O mito de Cronos (e Chronos)

Na Mitologia Grega existem figuras que nos podem gerar confusão, e o mito de Cronos (e Chronos) é um deles, pela óbvia semelhança de nomes. O caso não é único – já cá apontámos um exemplo semelhante, o do mito de Tétis – mas a mais famosa de estas duas figuras chamava-se Κρόνος, enquanto que a outra tinha o nome de Χρόνος. A semelhança é notável, só muda a primeira letra grega, e naturalmente que isso não poderia deixar de causar alguma confusão. Portanto, quem é cada uma de estas duas figuras?

O mito de Cronos (e Chronos), e o Mr. Burns

Cronos, a mais famosa das duas personagens, era um dos titãs. Resumidamente, foi ele que destronou Urano, tendo cortado com uma foice os genitais do próprio pai (sim, este é um daqueles mitos gregos mais chocantes e grotescos), acção de que nasceu a deusa Afrodite. Depois, ascendendo ao trono do Olimpo, reinou com um punho de ferro. Mas tinha medo de ser destronado por um filho, como ele próprio tinha feito ao seu pai, e então quando lhe nasciam filhos e filhas, ele engolia-os. Fê-lo repetidas vezes, até que lá nasceu Zeus, cuja mãe substituiu por uma pedra. O futuro deus da trovoada foi então amamentado e criado por uma cabra, e mais tarde logo e destronou este Cronos, com pelo menos uma fonte literária a nos dizer que também ele castrou aquele que o gerou, antes de ascender ao trono do Olimpo. O vencido, esse, fugiu para Itália, onde veio a conhecer o deus Jano, entre outras aventuras muito pouco conhecidas.

O mito de Cronos (e Chronos), em mosaico

Até aqui tudo bem, mas afinal… quem foi essa tal outra figura divina, Chronos? Se até lhe existem associados alguns mitos bastante obscuros, de que (quase) ninguém aqui quererá ouvir falar, o seu papel nos mitos dos Gregos e dos Romanos pode ser resumido como o de uma representação metafórica do tempo, enquanto conceito, o que era relativamente comum na altura – bastará que se recorde, por exemplo, o mito de Nyx, deusa grega da noite, para ver um outro caso semelhante, em que um conceito como que obtém uma antropomorfização.

 

Agora, a ausência de mitos concretos e famosos, em relação a este segundo caso, poderá ter sido a principal razão pela qual o mito de Cronos e Chronos se começaram a confundir. Há quem diga que o primeiro também é o Tempo, há quem diga que são duas figuras completamente distintas, mas o que sabemos, sem margem para muitas dúvidas, é que originalmente, nos mitos mais antigos a que ainda temos acesso, eles eram duas figuras distintas, tal como as apresentámos aqui. E, por hoje, basta-nos isso.

O mito de Gello

Se existem muitas criaturas estranhas na Mitologia Grega e Romana, desde a Lâmia e Momo até figuras como a Medusa, já o mito de Gello transporta-nos para uma intemporalidade muito curiosa, por se tratar de uma história que, com uma singela alteração de nome, continua a ser repetida em diversas culturas por todo o mundo até mesmo nos nossos dias de hoje – relembre-se, nesse sentido, a Llorona mexicana, entre incontáveis outras possibilidades por todo o mundo!

O mito de Gello

Sobre este mito de Gello, conta-se então que ela era originalmente uma menina muito jovem. Depois adoeceu, passou por uma doença muito grave, acabando até por falecer nessa sua tenra idade. Tinha sonhado amado alguém, casar, ter os seus próprios filhos, mas… fruta da doença, do seu falecimento, nunca pôde acabar por concretizar esses seus desejos. E assim, enraivecida pela tirania que o Destino lhe tinha imposto, após a morte decidiu continuar a assombrar este mundo, assustando a matando não só as outras crianças, mas também causando muitas outras mortes como a sua.

 

Esta história de Gello, que originalmente era contada para assustar as crianças, numa espécie de “Papão” dos tempos da Antiguidade, não pode deixar de nos relembrar o famoso caso de Lilith, mas também muitos outros que existem nas mais diversas culturas por todo o mundo – normalmente, quando uma criança falece, esse evento horrendo é atribuído, misticamente, ou a uma mãe invejosa, ou uma criança que, como ela, também passou pela mesma situação. Fazem-se amuletos, rezas, e outras coisas que tais, na esperança de que isso evite situações como estas, e mesmo nos nossos dias continuam alguns rituais, mais ou menos religiosos, que podem ser associados ao nascimento e cuidado das crianças em tenra idade, e que em muitos casos tiveram origem em histórias como esta…

