A lenda de Santo Antão e o Sátiro

A lenda de São Antão e o Sátiro merece ser contada por cá por (alegadamente) ter tido lugar num momento muito curioso da história ocidental. A acreditar-se que esta figura santa viveu entre os séculos III e IV da nossa era, ela preserva o que poderá ter sido um dos últimos avistamentos de criaturas mitológicas da Antiguidade. Ainda mais interessante é até o facto de não só os ter visto, como até ter tentado falar com eles!

A lenda de Santo Antão e o Sátiro

Diz-se que Santo Antão, nascido no Egipto, um dia sonhou que havia num deserto local um eremita muito mais devoto do que ele. Fascinado pela ideia de encontrar alguém que teria muito para lhe ensinar, decidiu então procurá-lo, mas não conseguia descobrir onde ele estava. Foi então andando pelo deserto, até que encontrou um Centauro. Tentou falar com ele, mas os dois intervenientes não conseguiam entender a língua um do outro. Após muitas tentativas (falhadas) de diálogo, o monstrengo lá decidiu apontar com um dedo a direcção que o ermita devia seguir.
Continuando o seu caminho, Santo Antão depois encontrou um Sátiro. Inesperadamente, face aos eventos anteriores, até foram capazes de comunicar um com o outro. Assim, esta segunda figura mitológica ofereceu comida e bebida ao viajante, antes de lhe revelar que já sabia da vinda de Jesus Cristo e conhecia a sua mensagem.

 

Esta lenda é provavelmente uma das mais estranhas dos primeiros séculos do Cristianismo, até porque levanta um conjunto enorme de questões. Para apontarmos apenas algumas delas, será que Santo Antão viu mesmo estas criaturas, ou apenas teve visões no deserto? Grande parte das interpretações aponta que elas eram tentações ou demónios enviados pelo Diabo, mas como se poderá entender o facto de nenhuma das duas criaturas ter feito nada que possa ser interpretado como negativo, bem pelo contrário?
Que língua falava o Centauro, para até conseguir entender aquele que o interpelava, mas não conseguir falar com ele? Supõe-se, por mitos da Antiguidade como o dos Centauros e Lápitas, que estas criaturas falassem pelo menos o Grego…
E, visto que o Sátiro já conhecida a mensagem de Jesus Cristo e denotou claras boas intenções, será que era crente na nova religião? As versões da lenda a que tivemos acesso nada permitem concluir em relação a isso…

 

Enfim, se até são bastantes as questões que podem ser levantadas no contexto desta lenda de Santo Antão e o Sátiro, as respostas a que podemos ter acesso acabam por ser poucas ou nenhumas. Portanto, e face à inexistência de soluções concretas, esta até pode ser uma daquelas lendas muito apropriadas para se discutir em aulas de Mitologia, relembrando ainda um mito do primeiro século da nossa era, preservado nas obras de Plutarco, em que um navegador foi informado por uma voz misteriosa de que O grande deus Pã está morto… e que os autores cristãos viriam posteriormente a interpretar como um oráculo da morte dos deuses do Paganismo. Nesse seguimento, faria todo o sentido pensar que o Sátiro de toda esta lenda, cujo nome não nos chegou, até possa ter sido cristão…

O mito de Castor e Pólux, os Dióscuros

O mito de Castor e Pólux, gémeos também conhecidos colectivamente como os Dióscuros (em Grego Antigo Διόσκουροι, i.e. “filhos de Dios [i.e. Zeus]”), é um cuja popularidade parece ter variado ao longo dos séculos. Se, por um lado, já nos tempos cristãos os dois irmãos continuavam a ser venerados como protectores dos navegantes (e já lá iremos…), raras são as fontes gregas ou latinas que contam as suas aventuras de uma forma completa, talvez por se supor que toda a gente já as conhecesse. Assim, contamos aqui um breve resumo das suas aventuras.

