A origem da Medusa?

Se existem muitas criaturas estranhas na Mitologia Grega, é igualmente verdade que poucas são tão famosas como a Medusa. Já cá falámos dela diversas vezes, e até contámos o seu mito grego, mas uma pergunta poderá persistir – qual a origem da Medusa? Como é que se passou acreditar numa criatura que é tão única no panorama dos mitos gregos e latinos?

A origem da Medusa, a Naga?

A solução para essa difícil questão da origem da Medusa poderá passar por um confronto com os mitos da Índia e do Oriente, em que criaturas muito semelhantes, chamadas Nagas ou Najas, populam os mais diversos mitos. Elas viviam debaixo da terra, guardavam tesouros e – certamente o mais importante para esta publicação de hoje – adoptavam várias formas físicas. Se muitas vezes eram meras serpentes, tal como as conhecemos dos jardins zoológicos, podiam igualmente adoptar uma forma antropomórfica, com rabo serpentino, cabelos feitos de serpentes e tronco feminino (presume-se que este último elemento seja para melhor seduzirem o sexo masculino). Curiosamente, não parecem ter existido “Najos”, formas masculinas da mesma criatura…

 

A presença comum de criaturas como estas nos mitos orientais podem explicar a presença da forma invulgar e incomum da Medusa nos mitos ocidentais, mas será que existe uma ligação real entre estas duas criaturas mitológicas, ou se trata tudo de uma mera coincidência? Tudo indicaria o segundo caminho, até que encontrámos um mito indiano de uma jovem chamada Sulocana. Segundo a sua história, enquanto ela fazia amor com o marido num altar viu um horrendo espírito da natureza a olhar para eles; gozando com essa figura, fazendo contrastar a fealdade de aquele que a via com a sua própria beleza natural, foi então vítima de uma maldição, passando a envenenar, mortalmente, todos aqueles para quem olhava. E só um mortal sobreviveu a ela…

Perseu e a Medusa

Não é claro que Sulocana também tenha sofrido uma transformação física, potencialmente até na forma de uma Naja, mas as semelhanças com um dos mitos que envolve esta figura mitológica grega é notável, com um espírito da natureza a tomar aqui o lugar do deus dos mares. Considerar o mito que bem conhecemos nesta sequência explicaria o porquê de, no caso de Perseu e da Medusa, o herói ter de olhar para um escudo – ele não pretendia evitar olhar para o monstro, mas sim que este, ao acordar do seu sono, não olhasse directamente para ele; o poder de transformar em pedra não se devia à fealdade da criatura mitológica, como pensamos demasiadas vezes, mas ao poder mortal do seu olhar directo.

Ao mesmo tempo, recorde-se que se as Górgones têm um corpo repleto de serpentes, essa sua forma serpentina não tem qualquer significado ou função real no mito. Mesmo quando a figura mitológica é representada com asas, o que acontece em muitos vasos, também elas não têm qualquer presença na própria trama, denotando um certo afastamento, difícil de explicar, entre a trama mitológica e a iconográfica, como se a razão por detrás de toda a representação se tivesse perdido ao longo dos séculos.

 

Face a tudo isto, é provável que a origem da Medusa nos deva remeter para os mitos da Índia, ou do Oriente na sua forma mais geral, tendo resultado de uma confluência antiga entre diversas histórias originalmente distintas – pelo menos uma que servia para dar uma forma horrendo à criatura, e uma segunda em que entrava a grande capacidade mortal de um olhar amaldiçoado. Não conseguimos provar com exatidão quando é que essa associação teve lugar – talvez até através de trocas comerciais e culturais muito anteriores à nossa era – mas não temos razões reais para duvidar que possa ter acontecido…

O mito de Pítis (e o pinheiro)

O mito de Pítis vem-nos da Mitologia Grega. Podia ser apenas mais uma de tantas histórias de metamorfoses, mas o que ele tem de especial é o facto de nos terem chegado duas versões distintas da sua pequena aventura, com mensagens significativamente contraditórias.

O mito de Pítis

Na primeira versão do mito de Pítis, esta ninfa era disputada por dois deuses, Pã e Bóreas (i.e. o vento do norte). Sempre mostrou especial paixão pelo primeiro, e então o segundo, num dia em que se sentiu mais invejoso da felicidade alheia, soprou-a com muita força da beira de um penhasco, levando-a a cair e conduzindo-a à sua morte. Os outros deuses, seja com pena de Pã ou da sua falecida amada, depois transformaram-na num Pinheiro, que ainda hoje se movimenta ao sabor do vento, como que a tentar fugir daquele que um dia a martirizou.

 

 

Numa outra versão do mesmo mito, Pítis era amada pelo deus Pã mas não sentia nada por ele. Um dia, enquanto este deus de estranha figura a perseguia, quase que a conseguiu apanhar, pretendendo violá-la. No entanto, os deuses, com pena de toda a situação que estava prestes a gerar-se, transformaram-na em Pinheiro. A sequência não pode deixar de nos recordar as muitas Metamorfoses de Ovídio.