O mito de Ônfale

Apresentar aqui o mito de Ônfale implica, antes demais, fazer uma pequena viagem no tempo, até a uma publicação que cá fizemos sobre os Trabalhos de Hércules. Na altura apresentámos uma imagem com as doze façanhas do heróis, que reproduzimos novamente abaixo:

O mito de Hércules e Ônfale, ao centro

Quem tiver prestado atenção poderá ter notado que apesar de nos termos referido aos doze trabalhos do herói, na verdade a imagem tem representadas treze façanhas distintas, com uma cena que não pertence às que aqui recontámos antes ao seu centro. Se em cada um dos quadrados o herói que os Gregos conheciam como Héracles está do lado direito, faz sentido que também aqui ele esteja desse lado, mas… porque está ele com um vestido feminino? E porque está, sentada num trono, uma figura feminina com a maça do herói e a pele do Leão da Nemeia às costas?

 

Podemos agora explicar que esse episódio central do mosaico se refere ao mito de Ônfale. Conta-nos que numa dada altura das suas aventuras o maior dos heróis gregos enloqueceu e matou um dos seus conheiros. Consumido pelo arrependimento, foi ao Oráculo de Delfos em busca de uma solução, e o deus Apolo ordenou-lhe que fosse vendido para escravo durante 10 anos, devendo dar o dinheiro resultante dessa transacção comercial ao pai do falecido – consta que ele recusou o vil metal, mas que os irmãos do jovem o aceitaram de muito bom grado.

As ordens do deus de Delfos foram então cumpridas. Hércules foi vendido para escravo de Ônfale, rainha da Lídia, e durante 10 longos anos fez o que esta lhe ordenava. Infelizmente já não nos chegaram todas as aventuras que tomaram lugar nesse período de tempo, mas sabemos que a rainha teve vários filhos do herói, e as fontes existentes referem um pormenor muito curioso – ela fez questão de vestir as famosas roupas do herói, enquanto que o forçou a usar roupas femininas e a realizar tarefas características do sexo oposto, como fiar ou tomar conta de crianças, levando-o até quase a ser violado pelo deus Pã

 

O que podemos acrescentar ao relato de todo este mito? É difícil ter muitas certezas, já que ele não nos chegou numa forma mais completa, mas é provável que fosse composto por um conjunto de histórias em que os vários poetas e autores de comédias gozavam com os papéis que os dois géneros tinham na cultura grega de então. Será que, por exemplo, a rainha Ônfale vencia algum monstro, inspirada pelas vestes do herói? Será que este era, de uma forma satírica, criticado por ser incapaz de fazer (bem) as tarefas femininas, mostrando-as como mais difíceis que as muitas tarefas que ele tinha feito no passado? Ou será que exaltavam, no seu geral, o sexo feminino sobre o masculino? Já não sabemos, mas por si só a idea-base por detrás de todo este mito é bastante divertida, e certamente que existiram produções literárias que tomaram partido de toda esta curiosa oportunidade mitológica.

Qual a diferença entre fauno e sátiro?

O fauno e o sátiro contam-se entre as muitas criaturas mitológicas da Antiguidade que chegaram aos nossos dias, mas na verdade qual é a diferença entre eles? Ou seja, se reconhecer criaturas como os centauros é relativamente fácil mesmo nos nossos dias, i.e. eles são seres metade homem e metade cavalo, que características individuais podemos associar aos faunos e aos sátiros? Podemos tentar explicá-lo, mas para isso temos de começar por apresentar as duas espécies de criaturas individualmente:

Faunos, Sátiros, e o deus Dioniso

Um sátiro, ou σάτυρος, era uma criatura da Mitologia Grega que acompanhava frequentemente o deus Dioniso. Tinha um corpo que era um misto de… bem, a sua representação foi sendo alterada e evoluiu ao longo dos séculos, mas tinha quase sempre características conjuntas de ser humano, cavalo e bode. Contudo, a forma mais fácil de o identificar é através de um orgão sexual erecto, e de potenciais companheiros, já que costuma estar com outros seres da mesma espécie e/ou o deus do vinho por perto. Na imagem acima, um destes seres até pode ser visto a partilhar uma bebida com o seu mentor divino.

Nesse seguimento, se os sátiros são uma espécie animal (ou semi-humana?), alguns deles até tinham nomes e identidades específicas. Entre eles podemos encontrar o deus Pã, Sileno e Marsias; o primeiro teve muitas aventuras (um exemplo pode ser visto aqui), enquanto que o segundo nos é particularmente famoso pela sua presença num mito do Rei Midas.