O mito de Castor e Pólux, os Dióscuros, em duas imagens

Começando por aquele que é provavelmente o momento mais famoso de toda esta história, conta-se então que numa dada altura Zeus se apaixonou pela bela Leda. Porém, visto que ela não correspondia ao seu amor, o deus tomou a forma de um cisne e deixou que esta o acarinhasse. Passados nove meses, nasceram então do ventre de esta mulher dois ovos, cada qual com um descendente do rei do Olimpo e um outro de Tíndaro, legítimo esposo de Lenda. Assim, nasceram Helena [i.e. a de Tróia] e Pólux, ambos imortais, juntamente com Clitemnestra e Castor, estes dois puramente mortais*.

Os anos foram passando e Castor e Pólux envolveram-se em muitas aventuras – eles recuperaram Helena depois de esta ter sido raptada por Teseu, ajudaram na luta contra o Javali da Calidónia e até se juntaram aos Argonautas, apenas para mencionar brevemente aqueles que foram os seus feitos mais famosos.

Mais tarde, Pólux e Castor envolveram-se num confronto com outros dois gémeos, Idas e Linceu. O que se passou entre os quatro varia mediante as versões de todo o mito, mas elas terminam imperativamente com a morte de três das personagens – Castor, Idas e Linceu. Restando apenas Pólux, a que os Gregos costumavam chamar Polideuces, este depressa descobriu que era filho de Zeus e pediu um grande favor ao seu pai – não queria viver sem o seu irmão! Compadecido com o pedido, o deus decidiu então que os dois gémeos passariam, juntos, metade do ano no Olimpo, e a outra metade no reino de Hades, além de serem colocados entre os signos do Zodíaco.

 

Castor e Pólux tornaram-se, portanto, uma espécie de deuses menores, associados aos cavalos (uma especialidade de Castor) e, raras vezes, ao boxe (a especialidade de Pólux). Mas eram, talvez mais que tudo, os salvadores daqueles que se deparavam em tempestades no mar… o que poderá parecer estranho, dado o seu mito, até que se recorde que na viagem dos Argonautas estes dois gémeos passaram por um presságio que os associou ao amainar de uma tempestade. Assim, eles apareciam – e salvavam – aqueles que temiam o seu destino nas tempestades marítimas, mas curiosamente também surgiram em muitos campos de batalha dos Gregos e Romanos, sempre acompanhados pelos seus cavalos, inspirando os combatentes a feitos grandiosos.

 

Se, hoje, já quase ninguém pensa em Castor e Pólux, eles ainda eram venerados no tempo do Papa Gelásio I, em finais do século V. Sabemos disso porque o papa em questão se queixou, numa das suas epístolas, dessa prática supersticiosa ainda continuar… uma que, hoje, foi substituída por muitas outras de função semelhante, de que a oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas – entre outras mais vocacionadas para as lides marítimas – será provavelmente a mais famosa no nosso país. Passaram-se os séculos, mas talvez as coisas não tenham mudado assim tanto como por vezes nos fazem crer, com esta santa a ocupar o lugar de antigos protectores daqueles que passavam por tempestades…

 

 

*- Toda esta ideia pode parecer estranha, mas recorde-se que nos tempos da Antiguidade, e até na Idade Média, se acreditava que uma mulher podia gerar ao mesmo tempo filhos de homens diferentes, i.e. se tivesse cinco filhos, pensava-se que até poderia ter tido relações com esse mesmo número de homens. O exemplo mais famoso dessa crença pode ser encontrado no mito grego de Héracles e Íficles, nascidos respectivamente de uma relação sexual de Alcmena com Zeus e Anfitrião.

Quem deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

É provável que o grande incêndio de Roma, que teve lugar entre 18 e 23 de Julho do ano 64 d.C., tenha sido um dos mais famosos da história da humanidade. Mas, no seguimento de uma publicação anterior sobre fake news, quem é que deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

Quem deitou fogo a Roma?