 

 

É muitíssimo curioso, este duplo papel que o deus Pã tem em duas versões do mito de Pítis. Mesmo após várias horas de discussão, demos por nós a constatar que são muito raros os mitos em que situações como estas têm lugar, em que duas figuras, mediante a versão, sejam unidas ou pelo amor, ou pelo ódio. Não obstante esse problema, as razões por detrás de todo este mito são fáceis de entender – o deus caprino era frequentemente representado com uma pinha, o que se procura explicar aqui fazendo dela um símbolo de uma sua antiga amada, como também acontece em muitos outros mitos – e.g. o de Apolo e Dafne. Assim, fosse Pã amado (ou não) por esta ninfa, não pôde deixar de se lembrar dela após o final de toda a história, e assim fez da pinha o seu símbolo divino pessoal.

O mito do Dragão da Cólquida

O mito do Dragão da Cólquida está quase sempre associado ao de Jasão e os Argonautas, porque é uma figura cujo grande momento no palco da Mitologia Grega é o do confronto com esse herói. Mas ele também tem uma história muito pouco conhecida associada a ele, como veremos abaixo.

Dragão da Cólquida

Sabemos que já terão existido diversas versões do confronto de Jasão com o Dragão da Cólquida (ver este exemplo de que já cá falámos no passado), mas normalmente esta criatura mitológica tinha uma tarefa muito simples, a de guardar o Tosão de Ouro contra potenciais atacantes que o quisessem roubar. Com a ajuda de Medeia ou de Orfeu, o dragão é adormecido ou morto com uma espada, possibilitando que os Argonautas levassem o tesouro que ele guardava.

Normalmente o mito termina por aqui, mas Tzetzes adiciona-lhe um episódio adicional, hoje já muito pouco conhecido. Recorrendo a historiadores hoje perdidos, ele acrescenta que o Dragão da Cólquida eventualmente acordou do seu sono e, olhando para a árvore próxima, notou a falta do Tosão de Ouro. Decidiu então procurá-lo, fazendo o seu caminho pelos mais diversos locais, até que encontrou Diomedes, herói de Tróia, que tinha em sua posse o escudo dourado de Glauco. Vendo o ouro desse instrumento guerreiro, o pobre dragão – e como não sentir pena dele?! – pensou então tratar-se do Tosão de Ouro, que já tanto tinha procurado. Contudo, o herói grego lutou contra ele, derrotou-o e matou-o finalmente, terminando toda esta sua viagem mitológica.

 

Nesta sua forma mais completa, o mito do Dragão da Cólquida mostra-nos uma face muito humana, mas também muito rara, de um monstro mitológico da Grécia Antiga. Foi-lhe dado um trabalho, um objectivo, que ele acaba por prosseguir até ao final da sua vida – tenha ele vindo das mãos de Jasão, de Diomedes, ou de alguma outra figura entretanto esquecida. E, por estranho que pareça, como não sentir aqui uma certa pena com esse destino final, da morte de uma figura mitológica que apenas estava a fazer o que lhe foi designado pelos deuses?

“Omnia vincit amor”, origem e significado

Omnia vincit amor é muito provavelmente uma das expressões latinas mais famosas dos nossos dias, até porque ainda hoje continua a ser muito utilizada nessa sua forma original, em Latim. Em tradução, pode significar algo como “o amor vence tudo” ou “Tudo o amor conquista”. Até aqui não há nenhuma dificuldade, mas qual a origem de toda esta famosa frase e ideia?

Omnia vincit amor na arte

Sem muita dificuldade, qualquer pessoa pode fazer uma pesquisa na internet e descobrir que esta frase latina, que também pode tomar a forma de amor vincit omnia, já que a ordem das palavras no Latim é irrelevante – nos chegou através de uma das éclogas pastoris de Virgílio. Quem a for ler poderá aperceber-se da presença do deus Pã nesses versos, cujo nome em grego (Πάν) poderá designar tanto esse deus como significar “tudo”, como um estranho mito associado a Penélope, esposa de Ulisses, nos deixa compreender.

Nesse sentido, existem vários exemplos na arte grega e romana da Antiguidade em que figuras relativas ao amor, como os Erotes, são associadas directamente ao deus Pã. Entre elas contam-se uns vasos (que, infelizmente, não conseguimos obter autorização gratuita para reproduzir aqui), em que este deus é representado a fugir dessas figuras, que o perseguem com chicotes, procurando castigá-lo de alguma forma. Porque o fariam? Não nos parece ter chegado nenhum mito que o explique explicitamente, mas poderá dever-se a uma oposição metafórica entre o desejo puramente sexual de Pã e uma espécie de amor que hoje se pensa ser mais elevado, de se desejar alguém por tudo aquilo que essa pessoa é.