Faunos, Sátiros, e o deus Dioniso

Agora, um fauno (ou φαῦνος, faunus em Latim), na Mitologia Romana, tinha quase sempre características conjuntas de ser humano, cavalo e bode. E sim, é o mesmo que acabámos de escrever em relação ao aspecto físico da criatura anterior, mas o que parece ter acontecido é que esta criatura parece ter perdido (ou pelo menos amenizado), entre os Romanos a sua famosa conotação sexual. Mais do que um amante do vinho, ou um violador ocasional, parece ter-se tornado um doce habitante das florestas.

 

E agora, apresentados fauno e sátiro, começa o verdadeiro problema. Se o que dissemos acima foi uma simplificação enorme da realidade, a grande dificuldade é que numa dada altura estas criaturas se foram confundindo umas com as outras de uma forma muito complicada. Uns, por exemplo, diziam que o deus Pã tinha o nome de Fauno entre os Romanos, mas outros diziam que o seu nome latino era Silvano. Uns falam de pãs, outros de sátiros, para referirem as mesmas criaturas, quando são apresentadas em grupo. Até existem, aqui e ali, breves referências a uma Fauna; presume-se que não tivesse um corpo animalesco como os anteriores, mas ela sabia o futuro e poderá ter sido uma das figuras silvestres que, a longo prazo, levou à origem das fadas.

 

Assim sendo, qual a diferença entre fauno e sátiro? No seu geral são quase a mesma criatura, mas há que prestar especial atenção à forma como são evocados e designados. Se só existe um deus Pã, a referência a “pãs” poderá indicar não uma multiplicidade de figuras do próprio deus, mas de criaturas com uma forma igual à sua, i.e. pãs = sátiros e nada mais. A referência a uma Casa do Fauno indica especificamente o deus romano (que até poderá ser o mesmo Pã dos Gregos…), mas falar-se da casa de um fauno já se poderá referir ao local de habitação de sátiros em geral, mais do que a um deus em concreto. Nas imagens acima, diríamos até que a primeira é de um sátiro, e a segunda de um fauno, somente pela ausência de sexualidade e presença de um motivo campestre nessa última. Vejamos um exemplo adicional:

Está aqui um fauno ou um sátiro?

Neste mosaico espanhol pode ser visto o velho Sileno num burro, uma seguidora feminina de Baco do lado direito (não é uma deusa, tem uma pandeireta na mão), e muitos festejos com vinho à mistura… mas quem está no canto inferior esquerdo? Presume-se que seja Fauno/Silvano, essencialmente devido à ausência um orgão sexual exposto e volumoso, que tanto caracterizava os sátiros nas representações gregas!

 

Em suma, sátiros e faunos são quase a mesma criatura – um espécie de homem com cornos, pernas e pés de bode, a que se junta muitas vezes uma cauda de cavalo – mas os primeiros tinham, na cultura grega, uma grande sexualidade inata que nem sempre está presente nos segundos. Em qualquer dos dois casos não parecem ter existido “sátiras” ou “faunas”, criaturas femininas da sua mesma espécie, o que explica o porquê de estas criaturas tentarem frequentemente violar ninfas, mulheres, e numa dada altura até o próprio Hércules num vestido

O mito dos Neades

Apesar de breve, o mito dos Neades merece ser recordado por cá devido ao seu estatuto muito único na Antiguidade Clássica. Tudo o que sabemos sobre eles até pode ser resumido num único parágrafo, mas ficaria provavemente entre os mais intrigantes de todas as obras que nos chegaram escritas em Grego Antigo.

O mito dos Neades, na figura do lado esquerdo?

Admita-se desde já, não sabemos muito sobre estes Neades, mas o pouco que sabemos – numa citação de um autor do terceiro século Antes de Cristo – diz-nos que existiram na ilha de Samos animais gigantes, muito perigosos, cujo rugido era tão poderoso que até conseguia abrir fendas do chão. Depois, se no século II da nossa era eles já não existiam no local, os seus esqueletos ainda podiam ser encontrados por toda a ilha. Nada mais nos é dito sobre estas estranhas criaturas.

 

Assim, seriam os Neades dinossauros, ou alguma outra espécie animal entretanto desaparecida? Não sabemos, nem temos qualquer forma real de o saber, mas um caso muitíssimo circunstancial poderá indicar que sim. Mas se os Gregos até poderão ter encontrado esqueletos debaixo da terra, inferindo assim a existência destas figuras, como descobriram algo sobre o respectivo rugido? Será que o supuseram somente devido ao tamanho das criaturas encontradas? É quase certo que nunca o venhamos a saber, a grande resposta a perguntas como essas, mas toda esta história merece ser recontada por apresentar provavelmente a prova mais directa de que os Gregos e Romanos tinham encontrado esqueletos de criaturas extintas e até lhes atribuíam significados próprios.