De um modo muito geral, a maior parte das fontes literárias que nos chegaram afirmam que o culpado de deitar fogo a Roma foi o Imperador Nero, mas há que considerar que essa informação se parece dever, maioritariamente, a um rumor que nasceu alguns anos mais tarde. Visto que este imperador queria construir um novo palácio para si, mas não havia local para tal na cidade de Roma, surgiu então a ideia de que o fogo tinha sido ordenado por ele para propiciar essa existência de um local vago. Infelizmente, não temos qualquer forma de saber até que ponto isto será verdade, i.e. se o incêndio foi uma feliz(?) coincidência, ou causado de forma deliberada e com um objectivo muito particular.

 

Uma outra opinião diz que foram os Cristãos que deitaram fogo à cidade, e que esse primeiro acto levou à sua perseguição pelos Romanos. Hoje, isto até poderá parecer-nos um tanto ou quanto estranho, até que se pense em toda a situação no contexto histórico – nessa altura quase nada se sabia sobre essa nova seita religiosa, excepto que se reuniam ilegalmente e a altas horas noite. Depois, nos dias de hoje sabemos até que algumas seitas cristãs da época acreditavam que o novo fim do mundo – por contraste com o anterior, o da cheia de Deucalião e/ou Noé – seria pelo fogo, ou seja, teria lugar quando todo o mundo fosse consumido por um enorme incêndio.

 

Se, por um lado, sabemos que Nero não deitou fogo a Roma por si mesmo e na primeira pessoa – as fontes tendem a dar-lhe uma autoria apenas moral – a segunda possibilidade levanta uma questão muito significativa – se os Cristãos se andavam a reunir durante a noite, e alguns deles até tinham essa ideia de um fim do mundo causado pelo fogo, será que algum deles, por simples acidente ou por alguma ideia mais amalucada, acabou por causar o famoso incêndio? Sabemos que a história é escrita pelos vencedores, e por isso ela tem de isentar os Cristãos de qualquer culpa, mas isso também implicava encontrar alguém a quem culpar – e quem melhor do que Nero, esse seu primeiro perseguidor, para ocupar o lugar, reduzindo-o a um opositor teatral?

Efectivamente, não sabemos quem deitou fogo a Roma, Nero ou os Cristãos, naquele fatídico ano 64 d.C. As fontes literárias que ainda temos nada nos permitem concluir sobre o tema, mas a termos mesmo de eleger um culpado, é mais provável que tenham sido os Cristãos do que este famoso imperador. Não podemos afirmar que o fizeram de uma forma deliberada (o que até é possível, dadas algumas teologias da época, como já foi apontado acima…), mas o que é muito difícil de negar é o facto de eles se andarem a reunir durante a noite; como tal, tinham de levar alguma espécie de fonte de luz consigo, o que poderá ter originado todo este famoso incêndio. Depois, juntando-se os rumores – ou fake news, se preferirem – a toda a equação, criou-se a famosa versão de que eles foram perseguidos não por uma ilegalidade que faziam (e que, de forma até estranha, ninguém parece negar), mas somente para mascarar o “verdadeiro” culpado.

Será que isto foi o que realmente aconteceu? Face à falta de informação mais fidedigna e imparcial da época em questão, essa é uma resposta que temos de deixar aos leitores…

O mito de Perifante

Se Perifante, a figura por detrás deste pequeno mito, certamente não é uma das figuras mais conhecidas da Mitologia dos Gregos e dos Romanos, o seu papel é curioso, na medida em que nos explica o porquê da águia ser o animal associado ao deus Júpiter.

