian mysteries: I have fasted, I have drunk the cup; I have received from the box; having done, I put it into the basket, and out of the basket into the chest.

(…)

What are these mystic chests?—for I must expose their sacred things, and divulge things not fit for speech. Are they not sesame cakes, and pyramidal cakes, and globular and flat cakes, embossed all over, and lumps of salt, and a serpent the symbol of Dionysus Bassareus? And besides these, are they not pomegranates, and branches, and rods, and ivy leaves? And besides, round cakes and poppy seeds? And further, there are the unmentionable symbols of Themis, marjoram, a lamp, a sword, a woman’s comb, which is a euphemism and mystic expression for the muliebria.

 

Estas linhas do autor cristão do segundo século da nossa era permitem-nos compreender dois aspectos importantes dos Mistérios de Elêusis.

Primeiro, o seu processo religioso implicava um período de jejum, seguido pelo acto de beber “algo” de um copo. Depois, recebia-se “algo” de uma caixa, que era posteriomente colocado num cesto e finalmente numa arca.

Em segundo lugar, o seu ritual envolvia diferentes tipos de bolos (presume-se que cada um com a sua simbologia individual), vários símbolos do deus Dioniso, sementes de diversas frutas e até alusões metafóricas ao sexo feminino.

 

O que quer tudo isto dizer? Se as palavras do autor cristão tornam os Mistérios de Elêusis revelados, também nos explicam pouco sobre o que tudo isto simbolizava. As referências a símbolos do deus Dioniso, às sementes, às romãs e aos elementos femininos permitem teorizar uma potencial ligação a Proserpina e a Zagreu, enquanto figuras divinas ligadas a uma espécie de reencarnação após a morte, mas pouco mais. Cabe, por isso, ao leitor imaginar, talvez sonhar, como é que todos estes elementos se intersectavam para fazer parte de um ritual que tanto os Gregos, como os Romanos pagãos, nunca se atreveram a divulgar-nos…