 

Nesse seguimento, a ideia presente em Omnia vincit amor poderá ter vindo da cultura grega da Antiguidade, de representações e ideias em que, originalmente, o deus Pã era vencido pelo amor, numa ideia que no original poderia dizer – ou mesmo representar, iconograficamente – algo como “o amor [até] vence Pã [ou Tudo]”, jogando-se com um duplo sentido do nome do deus que não é possível reproduzir em Latim ou Português. Não sabemos se Virgílio, na sua écloga já referida acima, procurou brincar de uma forma deliberada com toda esta ideia, ou se apenas fez perder na tradução algo do sentido original, mas é provável que até o tenha feito intencionalmente, já que nos seus versos ele une a sua frase latina com o próprio deus da Arcádia, usando até aí o nome grego Pan em vez de latino Silvanus ou Faunus, que por vezes designa a mesma divindade entre os Romanos.

Se tudo isto seria mesmo intencional, ou não… fica essa questão para quem ler estas linhas!

O mito de Rómulo e Remo

A lenda ou mito de Rómulo e Remo, que une os dois gémeos a uma loba de nome Luperca, é provavelmente um dos mais conhecidos de toda a Mitologia Romana, não existindo hoje qualquer prova completamente fidedigna de que já existisse nesta forma actual nos mitos gregos. Agora, se esta pequena história tem diversas versões, até porque foi sendo significativamente alterada ao longo dos séculos, iremos contar aqui a sua versão mais comum:

O mito de Rómulo e Remo, e a loba

Conta-nos a lenda que Rómulo e Remo nasceram da violação da vestal Reia Sílvia por Marte, deus da guerra. Seriam então herdeiros de tudo aquilo que se viria a tornar o Império Romano, não fosse o facto de um rei vingativo, Amúlio, querer o trono para si mesmo; para o conseguir, prendeu esta sua sobrinha e abandonou os recém-nascidos no Tibre, como que condenando-os à morte. E o seu plano funesto teria resultado, mas os gémeos subsistiram ao serem alimentados por uma loba (a tal Luperca), um pica-pau (possivelmente chamado Pico), e/ou outros animais, mediante a versão de toda a história. Algum tempo depois foram encontrados na floresta e levados por um pastor, Fáustulo, que os criou com o auxílio da sua esposa, Aca Larência.

Os gémeos Rómulo e Remo foram crescendo, até que lá derrotam Amúlio num confronto, salvam Reia Sílvia, e decidem criar uma nova cidade no mesmo local em que um dia foram abandonados. Tudo estaria bem, por esta altura, mas surgiu então um conflito sobre que nome dar a essa cidade – iria ela ser Roma ou Rémula? O nome foi decidido com recurso a prodígios divinos, mas o incidente levou a um conjunto de circunstâncias que terminou com a morte de Remo… depois, Rómulo ainda viveu mais uns anos, e passou por muitas outras aventuras (a mais famosa das quais será provavelmente o Rapto das Sabinas), antes de sofrer um desaparecimento misterioso de que já cá falámos antes, tendo-se potencialmente tornado o deus romano Quirino!

 

Sobre este breve relato, há que explicar um problema muito significativo – a grande dificuldade de resumir o mito de Rómulo e Remo passa, como já se deu a entender acima, pelo facto de toda a sua história se encontrar repleta de múltiplas versões, que vão sofrendo alterações ao longo dos séculos. Para dar apenas três exemplos, paradoxógrafos como Palaefato chegam a dizer que Luperca, que se supunha ter sido uma loba real, era na verdade uma prostituta que deu de mamar aos dois gémeos; outros dizem que Roma e Rémula foram ambas fundadas pelos heróis, mas apenas a primeira sobreviveu ao peso dos séculos; e Rómulo tem um papel muito diverso na morte do seu irmão Remo, desde versões que o culpam por completo até algumas que o isentam de qualquer acto que possa ser visto como menos positivo.

Ao mesmo tempo, muitas das figuras que entram neste mito acabaram por ganhar uma grande importância entre os Romanos. Rómulo tornou-se o deus Quirino, como já referimos, mas Remo ainda era celebrado no festival da Remúria/Lemúria; Reia Sílvia foi tornada divina em algumas versões; a loba era celebrada durante a Lupercália; Aca Larência foi tornada divina e era celebrada na Larentária; e assim por diante, num padrão tipicamente romano que foi seguido ao longo de séculos, em que figuras supostamente históricas do passado de Roma foram sendo divinizadas após as suas mortes.

 

Para terminar as linhas de hoje, talvez seja justo concluir que mais do que um só mito de Rómulo e Remo, existem é várias versões de uma história semelhante, que os diversos autores vão adaptando e alterando em virtude das suas necessidades individuais. Assim se explica que apenas alguns digam que Rómulo e Quirino são a mesma figura, que Luperca não era uma loba real, ou que cidades que existiram em outros tempos agora não fossem mais do que meras ruínas cujos nomes já há muito tinham sido esquecidos…