Júpiter, interveniente deste mito de Perifante

Diz-se então que Perifante foi um rei de Atenas que venerava especialmente o deus Apolo e que era muito bondoso para com o seu povo. Assim, face à sua bondade os habitantes da região começaram a venerá-lo e decidiram construir-lhe um templo, venerando-o como se o próprio deus Júpiter se tratasse. Como a história de Salmoneu já nos ensinou, naturalmente que o deus-monarca não ia levar isto muito bem, e depressa pensou em repetir a punição desse outro mito. Contudo, Apolo, vendo o seu grande venerador em tanto perigo, interviu em toda a situação e pediu ao seu companheiro divino para o poupar. Então, em vez de atingir o monarca com o seu famoso raio, Júpiter transformou-o numa águia e começou a usá-lo em seu serviço…

 

Será mesmo esta a chamada origin story da águia do deus? Ovídio parecia conhecer o mito de uma transformação de Perifante e sua esposa numa criatura alada (não necessariamente uma águia), mas ela só nos é contada nesta forma mais completa por Antonino Liberal, suscitando a possibilidade de que seja um mito tardio, originalmente desconhecido entre a maioria dos Gregos. Por isso, talvez seja mais correcto chamar-lhe uma possível origem do pássaro associado ao famoso deus, sem que se possa ter uma certeza absoluta de que o ἀετός Διός original já era mesmo uma metamorfose associada a este rei de Atenas, e não – por exemplo – uma transformação do próprio deus.

O mito de Cláudia Quinta

O mito de Cláudia Quinta parece ter sido muito famoso entre os Romanos, possivelmente até por se tratar de uma história que lhes é exclusiva, ou seja, que eles não herdaram dos Gregos, mas que nasceu e se desenvolveu puramente na sua própria cultura. É, então, um mito romano, a que fazem alusões diversos autores latinos da Antiguidade, que até pareciam conhecê-lo bastante bem. Contudo, está bastante esquecido nos dias de hoje, e por isso decidimos relembrá-lo por cá.

O mito de Cláudia Quinta

A sua história, que se acreditava que tomou lugar em finais do século III a.C., na sua forma mais famosa diz-nos então que Cláudia Quinta era uma vestal, uma sacerdotisa da deusa Vesta, que por definição tinha de se manter sempre pura e virgem. Contudo, surgiram boatos de que esta jovem tinha violado os seus votos de castidade, envolvendo-se com um homem que estava apaixonado por ela, algo que a confirmar-se seria penalizado com a morte.

Felizmente, ou por causa divina, nessa mesma altura estava a ser levada para Roma uma pedra que era sagrada à deusa Cibele. O barco que a carregava encalhou nas lamas do Rio Tibre. Depressa surgiu uma profecia, segundo a qual a imagem da deusa apenas podia ser resgatada com o auxílio de uma virgem. Então, se foram muitos os homens e mulheres que tentaram e falharam essa tarefa, Cláudia Quinta aproximou-se do local e, como se se tratasse de uma tarefa extremamente simples, conseguiu puxar o barco, pondo-o novamente a navegar no rio e permitindo que a pedra do culto de Cibele fosse retirada do local e levada para um templo da deusa. Naturalmente que face a este acto milagroso a jovem foi muito rapidamente isentada das culpas que as más línguas lhe atribuíam.

Mas o seu destino final foi ainda melhor que esta mera isenção de culpas – esta jovem ficou até conhecida como uma digna representante do espírito de Roma e do carácter que se esperava de qualquer mulher romana, aquilo a que até poderíamos chamar, com enorme justiça, uma verdadeira femina castissima!

 

Este carácter exemplar, da existência de diversas histórias puramente romanas que demonstravam o que se esperava dos seus cidadãos, não é nada de novo – bastará recordar-se o famoso exemplo de Eneias com o próprio pai às costas – mas é um elemento que caracteriza muitos dos mitos dos Romanos, e que permite distingui-los com relativa facilidade de todos aqueles que eles herdaram dos Gregos. Por isso, Cláudia Quinta foi uma figura romana, mas, bem mais que isso, era também um exemplo daquilo que se esperava de todas as mulheres de Roma…